Hospital de Penafiel no limite da urgência: "É o salve-se quem puder"
Sobrelotação crónica e falta de camas definem o dia a dia de um hospital ao serviço de meio milhão de pessoas
Reportagem de Beatriz Ferreira e Tânia Costa
Há sons que não se esgotam no espaço nem no tempo. O abrir e fechar contínuo das portas automáticas e o deslizar apressado das macas pelos corredores repetem-se sem cessar, formando um fundo sonoro que acompanha a vida de milhares de portugueses. O Hospital Padre Américo, de Penafiel, é o reflexo direto dessa realidade e um retrato claro da pressão sentida no Serviço Nacional de Saúde em territórios de grande densidade populacional. Estes ruídos não anunciam apenas movimento, mas ainda a intensidade de uma estrutura hospitalar permanentemente em esforço.
“Para o rigor da sua análise, é crucial esclarecer que a pressão sobre o Hospital de Penafiel advém maioritariamente da gigantesca dimensão da nossa área de influência direta"
Conselho de Administração Hospital
Mapa retirado do Sistema Nacional de Saúde - Unidade Local Tâmega e Sousa
Mapa retirado do Sistema Nacional de Saúde - Unidade Local Tâmega e Sousa
Segundo o Conselho de Administração da Unidade Local de Saúde do Tâmega e Sousa (ULSTS), a instituição “serve atualmente uma população de cerca de meio milhão de habitantes, abrangendo 11 concelhos”. Uma dimensão significativamente superior àquela para a qual o Hospital de Penafiel foi originalmente concebido.
Gráfico feito por : Tânia Costa _ Fonte: PORDATA
Gráfico feito por : Tânia Costa _ Fonte: PORDATA
Esta realidade tem vindo a colocar uma pressão crescente sobre os cuidados de saúde, sobretudo no Serviço de Urgência. Segundo dados da própria instituição, em períodos de estabilidade, o Serviço de Urgência Médico-Cirúrgica regista uma média de cerca de 400 admissões diárias. No entanto, com a ativação do nível três do Plano Sazonal de Emergência – Módulo Inverno, foram registadas, na passada semana, cerca de 600 admissões por dia. Um crescimento abrupto que, embora associado à época gripal, evidencia fragilidades estruturais que já existiam antes. O atual cenário é, assim, segundo o Conselho de Administração, o “reflexo direto de uma enorme densidade populacional servida por uma única unidade hospitalar central”.
“Este hospital foi feito para abranger quatro concelhos e neste momento abrange 11. Nós não temos uma estrutura física capaz de dar resposta às necessidades e aquilo que ele abrange e isso depois resulta numa sobrecarga muito grande” explica a enfermeira Patrícia Silva, do setor de cardiologia.
Esta pressão extrema não é pontual nem excecional. Pelo contrário, tornou-se uma constante ao longo do ano. “O hospital está sempre sob pressão e tem uma afluência maior do que aquilo a que podemos dar resposta, durante o ano inteiro. Os internamentos estão sempre cheios e com uma taxa de ocupação superior a 100%, o que leva a uma esgotamento recorrente do Sistema de Saúde do Hospital”, admite.
Durante os picos sazonais, como o inverno, a situação agrava-se. “Agora nesta fase da gripe a afluência ainda se torna maior, não há respostas pois não há esvaziamento dos internamentos e a urgência fica sobrecarregada. Daí tanta reclamação da população quando vem ao hospital”, explica. Segundo a profissional, a urgência do Hospital de Penafiel não tem capacidade para dar resposta ao atual volume de procura, resultando na permanência de inúmeros doentes na urgência por falta de internamento. A enfermeira relata ainda a pressão e as dificuldades enfrentadas pelos profissionais de saúde: “Os colegas da urgência têm que dar resposta aos doentes que não são internados por não ter vagas e ainda aos que entram”, confessa.
A acumulação de doentes tem consequências diretas na forma como os cuidados são prestados, provocando sobrelotação no hospital e condicionando a organização do trabalho. A necessidade de libertar camas para responder à procura da urgência esbarra, muitas vezes, em fatores externos, como a falta de resposta do serviço social, um problema que " é comum a nível nacional". Patrícia sublinha que esta ausência de resposta social tem impacto direto nos internamentos. “Os doentes muitas vezes não têm apoio em casa e então não conseguem ter alta, porque não têm quem os leve, ou no caso, venha buscar”. Consequentemente, essa falta de apoio impede a alta clínica e leva à permanência de doentes clinicamente estáveis nos internamentos, ocupando camas essenciais.
Interior do Hospital
Interior do Hospital
Interior do Hospital
Interior do Hospital
Camas nos corredores e falhas na humanização
O hospital enfrenta uma crise de resposta assistencial. No serviço de medicina, há camas nos corredores e unidades improvisadas. “Neste momento, tudo o que tenha espaço para colocar doentes nós colocamos”, explica Patrícia. Ana Ferreira, enfermeira especialista em reabilitação, reforça esta perspetiva afirmando que o número de camas disponíveis é “muito inferior à necessidade”, o que provoca problemas de gestão e, sobretudo, de humanização. “Todo o doente tem direito a ficar internado numa enfermaria, numa cama de hospital se não está, se está numa maca, em termos de humanização estamos a falhar”, acrescenta.
"Quase diariamente há doentes em macas e corredores devido à falta de camas."
Esta situação repercute-se num profundo sentimento de frustração e desgaste entre os profissionais de saúde. “Se temos cada vez mais doentes e os profissionais continuam a ser os mesmos, não podemos oferecer a melhor qualidade de tratamento como os doentes merecem, e nenhum profissional sai satisfeito”, destaca a enfermeira
Acessibilidade geográfica e pressão assistencial
A profissional chama ainda a atenção para o impacto crítico das longas distâncias que muitos doentes são obrigados a percorrer até conseguirem aceder aos cuidados de saúde. A vasta área de influência do hospital agrava situações clínicas em que o tempo é um fator determinante. “ Nós temos doentes que percorrem muitos quilómetros e demoram muito tempo a chegar ao hospital e isso é crítico, principalmente quando estamos a falar de doentes em que o tempo de chegada vai ditar o tratamento”. Na mesma tónica, Juliana Nunes, auxiliar de saúde, sublinha que “o facto de o hospital abranger tantas localidades afeta o serviço e também os próprios utentes e as suas famílias, uma vez que muitos vivem a longos quilómetros de distância, o que resulta, por vezes, em menos visitas e acaba por influenciar o estado emocional do doente”.
Uma perceção partilhada também pelos próprios utentes, que vivem estas dificuldades no dia a dia. “De Resende até Penafiel demoro 1 hora e uma pessoa que esteja mesmo mal, não tem 1 hora”, afirma Micaela Vieira, residente em Resende, uma localidade a 50 km. Ademais, acrescenta que “Resende é constituída por uma população etária muito envelhecida, e essas pessoas não têm condições para ir para Penafiel, porque a maioria não tem carros, o único meio que muitos deles têm para se deslocar é de táxi, o que acrescenta um valor muito avultado”.
A espera que se tornou normal
Para a jovem resendense, o mau funcionamento do Hospital de Penafiel já perdura desde que tem memória. “Apesar de ser pequena, lembro-me que a urgência estava sempre muito cheia e demorávamos muitas horas. É muito triste ver pessoas a sofrer ali à espera nas urgências e não serem atendidas por não haver condições, e é ainda mais triste ver pessoas em macas a sofrer nos corredores”. Micaela conclui ainda: “Acho que aí percebemos que o hospital está mesmo sobrelotado e a funcionar muito mal”.
Quem também partilha desta opinião é Lara Ferreira, residente de Penafiel que descreve a instituição como “o salve-se quem puder”. O “caos” e a sobrelotação são claros no dia a dia da urgência. Um setor que deveria garantir respostas rápidas é diariamente um espaço de longas horas de espera, onde se acumulam situações de fragilidade. “Vi pessoas a desmaiarem à minha frente e acompanhantes a dizer que estavam naquela sala de espera há seis horas”. Um quadro que ilustra um hospital a operar no limite das suas funcionalidades. “As urgências estão cheias, faltam espaços, faltam camas e profissionais, e as pessoas continuam à espera horas e horas”, acrescenta a penafidelense.
Assim, enquanto algumas perspetivas consideram que a criação de novas infraestruturas hospitalares poderá contribuir para a redução da pressão sentida no Hospital de Penafiel e facilitar o acesso aos cuidados de saúde, como Micaela Vieira, outras experiências refletem o desgaste dos utentes face à demora no atendimento. Lara Ferreira afirma ter deixado de recorrer à instituição confessando que acabou por desistir devido aos "longos tempos de espera”, recordando ainda situações em que optou pelo setor privado como forma de garantir um atendimento mais rápido.
"Acho que entramos lá e depois saímos pior, quer pelo ambiente, quer por tudo"
Lara Ferreira
Persistência dos problemas e ausência de respostas
As queixas dos utentes acumulam-se há vários anos e, apesar da sua recorrência, não foram acompanhadas por soluções estruturais eficazes. Consequentemente, os problemas, antigos e amplamente identificados, continuam por resolver, refletindo-se ao longo do tempo num conjunto persistente de notícias de caráter negativo sobre o funcionamento da instituição. Nesse contexto, em 2022, o deputado do PSD Pedro Melo Lopes questionou o Governo, alertando para a situação do Hospital Padre Américo, que descreveu como “a romper pelas costuras”. Quatro anos depois, a realidade mantém-se.
O Hospital Padre Américo tem sido alvo de algumas obras de ampliação e remodelação. Em 2011, foi concluída uma intervenção significativa no Serviço de Urgência (SU), que passou a dispor de mais de 3.500 metros quadrados. Já em 2017, a área do hospital de dia polivalente foi ampliada, aumentando a capacidade de tratamento em cerca de 600 doentes. Três anos depois, em 2020, a maternidade da unidade hospitalar também foi alvo de obras de ampliação, com o objetivo de melhorar as condições de atendimento e conforto para mães e recém-nascidos. Mais recentemente, em 2023, foram realizadas novas intervenções na unidade de urgência, destinadas a melhorar o funcionamento do serviço e a resposta assistencial. No entanto, apesar destas intervenções, utentes e profissionais consideram que as melhorias pontuais não foram acompanhadas de soluções estruturais capazes de responder às crescentes necessidades da população.
Perante as críticas públicas, o hospital tem adotado uma postura de crescente reserva, limitando progressivamente a sua comunicação externa. Embora tenha prestado uma resposta inicial a alguns pedidos de esclarecimento, deixou de fornecer qualquer informação quando questionado sobre a existência de planos concretos para a melhoria das infraestruturas e dos serviços, bem como sobre o grau de execução e o cumprimento efetivo dos planos de financiamento planeados ao longo dos últimos anos. Em paralelo, foi implementada uma norma interna que condiciona a prestação de informações por parte dos profissionais aos órgãos de comunicação social.
Planeamento de Investimento 2022-2025
Planeamento de Investimento 2022-2025
Este padrão de ausência de respostas não se restringe à instituição hospitalar. Também os contactos dirigidos às assessorias do Ministério da Saúde permanecem, até ao momento, sem qualquer retorno, reforçando a perceção de um silêncio institucional mais amplo em torno de um problema que afeta diariamente profissionais de saúde e utentes. A ausência de esclarecimentos oficiais e de informação acessível sobre as medidas em curso faz com que a população, sem conhecimento das respostas ou das decisões tomadas, se torne progressivamente mais desconfiada.
Texto: Beatriz Ferreira e Tânia Costa
Editor: Beatriz Ferreira e Tânia Costa
Fotos: Beatriz Ferreira
Design: Tânia Costa
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