SOBRE RODAS

Por Eva Santos, Beatriz Barros e Margarida Esteves

Era uma noite gelada para julho. Dez da noite, já era hora de sair do trabalho. André nem sequer devia ter ido trabalhar, mas acabou por abandonar a folga na praia e ir a pedido do patrão. Pegou na mota acabada de comprar, e arrependeu-se de não ter levado casaco. Parte em direção a casa, pelo mesmo caminho de sempre, que nunca mais seria o mesmo. Uma curva, outra curva, mal sabia que uma destas havia de lhe mudar a vida.

Desde cedo que está habituado a mudanças. Em 1998, trocou Faro por Maputo onde ficou até ao secundário, na Escola Portuguesa de Moçambique, que era a primeira opção de todos os portugueses que iam para África naquela altura. "Fomos para Maputo por falta de dinheiro, e vim depois a saber que estas dificuldades aconteceram porque o meu pai não sabia gerir o dinheiro, quando tinha estourava a torto e direito. Tinha cargos em que ganhava bem e gastava logo a seguir. Não sei bem o que ele era...era o típico faz tudo…a minha mãe dizia que ele só sabia gastar dinheiro", diz André com um ar desapontado.

Apesar de ser um país diferente, foi educado como um típico português a estudar em Portugal.Foi uma adolescência como qualquer outra. Andava sempre envolvido em situações de porrada, mas conseguiu encontrar felicidade em alguns momentos, ao lado do seu amigo João Peixe. "Eu era o típico rapaz que se estava sempre a meter em confusões por sofrer de bullying...era mais pequenino que a maioria deles e tinha uma cabeça grande, era gozado por isso".

Em casa vivia-se, desde cedo, num ambiente de regime militar, o pai era exigente e violento, características que André adquiriu ao longo da sua adolescência, mas contra as quais combateu em adulto. "O casamento dos meus pais sempre foi atribulado, o meu pai como é ex-militar tem alguns problemas, então nós sofremos à mão dele. Quando se passava da cabeça partia tudo e mais alguma coisa, e chegou a bater à minha mãe. Ela estava presa naquilo, houve situações complicadas. Quando havia discussões e a minha mãe ameaçava com divórcio, ele dizia que ela podia ir, mas que os filhos ficavam, fazia chantagem através de nós".

André estava já no 11º ano quando se viu forçado a voltar à pátria, com algum dinheiro para recomeçar a vida. A irmã mais nova é sul Africana, mas o resto da família não tem raízes moçambicanas, então a segurança deles estava a ser posta em causa. Apesar do salário dos pais em Moçambique ser muito melhor do que aquele que iriam ganhar em Portugal, decidiram voltar por segurança. De regresso, conseguiram comprar uma casa em Silves, nesta que foi uma nova mudança na vida de André.

Assim que chegaram, o casamento dos pais enfrentou novamente um ultimato que desta vez seria o último. "Depois de regressarmos as coisas voltaram a azedar, e eu mais velho na altura, já não aceitava certas coisas por parte do meu pai. Havia discussões entre nós que quase acabavam em pancada. Decidi então meter as cartas na mesa e disse à minha mãe que ou se orientava em relação àquilo e pedia o divórcio para acabar de vez, ou eu saia de casa, e pronto, ela pediu o divórcio e as coisas entre eles foram-se".

Com o casamento acabado, o pai de André viu-se sozinho e com uma enorme quantia de dinheiro que tivera trazido de África, e como sempre, a solução para os seus problemas fora gastar tudo o que lhe restara em mais um investimento fracassado, mas que viria a trazer algo de bom para André. "O meu pai tentou abrir cá uma empresa de aluguer de bicicletas e barcos, e eu peguei numa das bicicletas e comecei a andar tanto com ela que rapidamente precisou de uma manutenção. Ele [pai] viu a minha paixão por aquilo e gastou 1700€ em uma nova bicicleta, que foi o meu lançamento para BTT…ainda a tenho até hoje. Em menos de nada estávamos sem dinheiro nenhum. Ele não conseguiu fazer mais nada e teve de voltar para Moçambique", conta André.

Com as dificuldades financeiras que enfrentavam André adiou a entrada na faculdade durante um ano e foi trabalhar. Assim permitiu que a mãe pudesse complementar a sua formação como enfermeira e ir ela estudar durante esse ano. Para André este foi um ano de experiências e de loucuras, começou a ganhar o seu dinheiro e a ser mais independente, mas também a cometer erros e descontroles.

No final deste ano candidatou-se à universidade e mudou-se para Setúbal para estudar Engenharia Mecânica, uma área que gostava desde criança. Apesar de estar a seguir o sonho de estudar, teve de continuar a trabalhar: "O curso era quase em part-time porque tinha de pagar as contas. No primeiro ano em 10 cadeiras fiz 1." Para acrescentar às aventuras que já distraíam André da faculdade, ainda apareceu uma rapariga que viria a ser a sua maior perdição. "Conheci uma rapariga, namorámos quase 2 anos, foi o meu primeiro amor da vida, que acabou por chegar a um ponto que não aturava o meu feitio, idêntico ao do meu pai, e acabou tudo. Às aulas ou não aparecia, ou estava sempre em casa com ela, ou andava em saídas e ficava de ressaca 2 dias."

A vergonha de só ter passado a 1 cadeira, fê-lo acordar para a vida e criar um método de trabalho diferente: "Se continuasse assim nunca seria ninguém na vida, com ou sem curso, porque isto não é vida para ninguém", confessa André. Começou a aplicar-se mais na faculdade e nos trabalhos, desempenhou vários cargos académicos como vice-presidente do Núcleo de Engenharia Mecânica e Automóvel e pertencia à praxe onde ficou conhecido como "Xuxas". "Havia pessoas que nem me conheciam, nem sabiam o meu nome, mas sabiam que havia alguém chamado Xuxas. Em todo o lado que havia festas eu estava lá."

Aliado a esta vida repleta de experiências e ocupada, o trabalho esteve sempre presente. Teve tantos empregos que diz que tem dificuldades para meter todos em um currículo só. Ainda a completar o curso, André trabalhou na oficina regional da Decathlon, e entre os estudos e o trabalho ainda arranjou tempo para um dos seus hobbies favoritos: brincar com motores. Comprou um Peugeot 106 Xsi 1600, por 1500€ para o poder renovar. Foi um trabalho que lhe deu imenso gozo, mas para aquilo que precisava na altura era pouco económico e acabou por vendê-lo. Em 2016 comprou uma mota Yamaha R6 125, que viria a durar apenas uma semana. "O que é que eu fiz em vez de acabar o curso? Meti-me debaixo de um camião."

video da explicação do acidente: https://youtu.be/zdn7dqVJl28

A curva da mudança

No dia 29 de junho de 2016, André saía do trabalho em direção a casa como todos os dias. Numa das curvas é surpreendido por uma sombra invulgar - era um camião do lixo que conduzia em contramão. Quando se depara com esta situação, André tenta desviar-se à última da hora para não bater diretamente contra o camião, mas a mota meteu-se debaixo da roda da frente do camião. É aqui onde André acaba por bater com a cabeça, neste embate o corpo comprime e acaba por partir o pescoço. Como se não fosse suficiente, continuou a rodopiar e aqui sente um choque elétrico pelo corpo inteiro, onde os braços ficaram colados ao peito e de repente desligam. "Eu nunca perdi a consciência, e se tivesse perdido tinha morrido. Um senhor veio para me ajudar a tirar o capacete e eu estava decapitado internamente. Berrei para que não o fizesse. Se ele o tivesse tirado não estaria aqui hoje". André foi levado de urgência para o Hospital de São José em risco de vida e com dificuldades respiratórias. No dia 30 de junho foi operado de urgência para reconstrução do pescoço, mas acabou por ficar em coma induzido por 2 dias. O acidente deixou André com uma lesão vertebral medular na C6, uma contusão pulmonar e uma lesão no nervo.

"Quando acordei estava destruído. Mexia pouco mais do que os ombros, não fazia qualquer movimento útil. Em termos médicos preferiram dar-me o pior cenário de todos. Disseram-me logo que não ia poder andar mais."

Como o acidente aconteceu no caminho do trabalho até casa, foi considerado acidente de trabalho. Acabou por ser coberto por três seguros: seguro de trabalho, seguro da mota e o seguro do camião do lixo, o que foi ótimo para André devido à sua falta de possibilidades financeiras. Desde esse dia, a seguradora do trabalho tem apoiado financeiramente os estudos de André, a fim deste poder completar o curso e participar em palestras organizadas pela seguradora. Depois do acidente a vida de André nunca mais foi a mesma.

"Passei toda a minha vida em recomeços. Quando fui para Moçambique pude recomeçar, de regresso a Portugal pude recomeçar outra vez, em Setúbal, na universidade, voltei a ter outra oportunidade para recomeçar e o acidente obrigou-me a recomeçar novamente."

O acidente obrigou André a moldar-se a esta que seria a sua nova vida. Agarrado a uma cadeira de rodas que ele não deixaria que se tornasse uma prisão.

"É uma vida totalmente diferente. Até na interação com as outras pessoas, porque me tratam de forma diferente, todos me pedem desculpa por tudo e mais alguma coisa só por estarem a passar ao pé de mim, todos me acham inútil, todos acham que sou o deficiente que não sabe fazer mais nada. Os clientes olham para mim e vão pedir algo ao meu colega do lado…Sou uma pessoa como as outras".

Devido às suas incapacidades, a mãe e a irmã tiveram de vir para ao pé dele para lhe prestar auxílio. Esteve 1 ano no Centro de Alcoitão em Alcabideche a tentar recuperar o máximo de movimentos possível "Eu posso trabalhar a vida toda que sei que não vou mexer mais do que já consegui, porque é o que a minha lesão me permite."

Quando decidiu voltar a trabalhar, porque precisava de dinheiro e de sair de casa, comunicou a Associação Salvador que o ajudou em ligações com empresas. André já tinha trabalhado na Oficina Regional da Decathlon, e esta voltou a contratá-lo devido ao seu histórico lá. No momento que entra no trabalho e coloca o colete diz que é como se estivesse a colocar uma máscara. Fora da loja tem dificuldades em dar-se a conhecer às pessoas, mas com a sua máscara é a pessoa mais sociável que possam encontrar. O seu colete anti forças permite-lhe dar a sua melhor versão aos clientes e colegas. Apesar de ter momentos que é ignorado pelos clientes, devido à sua situação, André continua de cabeça erguida pronto para ajudar.

"Foi um renascer. Não sou o mesmo André de antigamente, tanto a nível físico como psicológico. A minha maturidade mudou, acalmei imenso. Antes achava que não precisava de ninguém para nada. Aprendi a ter de precisar das outras pessoas, por motivos óbvios, e a ser mais humilde para tal. Teve o seu lado positivo."

André teve de aceitar todas estas mudanças na sua vida. Percebeu que o mais importante para ele era a família e o trabalho. Sem expectativas, decide começar a aceitar tudo o que a vida lhe trás, só não aceita parar de trabalhar, porque para ele, parar é morrer. "Aprendi a não ter muitas expectativas. Antes achava que ia conseguir fazer tudo, mas tudo mudou numa questão de segundos. Agora é um dia de cada vez." Quer ser lembrado como alguém que luta pelo que quer, da melhor maneira que sabe.

"Se queres algo mais, tens de trabalhar mais. Sou uma pessoa ambiciosa e dou muito valor ao nome que deixo onde quer que passo. Portanto gosto de deixar uma marca no sentido de se lembrarem de mim como alguém que faz bem o que faz. Tento sempre fazer com que o meu nome signifique excelência naquilo que faço. Seja numa cadeira de rodas ou não, sou uma pessoa como as outras. Nunca vou deixar que seja esta cadeira a definir-me."
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