A ARTE DE FAZER RIR

Uma viagem pela comédia em Portugal

“Havia procura do público, mas não havia oferta”: a chegada da comédia à cidade dos arcebispos

Abertura das SETRA Comedy Sessions

O sino da Sé de Braga toca sete vezes ao mesmo tempo que Bruno Azevedo, CEO d’A Mosca, chega ao SETRA, um bar situado na rua atrás do monumento histórico. As duas horas seguintes são passadas “a tratar do som, das luzes e de toda a logística”, cumprindo meticulosamente todas as tarefas que tem na sua lista de afazeres. À medida que marca as tarefas como cumpridas, vê a noite a ganhar forma e a chegada do público mais próxima.

Mas esta nem sempre foi a rotina do produtor. Olhando para trás, o cenário que encontrou no início do seu percurso era diferente, “desde 2018 comecei a sonhar fazer disto vida, quando comecei numa noite no Porto, no Ferro Bar”, recorda Bruno. “No primeiro ano não estava bem focado nisto”, mas a sua motivação foi, segundo o próprio, ter encontrado “das poucas coisas” para as quais tem jeito e dedicou todo o seu tempo à mesma.

A maior aposta na sua carreira humorística começou em 2024, quando Bruno deu regularidade às suas atuações no circuito portuense e pontualmente no lisboeta. Foi precisamente desse movimento pendular entre as grandes metrópoles que surgiu o clique: Braga parecia “uma cidade demasiado grande para haver só uma noite de comédia”.

A mudança do panorama cultural da cidade

Foi ao olhar à sua volta que Bruno Azevedo se deparou com uma assimetria no desenvolvimento cultural da sua cidade. Apesar de Braga contar com uma forte presença jovem e universitária, a oferta de stand-up comedy era residual. 

Esta escassez de oportunidades criava uma lacuna tanto para os comediantes que precisavam de testar material como para o público interessado neste formato. “Achava estranho uma cidade como Braga só ter dois comediantes”, refere o CEO.

No entanto, o arranque do projeto SETRA Comedy Sessions, promovido por 'A Mosca' demonstrou que o mercado estava recetivo a novas propostas. Bruno admite que a implementação da iniciativa enfrentou os desafios típicos de um mercado com pouca oferta: “podia ser um entrave não existir um underground de stand-up numa cidade”, visto que “o público vem um bocado à descoberta”. Ainda assim, o CEO do projeto sublinha que a adesão superou as expectativas, “as pessoas perceberam logo o conceito”, sublinhando o crescimento desta noite de comédia.

“Inicialmente fazíamos sessões mensais, começou a correr bem”. O impacto inicial positivo traduziu-se de imediato numa procura crescente, gerando a necessidade de aumentar progressivamente a frequência da oferta, “passado meio ano passámos a fazer quinzenalmente”.  O cenário atual oferece sessões semanais às terças-feiras e o humorista garante que “poucas foram as que não esgotaram”. Chegando à conclusão de que “havia procura do público, mas não havia oferta”.

Para Bruno, um dos principais objetivos do projeto é passar “a depender menos dos comediantes que vêm de longe e conseguir ter no alinhamento mais humoristas da zona”, explica. Até ao momento, o balanço desta aposta no talento regional é positivo: “num ano e meio já surgiram duas ou três pessoas com graça daqui da cidade e que começaram cá.”

Contudo, erguer um circuito estável exige mais do que salas cheias, obriga a uma visão empresarial realista, algo que Bruno faz sozinho: “A Mosca sou eu.” É o mesmo que assume a responsabilidade de toda a “parte financeira” e os riscos associados à produção. Para garantir a viabilidade do espaço e do projeto, foi necessário desenhar regras claras acordadas por ambas as partes, como o consumo obrigatório por parte do público. “Tanto para A Mosca como para o SETRA, mal seria se não fosse viável financeiramente”.

A dualidade entre o certo e o imprevisível

Por trás do produtor que dita as diretrizes d’A Mosca, reside o artista que continua a precisar do palco para se expressar, agarrado aos seus próprios rituais antes do espetáculo. Entre eles está o posicionamento estratégico de um globo terrestre voltado para o continente africano que está presente em palco. Bruno esclarece que a prática teve origem numa simples brincadeira, mas que se transformou num hábito recorrente após o sucesso alcançado na primeira sessão em que foi implementada.

Para o humorista, o ponto de viragem da sua carreira foi o começo do projeto. A partir daí assumiu um compromisso total com a área, mudando o seu estatuto profissional: “comecei a viver exclusivamente disto de há um ano e meio para cá”.

Embora encare o palco com a segurança de quem ali encontrou a sua vocação, Bruno reconhece o nervosismo que antecede cada atuação. O CEO assume habitualmente o papel de host (anfitrião) nos espetáculos com a assinatura d'A Mosca, mas admite uma maior reserva em relação ao crowd work (a interação direta com o público), devido à imprevisibilidade do formato. “Prefiro fazer stand-up puro, com texto, porque é mais seguro”, explica, justificando a preferência pela estrutura do guião face ao risco de “nunca saber o que esperar” da plateia.

Ainda assim, a estabilidade financeira e o sucesso contínuo das noites de comédia no SETRA não eliminam os medos inerente à vida artística. A incerteza paira sempre como uma sombra “não sei se isto vai ser a minha vida para sempre, porque não sei como é que isto vai correr”, assume com honestidade.

É precisamente nesse terreno incerto, algures entre o riso garantido pela métrica do texto e a imprevisibilidade do crowd work que Braga aprendeu a rir todas as semanas. E é através da atividade regular d'A Mosca que o SETRA Bar se tem afirmado como o ponto de convergência deste novo circuito semanal, integrando de forma permanente o stand-up comedy fora dos grandes centros.

SETRA Urban & Cocktail Bar

SETRA Urban & Cocktail Bar

Lista de tarefas

Lista de tarefas

Bruno Azevedo no Ferro Comedy Club. Fonte: Ferro Comedy Club

Bruno Azevedo no Ferro Comedy Club

2º Cartaz das SETRA Comedy Sessions. Fonte: A Mosca

2º Cartaz das SETRA Comedy Sessions. Fonte: A Mosca

Público. Fonte: A Mosca

Público. Fonte: A Mosca

Alinhamento, 3 de março de 2026

Alinhamento, 3 de março de 2026

Bruno Azevedo

Bruno Azevedo

Globo de decoração

Globo de decoração

Globo de decoração

Globo de decoração

Globo de decoração

Globo de decoração

Globo de decoração

Globo de decoração

Globo de decoração

Globo de decoração

Entre músculos e emoções

Desde bebés que o ato de rir se encontra presente nas nossas vidas. Mesmo quando não temos qualquer noção do mundo à nossa volta, é através do riso que os bebés se comunicam com o mundo exterior. Assim, Diogo Rêgo Moreira, Mestre em Estudos Interculturais: Português-Chinês, afirma que não é “descabido inferir que rimos há mais tempo do que falamos em sistemas de línguas organizados”.

O ato de rir, nada mais é do que o acionar do músculo zigomático maior, situado nas bochechas e conhecido como “o músculo da cara que permite o riso”, refere Nuno Artur Silva, escritor e fundador das ‘Produções Fictícias’. Apesar disso, rir é mais do que uma ação que compartilhamos com os outros seres humanos. Rir é algo pessoal e inerente à nossa existência no mundo. Nem todas as pessoas acham piada à mesma coisa, e é isso mesmo que torna a comédia e o ato de rir num mistério tão fascinante: é a forma mais universal de sermos únicos.

Mas como é definida a comédia por aqueles que a fazem e vivem diariamente?

Do pecado à arte de fazer rir

É na Grécia Antiga que a palavra humor vê a sua origem emergir. A palavra surge da ligação a fluidos corporais, chamados de humores. Segundo Hipócrates, acreditava-se que "uma descompensação entre vários líquidos que compunham o organismo humano" causava uma doença, do mesmo modo que, quando os humores estavam nas condições mais equilibradas se dizia que a pessoa estava saudável e de "bom humor", assim é possível concluir que o ato de rir é saudável e vantajoso.

A verdade é que a evolução do humor não foi linear, muito menos pacifica. Enquanto hoje vemos o humor como algo estabelecido e como uma expressão artística, na Idade Média a Igreja via "o riso como pecado", refere João Pedro Santos Soares, mestre em Ciências da Comunicação, na especialidade de Media e Entretenimento. Por base neste pensamento, o humor foi afastado da cultura oficial e transformou-se num elemento essencial da cultura popular. Foi a partir desta transição que a cultura popular começou a ver a comédia como um "elemento de festa e arte", como podemos aferir através das festividades do Carnaval.

Teatro de Atenas, National Geographic Espanha

Teatro de Atenas, National Geographic Espanha

Por outro lado, a palavra comédia vem de uma homenagem feita a Dionísio, deus grego, ou Baco, deus romano. O seu significado representa festa e designava um subgénero da arte dramática que se encontra na extremidade oposta da tragédia, provocando o riso nos seus espectadores. O crescimento da comédia dá-se em simultâneo ao fortalecimento da democracia ateniense. João Pedro Santos Soares refere que “a comédia implica uma liberdade para satirizar e criticar”, realidade que só é possível quando existe uma democracia estabelecida e organizada.

A chamada Comédia Antiga surgiu em 486 a.C., quando o género dramático da tragédia já se encontrava deveras disseminado. O seu crescimento continuou a ser aprofundado no estado ateniense, apesar do fim da democracia e deu origem a um período de transição ao qual os teóricos atribuíram o  nome de Comédia Média. A Comédia Nova surgiu no final deste período de transição e veio reformular o modo como se olhava para este estilo. Num novo contexto histórico e, principalmente, social, a Comédia Nova representou um marco significativo uma vez que passou a colocar a família no centro da sociedade, deslocando as atenções dos Deuses para as famílias. Assim, surgiu uma nova classe média que mudou o paradigma social e, por consequência, "a forma como se faz comédia", segundo Santos e Alves.

Cada vez mais pessoas recorrem ao riso para tirar a mente daquilo que, muitas vezes, nos enche o cérebro. Rir é mais do que uma simples consequência, rir é uma solução. Na idade média, as festividades sempre estiveram ligadas a tempos de crise, demonstrando a necessidade de criar festividades carnavalescas em espaços públicos para oferecer não só um escape, mas também uma igualdade perante todos. Assim, é importante perceber que "já na Idade Média a comédia poderia ser considerada um escape importante para os momentos associados à crise", como refere João Pedro Santos Soares.

Contudo, para que essa solução seja eficaz em tempos de crise ou de estabilidade, a comédia precisa de se adaptar a diferentes linguagens e pessoas. Assim, é possível afirmar que o ato de fazer rir não se rege por uma fórmula única, varia na intenção, no tom e na estrutura.


OS PASSOS DE NUNO
ARTUR SILVA ATÉ ÀS
'PRODUÇÕES FICTÍCIAS'

Parodiantes de Lisboa. Fonte: RTP Arquivos

Parodiantes de Lisboa. Fonte: RTP Arquivos

anos 70
PARODIANTES DE LISBOA

Ouvir o grupo na rádio foi o primeiro contacto que Nuno Artur Silva teve com a comédia

anos 80
APRESENTAÇÃO DE PROJETOS À RTP

"O sonho era a televisão"

Nuno Artur Silva, argumentista e fundador das 'Produções Fictícias'

Fonte: Produções Fictícias

Fonte: Produções Fictícias

anos 80
"OS AMIGOS DO TEATRO"

Nuno Artur Silva, José de Pina, Rui Cardoso Martins e Miguel Viterbo começam a escrever textos de teatro devido à falta de oportunidades na comédia

Programa 'Joaquim Letria'. Fonte: IMBd

Programa 'Joaquim Letria'. Fonte: IMBd

1990
PROGRAMA
'JOAQUIM LETRIA'

Estreia-se a escrever sketches para os momentos humorísticos de José Pedro Gomes e Miguel Guilherme no programa da RTP2

Programa 'Parabéns'. Fonte: RTP Memória

Programa 'Parabéns'. Fonte: RTP Memória

1992
PROGRAMA 'PARABÉNS'

Herman José convida Nuno para escrever o número de abertura do seu programa

Símbolo das 'Produções Fictícias'

Símbolo das 'Produções Fictícias'

1993
CRIAÇÃO DAS 'PRODUÇÕES FICTÍCIAS'

Os "amigos do teatro" voltam a juntar-se e criam uma empresa de escrita criativa


"Começamos a fazer escrita de humor, coisa que em Portugal, na altura, não era feito profissionalmente"

Nuno Artur Silva, argumentista e fundador das 'Produções Fictícias'

Nuno Artur Silva e Herman José. Fonte: Nuno Artur Silva

Nuno Artur Silva e Herman José. Fonte: Nuno Artur Silva

Travessa da Fábrica dos Pentes, nº27

Travessa da Fábrica dos Pentes, nº27

Nuno Markl. Fonte: Produções Fictícias

Nuno Markl. Fonte: Produções Fictícias

Grupo 'Gato Fedorento'. Fonte: Expresso

Grupo 'Gato Fedorento'. Fonte: Expresso

Programação do Canal Q. Fonte: Produções Fictícias

Programação do Canal Q. Fonte: Produções Fictícias

A utopia das Produções Fictícias: os “amigos do teatro” que mudaram a comédia em Portugal

A comédia em Portugal nem sempre foi como a conhecemos hoje. Houve mudanças profundas, influências estrangeiras e, acima de tudo, muitos planos arriscados que acabaram por ter sucesso. A verdade é que a responsabilidade por esta evolução não pode ser atribuída a uma só pessoa, mas a várias. Se Herman José foi o homem que deu a cara na televisão nos anos 90, também se deveu às pessoas que preparavam os textos dos seus programas.

Mas nesta altura fazer rir ainda era um ato individual ou quase um exclusivo das companhias de teatro de revista. Foi então neste ‘vazio estrutural’ que Nuno Artur Silva, um então jovem professor de Português, que dividia o seu tempo entre o plano de aulas diurno e a escrita criativa noturna, vislumbrou a oportunidade de testar algo novo: transformar a escrita de comédia num negócio sério e coletivo. E é desta vontade que surge o projeto 'Produções Fictícias'.

O contexto da época estava longe de ser favorável à experimentação. No final dos anos 90, Portugal não tinha ainda um circuito de humor consolidado e formatos hoje comuns, como o stand-up comedy, encontravam forte resistência. Nuno Artur Silva recorda que apesar da aposta e da apresentação de propostas às estações televisivas, nenhuma se mostrava aberta a receber o formato. A ausência de espaços dedicados ao humor obrigava os criadores a procurar novas formas de chegar ao público, tornando ainda mais relevante o aparecimento de estruturas capazes de profissionalizar e organizar a produção humorística.

A nova morada da escrita humorística

Com o objetivo de dar uma resposta robusta aos pedidos cada vez mais exigentes dos grandes nomes da comédia da altura, Nuno Artur Silva voltou a reunir os seus “amigos do teatro”, José de Pina, Rui Cardoso Martins e Miguel Viterbo. O plano era claro, mas arrojado para a época, passando pela introdução do modelo de writers' room (sala de argumentistas) no mercado português, um espaço onde o texto final resultava do debate aceso e da colisão de ideias entre pares.

A novidade era absoluta para a época, mas a verdadeira rutura assentava em dois pilares.

Nuno Artur Silva sobre os desafios dos anos 90

Nuno Artur Silva sobre os desafios dos anos 90

Ainda assim, o crescimento do projeto foi rápido e exigiu a procura por uma sede física. Em 1996, o grupo fixou-se num escritório situado na Travessa da Fábrica dos Pentes, nº 27, em Lisboa. Dali saíram, durante vários anos consecutivos, as piadas que alimentavam não só o universo de Herman José, mas também vários outros programas da RTP e ainda o talento de Maria Rueff e Ana Bola. Aos poucos, aquela que parecia apenas uma simples sede de um projeto tornou-se o símbolo de uma reviravolta no humor português.

Os primeiros anos foram de um grande sucesso e as portas do mercado abriram-se de forma gradual. Nuno Artur Silva recorda que o grupo começou a propor formatos originais e a “trabalhar diretamente com outros atores”. Com a expansão iminente, tornou-se imperativo trazer “sangue novo” para a equipa. “Ouvi uma coisa engraçada na rádio e convidei-o. Era o Nuno Markl, tinha vinte anos”, lembra o co-fundador.

Por esta altura, as 'Produções Fictícias' já não precisavam de procurar talento, o mesmo começara a ir ao encontro do grupo. A mítica porta número 27 passou a ser o destino de quem pedia uma oportunidade para mostrar o que valia na escrita, como foi o caso de Ricardo Araújo Pereira.

Da dependência televisiva à criação de um canal próprio

Apesar do bom funcionamento do grupo, Nuno Artur Silva afirma que “era lógico que, a dada altura, cada um quisesse seguir os seus próprios projetos”. Foi nesse momento que começaram a perceber que “dentro das 'Produções Fictícias', cada um queria ter o seu próprio grupo”, refere. Perante esta realidade, decidiram avançar para “uma segunda fase”, transformando o projeto, que inicialmente se dedicava apenas à escrita, numa agência.

Foi neste contexto que a nova fase das 'Produções Fictícias' ajudou a criar oportunidades para uma geração de autores e intérpretes. Desta mudança surgiram alguns dos mais impactantes projetos de comédia em Portugal, marcando uma nova geração de humoristas. Os sketches afirmaram-se como uma das formas mais eficazes de levar o humor ao público, dando origem a fenómenos como o programa “O Homem que Mordeu o Cão” e o grupo “Gato Fedorento”. Ao mesmo tempo, começaram a ser lançadas as bases para a aceitação de formatos que, poucos anos antes, pareciam não ter lugar no panorama televisivo nacional.

Longe de interpretar a dispersão como um fracasso empresarial, Nuno Artur Silva analisa o desfecho com distanciamento, “o que me admira é ter durado tanto tempo, estivemos praticamente vinte anos todos juntos”.

Apesar da mudança de paradigma, persistiam problemas que se vinham a arrastar há vários anos. A dependência dos meios televisivos continuava a ser um entrave significativo ao desenvolvimento da empresa, condicionando projetos e limitando a autonomia criativa. Esta realidade acabou por gerar alguma frustração no seio da equipa, que sentia a dificuldade em ver concretizadas determinadas ideias fora dos constrangimentos impostos pelas estações televisivas.

Nuno Artur Silva sobre a dependência televisiva

Nuno Artur Silva sobre a dependência televisiva

Foi então em 2010 que o grupo decidiu avançar para a criação do seu próprio canal, o Canal Q. Sem espaço formal disponível, acabaram por encontrar uma solução improvável mesmo do outro lado da rua do escritório: a sala de pequenos-almoços de um hotel. Foi nesse cenário informal que o projeto começou a ganhar forma, funcionando como “uma espécie de laboratório” criativo, onde nomes como Joana Marques e Daniel Leitão deram os primeiros passos no humor e puderam experimentar novos formatos e linguagens.

A liberdade criativa, porém, trazia consigo uma imensa vulnerabilidade financeira. Nuno aponta o Canal Q como o projeto de maior risco criativo, nascido numa época de transição incerta, “foi numa altura em que não estava completamente estabelecido que as coisas se iam passar todas na internet e nós estávamos fartos de estar dependentes de diretores de programas”.

Ainda assim, o grupo conseguiu fechar um acordo com a PT (atual MEO), mas Nuno admite que o orçamento sempre foi apertado, a salvação foi terem encontrado “um modelo de produção barato”.

O momento mais difícil da história da empresa ocorreu em 2011, quando o grupo tinha alinhada e praticamente fechada uma parceria internacional de co-produção de enorme envergadura com a empresa norte-americana HBO. “Esteve pronto para ser assinado e falhou mesmo no fim porque entrou a Troika em Portugal”, revela. O resgate financeiro a Portugal congelou os investimentos externos e empurrou a produtora para uma posição complicada, “escapámos, não falimos, mas foi por pouco”.

A nova era do humor

Com a crescente evolução da internet, a comédia foi mudando de forma. O que no início era somente possível num palco ou num teatro passou a poder ser produzido também na casa de cada um. A internet veio eliminar intermediários e abrir portas que antes pareciam inultrapassáveis para quem estava a começar. Nos dias de hoje, é possível produzir conteúdos humorísticos com alta qualidade e publicá-los nas redes sociais a um baixo custo. Assim, a internet proporcionou aos comediantes “uma maneira grátis” de exibir e divulgar o seu trabalho, como refere Eduardo Marques, comediante e host do Ferro Comedy Club.

O comediante Rui Xará viu no seu bar, Púcaros Bar, situado na cidade do Porto, uma oportunidade de trazer o stand-up para Portugal. A ideia de criar uma noite dedicada somente à comédia surgiu da percepção de Rui face à forte adesão do público. “Já tinha uma noite que resultava com poesia", conta. Decidiu experimentar, nas palavras do próprio e, assim, o espaço, fundado em 1998, tornou-se num “marco no início da história do stand-up” em Portugal, como refere o comediante.

Graças a este ecossistema, o número de palcos físicos e de noites dedicadas apenas ao stand-up aumentou significativamente. O setor transcendeu o entretenimento para se tornar numa indústria com um mercado extenso. Onde outrora existiam escassas oportunidades para testar material, hoje assiste-se a uma oferta contínua e efervescente, onde “cada vez há mais noites de stand-up", sublinha Gustavo Carvalho, autor do podcast Humor à Primeira Vista. O próprio circuito tem crescido “em termos de número de comediantes", acrescenta. 

SETRA Comedy Sessions, Ferro Comedy Club e Esposende Comedy Sessions

SETRA Comedy Sessions, Ferro Comedy Club e Esposende Comedy Sessions

Este aumento exponencial de humoristas gera uma dinâmica única nos bastidores da comédia, um cenário marcado pela dualidade entre a rivalidade e a camaradagem. Pedro Rodas Silva, comediante, descreve esta contradição de maneira natural: "é um meio muito antagónico. Ao mesmo tempo somos todos concorrentes uns dos outros, mas também somos todos colegas". Apesar desta rivalidade, a competição saudável entre os diferentes humoristas parece alimentar o crescimento da comunidade. Nas próprias palavras de Rodas, todos têm um objetivo em comum, que "a comédia suba".

A facilidade de distribuição de conteúdo trouxe consigo um lado inverso que preocupa os comediantes: a pressão do algoritmo. Se, por um lado, a internet veio dar mais oportunidades, por outro passou a ditar o ritmo e o modo da criação artística. O comediante não compete apenas pela atenção do público na sala de espetáculo, mas também pela atenção de um algoritmo em constante mudança. Isto traduz-se numa falsa esperança de sucesso por parte dos comediantes, muitas vezes associando o sucesso de um reel de 15 segundos com o sucesso de uma noite de teste.

Além disso, a própria natureza do stand up confere uma forte fragilidade aos comediantes. A incerteza e a possibilidade de fracasso em palco são temas constantes para aqueles que fazem da comédia a sua vida. João Dias, comediante e professor, explica que o “stand-up fere muito o ego” e lembra que é crucial para um comediante "ter o à vontade para, se correr mal, ficar bem com isso". Segundo Eduardo Marques, um comediante que consegue passar pela suscetibilidade do formato ao vivo “conseguem passar tudo na vida".

Para quem pisa o palco de forma regular, o riso assume um papel terapêutico, funcionando como um escape às tensões quotidianas. Para Pedro Rodas Silva é, na sua essência, “o riso extra que se pode ter no final de um dia de trabalho" ou um poderoso analgésico para as dores mais profundas.

Mas, no final do dia, o veredito permanece inalterado. Como conclui Rodas, "o que dita uma história boa é o público".

Fim da "Ferro Comedy Session"

Fim da "Ferro Comedy Session"

Apesar de o público continuar a ser o principal indicador de sucesso de um comediante, a sobrevivência no circuito depende de fatores que vão muito além das gargalhadas. Por trás de cada atuação existem desafios económicos que são frequentemente invisíveis para quem está na plateia. Por isso, é possível afirmar que a profissionalização crescente da comédia em Portugal trouxe novas oportunidades, mas também novas responsabilidades, obrigando muitos humoristas a conciliar a criatividade com a gestão da sua própria atividade profissional.

O crescimento do interesse do público em espetáculos e noites dedicadas à comédia traduz-se numa maior receita e, idealmente, numa maior viabilidade financeira, mas nem sempre isso acontece. Apesar de haver várias noites de comédia com lotação esgotada, nem todas conseguem ou estão dispostas a pagar a quem lá atua, o que para Bruno Azevedo é uma questão inquietante.

Bruno Azevedo, humorista e host das SETRA Comedy Sessions

Bruno Azevedo, humorista e host das SETRA Comedy Sessions

Mas é precisamente ao encarar a comédia como profissão que os comediantes se deparam com a necessidade de assumir responsabilidades administrativas e fiscais que são inerentes a qualquer trabalhador independente. À medida que as atuações começam a ser mais frequentes e os rendimentos mais regulares, há a necessidade de abrir atividade no Portal das Finanças para que tudo esteja legal. João Dias explica que o processo é simples, bastando enquadrar-se no CAE 90030 (Criação Artística e Literária) ou, em alternativa, no CIRS 1519 (Outros prestadores de serviços). Com esta designação, os comediantes acabam por “beneficiar de IVA 0”, acrescenta.

João Dias, humorista e professor

João Dias, humorista e professor

No entanto, mesmo com a crescente formalização da atividade e com a regularização fiscal dos rendimentos, a realidade económica da comédia em Portugal continua longe de ser estável para muitos profissionais. A irregularidade das atuações e a variação dos cachets fazem com que vários humoristas não consigam depender exclusivamente do stand-up como fonte de rendimento. Por essa razão, tornou-se frequente e vital a transição para estruturas profissionais de agenciamento. Estas empresas não só mitigam a instabilidade financeira como atuam na intermediação de grandes contratos comerciais e editoriais.

Atualmente, o mercado de agenciamento em Portugal está consolidado em torno de marcas de referência que moldam o panorama do humor nacional. No caso da Kilt, a agência não só gere as carreiras de nomes influentes como Guilherme Geirinhas, Vitor Sá, Luana do Bem e Diogo Batáguas, como também assina a organização de grandes eventos do setor, como o Worten Mock Festival. A par desta, a agência Força de Produção afirma-se como uma estrutura de grande peso cultural, representando figuras incontornáveis como Bruno Nogueira, Ana Bola e Ana Markl.

O dinamismo do mercado estende-se ainda à Finesse Agency, fortemente focada no ambiente digital e na nova vaga de criadores, onde se incluem Carlos Coutinho Vilhena, Carlos Contente e João Pedro Pereira, e à Setlist, que assegura a gestão de Vasco Elvas e Guilherme Fonseca. Por último, a Fly Produções desempenha um papel fulcral na descentralização e logística do humor, sendo responsável pela produção executiva de circuitos e noites de comédia. O seu portfólio ilustra o cruzamento de mercados, albergando desde referências nacionais como Fernando Rocha, a promessas da nova geração como David Silva.

A intermediação destas agências reflete-se diretamente na forma como o mercado se posiciona ao nível de preços. João Dias, comediante sem agência, refere que um dos principais desafios nesta área passa pela definição do valor pessoal de cada comediante, algo que varia consoante diversos fatores, como a experiência, a notoriabilidade e o tipo de participação no espetáculo. Segundo o comediante, há também casos em que alguns profissionais acabam por “estragar o mercado” ao praticarem valores demasiado baixos.

Explica ainda que a sua própria forma de trabalhar passa por diferenciar os tipos de colaboração. “Se quiserem contratar o João Dias, eu divido a coisa em três partes”, afirma. “Se querem vender bilhetes com a minha cara, isso tem um preço; se me querem numa noite em que não são revelados os comediantes, já tem outro preço; e se quiserem que eu partilhe o cartaz nas minhas redes sociais, também tem outro preço”.

O comediante justifica esta distinção com o que descreve como o “uso da imagem” enquanto elemento de promoção, sublinhando que diferentes níveis de exposição implicam diferentes formas de valorização do trabalho.

Do lado da organização, uma das principais dificuldades prende-se com a impossibilidade de “competir com os preços praticados no Porto e em Lisboa”, como refere Carlos Capitão, responsável pelas Esposende Comedy Sessions. Ainda assim, a iniciativa procura ajustar-se ao mercado e fazer um esforço para acompanhar os valores exigidos pelos artistas, de forma a garantir a continuidade do evento e a sua viabilidade. Para colmatar parte das despesas, o projeto conta também com alguns parceiros e patrocínios que ajudam a suportar os custos associados à produção das noites de comédia.

Ainda assim, torna-se difícil definir um valor fixo para a comédia. O mesmo projeto pode assumir valores bastante distintos em diferentes cidades, o que reforça a ideia de que há diversos fatores que influenciam o preço de cada artista e de cada momento, tais como a dimensão do evento, as condições de produção ou a capacidade orçamental da entidade que contrata. 

Ainda assim, é importante perceber que o crescimento convive com uma realidade a duas velocidades. Se, por um lado, os nomes mais mediáticos conseguem garantir contratos confortáveis de milhares de euros, por outro, os circuitos independentes e os novos talentos continuam a lutar para cobrir as despesas básicas e fazer os seus projetos sobreviver fora dos grandes centros como Lisboa e Porto. A sustentabilidade e o futuro da comédia em Portugal depende exatamente disso: conseguir manter o público a rir e as salas cheias, sem nunca esquecer que, por trás de cada boa piada, há todo um negócio que precisa de ser gerido com o mesmo talento com que se agarra um microfone.

"Faz o que realmente queres fazer" - Nuno Artur Silva

"Escreve, testa, falha, acerta" - Rui Xará

"Tenta escrever 5 minutos" - Pedro Rodas Silva

"Procura um circuito de Open Mics" - Bruno Azevedo

"Aparece em bares de comédia" - Eduardo Marques

"Grava a atuação" - João Dias

"Persiste!"

- Carlos Capitão

black textile on black background

AUTORIA

Iara Monteiro

Leonor Almeida

AGRADECIMENTOS
Este projeto só foi possível graças à disponibilidade dos humoristas
que aceitaram partilhar as suas experiências e reflexões
sobre a comédia em Portugal.

Professora Maria João Cunha

Professor Luís António Santos

Diogo Rêgo Moreira

A Mosca

Freakshow

Esposende Comedy Sessions

Ferro Bar

Licenciatura em Ciências da Comunicação

Universidade do Minho

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