"Procurava ali uma espécie de força": Como o esoterismo se tornou o analgésico de uma sociedade ansiosa
Beatriz Ferreira e Tânia Costa
Ansiedade, incerteza e pressão constante estão a levar cada vez mais pessoas a procurar respostas fora da medicina convencional. Num mercado em expansão, mas sem regulação específica, o Reiki, o Tarot, a Bruxaria e outras terapias holísticas conquistam adeptos que procuram conforto, orientação e bem-estar. Metade dos inquiridos admite já ter recorrido a estas práticas.
Foi nesse universo que Celeste Gonçalves (nome fictício), de 44 anos, encontrou algum amparo depois de receber um diagnóstico oncológico há cerca de três meses. Até 10 de abril de 2026, os dias dividiam-se entre consultas, exames e tratamentos no Hospital do Porto. As manhãs começavam cedo: acordava os filhos, preparava-os para a escola e tentava manter alguma normalidade. Mas, antes de sair de casa, repetia sempre o mesmo ritual.
No quarto, junto à janela, guardava várias pulseiras de cristais e pedras energéticas que começou por comprar apenas pela estética. Porém, com o passar do tempo aqueles objetos ganharam outro significado. Antes de sair para mais um dia de consultas e tratamentos, aproximava-se da cómoda, passava os dedos pelas pedras e "procurava ali uma espécie de força”, admite.
Celeste segura pulseiras de cristais antes de mais um dia de tratamentos. Ilustração: Tânia Costa.
Celeste segura pulseiras de cristais antes de mais um dia de tratamentos. Ilustração: Tânia Costa.
Celeste segura pulseiras de cristais antes de mais um dia de tratamentos. Ilustração: Tânia Costa.
Celeste segura pulseiras de cristais antes de mais um dia de tratamentos. Ilustração: Tânia Costa.
“São crenças, mas sinto que me chamam. Parece estranho dizer isto, mas não sei bem como explicar, é algo que se sente.”
O diagnóstico apareceu numa fase particularmente difícil da sua vida. Celeste enfrentava “um divórcio complicado, com dois menores a cargo” quando descobriu a doença. “Ainda não tinha feito um ano e comecei a recorrer ao Reiki porque precisava de me encontrar comigo mesma para suportar certos pesos”, desabafa.
Durante meses, enfrentou praticamente sozinha o processo da doença. Nesse período, afirma que as pulseiras de cristais faziam-na não se sentir “tão sozinha”. “A gente vê energia nas pedras, como também vê a esperança num crucifixo, ou na igreja. É uma coisa que não se vê, porque se sente”, conclui. A história de Celeste cruza-se com a de muitos outros que encontram no Reiki uma forma de conforto emocional e amparo em momentos de maior fragilidade.
Reiki na Medicina Tradicional
Ilustração que representa os 114 anos de história do Reiki, gerada por inteligência artificial a partir de uma investigação e de um prompt elaborados por Tânia Costa.
Ilustração que representa os 114 anos de história do Reiki, gerada por inteligência artificial a partir de uma investigação e de um prompt elaborados por Tânia Costa.
Ana Duarte , terapeuta de Reiki no espaço Om Mimi. Imagem: Tânia Costa
Ana Duarte , terapeuta de Reiki no espaço Om Mimi. Imagem: Tânia Costa
Ana Duarte, de 51 anos, terapeuta de Reiki em Penafiel, descreve a prática como “uma troca energética entre o terapeuta e o paciente”. Apesar de não existir comprovação científica sobre os seus efeitos terapêuticos, muitas pessoas associam o Reiki a sensações de “bem-estar, tranquilidade e redução da ansiedade”. Segundo a terapeuta, antes da sessão existe um momento de partilha e avaliação, a que chama “radiestesia”, que procura identificar possíveis bloqueios emocionais. “A maior parte das pessoas traz emoções da barriga da mãe que depois se manifestam ao longo da vida”, explica.
Celeste é uma das participantes das terapias de grupo. Segundo a terapeuta e a própria cliente, este é um momento que permite viajar até ao “espaço mais profundo da mente”. No entanto, se por um lado estas práticas são encaradas como uma forma de apoio emocional e de autoconhecimento, por outro são também vistas como uma atividade lúdico-terapêutica.
No Instituto Português de Oncologia do Porto (IPO), o contacto com práticas de terapias não-convencionais, como o Reiki, surge integrado num espaço de apoio emocional destinado a doentes oncológicos e às suas famílias. “Até mais ou menos 2020, em termos de intervenção psicológica no IPO, só havia quatro psicólogas e não havia forma de contratação pública de outros recursos”, refere Patrícia Oliveira, de 42 anos, uma das psicólogas da equipa de apoio psicossocial da instituição.
Foi precisamente durante esse período que surgiu uma parceria entre o IPO e a Fundação La Caixa, através do Projeto Humaniza, que disponibiliza apoio psicológico, social e espiritual a pessoas em situação de doença complexa, avançada ou em fim de vida. Esta iniciativa inspira-se em modelos já implementados em Espanha, onde práticas lúdico-terapêuticas têm vindo a ser cada vez mais integradas. “Foi nesse contexto que nasceu o protocolo com a Associação Portuguesa de Reiki Essencial”, conta a psicóloga clínica.
Segundo Conceição Pereira, de 55 anos, da direção da Associação Portuguesa de Reiki Essencial (APRE), “o projeto envolve atualmente cerca de dez voluntários e chega a aproximadamente 70 pessoas, entre doentes, familiares e profissionais de saúde da instituição. As sessões decorrem de forma bissemanal e cada voluntário cumpre, em média, um turno de quatro a cinco horas por dia.”
A responsável sublinha ainda que os voluntários não são escolhidos de forma aleatória. “Muitos possuem formação ou experiência na área da saúde e todos são Mestres de Reiki certificados, com formação reconhecida pela DGERT. E ainda realizam um percurso formativo específico para atingir o nível técnico exigido pelo protocolo estabelecido com o IPO."
Segundo Patrícia, quem participa nas sessões descreve frequentemente a experiência como um momento de profundo relaxamento, tranquilidade e alívio emocional. Muitos relatam sentir-se mais leves e serenos após a atividade. A própria prática é também utilizada por profissionais como uma forma de lidar melhor com o stress e as exigências do dia a dia no trabalho.
Logótipo da Associação Portuguesa de Reiki Essencial. Fonte: Associação Portuguesa de Reiki Essencial. Ilustração: Tânia Costa
Logótipo da Associação Portuguesa de Reiki Essencial. Fonte: Associação Portuguesa de Reiki Essencial. Ilustração: Tânia Costa
Transmissão de energia associada à prática do Reiki. Ilustração: Tânia Costa.
Transmissão de energia associada à prática do Reiki. Ilustração: Tânia Costa.
Contudo, a psicóloga também não nega os problemas que práticas como estas podem ter quando lidam com a vulnerabilidade humana. Segundo explica, quando as pessoas se encontram em situações de grande fragilidade podem surgir diversas respostas emocionais. “Se eles vão tocar em assuntos altamente difíceis e depois não os conseguem gerir, não conseguem voltar a pôr a pessoa num ponto de equilíbrio, podem estar efetivamente a fazer mal àquela pessoa”. É neste contexto que defende a importância da psicologia e de métodos centrados em estudos científicos para lidar com as emoções humanas e apoiar as pessoas de forma segura. “Eu tenho competências e capacidade para ajudar as pessoas nesse sentido, os terapeutas de Reiki não”, termina.
O Esoterismo nas Redes Sociais
Ilustração que representa a história e a evolução do tarot, gerada por inteligência artificial a partir de uma investigação e prompt elaborado por Tânia Costa.
Ilustração que representa a história e a evolução do tarot, gerada por inteligência artificial a partir de uma investigação e prompt elaborado por Tânia Costa.
Assim como o Reiki, práticas como o Tarot têm crescido. Natasha Mirra, de 35 anos, antropóloga do Centro em Rede de Investigação em Antropologia (CRIA), defende que o esoterismo tem vindo a ganhar cada vez mais espaço na sociedade contemporânea. Segundo a investigadora, “nos últimos anos, o esoterismo cresceu e estendeu-se a praticamente todos os campos simbólicos como o religioso, artístico, cultural e científico."
Nas redes sociais multiplicam-se vídeos sobre signos, energias, leituras de Tarot ou conteúdos ligados à chamada “bruxaria moderna”. Contudo, esta crescente popularidade traz também alguns riscos associados.
Registo em vídeo de lives de Tarot no TikTok, onde os criadores de conteúdo respondem a perguntas dos utilizadores em tempo real.
Registo em vídeo de lives de Tarot no TikTok, onde os criadores de conteúdo respondem a perguntas dos utilizadores em tempo real.
Para Renata Ribeiro, de 32 anos, terapeuta espiritual responsável pelo espaço Laroyê, em Vila Nova de Famalicão, a partilha excessiva de dados pessoais levanta questões relacionadas com a privacidade dos utilizadores. “O nome e a data de nascimento são informações importantes para estas práticas, mas não devem ser partilhadas de ânimo leve com qualquer pessoa nem expostas nas redes sociais”, sublinha. A terapeuta lembra ainda que foi durante a pandemia da Covid-19 que sentiu um aumento da procura por este tipo de terapias. "As pessoas começaram a recorrer mais. Não sei se era por passarem mais tempo em casa, por estarem mais aborrecidas ou por não saberem muito bem o que fazer."
A realidade é que as redes sociais tornaram mais fácil a divulgação deste tipo de práticas. Diogo Leal, de 23 anos, também terapeuta espiritual no estabelecimento Magia da Lua, em Penafiel, considera que estas plataformas desempenham um papel importante na forma como os profissionais dão a conhecer o seu trabalho, conquistam a confiança de potenciais clientes e constroem a sua reputação. Segundo explica, a presença online permite que as pessoas conheçam melhor os serviços disponibilizados antes mesmo de entrarem em contacto. “Com as redes sociais, já há posts e informação toda detalhada para quem for procurar”, afirma.
No entanto, apesar da crescente influência das redes sociais, os dados recolhidos no questionário realizado no âmbito desta reportagem mostram que cerca de 70% dos inquiridos referiram que conheceram estas práticas através de familiares ou amigos, enquanto 35% apontaram as redes sociais como porta de entrada.
O inquérito, que reuniu cerca de 130 participantes anónimos, dos quais 72% são mulheres e 28% homens, provenientes de 15 distritos do país, revela também que estas práticas estão cada vez mais presentes e normalizadas no quotidiano dos portugueses. À pergunta sobre se alguma vez tinham recorrido a práticas esotéricas, os resultados dividiram-se quase ao meio: 49,6% responderam que sim, enquanto 50,4% afirmaram nunca o ter feito. Ainda assim, entre quem já procurou este tipo de experiências, o Tarot destacou-se de forma clara.
Cerca de 71,2% dos inquiridos disseram já ter recorrido a leituras de Tarot, tornando-o na prática mais procurada dentro da amostra analisada. As razões apontadas para recorrer a este tipo de práticas vão, em grande medida, ao encontro daquilo que especialistas e terapeutas têm vindo a identificar: a procura de respostas, orientação e conforto perante situações de incerteza ou dificuldade.
O Peso do Preconceito
Apesar da facilidade com que hoje estas práticas circulam nas redes sociais e chegam a novos públicos, os preconceitos continuam profundamente enraizados. Renata e Diogo admitem que o Tarot ainda desperta desconfiança e continua frequentemente associado a manipulação ou burla. Mas, mais do que as próprias práticas, é também o peso histórico das palavras que persiste. A figura de “bruxa”, por exemplo, continua automaticamente ligada a este tipo de terapias e traz consigo uma herança de medo e incompreensão que ainda influencia a forma como muitas pessoas olham para este universo.
Em Portugal, a relação com a bruxaria foi marcada, ao longo dos séculos, pelo medo, pela repressão religiosa e pelo estigma social. Como explica a antropóloga Natasha Mirra, “o estereótipo negativo da palavra ‘bruxa’ está profundamente ligado ao período da Inquisição e à forma como estas práticas foram condenadas pela Igreja. Isso interliga-se com as práticas atuais de feitiçaria”. Durante cerca de 300 anos, a Inquisição foi uma das instituições mais temidas no país e, a partir de 1536, tudo o que estivesse associado à adivinhação ou ao curandeirismo passou a ser visto como “sortilégios heréticos” e sujeito a punições. No livro Bruxaria e Superstição: num país sem caça às bruxas, o historiador José Pedro Paiva mostra que, entre 1600 e 1774, cerca de 818 pessoas foram sentenciadas e 80% das penas aplicadas estavam ligadas ao exílio.
A caça às bruxas marcou durante séculos a história da Igreja e deixou marcas profundas. Como reflexo desse passado, quase 500 anos depois do início da Inquisição em Portugal, a 7 de março de 2000, o Papa João Paulo II, na Basílica de São Pedro pediu perdão pelos erros cometidos pela Igreja, incluindo os abusos associados à Inquisição. No entanto, apesar desse gesto poder parecer uma possível mudança de postura, a visão da Igreja Católica sobre as práticas esotéricas continua a ser maioritariamente crítica. O padre Sérgio, de 40 anos, das paróquias de Anta e Guetim, clarifica que a principal diferença em relação ao passado está sobretudo na forma como hoje o tema pode ser discutido. “Hoje somos, se calhar, capazes de nos sentar à mesa e dialogar sobre o assunto”, afirma.
Ainda assim, destaca que a visão cristã continua distante da lógica associada às terapias holísticas. “Nas práticas esotéricas o futuro pode estar escrito na mão, nas estrelas, no horóscopo ou numa energia. Para nós cristãos é bem diferente. Nós somos filhos de um Deus que nos criou livres e somos nós que construímos esse caminho. Deus conduz a história, aponta o caminho, mas cada um é livre de construir o seu e é aí que a fé e a superstição se tornam incompativeis."
Padre Sérgio Leal no seu escritório na Universidade Católica Portuguesa do Porto. Imagem: Tânia Costa
Padre Sérgio Leal no seu escritório na Universidade Católica Portuguesa do Porto. Imagem: Tânia Costa
Esta visão da Igreja torna-se ainda mais controversa quando muitos dos praticantes destas áreas se assumem como católicos. É o caso de Fernando Nogueira, mais conhecido como o “Bruxo de Fafe”, que trabalha há mais de 35 anos ligado ao universo esotérico e rejeita a ideia de incompatibilidade entre fé e esoterismo. “Nós católicos não temos culpa da má governação do Vaticano”, afirma.
O bruxo garante já ter ajudado centenas de pessoas ao longo da vida e critica a forma como a bruxaria continua associada ao mal ou ao perigo pela Igreja Católica. “A minha religião foi das que mais matou”, diz, referindo-se à perseguição histórica promovida durante séculos.
O Dom nasce com a pessoa
Dentro deste universo, essa é uma fronteira difícil de definir. Entre os praticantes com quem falámos, a ideia surge quase sempre como uma certeza: o dom nasce com a pessoa. “Nós nascemos com ela”, dizem. Ainda assim, acreditam que essa sensibilidade espiritual não basta por si só e precisa de ser compreendida, desenvolvida e trabalhada ao longo da vida.
Joana Carneiro, de 22 anos, convive com este lado espiritual desde muito pequena. Conta que vê espíritos desde os quatro anos e que, durante grande parte da infância, não conseguia perceber nem explicar aquilo que via, algo que chegou a assustar alguns familiares. Mas, com o passar do tempo, começou a olhar para essas experiências de forma mais natural e decidiu explorar melhor esse universo. Aprendeu sozinha a ler cartas de Tarot, através de livros e de conteúdos que encontrava online.
Todavia, esta ideia de aprendizagem e aprofundamento do “dom” através de cursos ou formações está longe de reunir consenso. Fernando Nogueira, por exemplo, rejeita completamente essa possibilidade e tem uma posição muito vincada sobre o tema. “Não há cursos de esoterismo”, garante.
É precisamente por causa destas diferenças de visão que Fernando Nogueira assume uma posição crítica em relação a outras áreas do universo espiritual. “Os reikianos e os cartomantes são tudo charlatões que se apoderam da fraqueza, do psicológico e do espiritual das pessoas para lhes extorquir dinheiro”, frisa firmemente.
Por outro lado, os terapeutas holísticos rejeitam esta visão mais generalista e recusam colocar todos os praticantes no mesmo plano. Ainda assim, não ignoram a realidade das burlas e falta de regulação da área.
Um Mercado sem Regulação
A ausência de supervisão levanta dúvidas sobre a proteção dos consumidores. Num artigo da Ordem dos Psicólogos Portugueses intitulado "A Pseudociência na Área da Saúde Psicológica", os autores chamam a atenção para esse problema. "A inexistência de regulação legal para a maior parte destas terapias levanta a possibilidade de não poder haver uma responsabilização em casos de más práticas, representando mais uma ameaça e riscos para os cidadãos e cidadãs."
Na prática, esta falta de controlo abre espaço a situações difíceis de fiscalizar. Carolina Ferreira, de 49 anos, cartomante e proprietária da empresa Carpefer, em Santo Tirso, admite que o crescimento deste universo no digital trouxe consigo um aumento significativo de esquemas, sobretudo durante a pandemia.
Segundo explica, muitas destas abordagens começam de forma aparentemente inocente, através de perguntas simples feitas durante transmissões em direto nas redes sociais. Aos poucos, a conversa passa para o privado e transforma-se em pedidos de dinheiro acompanhados por promessas de resolução de problemas pessoais. O problema, refere, é que no digital “nós nunca sabemos bem quem está do outro lado”.
Carolina Ferreira dedica-se à cartomancia e à produção de artigos esotéricos. Imagem: Tânia Costa
Carolina Ferreira dedica-se à cartomancia e à produção de artigos esotéricos. Imagem: Tânia Costa
Ainda assim, muitas pessoas acabam por cair nestas situações porque recorrem a estas práticas em momentos particularmente delicados das suas vidas. “Quem recorre é porque alguma coisa não está bem, é porque precisa.”
A relação entre vulnerabilidade e procura de respostas não é nova. Segundo o artigo “30% of Americans Consult Astrology, Tarot Cards or Fortune Tellers”, publicado pelo Pew Research Center em 2025 e assinado pelo investigador Chip Rotolo, é nos momentos de maior incerteza e vulnerabilidade que muitas pessoas tendem a procurar sinais, respostas e significados para compreender melhor aquilo que estão a viver. Como refere o texto, “é o que acontece quando um desconhecido no TikTok diz a um milhão de espectadores que aquele vídeo estava ‘destinado’ a encontrá-los e muitos deles, apesar de terem uma vaga noção de como funcionam os algoritmos de recomendação, interpretam isso como um sinal de que forças sobrenaturais estão em ação.”
Apesar de o fenómeno parecer cada vez mais visível, continua a ser difícil perceber a sua real dimensão. A escassez de investigação sobre o tema é uma das razões apontadas por Tiago Ramalho, de 31 anos, que trabalha como jornalista de ciência no Público. “Este não é um tema muito discutido”, constata. O jornalista explica que, ao rever a literatura científica sobre pseudociências, encontrou sobretudo estudos publicados até 2013 ou 2014. “Em Portugal não existe quase nada. Há alguns trabalhos feitos na região da Grande Lisboa, mas são poucos”, acrescenta. Um dos trabalhos mais recentes de que tem conhecimento é da autoria de Boris Gershman, da American University. Publicado em 2022 na revista PLOS ONE, o estudo analisou respostas de mais de 140 mil indivíduos em 95 países e “mostrava que, em Portugal, cerca de metade das pessoas acreditava em bruxaria e nesse tipo de fenómenos”.
Tiago Ramalho, jornalista da secção de Ciência do Público. Imagem: Tânia Costa
Tiago Ramalho, jornalista da secção de Ciência do Público. Imagem: Tânia Costa
Para Tiago, a questão não está necessariamente na crença, mas no que pode acontecer quando estas práticas substituem respostas sustentadas pela ciência ou pela medicina convencional. “Quando começas a utilizar um certo tipo de práticas pseudocientíficas, seja Reiki, seja também este tipo de feitiços e bruxarias, acabas por descurar um bocadinho o tradicional ou a medicina”, alerta.
A falta de estudos é acompanhada por outra dificuldade: a inexistência de um enquadramento claro para estas atividades. Apesar do crescimento do setor, continua a ser difícil perceber a sua verdadeira dimensão em Portugal, uma vez que as formas de registo e classificação variam.
Fernando Nogueira garante que, aos “olhos do Estado”, a sua atividade está enquadrada na área da parapsicologia. “Foi assim que eu sempre descontei, foi assim que eu paguei os meus impostos nas Finanças”, afirma. Ainda assim, rejeita essa designação: “Mas eu não sou parapsicólogo, sou bruxo.”
A utilização deste termo é vista com reservas por Ana Isabel Ferreira, membro da Direção da Delegação Regional Norte da Ordem dos Psicólogos Portugueses, que considera a associação entre psicologia e parapsicologia prejudicial para a profissão. Segundo explica, a psicologia nem sempre foi compreendida de forma objetiva e, durante muito tempo, foi associada a ideias de mistério ou até de magia. “A psicologia é baseada em investigação, em pesquisa, num corpo científico consistente que nos permite compreender como funcionam os fenómenos psicológicos, o comportamento e as relações humanas”, sublinha.
Ana Isabel Ferreira, psicóloga clínica e educacional. Imagem: Instagram (@isabellage.psi)
Ana Isabel Ferreira, psicóloga clínica e educacional. Imagem: Instagram (@isabellage.psi)
Também Diogo Leal reconhece que existe alguma indefinição quanto à classificação destas atividades. “Sinceramente, em Portugal esta área ainda não tem um enquadramento totalmente específico ou fechado a nível estatístico e profissional, por isso existe mesmo alguma confusão nesse tema”, explica.
No seu caso, a atividade está enquadrada na área da prestação de serviços ligados ao bem-estar e ao desenvolvimento pessoal. Assim, embora muitas pessoas associem estas práticas ao universo esotérico, o enquadramento oficial tende a aproximá-las de atividades de aconselhamento e desenvolvimento pessoal.
Desta forma, num setor que continua a crescer e a atrair milhares de pessoas, a ausência de dados concretos, de investigação aprofundada e de uma regulação específica dificulta a avaliação do seu verdadeiro impacto. Assim continuam por esclarecer os limites e as responsabilidades associados a este tipo de atividades.
Quanto custa acreditar?
Velas com orações numa estante da fábrica Carpefer. Imagem: Tânia Costa
Velas com orações numa estante da fábrica Carpefer. Imagem: Tânia Costa
Velas com mechas vermelha comercializadas para rituais amorosos. Imagem: Tânia Costa
Velas com mechas vermelha comercializadas para rituais amorosos. Imagem: Tânia Costa
Caixas de velas sem orações armazenadas no armazém da Carpefer. Imagem: Tânia Costa
Caixas de velas sem orações armazenadas no armazém da Carpefer. Imagem: Tânia Costa
O mercado esotérico não vive apenas das consultas. A venda de produtos é também uma parte importante deste universo. Entre incensos, cristais, velas, sabonetes e outros artigos, existe uma vasta oferta destinada a diferentes necessidades e intenções.
Segundo Carolina Ferreira, proprietária da empresa Carpefer, cada produto tem uma finalidade específica e, por isso, os preços podem variar consideravelmente. As velas são um dos exemplos mais evidentes. “Cada vela é utilizada para um fim diferente”, explica. Dependendo do objetivo pretendido, da preparação envolvida ou dos materiais utilizados, o valor final pode ser mais elevado. “ Uma vela sem oração, sem nada, a pessoa pega a vela e só acende a vela. Com oração, já tem um propósito e um óleozinho para meter na vela”.
Assim, a empresária sublinha ainda que comparar preços entre diferentes produtos esotéricos nem sempre é fácil, uma vez que os materiais utilizados variam significativamente. Enquanto uma vela requer parafina, corantes e outros componentes, um perfume espiritual utiliza matérias-primas distintas, como essências e diluentes.
“Os preços são diferentes porque os componentes também o são. Se o preço do petróleo aumenta, por exemplo, isso reflete-se no custo da parafina e, consequentemente, no preço das velas”, refere.
No site da empresa é possível encontrar produtos que vão desde sabonetes e fluídos esotéricos, vendidos por cerca de 25 euros, até velas e rituais específicos que podem custar entre 45 e 100 euros. Há ainda defumações destinadas a diferentes objetivos, como amor, saúde, proteção ou prosperidade, comercializadas por cerca de 40 euros. Já na loja online Pura Magia, por exemplo, é possível encontrar artigos como incensos e conjuntos de velas perfumadas por cerca de três euros, mas também kits de relaxamento, difusores, cristais e produtos de autocuidado que ultrapassam os 30 euros.
Alguns produtos vendidos no site online da "Carpefer".
Alguns produtos vendidos no site online da "Carpefer".
Essas diferenças de preços também são visíveis quando se trata de consultas. Os valores podem variar consideravelmente consoante a experiência do profissional e a duração da sessão.
Em Portugal, uma consulta de Tarot custa, em média, entre 15 e 80 euros, podendo ultrapassar os 100 euros no caso de profissionais mais reconhecidos. Já as sessões de Reiki situam-se habitualmente entre os 25 e os 80 euros. Os preços variam ainda de acordo com o formato escolhido, sendo que as consultas online tendem, por vezes, a ser mais acessíveis.
Uma lógica que Diogo Leal vê com alguma estranheza. Para o terapeuta, o facto de uma consulta decorrer à distância não altera a experiência nem o trabalho realizado durante a sessão. Na sua perspetiva, o tempo investido é o mesmo e a ligação estabelecida com o cliente não depende da presença física. “A troca é a mesma coisa. Estás a falar com a pessoa, seja online ou presencialmente. O que muda é apenas a forma de comunicação. O tempo é igual e a energia é constante. Por isso, não faz sentido para mim haver uma mudança de preço.”
Já na bruxaria, os preços podem ser mais flexíveis. Em muitas situações, cabe ao próprio cliente decidir quanto pretende pagar pelo serviço.
Infografia sobre os preços das terapias holísticas. Elaboração: Beatriz Ferreira, com recurso à plataforma Canva.
Infografia sobre os preços das terapias holísticas. Elaboração: Beatriz Ferreira, com recurso à plataforma Canva.
Infografia sobre os preços das terapias holísticas. Elaboração: Beatriz Ferreira, com recurso à plataforma Canva.
Infografia sobre os preços das terapias holísticas. Elaboração: Beatriz Ferreira, com recurso à plataforma Canva.
Todavia, para os mais céticos, os valores praticados neste mercado levantam várias questões. João Carvalho, de 21 anos e estudante de Ciências da Comunicação, considera que muitos dos preços cobrados são excessivos, sobretudo tendo em conta a ausência de qualificações reconhecidas ou de validação científica associada a estas práticas.
João Carvalho. Imagem: Tânia Costa
João Carvalho. Imagem: Tânia Costa
“Não sei que tipo de credenciais é que essas pessoas têm para a sua palavra valer dezenas ou centenas de euros”, afirma. Na sua perspetiva, existe uma forte componente comercial associada a este universo. “Sinto mesmo que estão só a aproveitar-se daquilo para fazer um negócio e para vender uma solução sagrada”, acrescenta.
Uma preocupação partilhada por Tiago Ramalho. O jornalista alerta que o recurso a este tipo de práticas pode levar algumas pessoas a investir quantias significativas em serviços cuja eficácia não está cientificamente comprovada. Na sua perspetiva, um dos principais problemas é precisamente o facto de se gastar dinheiro “em coisas que não vão fazer nada”.
Assim, enquanto para uns estas práticas representam uma forma legítima de desenvolvimento pessoal e procura de respostas, para outros levantam dúvidas sobre a eficácia dos serviços prestados e os valores cobrados.
As autoras:
Beatriz Ferreira
Sou finalista da Licenciatura em Ciências da Comunicação e, desde cedo, desenvolvi uma paixão genuína pela área. Vejo a comunicação como um elemento essencial em todas as dimensões da vida.
Tânia Costa
Sou uma jovem criativa, curiosa e comunicativa. Decidi seguir a área do jornalismo pelo fascínio que tenho em contar as histórias das pessoas e dar voz a diferentes realidades.






