A trajetória de vida
pode influenciar os resultados do tratamento de mulheres usuárias de cocaína-crack no SUS
Trajetória de vida, desde vivências da juventude, familiares e sociais, impactam o sucesso ou insucesso do tratamento de mulheres em programa de desintoxicação do SUS.
Saúde Mental da Mulher
A sociedade progrediu e está mais aberta e receptiva para questões de saúde mental. Mas, o estigma de ter um problema psicológico ainda dificulta que a pessoa procure ajuda.
O gênero é muito importante na saúde mental. Ele pode influenciar no risco de ter problemas psicológicos e no tratamento destes problemas.
Fatores da trajetória de vida das mulheres podem influenciar no tratamento de problemas relacionados ao uso de drogas.
A seguir vamos ver como....
Existem diferenças entre homens e mulheres no risco para desenvolver problemas com álcool e drogas ilícitas, assim como na evolução do tratamento.
O que precisamos conhecer sobre os dados mundiais e nacionais de consumo de substâncias psicoativas?
O uso problemático de substâncias psicoativas como o álcool, maconha, cocaína e outras, é um problema de saúde pública mundial. Estima-se que até 2030 a prevalência de consumo de substâncias psicoativas tende a mudar drasticamente dependendo da classificação socioeconômica de cada país.
Por exemplo, estima-se um aumento no consumo de drogas nos países de baixo e médio nível socioeconômico, ao passo que uma redução no consumo em países de alto nível socioeconômico é estimada.
Em 2019, dados indicam que 275 milhões de pessoas em todo o mundo com idades entre 15 e 64 anos, ou 1 em cada 18 pessoas nessa faixa etária, usaram drogas pelo menos uma vez na vida. Isso corresponde a 5,5% da população global de 15 a 64 anos.
Entre os usuários de qualquer droga, estima-se que aproximadamente 36,3 milhões, ou quase 13%, sofram de transtornos por uso de substâncias, o que significa que seu uso de drogas é prejudicial a saúde física e mental, indicando necessidade de tratamento. Isso corresponde a uma prevalência de 0,7-1,0% entre a população de 15 a 64 anos no mundo.
Particularmente sobre a cocaína/crack, a produção global dobrou entre 2014 e 2019.
O Brasil é o 3° país com maiores taxas de apreensão de cocaína no mundo e é o maior mercado da droga na américa do sul. A cocaína é a segunda substância ilícita mais usada no Brasil, atrás somente da maconha.
Em 2015, dados indicam que 4% dos brasileiros já experimentaram cocaína/crack, ao passo que 1.2% dos brasileiros reportou uso durante o último ano.
Nesse sentido, o uso problemático de cocaína/crack é um grave problema de saúde pública no Brasil. Dados indicam que após substâncias lícitas como o álcool e tabaco, a busca por tratamento decorrente de problemas com uso de cocaína/crack é a maior dentre as substâncias ilícitas no Sistema Único de Saúde (SUS).
Como um todo, no Brasil o consumo de crack aumenta a cada ano e o alerta é que entre as mulheres o uso aumenta, percentualmente, mais que entre os homens.
· A cocaína é uma substância com alto potencial de adição.
· Fumar cocaína (“crack”) atinge concentração e efeito máximo muito mais rapidamente do que pela via intranasal (“cheirar”).
· Fumar crack está associado a consequências mais graves a saúde.
· O crack é obtido a partir da mistura da pasta-base de coca ou cocaína refinada, com bicarbonato de sódio e água. Além disso, por ser produzido de maneira clandestina, pode conter outros tipos de substâncias tóxicas: cimento, querosene, ácido sulfúrico, acetona, amônia e soda cáustica.
Transtorno por Uso de Substâncias
Mas afinal, o que é um transtorno por uso de cocaína/crack?
Uma doença descreve um conjunto de mudanças substanciais e deteriorantes na estrutura ou função do corpo humano, e a deterioração concomitante no funcionamento biopsicossocial. Entre as pessoas que usam drogas lícitas ou ilícitas, algumas progridem para o uso com uma quantidade e frequência que resulta em função prejudicada e até óbito, ou seja, uma condição clínica reconhecida como transtorno por uso de substâncias.
De modo geral, os transtornos por uso de substâncias envolvem padrões de comportamento em que as pessoas continuam a usar a substância apesar dos problemas causados pelo seu uso. Os critérios do transtorno estão divididos em quatro categorias:
• A pessoa não consegue controlar o uso da substância;
• A capacidade da pessoa de cumprir com suas obrigações sociais é prejudicada pelo uso da substância;
• A pessoa usa a substância em situações perigosas;
• A pessoa mostra sinais físicos de dependência.
Sobre o último item, salienta-se a tolerância: A pessoa precisa usar uma quantidade cada vez maior da substância para sentir o efeito desejado; e a abstinência: sofrimento físico e mental que ocorre quando o uso e efeito da substância diminuiu ou é interrompido.
Atualmente, os termos “vício”, “abuso” e “dependência” não são mais recomendados para designar pessoas com transtornos por uso de substâncias. Hoje somente temos indicadores leve, moderado e grave.
Para pessoas com transtornos por uso de substâncias, a disponibilidade e o acesso a serviços de tratamento permanecem limitadas em nível global: apenas uma em cada oito pessoas com transtornos por uso de substâncias recebe tratamento a cada ano.
Esses números são ainda menores entre mulheres.
Assim, precisamos estudar o que influencia o sucesso ou insucesso no tratamento de mulheres com transtorno por uso de cocaína-crack.
Nesta pesquisa acompanhamos mulheres em tratamento hospitalar para desintoxicação
A desintoxicação é uma abordagem de tratamento de internação hospitalar, para casos mais graves do transtorno por uso de substâncias. É uma possibilidade de tratamento no SUS.
Nós realizamos nossa pesquisa em uma unidade feminina que oferece um programa de tratamento de desintoxicação de 21 dias, incluindo um acompanhamento de assistência multiprofissional, com profissionais da área da medicina, psicologia e enfermagem. As pacientes referenciadas para desintoxicação necessitam o mais rápido possível de tratamento para evitar as inúmeras possíveis consequências negativas associadas ao uso de substâncias. Ao mesmo tempo em que incentiva-se o desenvolvimento da aliança terapêutica para promover a continuidade do tratamento a longo-prazo nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) do SUS.
No nosso estudo, estimamos “sucesso” e “insucesso” do tratamento em relação ao manejo da síndrome de abstinência antes da alta hospitalar.
Pacientes com elevada síndrome de abstinência (sintomas representados na ilustração à direita) apresentam muito sofrimento na ausência dos efeitos da droga, gerando alto risco para recaídas, ou seja, recomeço do comportamento de uso de drogas após tratamento. Por outro lado, pacientes com menor síndrome de abstinência possuem maiores chances de continuidade do tratamento nos CAPS-AD e de adesão ao plano terapêutico proposto.
Para isso, entrevistamos mais de 400 mulheres internadas em um programa de desintoxicação, avaliando diversos fatores da trajetória de vida individual de cada uma. Conversamos sobre questões desde a infância, até adolescência e vida adulta.
Antes da alta, avaliamos a síndrome de abstinência, buscando encontrar vivências e experiências em comum que pudessem nos ajudar a entender aquelas mulheres que deixam o tratamento com mais ou menos sintomas.
O que descobrimos?
Primeiro, observamos que nas mulheres o crack é a última substância psicoativa a ser experimentada em geral. Anteriormente, elas já tiveram experiências com o uso de álcool, maconha, cocaína e outras substâncias na adolescência. Em sua grande maioria, os relatos indicaram a busca pelo primeiro tratamento após problemas sérios com o consumo de crack.
Também observamos que muitas destas mulheres relatam terem sido vítimas de violência e outras experiências adversas, desde a infância. Frequentes relatos de abuso sexual infantil demonstram que a trajetória de vida dessas mulheres é cercada de vulnerabilidades psicossociais desde o início do desenvolvimento. Muito antes de qualquer problema relacionado ao uso de drogas, em especial do crack.
Buscamos investigar se estas e outras experiências poderiam estar relacionadas com a gravidade da síndrome de abstinência antes da alta da desintoxicação.
Após analisar mais de 250 indicadores de experiências de vida e trajetória individual de cada mulher, identificamos os mais fortemente associados ao "insucesso" no tratamento de desintoxicação...
Nossas análises demonstraram que quanto maiores são estes indicadores, maiores são as chances da paciente apresentar alta síndrome de abstinência no final da desintoxicação.
Em contrapartida...
Estas experiências foram menos frequentes nos relatos daquelas mulheres cujos sintomas de abstinência da cocaína-crack diminuíram significativamente até a alta do tratamento.
Exemplo: menores sintomas de abstinência nas mulheres que não relataram história de negligência infantil por parte dos cuidadores (cor azul), em comparação aquelas que relataram tal histórico (cor vermelha). Observamos a repercussão dessas experiências no tratamento clínico.
Trajetória de vulnerabilidade impacta resultado de tratamento do SUS
Observamos que experiências desde a infância e adolescência repercutem tanto no risco de desenvolvimento de problemas com uso de drogas, assim como em aspectos importantes do tratamento.
Além das drogas, como maconha, álcool e crack, fatores individuais como exposição severa a maus-tratos na infância e problemas psiquiátricos prévios, são relevantes no desfecho do tratamento.
Considerar a avaliação destes fatores de vulnerabilidade pode ajudar a identificar mulheres que irão apresentar maior dificuldade no manejo da síndrome de abstinência da cocaína-crack durante a desintoxicação.
Implicações da pesquisa
O manejo dos sintomas de abstinência é um importante indicador no tratamento do transtorno por uso de substâncias lícitas ou ilícitas. Observamos que na alta do tratamento de desintoxicação do SUS, existe uma grande variabilidade na gravidade dos sintomas de abstinência de cocaína-crack. Determinar fatores que podem ajudar a identificar pessoas que são mais propensas a ter sintomas de abstinência fortes e duradouros, pode ajudar a informar planos de tratamento mais precisos que levem em consideração as trajetórias individuais do histórico psicossocial e de uso de drogas do paciente.
Nossos achados tornam-se ainda mais relevantes no contexto da carência de estudos focados no tratamento de mulheres com transtorno por uso de cocaína/crack. Estas representam um grupo de extrema vulnerabilidade e invisibilidade na nossa sociedade. Políticas de saúde pública de prevenção, direcionadas aos fatores que encontramos no estudo e para a saúde mental feminina devem ser cada vez mais instigadas.
Nossos resultados também são promissores no sentido da implementação da avaliação dos fatores revelados, que podem auxiliar no desenvolvimento de planos de tratamento embasados na história de vida de cada mulher. Demonstramos que experiências desde a infância podem ser muito relevantes para a evolução do tratamento dessas mulheres no SUS, abrindo uma janela de oportunidade para estudos futuros e intervenções que considerem tal histórico.
Financiadores
Fundação Bill e Melinda Gates
Ministério da Saúde
CNPq
FAPERGS
Colaboradores
Associação Educadora São Carlos (AESC)