A vida ao lado dos bares da UMinho
Nas noites de quarta, sexta e sábado, os arredores do campus de Gualtar, da Universidade do Minho, ganham vida. O relógio passa da meia-noite e, em vez de silêncio, as ruas enchem-se de estudantes – e não só – em busca de companheirismo, diversão e uma boa saída à noite. Nos bares, a música sobe, algo completamente normal em ambientes académicos. Porém, em Braga regista-se um conflito complexo entre quem procura festejar e os moradores que, separados por poucos andares, fecham as suas janelas e aguardam os despertadores que vão tocar dali a poucas horas.
Esta dualidade origina queixas recorrentes relacionadas ao consumo excessivo de álcool, violência, lixo, tráfico e consumo de droga e, sobretudo, o barulho. Como é que a realidade das ruas do Largo Miguel Paio e da Praceta do Vilar afeta a vida dos moradores e dos estudantes? Onde está o equilíbrio entre a diversão e o respeito por quem aqui vive? É nessa linha fina, pisada todas as semanas entre balcões cheios e chamadas para a polícia, que traçamos este dilema.
Para compreender a situação, precisamos de ouvir a perspectiva de quem aqui convive, mora e trabalha. Como é que se garante um local seguro e tranquilo, sem condicionar as noites inesquecíveis? A situação requer um olhar objetivo, que tenha em conta todas as camadas e que desmistifique preconceitos.
Para muitos o dia já acabou, para a academia a noite ainda é jovem. A multidão divide-se entre os “bares de baixo” e os “bares de cima”. Alguns copos e garrafas foram abandonados no chão, em janelas, escadas… cantos onde “não incomodam”. A música que escapa do interior dos estabelecimentos mistura-se às portas, abafada pela conversa cá fora. Esta é a realidade das quartas académicas, melhor explicada por quem sabe do que fala.
As duas realidades sobrepõem-se para os estudantes que encontram alojamento nestes prédios. A proximidade ao campus e os preços acessíveis são fatores decisivos nesta escolha, mas as desvantagens sentem-se durante as madrugadas.
A opinião dos estudantes reflete a dificuldade em encontrar um meio-termo entre o bem-estar dos moradores e o de lutar pelos direitos de festejar. Acerca das queixas dos moradores, os alunos reconhecem os problemas relacionados aos bares e assumem a sua parcela de responsabilidade, mas não consideram que seja suficiente para matar a vida noturna.
Os bares da UMinho são ponto central da vida académica, mas o convívio estende-se porta fora, gerando conflitos com moradores. É o caso do Okulto, espaço que já serviu de palco a Tiago Barbosa.
Para a PSP, estas ruas são um assunto recorrente. Na Esquadra de Intervenção e Fiscalização Policial (EIFP) de Braga, quem nos recebe é o Subcomissário Alexandre Moreira e o Chefe Paulo Carvalho. Arrancam a conversa com foco na multifuncionalidade do espaço: “Vai muito além da atividade noturna. Para além dos bares, é uma área muito diversificada, com muitos moradores universitários, mas também famílias, bem como um comércio local diversificado incluindo restaurantes, lojas, mercearias e outros estabelecimentos.”
Partilham ainda a mesma preocupação que os alunos: “Estes espaços não são frequentados exclusivamente por estudantes. Existe também a presença de jovens que não pertencem à comunidade universitária.” A razão apontada pelos agentes é o acesso a bebidas alcoólicas a um preço relativamente mais baixo. Esta afluência verifica-se através das principais queixas recebidas pela polícia: o ruído, ajuntamentos na via pública e comportamentos associados ao consumo excessivo de álcool, como ofensas à integridade física. Em 2025, um polícia foi agredido por uma jovem, culminando na sua detenção, mas este caso não é isolado.
“O objetivo é [os estudantes] poderem usufruir da [sua] vida e da [sua] liberdade em segurança, é por isso que nós estamos cá”.
Chefe Carvalho (PSP Braga)
“Para além destas ocorrências mais comuns de ruído e de crimes subjacentes às ofensas à integridade física, existem também outro tipo de ocorrências, nomeadamente furtos e situações relacionadas com estupefacientes, quer ao nível do consumo, quer do tráfico, que, embora menos frequentes, são acompanhadas e investigadas pela PSP”, acrescenta o Subcomissário Moreira.
A coordenação institucional com a Associação Académica da Universidade do Minho (AAUMinho) e com a Câmara Municipal resume-se a reuniões, nomeadamente direcionadas a eventos estudantis, como a Latada e o Enterro da Gata. “Não obstante, existem partilha e troca de informação subjacente à zona dos bares da UMinho”. O Chefe Carvalho não deixa escapar: “O objetivo é [os estudantes] poderem usufruir da [sua] vida e da [sua] liberdade em segurança, é por isso que nós estamos cá”.
Em comparação com outros cenários, o Subcomissário Moreira admite a particularidade do caso bracarense: “Sem dúvida que esta zona aqui é muito diferente, eu conheço mais a realidade de Viseu e de Coimbra e o ambiente académico não tem nada a ver, porque há muita gente de fora.”
Para combater a insegurança sentida nesta zona, a PSP assume vários modelos de policiamento. Ouça a explicação do Subcomissário Moreira.
Entre copos e conversas, o Largo Miguel Paio e a Praceta do Vilar continuam a ser palco de noites que não cabem numa definição simples. Para a PSP, a prioridade é garantir que a diversão não se transforme em risco, reforçando operações, falando com gerentes e ouvindo quem liga a pedir silêncio. Para estudantes e moradores, o desafio é outro: aprender a partilhar a mesma rua sem que ninguém tenha de abdicar da segurança, do descanso ou da vida académica. Enquanto esse equilíbrio não for mais do que uma intenção, a história destas noites continuará a escrever-se, todas as quartas, sextas e sábados, ao som de músicas diferentes, mas com as mesmas queixas ao fundo.