Serviço de Ouro: A Raça dos Vilela
Ténis e Padel. Há espaço para os dois?
Uma história entre a década de 50 e os anos 2000 que une duas gerações e duas modalidades. José Vilela e Catarina Vilela não partilham o campo, mas partilham a paixão pelo desporto. Há espaço para os dois. A Raça Vilela sobrepõem-se à competição entre o ténis e o padel.
José Vilela e Catarina Vilela
José Vilela e Catarina Vilela
1994
A História no Ténis
O silêncio é ensurdecedor. São os segundos finais. A bancada acompanha o arco da bola, de um lado para o outro. Cai entre as linhas inglesas pela quarta vez. A nação portuguesa é a grande vencedora. José Vilela carrega a Taça Davis.
No court gritavam “Vilela”, fora do court era o “Zé”. Primeiro e único capitão a levar uma equipa portuguesa aos play-off mundial. O ano de 94 marcou o Lawn Tennis Clube da Foz, palco desta vitória.
Taça Davis
Taça Davis
“Eu venho de famílias humildes”
O clube da Foz foi a casa de Vilela desde os seis anos. A modalidade era “muito fechada” e o Lawn Tennis Clube “elitista”. “Eu venho de famílias humildes” e a humildade sente-se nas palavras.
Entre a casa onde viveu e a escola primária ficava o complexo de ténis. “Todos os dias, trepava o murinho e punha a ver-me os senhores a jogar.” Um dia convidaram Vilela a entrar. Tornou-se apanha bolas. Dias depois, emprestaram-lhe uma raquete para experimentar jogar. Nunca mais parou. Descobriu a sua grande paixão.
Com seis anos, não imaginava o percurso desportivo que o esperava. Sonhou tornar-se jogador profissional de ténis. “Eu sonhei mais do que pensei.” A dúvida era entre futebol e ténis. Deixou o Futebol Clube do Porto como o seu segundo amor.
Vilela e o seu "segundo amor"
Vilela e o seu "segundo amor"
"A Catarina é um dos meus grandes amores"
Há 30 anos, Catarina Vilela preencheu o coração do avô Zé, que passou a ser dividido por três. O ténis, o FCP e a futura jogadora. “A Catarina é um dos meus grandes amores”.
Catarina reconhece o papel do avô como “fundamental” na sua formação como pessoa e como desportista. Mais do que grandes vitórias, aponta os treinos “que não interessam nada” como os melhores momentos partilhados. “Faziam com que a nossa relação fosse cada vez melhor e mais próxima”.
Cate cresceu na casa do avô e, assim como ele, começou a praticar ténis desde tenra idade. A vice-campeã nacional de pares chegou a representar a seleção nacional.
Zé e Cate
Zé e Cate
Catarina Vilela
"EU NÃO TROQUEI O TÉNIS PELO PADEL"
Novo Capítulo
Catarina Vilela
Catarina Vilela
Aos dezassete anos, Catarina foi para a universidade e parou de jogar porque “deixou de ser divertido”. Chegar ao nível de competição internacional exige muita dedicação e Catarina não estava disposta a isso.
Durante a licenciatura, em 2017, experimentou padel a convite de uma amiga. Diz ter a competição dentro de si. Nunca mais parou. Descobriu a sua grande paixão. Mas sublinha: “Eu não troquei o ténis pelo padel.”
Fonte: Inquérito realizado pelo grupo
Fonte: Inquérito realizado pelo grupo
Deu o passo seguinte, em 2020: jogar como profissional. Desde aí, já competiu em grandes países como os Emirados Árabes Unidos, a Finlândia e o Paraguai.
"A nível nacional já estava a ficar estagnada.” Catarina queria “testar limites”. A meio do percurso, parou por causa da COVID-19, mas, em 2023, abandonou as aulas e tornou-se jogadora a “full-time”. Cate treina para ser campeã.
“Eu queria criar campeões”
Vilela tornou-se treinador de ténis quando deixou de jogar, em Karlsruhe, na Alemanha. “Formar atletas é mais complicado do que ser atleta.” Traz a sua experiência como jogador para os treinos. Como campeão, “queria criar campeões”.
Quando jogava no campo, preocupava-se com ele e com a bola. Quando é treinador, a preocupação acresce. “É mais complicado, mas é fascinante”.
Despediu-se da Alemanha. A carreira de Zé cresceu para a América e Oceania. Treinou atletas olímpicos duas vezes. Em 1996, em Atlanta, EUA e em 2020, em Sidney, Austrália.
"Eles de fato preto e camisa branca, elas de vestido comprido. "
Em criança sonhava dedicar-se ao ténis, mas a modalidade era exclusiva para elites.
Zé tem na memória as fatiotas com que os membros chegavam ao court. “Eles de fato preto e camisa branca, elas de vestido comprido.“
Quando começou a competir, não havia o curso superior de Educação Física. Tampouco, fisioterapeutas, preparadores físicos, nutricionistas ou mental coaches. O ténis não era o mesmo de hoje.
Corria na praia para se tornar mais rápido em campo. “Fortalecia os gémeos.” Não teve acompanhamento, mas também não precisava. Vinha carregado de motivação.
O cenário é outro
“Uma raquete pode custar 200 euros ou 70 euros”. A modalidade é mais acessível. Alugar um court durante uma hora custa cerca de três euros.
Os treinadores de ténis têm de se formar no ensino superior. Passam por quatro níveis antes de poderem treinar profissionalmente atletas.
A modalidade tornou-se “muito rápida”. Dispõe de mais tecnologia. “Se olhar agora para uma raquete do meu tempo, vai parecer uma raquete de badminton”. A bola ganha mais velocidade.
José Vilela
José Vilela
“Não é um desporto de elite, mas a competição e alta-competição são”
João Maio, Diretor e treinador na Escola de Ténis da Maia, teve o primeiro contacto com o ténis em Moçambique, aos seis anos. Chegou a ser jogador profissional e competir no torneio de Wimbledon.
João Maio
João Maio
No início da carreira, o ténis era um desporto elitista. Hoje, qualquer pessoa pode comprar uma raquete, tornar-se sócio de um clube ou jogar num campo. “Não é um desporto de elite, mas a competição e alta-competição são.”
Um atleta de alto rendimento precisa de viajar cerca de 30 semanas por ano, segundo o Diretor. Os custos da deslocação, transporte e alimentação dobram. O treinador tem de acompanhar. “Uma semana no estrangeiro custa no mínimo 500 a 1000 euros para uma pessoa.” Os olhos arregalados têm consciência do quão elitista é o que acaba de dizer.
“O desporto está muito mais virado para o lado masculino”
“A classe em desvantagem é a das mulheres”. Catarina foi campeã nacional em 2021 e, em 2024, ficou em quarto lugar no mundial pela Seleção Portuguesa. É mais difícil conseguir patrocínios para jogadoras do que para jogadores. “O desporto está muito mais virado para o lado masculino.”
Fonte: Inquérito realizado pelo grupo
Fonte: Inquérito realizado pelo grupo
Só uma mulher chegou ao top 5 dos portugueses. Mesmo assim, Serena Williams ficou em último lugar.
A nível técnico diz não haver diferenças. Assume que a falta de investimento torna a evolução das mulheres mais lenta do que a dos homens.
Catarina Vilela
Catarina Vilela
“É a lei da oferta e da procura”
João Maio crê que não existem diferenças entre o desporto feminino e o masculino. No ténis, o valor dos prémios, num torneio “é igual para homens e mulheres”.
Os patrocínios são geridos pela “lei da oferta e da procura”. O investimento num atleta não depende do género. É uma questão de “carisma”.
Nick Kyrgius, jogador australiano, ilustra o peso do carisma na angariação de patrocinadores. “Todos os miúdos gostam, é irreverente”. João Maio acrescenta: “não é que seja o melhor jogador”.
Em Portugal, o tenista Nuno Marques soube “sê-lo como ninguém”. Outros nomes são enumerados: Rui Silva, “Irmãos Cordeiro”, Vaz Pinto e José Vilela, figura emblemática.
João Maio e José Vilela
João Maio e José Vilela
“O desporto é pago como um espetáculo”. As empresas querem associar-se a atletas queridos entre o público, independente do género.
Patrocínios privados, apoios da Federação Portuguesa ou incentivos do Estado, as opiniões dos Vilela e de João Maio convergem: falta capital para investir no desporto.
As apostas vieram mudar o panorama do ténis. A falta de investimento acompanhou gerações. Parte do capital gerado reverte para a modalidade. A Federação Portuguesa “era extremamente pobre” e tem agora capacidade para investir em atletas e nas infraestruturas.
Segundo João Maio, os avanços na modalidade vão permitir grandes competições em Portugal. Formar também “mais e melhores atletas”.
“O padel veio recuperar antigos atletas de ténis em fim de carreira”
Zé diz que existem dois tipos de jogadores de padel: ex-jogadores de ténis e jogadores que queriam ser tenistas profissionais. Estes escolhem ir para a universidade.
Nova geração de tenistas
Nova geração de tenistas
Antiga geração de tenistas
Antiga geração de tenistas
Acrescenta que não é possível conciliar uma carreira profissional no ténis com um curso superior. Só nos Estados Unidos. Aí treinam durante a licenciatura e, depois, procuram uma carreira.
“Um atleta de competição tem que treinar entre 25 a 30 horas por semana”. O ritmo de um tenista de alto rendimento é incompatível com as 40 horas que o Ensino obrigatório exige. João Maio compreende os atletas como ninguém.
“O padel é muitíssimo mais fácil do que o ténis”
Catarina Vilela
Numa viagem de Zé para um Congresso da Federação Portuguesa de Ténis, viu quatro mulheres a jogar padel. As bolas caíam e as senhoras riam às gargalhadas. Afiançou que “se essas mesmas senhoras fossem para um court de ténis não iam conseguir jogar nada”.
Numa comparação entre o ténis e o padel, Zé enfatiza que a nova modalidade ainda não é capaz de encher Wimbledon, nem deixar milhares de pessoas ligadas à televisão, como faz o ténis.
Fonte: Inquérito realizado pelo grupo
Fonte: Inquérito realizado pelo grupo
Vilela aponta as diferenças entre os courts de ténis - localizados essencialmente em grandes cidades, como Guimarães, Braga, Porto e Lisboa - e os campos de padel - que são cada vez mais. “Em qualquer cidade do interior já se joga padel”.
Entre 2021 e 2024, o número de praticantes de padel em Portugal aumentou para mais do dobro. Passou de cerca de 200 000 para 450 000, segundo dados do Aircourts e do World Padel Report 2024, Relatório da Federação Internacional de Padel.
Fonte: Federação Internacional de Padel e Aircourts
Fonte: Federação Internacional de Padel e Aircourts
Em Portugal, havia 960 campos de padel, em 2021, e 1300, em 2024. O aumento da procura justifica o aumento da oferta. Se por um lado, há mais jogadores para novos campos, por outro, há novos campos para mais jogadores.
Fonte: Federação Internacional de Padel e Aircourts
Fonte: Federação Internacional de Padel e Aircourts
“Não acho que haja uma rivalidade entre ténis e padel, acho que há espaço para os dois”
Para Catarina, quem diz que as modalidades são parecidas é “preguiçoso”. As únicas semelhanças são as bolas, as raquetes e a pontuação.
Cate não vê o padel como uma ameaça para o ténis. “Acho mesmo que há espaço para os dois.” Admite que para o padel atingir o “nível” do ténis, há ainda um longo caminho a seguir. Sugere que “unidos”, os desportos podem crescer mais, cada um no “seu espaço”.
Fonte: Inquérito realizado pelo grupo
Fonte: Inquérito realizado pelo grupo
Mais de metade dos inquiridos não acredita que o padel se está a sobrepor ao ténis. Duas em cada cinco pessoas confirmam a substituição do ténis pelo padel.
Os campos de padel têm aumentado, os de ténis não. Não por falta de praticantes, mas por falta de investimento. No complexo da Maia, há mais de 100 pessoas em lista de espera. “Os campos já não são suficientes”. Mesmo com os tenistas que migram para a modalidade vizinha, os praticantes de ténis são cada vez mais. Maio não tem mãos a medir.
“Muito trabalho, muita dedicação, muitos sacrifícios”
Uma trajetória de raça
O primeiro passo foi mudar-se do Porto para Lisboa, com 16 anos. Foi difícil. Teve de abandonar a casa de infância onde vivia com a mãe.
Passado um ano, percebeu que o sonho de ser tenista profissional não tinha morada na capital.
O passo seguinte foi Barcelona. “Na altura a capital de ténis do mundo”, onde se deu o “boom” da carreira de Zé. Tinha quase 18 anos.
Vilela abdicou de "muita coisa por causa do ténis". Os principais pilares para o sucesso no mundo do desporto são "a dedicação e o sonho".
Quando jogava nas zonas de Espanha ou Itália, dormiu nas praias muitas vezes. Não tinha dinheiro para ficar em hotéis ou hostels.
Recorda a sensação de entrar no court para defrontar jogadores hospedados em "grandes hotéis". “Dava-me uma força interior muito grande”.
Vários prémios depois, veio a proposta alemã.
“Eu tenho recordações fantásticas da minha vida passada na Alemanha”
Zé guarda "com carinho" o tempo que passou na Alemanha. “Ao contrário do que se pensa do povo alemão, eles são fantásticos.”
Vilela duvida que um alemão seja tão bem recebido em Portugal, como foi na Alemanha. O casal com quem ficou tinha quatro filhos - três meninas e um rapaz.
A “Mutter” [mãe em alemão] e o “Doutor”, como Zé carinhosamente os tratava, cuidaram do jogador como um quinto filho.
Todos os dias, almoçavam e jantavam juntos, como uma "verdadeira família". “Eles cuidavam de mim, preocupavam-se comigo, obrigavam-me a ligar para casa todos os dias”.
Vilela, Vilela, Vilela!
Quando chegou à Alemanha, Vilela já tinha o estatuto de campeão nacional. Muitos mais prémios aí ganhou. No primeiro ano, fez subir de divisão a equipa germânica.
Lembra esta vitória como a sua “grande sorte”. Até então, nunca ninguém do clube tinha conseguido atingir tal patamar. Ora se os alemães já valorizavam Vilela, depois de ganhar a competição do Estado, passaram a admirá-lo ainda mais.
Parou de jogar e começou a treinar outros jogadores. A maior dificuldade foi lidar com os pais dos jovens. “Os pais complicam muito o processo”.
Vilela assume que este é, "aliás", o grande problema em todas as modalidades. Não só no ténis. Quando conversa com colegas treinadores de outros desportos, todos se "queixam do mesmo".
Em Portugal:
Foi selecionador nacional. Ficou conhecido como “Capitão da Taça Davis”. “A maior vitória de sempre da seleção portuguesa.”
A conquista foi um marco para o país. Pelo prestígio que tinha a equipa de Inglaterra “teoricamente mais fraca". "Mas na prática não". A vitória soube "ainda melhor" porque teve lugar na cidade natal do jogador.
O momento foi "muito importante" para o ténis português e para a cidade do Porto. Zé acrescenta: “para mim foi fantástico, a minha estreia como selecionador nacional com uma grande vitória”.
“Eu estive dois dias sem comer” A culpa foi do stresse. A sensação de que a equipa portuguesa ia conseguir levar a taça era tal que os nervos lhe bloqueavam a garganta.
“Em minha casa respira-se ténis, vive-se ténis”
Vilela teve duas filhas, Mafalda e Sandra. Em casa, todas viveram o ténis, ora por acompanhar José, ora como jogadoras. Contudo, Zé não apoiava o culto às taças e medalhas. “Detesto ter taças expostas todas, estão no sótão”, confidenciou.
Catarina não testemunhou a carreira do avô da primeira fila, mas cresceu a ouvir falar do José Vilela e cedo se apercebeu de que era uma figura na biografia do ténis.
“Eu ainda vivo intensamente o ténis”
José viaja muitas vezes como Embaixador da Federação Nacional. Em 2024, esteve em Helsínquia, Oslo e Wimbledon, com a seleção portuguesa.
Continua a praticar a modalidade três ou quatro vezes por semana. “Ainda estou a competir a nível dos velhinhos”.
Com a categoria de veteranos, já foi jogar a Boca Raton, na Flórida e a Maiorca. “Faz parte de mim, eu não passo sem o ténis.”
Carlos Alcarraz e Jannik Sinner são os dois grandes tenistas do momento, para Vilela. Prevê que na próxima década os dois nomes sejam postos frente a frente várias vezes. "Vão elevar o nível do ténis mundial." "Mas, aos olhos do amigo Zé, foi Manolo Santana quem cunhou a história do ténis para sempre.
“Para mim é uma maravilha”
Paulo Silva é amigo e afilhado de José Vilela. Criou o José Vilela Cup, um torneio de ténis em homenagem ao ex-jogador.
Zé encara a competição como o legado que há de deixar. Quando “atravessar a meta”, o torneio continuará a acontecer e perpetuará o nome de José Vilela na história do ténis português. Vilela admite: "Para mim, é uma maravilha".
Para os jovens que aspiram ter uma carreira como a de Zé, o torneio é o objetivo final. A prova de que fizeram história. Ambicionam conquistar as cinco taças nacionais. Até hoje, só conquistadas por Vilela.
Zé sente-se uma "fonte de inspiração" para as novas gerações de tenistas . Ter um "ídolo de referência" é "fundamental" para um desportista.
Especiais Agradecimentos:
José Vilela
Catarina Vilela
João Maio
Manuela Costa
João Rui Moedas
Peter Fussy
Álvaro Bastos
Bernardo Leite
Fernando Jesus
Maria João Cunha
Todos os participantes e envolvidos no projeto