O conto de fadas do Rebordosa AC
“Com estas infraestruturas, como é que ainda não está numa liga profissional?”
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Elementos do clube falam sobre o objetivo da época 2025/26
Nos subúrbios do futebol português, há quem esteja a dar nas vistas. A viver uma época de sonho, o Rebordosa AC está a postos para dar o próximo passo. Com a mira bem apontada desde o início da época, todos sabem a importância da subida à Liga 3. Os atletas treinam num regime pós-laboral e sacrificam-se, diariamente, pela causa.
Estamos no modesto centro da cidade de Rebordosa. A estrada que o atravessa sugere — a seguir ao quartel dos bombeiros voluntários e à junta de freguesia — um desvio à direita. Na sinalização, em tons alaranjados, está inscrita a indicação “Complexo Desportivo”. Uns metros à frente, repete-se, e para o mesmo lado.
Ao curvar à direita, espera-nos uma subida íngreme. Mais de 100 metros depois, damos de caras com o reduto do Rebordosa Atlético Clube, tal como legendado a letras bem visíveis no topo da fachada. No meio, destaca-se um portão azul, de correr, que está entreaberto. Nas imediações, quase desertas, salta à vista um carro branco estacionado.
Inscrição à entrada do Complexo Desportivo de Azevido | João de Carvalho
Inscrição à entrada do Complexo Desportivo de Azevido | João de Carvalho
Já dentro das instalações, que ocupam a parte inferior de uma das bancadas, andam, há duas horas, dois homens. Um deles, equipado com um sobretudo do clube, recebe-nos com um sorriso contagiante. É Luís Silva, técnico de equipamentos. Aos 30 anos de idade, ocupa, pela segunda época consecutiva, uma cadeira de sonho. Apesar de ser portador de uma deficiência intelectual, nada o impede de servir o clube do coração. “Mesmo com a doença, consigo trabalhar normalmente”.
Sr. Barbosa e Luís | João de Carvalho
Sr. Barbosa e Luís | João de Carvalho
O outro, de baixa estatura e com bigode acinzentado, percorre, de trás para a frente, o túnel de acesso ao relvado. No seio do clube, todos o conhecem. Já faz parte da mobília da casa. Com 73 anos e reformado, António Barbosa — conhecido carinhosamente por Sr. Barbosa e até Barbosinha— trabalha no Rebordosa há 36 anos. O amor à camisola justifica tal longevidade. “É o meu clube, da minha terra. Se não gostasse, com certeza que não estaria cá”.
Sr. Barbosa na sala dos equipamentos | João de Carvalho
Sr. Barbosa na sala dos equipamentos | João de Carvalho
A bola começa a rolar apenas às 18h30. Contudo, Barbosa e Luís antecipam a chegada ao estádio para que nada falte aos jogadores. A seguir ao balneário do Rebordosa AC, localiza-se a sala do sr. Barbosa. É na extensa arrecadação que estão os equipamentos a ser utilizados pelos jogadores. Nas prateleiras, tudo se encontra arrumado ao milímetro, sem se notar uma dobra defeituosa.
Sala dos equipamentos | João de Carvalho
Sala dos equipamentos | João de Carvalho
Uma hora antes, Vítor Gamito — treinador que cumpre o segundo ano ao leme do Rebordosa AC — já veste o fato de treino do clube. No gabinete da equipa técnica, situado do lado oposto aos balneários, afina os últimos detalhes do treino.
"Temos a oportunidade de entrar na história do Rebordosa AC e não a vamos desperdiçar"
Um trajeto imaculado e o convívio à mesa com os grandes
A formação do concelho de Paredes tem trilhado um percurso digno de registo. Ao cabo de 14 jornadas, o Rebordosa AC é líder da Série B do quarto escalão do futebol português, com 36 pontos e oito de vantagem sobre o segundo classificado, Leça FC.
Classificação | zerozero
Classificação | zerozero
Entrada em campo no dia 21 de dezembro | João de Carvalho
Entrada em campo no dia 21 de dezembro | João de Carvalho
A 21 de dezembro, o Rebordosa voltou a escrever mais uma página dourada na sua história. Um golo solitário de Diogo Almeida frente ao Florgrade FC foi o suficiente para os marceneiros — alcunha que deriva da tradição mobiliária da cidade — se estabelecerem como a equipa com mais pontos de sempre na primeira volta no novo formato do Campeonato de Portugal: 33. O anterior recorde (32) pertencia ao SC Vianense.
Os números falam por si quando inseridos na pirâmide do futebol nacional. Até então, a par de FC Porto e SL Benfica, o Rebordosa AC é a única equipa, das quatro principais divisões em Portugal, que ainda não conheceu o sabor da derrota no campeonato. Caso preserve a invencibilidade até ao final da temporada, será o terceiro clube da história a conseguir tal feito nas competições lusas — algo que apenas SL Benfica (1972/1973) e FC Porto (2010/2011 e 2012/2013) alcançaram até hoje.
Jogo contra o Florgrade FC | João de Carvalho
Jogo contra o Florgrade FC | João de Carvalho
Vítor Gamito, embora se orgulhe do caminho já percorrido, mantém os pés bem assentes na terra: “Não se conquista nada com pontos na primeira volta”. Assegura que existe “a oportunidade de ficar na história do Rebordosa e não iremos desperdiçá-la de certeza”.
"Aquilo que mais me surpreendeu foi a entrega à causa"
A estabilidade em torno de um objetivo
Uma época de sonho não se constrói apenas com sorte. O Rebordosa AC permanece no Campeonato de Portugal desde 2022, mas há quem defenda que o clube merece outros voos. Este ano, e para que não restassem dúvidas, a direção, na voz do presidente, estabeleceu a promoção como objetivo máximo. Numa entrevista ao jornal A Bola, Joaquim Barbosa — que guia os destinos do clube há 29 épocas — confessou que foi feita “uma pré-época bem estruturada e preparada” para encarar o campeonato com a mira apontada a um único desfecho: “a subida de divisão”.
Desde o pontapé de saída para a nova época — dado no início de julho — a estrutura rema para o mesmo lado. “O objetivo final é aquilo que os adeptos sonham, que é o nosso desde o dia um de trabalho: a subida à Liga 3”, revela Vítor Gamito. O guarda-redes e capitão, Pedro Soares , vai mais longe. “Toda a gente sabia, ao vir para o Rebordosa em 2025/2026, para aquilo que ia lutar”.
O sucesso obtido dentro das quatro linhas é o reflexo do que se constrói nos bastidores. Para Pedro Soares, os resultados assentam “no trabalho, compromisso e caráter de todos”. Mesmo com o plantel a treinar num regime pós-laboral, “ninguém se corta ao trabalho”. O guardião confessa que “há alturas em que custa mais”, mas a consciência de que “é por um bem comum” supera o cansaço. “Aquilo que mais me surpreendeu foi a entrega à causa”, enfatiza.
Inscrição no campo sintético | João de Carvalho
Inscrição no campo sintético | João de Carvalho
A estabilidade é outro alicerce. Vítor Gamito destaca o processo de consolidação que tem vindo a ser feito: “Aproveitámos muito do trabalho da anterior equipa técnica”. Pedro, que já leva cinco anos de casa, evidencia também a importância desse aspeto. “A direção faz tudo para que possamos ter as melhores condições possíveis”.
Esse fator desempenha um papel crucial a nível mental. Diogo Resende — especialista em psicologia desportiva e atual psicólogo dos sub23 do SC Braga — defende que a estabilidade financeira e diretiva “tira-lhes [aos jogadores] alguns elementos stressores externos”, aproximando-os “de um estado emocional ótimo para jogar”. Conclui que os “jogadores entram em campo com os stressores normais de um atleta de futebol”.
Apostar na continuidade é, para a estrutura, palavra de ordem. Os marceneiros fogem à regra e, no plantel, mantêm dez atletas há, pelo menos, quatro temporadas. De acordo com Diogo, existindo “esse núcleo forte, a identidade está criada e esses jogadores são a imagem ao nível dos comportamentos”. Assim, “a identificação para um jogador que vem de fora acaba por ser mais rápida”.
Sandro Fonseca — defesa-central de 28 anos que atua no clube pelo segundo ano consecutivo — declara que “a malta é muito acolhedora”. Com um “núcleo grande de elementos de cá, responsáveis por receber bem quem chega, a adaptação foi muito fácil”.
“A nossa liderança é muito partilhada com eles, no sentido de podermos atingir a maior performance possível”
Um grupo “escolhido a dedo” e autocrítico
Eduardo Leal — ou Edu para os colegas de equipa — é o ‘menino da casa’. Formado no clube, conta já com 11 anos de Rebordosa ao peito. Para o jovem rebordosense, este é um dos melhores grupos com quem partilhou o balneário, visto que “toda a gente foi escolhida a dedo”.
O subcapitão, Filipe Barros — conhecido no mundo da bola como “Pipo” — reconhece, a par de Sandro, que a sequência de vitórias é um forte catalisador para o bom ambiente do balneário e consequente sucesso coletivo. “Chegar aqui depois de um jogo, ganhando ou perdendo, é totalmente diferente”, explica Pipo.
A nível psicológico, Diogo Resende defende que a boa convivência é um parâmetro “decisivo” e que, “quanto mais ligados os jogadores estiverem entre si, mais fácil vai ser adotarem comportamentos que os vão fazer chegar a esse objetivo comum”.
Chuteiras no balneário | João de Carvalho
Chuteiras no balneário | João de Carvalho
A boa atmosfera entre jogadores não passa despercebida a quem os lidera. Vítor Gamito confidencia que “são um grupo que tem muita autocrítica, mesmo em processos vitoriosos”. O treinador transmontano relaciona essa capacidade com “o compromisso e a exigência”.
Quanto ao trabalho entre equipa técnica e atletas, este parte de um pressuposto de “coliderança”, afirma Vítor. “A nossa liderança é muito partilhada com eles, no sentido de podermos atingir a maior performance possível”. As decisões, que ficam ao encargo do treinador, têm os jogadores “como parte integrante”.
"O Rebordosa, com um estádio destes, como é que há mais tempo ainda não está numa Liga 3, numa liga profissional?"
Das infraestruturas à moldura humana: mudanças a toda a linha
Ao longo dos últimos anos, o Rebordosa AC tem-se consolidado fora das quatro linhas. Quem vive o clube diariamente reconhece alterações significativas no Complexo Desportivo de Azevido. “Não tínhamos grandes condições para os seniores treinarem aqui”, recorda Sr. Barbosa. “Às vezes, iam para o espaço de terra [espaço onde se localiza o atual sintético número um], corriam lá meia-hora e vinham para baixo a correr”, conta.
A linha cronológica avançou, acompanhada de melhorias no ‘lar’ rebordosense. Em 2015, os marceneiros inauguraram um relvado sintético destinado à formação do clube. Mas não só. Dez anos depois, a 5 de outubro de 2025 — em pleno dia de jogo contra o SC Beira-Mar, que resultou num triunfo magro (1-0) — Joaquim Barbosa cortou as fitas de uma nova inauguração. “É algo que me deixa muito orgulhoso porque sempre quisemos dar algo mais à formação, faltava-nos este espaço”, sublinhou ao zerozero. O dirigente revelou que, com o novo espaço, articula-se “melhor os horários para os miúdos não chegarem tão tarde a casa”.
Inauguração do novo sintético | João de Carvalho
Inauguração do novo sintético | João de Carvalho
Os progressos, por mais simples que possam parecer, vão além das infraestruturas. Pedro Soares adianta que “são melhorias às vezes não megalómanas, mas em pormenores, como o estabilizar o posto médico, ter suplementação, GPS [ferramenta para monitorização dos atletas]". Esse cenário surpreendeu Sandro Fonseca, aquando da sua chegada em 2024. “Foi uma das perguntas que fiz a pessoas da Direção: o Rebordosa, com um estádio destes, como é que há mais tempo ainda não está numa Liga 3, numa liga profissional? Ninguém sabia responder”.
Inscrição na entrada dos campos de treino | João de Carvalho
Inscrição na entrada dos campos de treino | João de Carvalho
Juntamente com as instalações, o apoio dos adeptos também se fortaleceu. “Neste momento, temos 500 adeptos fora de casa. Antigamente, tínhamos 40 ou 50”, reflete Pipo — que leva sete anos de Rebordosa. O atleta de 33 anos, que acompanhou a transição, garante que “quem viveu o clube em 2019 e quem o vive hoje, sabe que não é o mesmo”.
A “crescente onda de apoio” salta à vista de Vítor Gamito. O treinador de 37 anos admite que esta teve o seu pico há um ano, “naquele famigerado jogo em Santo Tirso para os oitavos de final da Taça de Portugal [fase que o Rebordosa alcançou pela primeira vez na sua história]”. Gamito declara que existiu “uma enchente brutal que está ao alcance de poucos clubes em Portugal”.
“Não tenho a mínima dúvida de que o clube está preparado para uma Liga 3”
A Liga 3 no radar… e não só
Entre estrutura e jogadores, há uma certeza. “O futuro vai ser muito risonho”, garante Edu. O clube já reclama outro patamar. “Não tenho a mínima dúvida que o clube está preparado para uma Liga 3”, reflete Pedro Soares.
O guarda-redes veterano do Rebordosa AC aponta à profissionalização, referindo que “o clube vai-se preparar bem para os objetivos de estar num campeonato já profissional, com exigências diferentes”. Em fim de ciclo, Joaquim Barbosa — aos 69 anos, garantiu ao jornal A Bola que pretende passar o testemunho em junho — assegura que “o Rebordosa tem todas as condições para estar na Liga 2”. Todavia, para que isso se concretize, “é preciso haver uma estrutura bem montada e organizada”, além de investidores.
Mais calculista, mas sem tirar o pé da ambição, Pipo projeta o futuro: “Deve ser um bocadinho como foi o passado, continuar a dar passos pequeninos rumo ao sucesso, sem grandes ambições desmedidas”. Caso a subida à Liga 3 se torne realidade, “o futuro do clube será a estabilidade”.
Inauguração do Complexo Desportivo | João de Carvalho
Inauguração do Complexo Desportivo | João de Carvalho
A consolidação é, para Vítor Gamito, a garantia de um futuro próspero. “O clube sente que está preparado para dar o passo seguinte. Primeiro, é preciso consolidar esse passo seguinte para podermos falar daquilo que será o futuro”. O transmontano está convencido de que “o potencial máximo do clube ainda está longe”.
O extremo Edu Leal encara os tempos vindouros com otimismo. “Mesmo subindo de divisão, o Rebordosa não vai parar por aqui”. Enquanto “figura incontornável, que representa aquilo que é ser rebordosense” — tal como descreve Pedro Soares — Edu, dando voz aos desejos da equipa, sonha com a subida. “Tomara que este ano consigamos dar o passo mais importante da nossa caminhada até agora”.
Fazendo jus à sua alcunha, será que os marceneiros conseguirão talhar a tão desejada promoção à Liga 3?