PONTE PARA O PROGRESSO?
CONSTRUÇÃO DE NOVA PONTE AMEAÇA EXPULSAR A COMUNIDADE VITÓRIA DA ILHA NA BARRA DOS COQUEIROS EM SERGIPE
POR MARIA EDUARDA ROCHA, EDUARDA SANTOS E FERNANDA FELIX
Uma nuvem de poeira invade o ambiente durante a curva do ônibus 611, destino Barra/Mercado. O asfalto logo se desfaz e a estrada de terra anuncia a chegada ao Loteamento Vitória da Ilha, na Barra dos Coqueiros (SE). Olhando para frente, a vista é de uma grande fumaça de areia. Ao fundo, a brisa e o som do Rio Sergipe ainda acompanham os moradores, que consideram esse um dos poucos privilégios de viver ali.
Às 5h da manhã, Israel Cosme, 54, e Denilza Cosme, 47, já estão de pé. Membros do loteamento, também conhecido como Motu (Movimento Organizado de Trabalhadoras e Trabalhadores Urbanos), o casal carrega uma história marcada por deslocamentos: antes de chegarem ali, já haviam sido atingidos por um processo de transformação urbana que expulsava antigos moradores na Coroa do Meio, em Aracaju.
Hoje, no Vitória da Ilha, seguem construindo a vida. Vestido com uma camisa rosa, bermuda cinza e um sapatênis, o Coronel, como Israel é conhecido, caminha até a esquina da rua A, onde transformou o chão do antigo barraco, vizinho à própria casa, em um pequeno espaço para consertar geladeiras e freezers.
Do portão, ele observa a ampliação da via, efeito direto da nova ponte Aracaju-Barra, que se aproxima a cada dia. O que para o governo de Sergipe é um marco de desenvolvimento, para as mais de 160 famílias do loteamento representa ameaça constante de expulsão.
Progresso para quem?
Nos últimos anos, a Barra dos Coqueiros deixou de ser vista apenas como um município vizinho de Aracaju e passou a ocupar o centro das atenções no planejamento urbano do estado. Com a construção da Ponte Construtor João Alves, inaugurada em 2006, a cidade começa a passar por mudanças significativas, como a explosão imobiliária e a supervalorização da terra.
De acordo com o coordenador de áreas do Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em Sergipe, Lucas Rodrigues, no ano 2000, antes da ponte, a cidade tinha aproximadamente 17 mil habitantes. Uma década depois, em 2010, já eram quase 25 mil. E em 2022, o salto foi ainda maior: 41.511 moradores, um crescimento de mais de 66% em apenas 12 anos.
No mesmo período, as casas também se multiplicaram. Segundo o artigo “Impactos na Região Metropolitana de Aracaju”, do Observatório das Metrópoles, os 6.835 domicílios de 2010 se transformaram em mais de 20 mil em 2022. Ou seja, em pouco mais de duas décadas, a Barra dos Coqueiros praticamente triplicou de tamanho.
E o que antes era uma cidade de pescadores e famílias que viviam próximas ao rio, agora é cercada pelas sombras dos grandes condomínios fechados. E com esse aumento abrupto, a cidade precisou remanejar toda sua estrutura para atender às novas demandas. Ruas foram abertas e áreas antes consideradas periféricas, passaram a ser alvo de investimentos. Mas, junto com as promessas de melhora, vieram também os conflitos.
A especulação imobiliária avançou sobre territórios ocupados há décadas, pressionando comunidades a deixarem suas residências e dando início a um processo de gentrificação. Esse fenômeno acontece quando áreas habitadas por famílias de baixa renda passam a ser valorizadas pelo mercado imobiliário e por obras públicas. O resultado é previsível: aluguéis sobem, os serviços ficam mais caros e a população original é expulsa ou deslocada para regiões mais afastadas.
No Loteamento Vitória da Ilha, o anúncio da construção de uma nova ponte reacendeu o medo do deslocamento forçado. “Vai crescendo e eles vão entrando e a gente vai sair. O rico vem chegando e vai criando a família e a gente vai se sumindo. Pobre só some, na verdade”, conta Israel.
Entre o discurso oficial, que exalta o desenvolvimento, e a realidade das famílias ameaçadas, há um abismo. Para quem chega, a Barra oferece um cenário de modernidade e oportunidades. Para quem sempre esteve ali, o crescimento da cidade muitas vezes significa a perda do espaço físico e do sentido de pertencimento.
Diante da possibilidade de desocupação, o que pesa não é só a perda do lar, mas a incerteza sobre como manter a vida. Segundo Israel, a indenização prometida se resume a um auxílio-aluguel de R$ 350, valor insuficiente para garantir moradia em qualquer bairro da Barra dos Coqueiros. Além disso, o benefício é temporário e a promessa de construção de novas casas permanece apenas no papel. “Vai fazer essa avenida do início da ponte até aqui, só diz que vai tirar, vai tirar, vai tirar e a gente não sabe para onde é que vai. Falam que vão dar auxílio e depois uma casa, mas tem pessoas que já saíram e nunca receberam casa”, relata.
Mercearias e borracharias correm o risco de fechar as portas sem que haja outra fonte de sustento. Outros vivem da pesca artesanal, atividade que exige proximidade com o rio, algo impossível se a área estiver lotada de condomínios. “Aqui é uma comunidade que vive da pesca, somos pescadores, é o nosso sustento. Se tira o nosso sustento, como vamos alimentar nossa família? A gente tá esquecido, tá esquecido. Nós não sabe quando é que vão lembrar da gente”, conta Denilza, com a voz embargada.
Cada dia é vivido com um pé no presente e outro no medo do futuro. A casa simples de blocos de Denilza reflete sua incerteza; ela evita pintar as paredes, ampliar os cômodos ou trocar o telhado, não por falta de vontade, mas pelo temor de que qualquer investimento seja em vão.
“A minha casa não sai disso. Porque eu penso que vou perder meu dinheiro. A gente pensa de fazer… Às vezes eu penso em rebocar, mas a gente não sabe nem se vai ficar aqui",
relata Denilza.
Expulsão silenciosa
A cidade da Barra dos Coqueiros, localizada na margem esquerda do rio Sergipe, garante abundância de peixes para o sustento de muitas famílias. Outra característica marcante eram os coqueiros e os pés de mangaba, hoje quase extintos devido ao crescimento desordenado.
Em 2006, com a construção da Ponte Construtor João Alves, que liga o município à capital Aracaju em 30 minutos, a Barra dos Coqueiros tornou-se desejada por construtoras de condomínios luxuosos. Avaliados em mais de R$ 1 milhão, os empreendimentos têm vista para a praia e acesso nobre aos melhores pontos da cidade, como redes de empresas.
Não muito longe dos condomínios de luxo, dividindo a mesma estrada de saída e entrada para essas áreas nobres de praia, o loteamento Motu sobrevive há 14 anos entre o medo de perder suas moradias e as promessas nunca cumpridas por órgãos públicos. A pesca em conjunto, a horta comunitária e a associação comunitária são as raízes criadas e cultivadas no desejo de regularização da terra habitada.
EM 2011, O ANTIGO ASSENTAMENTO MOTU, HOJE CHAMADO DE VITÓRIA DA ILHA, CHEGOU PARA HABITAR O TERRENO.
MORADORES JÁ FORAM AMEAÇADOS COM TIROS E TIVERAM SUAS CASAS INVADIDAS.
GANHARAM UM ALVARÁ JUDICIAL QUE GARANTE A PERMANENCIA NA COMUNIDADE, ALÉM DA PROTEÇÃO DA SPU.
HOJE, AS AMEAÇAS VOLTARAM A ATORMENTAR OS MORADORES DA COMUNIDADE. O MOTIVO: A CONSTRUÇÃO DE UMA NOVA PONTE.
Falta de energia elétrica em casa, saneamento básico e infraestrutura, como asfalto e ponto de ônibus, são problemas recorrentes na comunidade onde hoje habitam mais de 160 famílias. Com casas simples construídas pelos próprios moradores, boa parte das famílias são vulneráveis economicamente, com a maior parte do sustento proveniente da pesca ou de trabalhos autônomos. Apesar disso, não escondem a falta de esperança em dias melhores.
Em março deste ano, foi apresentado um estudo de viabilidade para a construção de uma nova ponte interligando os municípios de Aracaju e Barra dos Coqueiros. O projeto, avaliado em R$ 1,117 bilhão, ligará o bairro Coroa do Meio, em Aracaju, à Atalaia Nova, na Barra dos Coqueiros. A obra promete aliviar o tráfego da ponte atual, facilitar o acesso à BR-101 e criar um eixo logístico estratégico para o estado.
O projeto, porém, impacta diretamente na comunidade, que corre o risco de perder suas casas devido à construção. “Hoje estão fazendo uma ponte do lado de cá. Quer dizer que tá tudo se concluindo, né? E o povo tá sendo expulso. Já derrubaram até a cerca já”, lamenta Israel.
A pressão para desocupação não afeta somente os que estão no maior risco para a construção de uma nova ponte, mas toda a comunidade, pois sabem que a retirada de alguns serve de alerta para uma desocupação total. “Estamos sendo atacados, a horta e o campinho estão sendo atacados, estamos perdendo nosso verde, nosso espaço de trabalho. Os impactos mobiliário e industrial estão nos afetando”, relata o coordenador do assentamento, João de Andrade, que não esconde o medo da expulsão de toda a comunidade.
João de Andrade relembra um episódio de tentativa de expulsão que ocorreu há oito anos atrás, com tiros e invasões em casas de moradores. O risco de desocupação iminente gera extremo sentimento de alerta e um clima de pânico. A gentrificação se ampara no desespero e falta de escolaridade dos moradores para busca de direitos jurídicos formais.
Buscando formas de permanência, a comunidade apega-se na Superintendência do Patrimônio da União Federal (SPU), que vem dialogando com a Prefeitura Municipal da Barra dos Coqueiros para a permanência e planejamento da infraestrutura para a comunidade. “Existe uma ação cívil pública movida pelo Ministério Público Federal em face da União e do Município da Barra dos Coqueiros, que tem como objetivo estreitar esse contato para que possa avançar o projeto de regularização de adequação de moradias”, destaca o coordenador da Superintendência, Nielson Tôrres.
O movimento de urbanização desordenado no município demonstra a falta de planejamento para preservação de comunidades, identidades culturais e tradições. Os condomínios de luxos ocupam e limitam muito mais do que é visível aos olhos. O presidente do Conselho Regional de Corretores de Imóveis de Sergipe (Creci-SE), André Cardoso Costa, explica o processo de planejamento mobiliário: “Essa etapa envolve órgãos públicos, empresas responsáveis pelos empreendimentos e uma série de exigências legais. É preciso seguir o plano diretor do município, ter estudos de impacto, aprovações ambientais e atender aos critérios definidos pela legislação”.
A arquiteta, urbanista e pesquisadora do Núcleo de Aracaju do Observatório de Metrópoles, Catharina Nunes, destaca que os empreendimentos têm influência nas retiradas de comunidades locais de baixa renda. “O poder do mercado imobiliário, seja no econômico e político, interfere nas políticas públicas que têm em vista em todo país. Então existem instrumentos que minimizem esses danos mas que poucas vezes são utilizados de forma correta, em tempo hábil”, comenta.
Problemas que permanecem
Enquanto o crescimento avança a passos largos de um lado da cidade, para quem vive à margem, os problemas são antigos e seguem sem resposta. Em frente às casas da comunidade, a quantidade de eletrodomésticos abandonados se destaca em meio à paisagem. O motivo, quando questionado aos moradores, é o mesmo: geladeiras, ventiladores e computadores foram queimados devido às gambiarras que precisam ser feitas para ter acesso à energia.
Para Alessandra Rocha, moradora do assentamento há 3 anos, o desejo é de mudança. “A gente tá na expectativa que a gente vai ter uma energia de qualidade. Tem muita oscilação de energia aqui. Mas aí estamos na esperança que até o final de setembro vai estar tudo certo”, comenta ela.
O prazo que a moradora cita é decorrente de um acordo firmado em junho deste ano entre o Ministério Público Federal (MPF) e a Energisa, uma das empresas responsáveis pela distribuição de energia em Sergipe. Na reunião, realizada em 17 de junho, foi acordado que a Energisa faria a regulação da energia privada em até 60 dias, prazo que finaliza dia 30 de setembro, que ainda não foi cumprido. Segundo os moradores, este já é o terceiro acordo que não é respeitado.
A coordenadora do Motu, Dalva da Graça, explica que a demanda por energia de qualidade é um pedido já feito há 13 anos, porém, só foi atendido no ano passado. Ainda assim, apenas a energia pública (nas ruas) é disponibilizada, e a energia privada funciona à base de improvisos feitos pelos próprios moradores. “O acesso à energia é uma reivindicação que estamos fazendo, porque é direito à constituição, mas que não é válido para quem tá em área irregular”, aponta.
Outro problema que assola as ruas da comunidade Vitória da Ilha – e uma grande parte da região periférica da Barra – é a falta de saneamento básico. Quando o percurso até o loteamento deixa para trás a vitrine urbanizada vendida pelo processo de expansão, a paisagem muda completamente e cede lugar a um “guia” nada convidativo: um canal a céu aberto, que se arrasta ao longo da Avenida Marcelo Déda. O mau cheiro e a poluição visual acompanham uma região que não entrou no mapa de prioridades no planejamento e atenção pública.
Ao chegar na ocupação, o cenário não é diferente. O descaso da infraestrutura impacta, inclusive, o que é fonte de renda para aqueles que mais precisam. “Aqui na Barra só tem dois bairros que têm rede de esgoto, o resto é tudo fossa. E é uma condenação né? Toda a rede de esgoto ser despejada aqui dentro do Rio Sergipe”, lamenta João.
Ao entrar em contato com a Secretaria de Infraestrutura e Obras do município, o órgão ressaltou que a situação da comunidade é complexa e que existem projetos a serem feitos para melhorias na região, mas que, no momento, não há uma data definida para que sejam efetuados, devido à questão da regularização das terras que ainda está em processo.
As contradições do processo de gentrificação, muitas vezes visto como sinal de desenvolvimento, ficam nítidas no caso do assentamento Vitória da Ilha: beneficia quem chega, mas negligencia quem sempre esteve lá. Diante disso, a Barra dos Coqueiros vive hoje um paradoxo urbano. Se de um lado a valorização imobiliária e a urbanização atrai novos moradores, por outro, os antigos habitantes veem problemas históricos se agravarem sob o peso de uma infraestrutura que não acompanha a demanda.
O secretário municipal de Urbanismo, Matheus Freitas, aponta que o planejamento da cidade enfrenta desafios para atender às novas necessidades. “A estrutura que a gente tem atualmente não suporta. É um trabalho árduo pra gente porque é um trabalho de readaptação mesmo. A gente está trabalhando sempre para se adequar e dar uma estrutura melhor, mas como é um crescimento acelerado, acaba que não tem esse tempo, não coincide”, admite o secretário.
As consequências da gentrificação pressionam quem não consegue se adequar ao novo perfil econômico da região. Para a também coordenadora do movimento Motu, Renilza de Jesus, o crescimento encurrala e sufoca os mais vulneráveis, que não usufruem dos benefícios decorrentes do crescimento do município.
Apesar disso, seja para Renilza, Alessandra ou João, o desejo é o mesmo: permanecer. A resistência e a esperança por dignidade se mantêm vivas, mesmo diante da falta de atenção do Poder Público. “Eu moro aqui, amo esse lugar, e assim, quero permanecer, mas eu não sei se vamos permanecer, né? Porque decisão só judicial e vocês sabem que na maioria das vezes, quem tem as condições é quem manda", ressalta Renilza.
Em meio a ameaça constante de expulsão e o silêncio das promessas não cumpridas, a comunidade Vitória da Ilha resiste e transforma a própria permanência em um ato de luta. A esperança, presente no relato de cada morador, revela que não se trata apenas de ficar, mas o direito de existir com dignidade.
Até o momento da publicação da reportagem, o Governo de Sergipe havia lançado, no dia 3 de setembro, o edital de licitação para a construção da nova ponte Aracaju-Barra. A abertura da sessão está prevista para 1º de dezembro de 2025.
No final de agosto deste ano, o governo deu início às audiências públicas referentes ao Estudo de Impacto Ambiental (EIA-Rima) da construção, etapa que compõe a fase inicial do projeto e que tem como objetivo incentivar a participação popular.
Um dia antes da primeira audiência, porém, o MPF recomendou a suspensão imediata das reuniões devido a apresentação de falhas no estudos como uso de dados desatualizados; ausência de caracterização da fauna e da flora; falta de análise sobre impactos cumulativos com outros empreendimentos; e inexistência de consulta prévia às comunidades tradicionais e pescadores.
De acordo com o MPF, os eventos só deveriam ser realizados após a completa adequação do Estudo de Viabilidade Técnica, Econômica e Ambiental (EVTEA) e a elaboração do EIA, considerados essenciais para uma análise responsável dos impactos do empreendimento.
Em nota oficial, o Governo de Sergipe ressaltou que a Adema e a Secretaria de Estado do Desenvolvimento Urbano e Infraestrutura (Sedurbi) têm encaminhado ao MPF e demais órgãos de controle, regularmente e de forma oficial, toda a documentação que é solicitada sobre a nova ponte.
E após diálogo, a Adema e o MPF decidiram por manter os encontros com a comunidade, os quais foram realizados nos dias 29 de agosto e 1° de setembro.
A comunidade Vitória da Ilha ainda reside no mesmo local, com a incerteza das suas moradias e sem nenhuma resposta por parte dos órgãos públicos do que será feito para encontrar soluções.
Ouça a reportagem sonora: Cidade de quem?
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REPORTAGEM PRODUZIDA POR MARIA EDUARDA ROCHA, EDUARDA SANTOS, FERNANDA FELIX PARA A DISCIPLINA DE LABORATÓRIO DE JORNALISMO INTEGRADO I (2025.1), DO CURSO DE JORNALISMO DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE.
EDIÇÃO #04 - ZONA CONTEXTO



