A tríade do mercado do livro

Editoras, leitores e produtores de conteúdo — dinâmicas num negócio em ascensão

O mercado livreiro europeu tem conhecido um aumento do seu volume de negócios e Portugal também segue a tendência. Ana Catarina, Daniela e Marta integram a comunidade de leitores que é fenómeno nas plataformas digitais e tem feito disparar vendas.

A prosperidade do setor

Em 2022, o mercado do livro português cresceu 16,2% relativamente ao ano anterior, segundo a consultora GfK. Venderam-se mais 12,8% de exemplares e este mercado representa agora 175 milhões de euros na economia nacional. Além da recuperação dos números anteriores à pandemia, o setor está a superar os resultados de 2006. As receitas de 157 milhões obtidas nesse ano, de acordo com o ECO, haviam sido os melhores resultados até aí.

Receitas das vendas de livros em Portugal (2018 - 2022). Infografia elaborada com recurso ao Infogram.

Receitas das vendas de livros em Portugal (2018 - 2022).

Paulo Batista, diretor-geral da editora “Saída de Emergência”, acredita que a “mudança grande nos hábitos de consumo de literatura” num contexto de “saturação de plataformas digitais e escapismo para o livro” na pandemia podem justificar estes números. Paulo apercebeu-se de que “se até ao momento o consumo de livros se fazia até aos 12/ 13 anos e depois se retomava a leitura no fim do percurso académico”, atualmente a faixa etária no meio desse intervalo também lê.

Com a exceção dos adolescentes e dos jovens adultos, os estudos demonstram uma variação anual residual das leituras que os portugueses fazem. Em 2022, 58,2% dos inquiridos pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) não leram nenhum livro. Aproximadamente 40% leram pelo menos um livro e quase 70% consumiram apenas entre um e quatro livros. Um inquérito conduzido pela Fundação Calouste Gulbenkian e pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS-UL) conclui que 61% dos portugueses não leram uma única obra em 2021.

Segundo dados da GfK, não obstante a subida do preço médio de livros em 3%, o padrão de crescimento manteve-se no primeiro trimestre deste ano com o aumento de vendas em 8,3% relativamente ao período homólogo de 2022. O incremento do valor de mercado do papel nos últimos anos impactou os custos de produção das editoras. Paulo Batista explicou, em entrevista na 93.ª Feira do Livro de Lisboa, que em Portugal, como a indústria trabalha com tiragens mais reduzidas, “um aumento de custos a montante nas matérias-primas se sente muito mais rapidamente” do que em países com edições maiores.

O diretor-geral da editora generalista revelou que “hoje em dia é muito difícil falar que existe um género a vender mais”. A “visibilidade dos autores em determinado momento” nas plataformas digitais tem ditado mais o sucesso de vendas do que a popularidade da tipologia literária.

Para Daniela Marques, mestranda em Ciências Jurídico-Civilísticas, os principais agentes no crescimento do mercado livreiro são os leitores motivados por um sentimento de pertença a uma comunidade. O medo de não conhecer o livro popular do momento nas redes sociais também impulsiona os jovens a lê-lo. 

A estudante de Direito também crê que a popularização de um livro ocorre mais facilmente se o seu autor já tiver uma quantidade substancial de seguidores nas plataformas digitais.

Paulo Batista na 93.ª Feira do Livro de Lisboa segura a revista "BANG!", publicação bianual da editora Saída de Emergência dedicada ao género fantástico.

Paulo Batista na 93.ª Feira do Livro de Lisboa segura a revista "BANG!", publicação bianual da editora Saída de Emergência dedicada ao género fantástico.

A leitura em comunidade

Natural da Lousã, a estudante de mestrado em Antropologia, Globalização e Alterações Climáticas na Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade de Coimbra (FCTUC), cresceu com pais leitores. Confessa que o tempo dedicado ao estudo na adolescência fez com que lesse cada vez menos. Na pandemia começou a acompanhar Helena Magalhães, autora, dona da “Aurora Editora” e curadora do “Book Gang: Clube do Livro”. Diz que “o bichinho das leituras voltou” e chegou a ler pela primeira vez a saga “Harry Potter” na íntegra em cerca de um mês e meio. 

Desde o Natal que lê livros digitais no "Kobo", um leitor eletrónico que lhe foi oferecido pela mãe. Mesmo após ter vencido a resistência inicial à alternativa ao papel, Ana Catarina revela que sente necessidade de ler os formatos físicos dos e-books.

Juntar-se a um grupo de amigos com bookstagram em Coimbra fez com que também a estudante da FCTUC criasse no final de 2022 uma conta dedicada a livros na rede social

Ana Catarina Parreira a ler num e-reader.

Ana Catarina Parreira a ler num e-reader.

No prazo de meio ano fez amizade com pessoas que partilham a mesma paixão por literatura. Com Marta Gonçalves, e uma outra amiga do Porto, Ana Catarina concorreu a um passatempo da editora “Zero a Oito” com um reel, formato em vídeo do Instagram. Durante a entrevista, foi notificada na rede social de que haviam ganho um jantar com Jenna Evans Welch, autora do bestseller “Amor & Gelato”.

Ana Catarina ao tomar conhecimento de que havia ganho um jantar com uma das suas escritoras preferidas em conjunto com 2 amigas.

Ana Catarina ao tomar conhecimento de que havia ganho um jantar com uma das suas escritoras preferidas em conjunto com 2 amigas.

A participação vencedora no passatempo da editora "Zero a Oito" na conta de Instagram @anitanabiblioteca.

A participação vencedora no passatempo da editora "Zero a Oito" na conta de Instagram @anitanabiblioteca.

A estudante da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra (FDUC) defende que a digitalização potenciou a natureza gregária do ser humano. O fenómeno nas redes sociais criou a oportunidade de difusão de conteúdos literários variados e colocou mais jovens a ler, aspeto este que a jurista valoriza em particular. 

A busca de um escape no reencontro com a literatura

Na infância e na adolescência, Marta Gonçalves era, nas suas palavras, uma “leitora quase diária” e tinha o hábito de requisitar muitas obras na biblioteca da escola em Ponte de Lima. Marta notou que, tal como Daniela, quando ingressou no ensino superior passou a dedicar menos tempo à leitura recreativa.

Durante o período em que esteve dedicada à tese de mestrado em Medicina, Marta procurou nos livros um escape.

No verão de 2022, o consumo de conteúdos literários impulsionaram não só os hábitos de leitura mas também a participação no bookstagram como produtora. Foi através da comunidade na rede social que se tornou amiga de Ana Catarina Parreira.

Marta Gonçalves a ler o seu livro preferido.

Marta Gonçalves a ler o seu livro preferido.

Já em adulta após ter retomado o hábito de leitura, a finalista de Medicina releu o clássico “O Principezinho” de Antoine de Saint-Exupéry, um dos seus títulos preferidos.

Daniela Marques na Biblioteca do Colégio de São Jerónimo na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

Daniela Marques na Biblioteca do Colégio de São Jerónimo na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

Conteúdo literário fora do booktok e do bookstagram

O gosto pela escrita aliado à vontade de partilhar pensamentos sobre o que lê levaram a que Daniela começasse um blog no ano passado.

A estudante da FDUC decidiu ir contra a corrente e trouxe de volta o conceito anterior ao atual panorama das redes sociais. 

Na lógica de promoção literária atual, tanto os leitores como os produtores de conteúdo literário ditam as tendências. A ficção para jovens adultos tem sido impulsionada pelos influenciadores nas plataformas digitais especializados em livros denominados por booktokers e bookstagrammers. As editoras estão atentas e encontram formas de capitalizar o mercado em cedências de livros para avaliações, nos convites para programas e em interações nas redes sociais.

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