Além de outubro

o cuidado é um compromisso permanente

O câncer de mama segue sendo o tipo de câncer mais incidente e o que mais mata mulheres no Brasil e no mundo. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), em 2025, foram estimados 73.610 novos casos no período, reforçando a dimensão do problema de saúde pública.

O risco de desenvolver o tumor aumenta com a idade, especialmente a partir dos 50 anos, faixa etária que concentrou a maior parte das hospitalizações registradas naquele ano. Ainda assim, a doença pode atingir mulheres mais jovens, o que reforça a importância da atenção aos sinais e do acompanhamento médico regular.

A neoplasia de mama é caracterizada pela multiplicação desordenada de células anormais no tecido mamário, formando um tumor maligno. Essa alteração genética está diretamente ligada à biologia celular, mas pode ser estimulada por fatores agravantes de origem endócrina, comportamental ou hereditária. O tratamento varia conforme o tipo e o estágio do tumor, além das características individuais de cada paciente, o que torna o diagnóstico precoce um fator decisivo para melhores desfechos.

Não dá para abordar o tema da prevenção do câncer de mama sem destacar a relevância da campanha Outubro Rosa, que vai além da informação e atua como um movimento de conscientização, incentivo ao diagnóstico precoce e cuidado com a saúde, alcançando mulheres e homens em todo o mundo.

Desde 2002, quando a campanha chegou ao Brasil, o mês de outubro ganha tons de rosa. Focada na conscientização sobre o câncer de mama, a iniciativa mobiliza governo, sociedades civis e redes de saúde pública em todo o país, promovendo palestras, incentivando a realização de exames e reforçando a importância do diagnóstico precoce e do autoexame na redução da mortalidade.

“O outubro rosa, realmente, muda a realidade. Você consegue conscientizar uma população que muitas vezes é bastante desinformada sobre o câncer de mama”. Esta é a definição do médico mastologista Olívio Feitosa, chefe do serviço de mastologia do Instituto de Câncer do Ceará (ICC).

A campanha chegou ao Brasil em 2002 e muito contribui para propagação da necessidade de prevenção e diagnóstico precoce da doença. O Instituto Nacional do Câncer (Inca) apoia a causa proporcionando debates, eventos e materiais educativos. Não só o Inca, mas diferentes instituições aderem à causa, também.

O Outubro Rosa conscientiza, divulga e informa mulheres e homens sobre a importância do diagnóstico precoce. O mastologista alerta que a detecção do câncer de mama, em seus estágios iniciais, é crucial e as chances de cura podem superar 95%.

No entanto, somente em 2024, o Brasil registrou 73.610 novos casos da doença, sendo o tipo de câncer que mais acomete as brasileiras. Este número corresponde a 66 casos por 100 mil mulheres, de acordo com o Inca. 

Outubro Rosa, seja em nível nacional, seja internacional, tem um propósito claro de conscientização. Funciona como um chamado coletivo à ação. A campanha reforça que informação, prevenção e acesso ao diagnóstico precoce são fundamentais para reduzir a taxa de mortalidade e garantir maior qualidade de vida às mulheres.

Olívio Feitosa, médico mastologista e chefe do serviço de mastologia do Instituto do Câncer do Ceará (ICC)

Porque o cuidado salva

"O diagnóstico precoce foi decisivo na minha história. Ele aumentou as chances do tratamento ser mais eficaz. Procurar ajuda cedo fez toda a diferença."

Akidauanne Moreira

"O meu diagnóstico precoce foi muito valioso, pois as chances de cura são bem maiores. Ele é a chave para o sucesso do tratamento."
Dene Falcão
"O diagnóstico precoce foi decisivo e me deu altas chances de cura. Não foi um caminho simples, mas foi um caminho possível."

Celina Maia

"Foi constatado um nódulo muito pequeno, bem inicial após biópsia. A prevenção e o diagnóstico precoce salvam. Ter sempre fé e coragem, que tudo passa."

Marília Gondim

Hábitos de prevenção

Não existe uma forma totalmente eficaz de prevenir o câncer de mama, já que alguns fatores de risco, como a predisposição genética, não podem ser controlados. Ainda assim, é possível reduzir significativamente as chances de desenvolver a doença. A adoção de hábitos saudáveis e a atenção aos cuidados preventivos podem diminuir o risco, reforçando a importância da prevenção.

Alguns desses hábitos são: controlar o peso corporal, para evitar sobrepeso ou obesidade; manter uma alimentação saudável, com frutas e verduras, evitando carboidratos, alimentos gordurosos e açucarados, e bebidas alcóolicas; praticar atividades físicas regularmente; evitar terapia de reposição hormonal e não fumar.

Além disso, é recomendado que mulheres façam o autoexame. É uma prática simples, realizada pela própria mulher, que ajuda para o reconhecimento do corpo e para a procurar alterações como inchaços, nódulos ou caroços No entanto, não substitui a avaliação clínica nem exames de imagem. O procedimento pode funcionar como um alerta inicial.

Quanto à mamografia, o Ministério da Saúde recomenda que mulheres entre 50 e 69 anos realizem a mamografia a cada dois anos como método de rastreamento. Médicos, no entanto, defendem a realização do exame anualmente a partir dos 40 anos. Para mulheres com histórico familiar de câncer de mama ou outros fatores de risco, a recomendação é que a indicação é realizar o rastreamento antes dos 40 anos.

Os números apontam...

+3mil

novos casos registrados entre 2023 e 2025

Governo do Estado do Ceará

+44%

dos óbitos ocorrem entre as 50 e 69 anos

Governo do Estado do Ceará

61%

dos casos de câncer de mama no Ceará foram diagnosticados tardiamente

Panorâma de atenção ao câncer de mama no SUS

O tempo como principal aliado:

O diagnóstico precoce se mostra como um fator decisivo no enfrentamento ao câncer de mama

O médico mastologista, Olívio Feitosa, destaca a importância de que a conscientização, a divulgação e a informação sobre a doença e a detecção em estágios iniciais chegue ao maior número de mulheres (e homens) possíveis.

Com o diagnóstico dado nos estágios iniciais, é possível reduzir a intensidade do tratamento e melhorar a qualidade de vida das pacientes. “Assim nós podemos aumentar o diagnóstico precoce e aumentar a cura do paciente, diminuir a quantidade de tratamento necessário e aumentar a qualidade de vida das mulheres”, aponta o médico.

O médico mastologista, Olívio Feitosa, fala sobre a diferença de tratamento entre quem recebe diagnóstico precoce e tardio

Tabus e medos

 "Ainda existe preconceito, tabu e, até, vergonha relacionados ao câncer de mama, seja por medo, seja pela falta de conhecimento."

Olívio Feitosa

O médico reitera a necessidade da conscientização sobre a importância do exame, principalmente da mamografia. "É um exame rápido, grande maioria das vezes indolor, é de fácil acesso, que não possui efeitos colaterais, não aumenta o risco de câncer e a radiação não vai ocasionar câncer de tireoide". A mamografia é considerada o exame mais efetivo para detectar lesões não palpáveis. Com o diagnóstico precoce, relata, é possível aumentar as chances de cura.

Levar informação e falar sobre prevenção são formas de cuidado coletivo que ajudam a proteger vidas

Mas, um grande desafio na conscientização a respeito do câncer de mama passa pelo alcance da informação, para que consiga atingir todas as mulheres com a mesma eficácia. No Ceará, aquelas que moram em zonas rurais ou distantes dos centros urbanos, terminam não conseguindo realizar exames preventivos como recomendado, e acabam recebendo diagnósticos tardios.

O local onde a mulher reside influencia na obtenção do diagnóstico, principalmente pela dificuldade de acesso aos exames e ao tratamento.

Daniele Castelo Branco é gestora da Associação Nossa Casa e coordenadora voluntária da Rede Mama - Rede Cearense de Combate ao Câncer de Mama e membro do conselho administrativo da Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama (Femama). Ela reconhece ser difícil fazer com que a informação chegue às comunidades mais distantes e que é “super desafiador” garantir o acesso das mulheres ao exame. 

“É muito duro dar uma palestra numa comunidade, incentivar as mulheres com relação a conscientização, e elas levantarem a mão para dizer 'é realmente muito fácil você tá aí na frente estimulando a gente fazer mamografia. Agora a gente quer saber onde.'”

Daniele Castelo Branco

Redes de apoio que fazem diferença

Para além dos consultórios, associações surgem como espaços de acolhimento, orientação e informação. São grupos que proporcionam convivência e trocas de experiências, estimulando o fortalecimento pessoal

Quando o tratamento exige distância, o cuidado vira morada

Associação Nossa Casa

A associação atua há 21 anos em parceria com o Centro Regional Integrado de Oncologia, CRIO, e desenvolve ações nos pilares da assistência, saúde, educação e advocacy. Seu principal projeto é a casa de apoio, que acolhe gratuitamente pacientes do interior do Ceará em tratamento oncológico em Fortaleza, oferecendo hospedagem e atendimento multiprofissional para viabilizar a continuidade do tratamento.

Além disso, realiza exames de imagem, como mamografias, promove ações educativas sobre prevenção do câncer e atua na defesa dos direitos dos pacientes. Mantida por doações, a instituição conta com uma equipe qualificada e oferece atendimento humanizado às pessoas em tratamento.

Ninguém rema sozinha

Lua Rosa

A Associação Lua Rosa surgiu da união de mulheres impactadas pelo câncer de mama, com o propósito de transformar dor em força, acolhimento e recomeço.

A iniciativa se consolidou como uma rede de apoio que acompanha mulheres do diagnóstico ao pós-tratamento, promovendo empoderamento e pertencimento.

Entre suas ações, destaca-se o projeto de remo criado em 2021, que simboliza a superação coletiva e o cuidado com a saúde física e emocional. Hoje, a Lua Rosa é referência em apoio humanizado a mulheres com câncer de mama no Ceará.

Força coletiva

Toque de Vida

A associação nasceu a partir do encontro de mulheres em tratamento de câncer de mama, que perceberam na troca de experiências uma forma de acolhimento e fortalecimento mútuo. O que começou como apoio emocional se transformou, ao longo dos anos, em uma rede estruturada de cuidado, voltada tanto para o enfrentamento da doença quanto para a promoção da prevenção durante todo o ano.

Atualmente, desenvolve projetos voltados ao bem-estar físico, emocional e social das mulheres atendidas. Entre as ações estão a doação e confecção de perucas, próteses externas e sutiãs adaptados, distribuição de cestas básicas, atendimento fisioterapêutico no pós-operatório, grupos de terapia psicológica, visitas domiciliares a pacientes debilitadas e oficinas de costura, bordado, maquiagem e moda inclusiva.

Também atua na orientação jurídica sobre direitos das pacientes e mantém campanhas contínuas de conscientização e prevenção do câncer de mama

Além do corpo

O diagnóstico de câncer de mama provoca impactos que ultrapassam o campo da saúde física e alcançam dimensões profundas da identidade feminina. Segundo a psicóloga clínica Ivna Meneses, que atua com pacientes oncológicos, a doença interfere diretamente em referências simbólicas como o corpo, a sensualidade, a maternidade e as formas de autocuidado, o que pode gerar sentimentos de perda, insegurança e fragilidade emocional.

As mudanças impostas pelo tratamento, entre elas a queda de cabelo, a mastectomia, o ganho de peso e outras alterações corporais, afetam a maneira como a mulher se percebe e se relaciona consigo mesma. Esse processo pode desencadear quadros de ansiedade, depressão, baixa autoestima e isolamento social. Por isso, o acompanhamento psicológico se torna essencial para ajudar a mulher a reorganizar sua identidade, reconhecendo suas forças emocionais, afetivas e profissionais ao longo da jornada.

Nesse contexto, práticas de autocompaixão e autocuidado ganham centralidade. Ao atravessar o sofrimento, muitas mulheres passam a ressignificar prioridades e valores, desenvolvendo uma relação mais consciente consigo mesmas e com o presente — um processo que não elimina a dor, mas transforma a forma de enxergá-la.

“A mulher precisa ser vista para além do diagnóstico, como alguém em processo de reconstrução, capaz de ressignificar a própria história mesmo em meio ao tratamento.”

Ivna Meneses - Psicóloga clínica

Seguindo em frente com o tratamento

“Após perceber algo diferente ao toque no corpo, fiz a cirurgia de quadrantectomia, além de oito sessões de quimioterapia e oito de radioterapia. Depois do diagnóstico, quando a incerteza sobre o amanhã aparece, a gente vira a chave e passa a viver a vida como se cada dia fosse o último, valorizando detalhes e momentos que antes pareciam apenas parte da rotina. A vontade de viver, somada à fé, à informação e à certeza de que eu estava fazendo o melhor por mim mesma, me ajudou a manter a esperança mesmo nos dias mais difíceis.”

Akidauanne Moreira

“Meu maior medo sempre foi perder o cabelo e imaginar perder a mama. Esse era o pensamento que mais me acompanhava. Ainda assim, segui firme, com força e muita fé. Meu processo de quimioterapia foi um sucesso, graças a Deus: o nódulo sumiu. A cirurgia foi uma quadrantectomia, Perfeita. Também tive medo de ficar debilitada, mas, graças a Deus, isso nunca aconteceu. As sessões de quimioterapia começaram em abril e duraram 5 meses. Já a cirurgia foi realizada em outubro de 2025.”

Dene Falcão

"Meu maior receio era me tornar dependente de outras pessoas, mas isso durou pouco. Enfrentei quatro meses de quimioterapia e vinte sessões de radioterapia, e logo retornei à rotina de trabalho, mesmo carequinha, bem disposta e confiante no tratamento. Realizei a quadrantectomia na mama esquerda e uma mamoplastia redutora em ambas."

Celina Maia

"A retirada das mamas e as cicatrizes realmente afetaram no início, mas hoje lido bem melhor, porque entendo que essas marcas fazem parte da minha história. Fiquei tão grata por tudo ter dado certo que elas se tornaram o de menos. Acredito que estou mais forte, mais fortalecida na fé, mais tranquila e em paz com a vida. Passei a valorizar mais os momentos e a apreciar a vida com calma e leveza.”

Marília Gondim

O fim de um ciclo

Superação, esperança e recomeços que reforçam a importância da prevenção

A última sessão de quimioterapia simboliza o fechamento de um ciclo e a abertura de novos recomeços. As mídias a seguir registram força, esperança e reforçam a importância da prevenção e do diagnóstico precoce no enfrentamento ao câncer de mama.

“A informação aumenta a cura. A informação diminui a dor. A informação salva.”

Olívio Feitosa - Médico mastologista

Prevenir é um gesto de amor e cuidado consigo mesma. Conhecer o corpo, reconhecer sinais, além de manter um acompanhamento médico regular são atitudes que podem salvar. Quando a informação alcança as mulheres e a devida atenção é dada, as chances de cura aumentam. Com diagnóstico precoce, rede de apoio e acesso à informação, é possível passar pelo tratamento com esperança e ânimo. O câncer de mama traz desafios mas, também, revela um tipo de força, muitas vezes desconhecido pela própria mulher. O cuidado, a informação e a prevenção não se limitam às campanhas nem ao mês de outubro. São compromissos, uma escolha diária pela vida.

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