CAMINHOS DE ABRIIL
UMA CAMINHADA POR RUAS QUE FICARAM MARCADAS PELO DIA DA REVOLUÇÃO
Há medida que o tempo passa mudam-se os tempos, as mentalidades, mas prevalece a memória. Memória daqueles que ficam para contar a história, mas também a memória dos sítios e dos edifícios que, por si só, são e guardam história.
As ruas da cidade de Lisboa sofreram inúmeras mudanças ao longo dos anos – em 1755, o terramoto que destruiu a baixa de Lisboa obrigou a sua reconstrução, à base da razão e da lógica com ruas paralelas e geométricas, em 1878, o incêndio nos Armazéns do Chiado, também levou à sua reconstrução. Estas mudanças alteraram a estrutura da cidade, mas permanece a história, pois esta percorre tempos e permanece sempre nos corações daqueles que, mesmo não a vivendo, a sentem.
É dia 24 de abril, véspera do dia da Revolução, e resolvi, juntamente com o meu grupo, percorrer alguns dos locais escolhidos pelos militares de abril há 50 anos atrás. Nasci em 2003, não vivi o dia da Revolução, mas não deixa de ser algo que, como portuguesa, me marque.
O ponto de encontro foi a Praça Luís de Camões e dirigimo-nos até ao Bairro Alto, em tempos conhecido como a zona dos jornalistas, pois era aqui que se situavam os jornais, cafés e restaurantes frequentados pelos jornalistas, numa época em que havia muito álcool, tabaco e até drogas neste bairro. Parece que o jornalismo se separou desta zona, mas a tendência para o álcool e o tabaco continua ligado a este local, agora conhecido pelos seus bares que abrem a porta até largas horas e incomodam outros empresários, como alguns com quem tive a oportunidade de conversar ao longo do caminho, que reclamam do cheiro imundo que invade as ruas consequente da vida noturna do bairro.
Fui em busca do edifício onde outrora foi o Diário de Notícias, e encontrei um senhor à entrada de um café que me indicou qual era. O meu espanto foi visível quando vejo a degradação em que o edifício se encontra – rodeado de lixo e um cheiro intenso, paredes cobertas de cartazes e ervas, com o interior esburacado, resultado do abandono de cerca de 30 anos. Um senhor que trabalha no café ao lado do edifício viu-me e disse num tom indignado: "só quando o edifício cair mesmo é que fazem qualquer coisa disto", demonstrando desagrado pelo abandono de um edifício que, em tempos, contribuiu tanto para a história do jornalismo.
Desci em direção à cafeteria "A Brasileira" do Chiado, olhei para a estátua de bronze de Fernando Pessoa que se encontra na esplanada do café, e apercebi-me que, de facto, as esplanadas são um local privilegiado de observação.
Muitos intelectuais escreveram obras nas quais se basearam naquilo que visualizaram enquanto estavam sentados numa esplanada, como é o caso de Fernando Pessoa. Algumas obras, sejam literárias ou até fotográficas, podem-nos levar a viajar entre épocas, e perceber como era a vida na altura em que os autores viviam, através da descrição do vestuário das pessoas, os seus costumes, entre outros atributos.
Relembro a exposição que visitei no Museu do Oriente sobre o 25 de abril chamada "Ventos de abril" onde estavam expostas fotografias de dois fotojornalistas que captaram perfeitamente os modos de vida da época antes e pós Revolução.
De norte a sul, Ingeborg Lippmann conta histórias através de fotografias que capturam o mais puro da vida quotidiana – rostos vincados e mãos enrugadas e secas do trabalho no campo, peregrinos a perseguir a sua fé, crianças a conviver, pescadores com as suas redes, e a emancipação da mulher, visível em cada manifestação captada por Lippmann.
Já numa outra secção, através da lente de Peter Collis, é possível ver a mudança do viver de um povo que vê a sua ânsia pela liberdade saciada após o 25 de abril – rostos livres e esperançosos, daqueles que viveram momentos tenebrosos, e não mais querem voltar, fervilhosos os sentimentos daqueles que se mantêm na rua em luta e felizes os que regressam ao seu país após fugirem à ditadura. Uma época de marcos políticos importantes e uma mudança para a tão esperada democracia.
Nesta caminhada era impensável não passar pelo edifício que um dia fora o Quartel General da PIDE. Achei irónico o facto de um edifício que na sua época foi palco de diversos tipos de torturas, mortes e prisões, de pessoas que muitas vezes nem eram culpadas, hoje em dia ter sido transformado numa loja chamada "Empatias", quando na época antes do 25 de abril o que menos existia naquele local era empatia para com as pessoas.
Olhando para a fachada do edifício vi uma placa de pedra onde estão gravados os nomes de quatro civis que perderam a vida às mãos da PIDE na tarde de 25 de abril de 1974, como forma de homenagem a estes civis. Isto só me fez refletir sobre o facto de esta revolução ser conhecida como "a revolução sem sangue", pois parece que se esqueceram do sangue derramado por estes civis, pela crueldade da PIDE.
Voltei para o centro do Chiado, a Rua Garett, aquela que fora o pólo intelectual de Lisboa do século XX, na qual se situa a primeira Livraria Bertrand fundada em 1732. Nesta rua ouvem-se falar as mais diversas línguas, vêm-se vários espetáculos e cantores de rua, aqui passa-se um pouco de tudo. Sinto sempre alguma nostalgia quando passo por aqui, há imensa vida, diversão, onde turistas e lisboetas tiram alguns minutos da sua vida para observar os espetáculos de rua que ocorrem ao longo desta, principalmente em frente à cafeteria "A Brasileira", onde podem assistir aos espetáculos enquanto apreciam o seu café ou tiram fotografias com Fernando Pessoa.
Eu costumo parar um pouco em cada espetáculo, mas neste dia abrandei apenas o passo para ir apreciando as diferentes músicas ao longo da caminhada.
Voltando para o objetivo principal da caminhada, resolvi ir até a um dos locais mais simbólicos da Revolução, o Largo do Carmo. Quando cheguei lá, não esperava me deparar com uma multidão de pessoas. Sou estudante de jornalismo, sou guiada pela minha curiosidade, logo resolvi subir em cima de uma mesa de jardim que tinha ali perto para conseguir obter um melhor ângulo visual. Rapidamente percebi que se estavam a preparar as celebrações dos 50 anos do 25 de abril no Museu da Guarda Nacional Republicana. Qual seria a minha surpresa quando de repente aparece o nosso Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, com todos os beijinhos possíveis para cumprimentar toda a gente, menos os jornalistas que ele tentou evitar até conseguir entrar no museu. No meio de toda a confusão, um casal de ingleses abordou-me questionando-me sobre o que estava a ocorrer, e eu com o meu inglês aportuguesado lá lhes fui respondendo.
Após a entrada do presidente no museu, fui até ao elevador de Santa Justa, que tem uma das vistas mais belas da cidade de Lisboa, e na qual é possível ver as ruas pelas quais os militares de abril passaram. Estava cheio de turistas, o que não me admira, mas não adoro estar em espaços apertados, por isso decidi sair, mas não desci pelo elevador. Resolvi parar ao lado do Museu Arqueológico do Carmo antes de voltar para casa. Nesta zona há sempre pintores de rua e cantores a demonstrar o seu talento àqueles que por ali passam, e nesse dia não foi exceção. Penso que deve haver imensos artistas que começam assim, com pequenos espetáculos para um público reduzido, e depois abrem asas e descobrem o seu caminho para o sucesso.
De volta para o metro, a fim de regressar a casa, encontrei uma banda de tuna que estava a atuar no Rossio. Foi a cereja no topo do bolo para toda a experiência que vivi ao longo da caminhada, pois todos os que paravam para os ver também cantavam e dançavam com eles, foi um momento muito bonito de se presenciar. São momentos destes que ficam na memória, assim como na Revolução dos Cravos – momentos de união de um povo, dos quais nunca esquecemos todo o caminho percorrido que nos levou até ele.
