As vozes anónimas que ajudam quem precisa, à distância de um telefonema

São os ouvidos que escutam sem julgar e a palavra amiga que abraça quem dela mais precisa. Centenas de voluntários e psicólogos operam linhas de apoio psicológico telefónico e ouvem os desabafos de quem lhes telefona, muitas vezes, sem outra opção. A procura por estes serviços disparou durante o primeiro isolamento, em março de 2020, revelando um serviço nacional de psicologia e psiquiatria muito insuficiente. O impacte da pandemia fez-se sentir na saúde mental de quase toda a população, trazendo este tema para o centro de debate, numa era onde o apoio psicológico escasseia em Portugal.

Marco (nome fictício), 30 anos, é jornalista e vive a sua vida a um ritmo acelerado. Um misto de problemas de família e quesitos da condição humana (perpetuados ao longo dos anos) levou-o a ligar para a linha de apoio "Conversa Amiga", em busca de alento. "Não são psicólogos nem estão a questionar opções de vida ou sentimentos, estão sobretudo a ouvir e a compreender, é muito à base disso", relata o jovem, também através de uma chamada telefónica. O tom confiante apenas deixa transparecer algum desconforto, enquanto partilha a sua experiência. "Decidi ligar para eles após a linha "SOS Voz Amiga" não ter atendido nos primeiros cinco minutos. Acho que à segunda tentativa metia uma corda ao pescoço, se estivesse desesperado", revela, entre risos, na tentativa de aliviar o ambiente. Apesar disso, reforça convictamente que não se encontrava numa situação alarmante. "Ligar e falar com uma pessoa que não te conhece, não te julga, não sabe de onde vens, não sabe os teus pecados ou as tuas virtudes, pode ser melhor do que falar com um amigo", acrescenta o jornalista.

Dentro deste registo, existem mais linhas de apoio emocional, que funcionam à base de voluntários, tais como a SOS Voz Amiga, Telefone da Amizade, Vozes Amigas de Esperança de Portugal e Voz de Apoio. Existem também as linhas SOS Estudante, SOS Bullying e Linha Jovem, dedicadas a jovens e estudantes, a Linha do Serviços de Informação às Vítimas de Violência Doméstica, entre outras. O SNS 24, serviço telefónico e digital do Serviço Nacional de Saúde, criou também uma linha específica de aconselhamento composta por psicólogos, após o aparecimento da pandemia.

Marco realça que estas chamadas têm um efeito de salva-vidas, mas que falham no acompanhamento a montante. Sente que esta interação o ajudou e classifica-a como "uma ajuda efémera, mas importante no momento". "Os problemas são mais profundos e tem de haver um acompanhamento. Os voluntários dão um reconforto momentâneo, mas não conseguem dar uma poção mágica que consiga perpetuar uma condição de melhoramento, isso é muito difícil", refuta. Considera essencial uma melhoria nos cuidados psicológicos em Portugal, que confessa nunca ter recorrido, por estar desacreditado do processo de acompanhamento psicológico. "Eu acredito realmente que são as relações interpessoais que tenho à minha volta que vão influenciar o meu estado de espírito, unicamente isso", declara perentoriamente. Não deixa de recordar, com alguma amargura, quando consultou um psiquiatra a mando dos seus pais. Alguns comportamentos explosivos e impulsivos motivaram esta decisão da sua família. "Estes problemas devem ser detetados mais cedo, comigo aconteceu na fase adulta, já estava na faculdade", relembra. Sabendo que o suicídio é uma das maiores causas de morte de jovens, o jornalista é categórico quando defende que "deve existir um acompanhamento muito maior e os psicólogos e psiquiatras devem ter outro peso na medicina, que atualmente não possuem".

"Ligar e falar com uma pessoa que não te conhece, não te julga, não sabe de onde vens, não sabe os teus pecados ou as tuas virtudes, pode ser melhor do que falar com um amigo", declara Marco.

A saúde mental está em linha de espera

Os números não mentem e despertam a reflexão sobre a necessidade de uma voz amiga à distância de uma chamada, numa era onde a COVID-19 nos alertou para outra pandemia já latente: a da saúde mental. Segundo o Inquérito às Condições de Vida e Rendimento feito pelo Instituto Nacional de Estatística em 2021, mais de um quarto da população portuguesa confirmou efeitos negativos na sua saúde mental, devido à pandemia. O boletim sobre Saúde Mental em Portugal, realizado pelo Observatório Nacional de Luta Contra a Pobreza (ONLCP) reflete este flagelo, revelando que as perturbações do foro mental constituem um dos principais desafios à saúde pública. Em 2019, os distúrbios mentais constituíam o quarto tipo principal de patologia entre os países da União Europeia. Portugal era, no mesmo ano, o segundo país da UE com maior percentagem de anos vividos com incapacidade devido à carga de doenças mentais, onde a depressão e os transtornos de ansiedade se destacam como as patologias com maior incidência.

Os transtornos de ansiedade afetam 10% da população entre os 10 e os 29 anos, a faixa etária com maior incidência deste tipo de patologias. Já a depressão tende a acentuar-se a partir dos 55 anos de idade, variando entre os 7% e os 8%.

Em Portugal e no Brasil, verificou-se entre pessoas inquiridas após o primeiro confinamento uma predominância de ansiedade e depressão, na ordem dos 71,3% e 24,7%, respetivamente. Houve uma prevalência de ambas as perturbações em 23,8% dos inquiridos.

O tema da saúde mental disparou após o primeiro confinamento tomar Portugal de assalto em março de 2020. O aumento destas patologias foi notório, mas “as pessoas não têm tido facilidade em aderir à terapia, muitas delas por dificuldades financeiras”. Quem o diz é Lúcia Amado, 51 anos, psicóloga clínica que se dedica a trabalhar com adolescentes e adultos, lidando especialmente com depressões, ansiedade e fobias. “Algo que tive de repensar foi o preço das consultas, de forma a que as pessoas possam ter acesso a terapia. Tive de baixar um pouco o preço”, relata a psicóloga, reforçando que muitos destes pacientes não conseguiram encontrar consultas em centros de saúde ou hospitais do Serviço Nacional de Saúde. O relatório do INE confirma a existência de uma correlação entre a pobreza e o estado de saúde geral, revelando-se ser pior em pessoas onde se verifica uma situação de pobreza. Segundo o boletim sobre Saúde Mental do ONLCP, as privações socioecónomicas têm efeitos negativos a nível comportamental e cognitivo, criando um círculo vicioso entre pobreza e saúde mental. Quem tem poucos rendimentos para investir em apoio psicológico ou psiquiátrico terá de esperar por um serviço insuficiente do Serviço Nacional de Saúde, originando um declínio do bem-estar mental. A espera por uma consulta disponível pode ser, em alguns casos, tarde demais.

Portugal regista um dos rácios mais baixos de médicos especialistas em psiquiatria entre os países da Europa, assim como de psicólogos. Em 2019, por cada 100 000 habitantes em Portugal, existiam em média apenas 14 psiquiatras e 10 psicólogos. Apesar do número destes profissionais ter vindo a aumentar com o passar dos anos, a insuficiência de recursos humanos nestas áreas revela lacunas preocupantes na resposta de apoio psicológico. No mesmo ano, cerca de 64% da população em idade laboral em Portugal apresentava necessidades de cuidados médicos não-satisfeitas ao nível da saúde mental. Os motivos desta insatisfação são problemas financeiros, tempo de espera demasiado longo ou dificuldade de transporte para os locais das consultas. A resposta do SNS é muito assimétrica ao longo do território, com o número de psicólogos e psiquiatras a concentrar-se principalmente na faixa litoral, deixando o interior do país naturalmente mais desprovido destes profissionais. Se esta distribuição é inquietante, a falta de consultas de psicologia do Sistema Nacional de Saúde é alarmante: em 2019 havia apenas 12 unidades hospitalares do SNS que disponibilizavam consultas de psicologia (quatro no Norte do país, quatro na região Centro, três em Lisboa e Vale do Tejo e uma no Alentejo).

Quando os meios falham em responder às necessidades da população, um reforço de linhas especializadas em aconselhamento psicológico poderia ser um balão de oxigénio para quem mais precisa. “Julgo que seria bastante importante que houvesse mais divulgação, principalmente nessas zonas do interior do país, para que as pessoas tenham acesso a essas linhas”, diz a psicóloga Lúcia, frisando que seria igualmente essencial criar mais linhas de apoio. “Sei que há bastantes linhas para estudantes, que são uma população de risco, mas realmente noutros pontos do país e para pessoas mais idosas, com escolaridade inferior à média, não há conhecimento de que estes apoios existem”, acrescenta.

Os apoios do Serviço Nacional de Saúde

O SNS 24 criou uma linha de apoio psicológico integrada nos seus serviços telefónicos, com o objetivo de dar apoio às preocupações e desafios psicológicos dos utentes e profissionais de saúde. Quando este serviço teve início, a dia 1 de abril de 2020, a linha de apoio contava com 63 psicólogos para prestar o devido aconselhamento psicológico. Os objetivos do serviço consistem em gerir as emoções dos utentes em situação de crise, promover a resiliência psicológica e diminuir a probabilidade de desenvolver problemas de saúde mental na sequência da pandemia. À semelhança de outras linhas de aconselhamento psicológico, as chamadas são efetuadas sob sigilo máximo e não são gravadas. Segundo o website dos Serviços Partilhados do Ministério de Saúde (SPMS), após dois anos da criação desta linha, foram atendidas mais de 148 mil pessoas, entre as quais 9.500 profissionais de saúde. Foram várias as tentativas de contacto com o SNS 24 e os SPMS para esta reportagem, sem qualquer resposta.

O SNS 24 também reencaminha chamadas para o INEM, caso seja necessário, que são atendidas pelo Centro de Apoio Psicológico e de Intervenção em Crise (CAPIC). Este é um serviço onde se presta apoio por chamadas decorrentes de situações traumáticas e urgentes. A equipa é constituída por 24 psicólogos clínicos com formação específica e o serviço garante um apoio de 24 horas por dia para situações de emergência. A psicóloga Eliana Cruz, 41 anos, atende chamadas neste serviço e confirma que o atendimento é eficaz para estas situações de crise, mesmo sendo mediado por um telefone. A atuação destes psicólogos foca-se, primeiramente, no aconselhamento face à situação, seguindo-se um apoio na gestão da ocorrência, com o objetivo da estabilização emocional de quem liga. Eliana é perentória quando afirma que conseguiram dar resposta a todas as chamadas durante a pandemia, reforçando que “a vertente é sempre de emergência hospitalar” e nunca de aconselhamento, mesmo quando relacionada com a COVID-19. A maioria das chamadas são feitas por pessoas do sexo feminino e a maioria dos utilizadores encontra-se entre os 40 e os 50 anos de idade.

Nos últimos cinco anos, o número mensal de chamadas atendidas pelo CAPIC situava-se abaixo das 1600 por mês. Entre maio de 2020 e setembro de 2021, o volume médio de chamadas aumentou para 1826 por mês, um aumento de 14%. Estes dados revelam que se registaram mais emergências psicológicas e psiquiátricas durante o período pandémico.

"Às vezes dói (mas eu escondo)" obra da autoria do artista urbano Mário Belém, que reflete os conflitos da saúde mental e o apoio psicológico telefónico

"Às vezes dói (mas eu escondo)" obra da autoria do artista urbano Mário Belém, que reflete os conflitos da saúde mental e o apoio psicológico telefónico

Segundo um estudo da revista Nature realizado em 19 países, incluindo Portugal, as chamadas para linhas de apoio telefónico atingiram o pico seis semanas após o surto inicial de COVID-19, com um aumento de 35% comparativamente aos valores pré-pandemia. Antes da pandemia, os utentes pegavam no telefone principalmente devido a problemas relacionais, solidão ou vários medos e ansiedades. Agora, o tema predominante passou a ser os medos (incluindo o medo de infeção), a par da solidão. O mesmo estudo revela que as chamadas relativas a pensamentos suicidas diminuíram no início da pandemia, assim como o número de suicídios reportados pelos países.

Também no consumo de psicofármacos se verificou um aumento, já que em 2020 cerca de 15% do total das embalagens de medicamentos dispensadas em Portugal correspondiam a este tipo de fármacos. Inverteu-se a tendência decrescente deste consumo, que se vinha a verificar desde a crise financeira de 2012. Dentro destes psicofármacos, os mais vendidos foram ansiolíticos / sedativos (6,4%) e antidepressivos (6,1%). O confinamento veio não só deteriorar a saúde mental geral dos cidadãos, mas também agravar de forma drástica a prevalência e persistência de patologias do foro mental. “A pandemia fez com que tudo isso chegasse muito mais depressa”, revela Lúcia Amado, sublinhando que ainda pouco se sabe sobre as verdadeiras consequências da COVID-19 na saúde mental. “Futuramente, ainda vamos ver o que daqui vai surgir a nível psicológico e a nível físico. Sobretudo será isso, um antecipar de problemas, apesar de serem latentes e fazer com que se tornem mais recorrentes na vida de cada pessoa”, declara a psicóloga.

Às vezes dói (mas eu escondo)

A associação SOS Voz Amiga é uma Instituição Privada de Solidariedade Social que presta apoio emocional especializado por via telefónica. Contrariamente às linhas estatais de apoio psicológico, quem atende estas chamadas são voluntários não profissionais e não remunerados, com uma seleção e formação adequadas. O apoio é inteiramente confidencial e funciona entre as 15.30h e as 00.30h, onde 47 voluntários ouvem atentamente as histórias que lhes chegam do outro lado da linha. “Muitas vezes contam-nos coisas que, como dizia o poeta, “nem às paredes confessam”, relata Manuela Borges, 73 anos, Vice-Presidente e Coordenadora da associação. Divide o seu tempo entre vários projetos de voluntariado, mas o que mais a preenche é a SOS Voz Amiga, pelo “sentimento de recompensa depois de ajudar alguém a sentir-se melhor”. Fala sobre esta instituição com o carinho de quem se dedica de corpo e alma a esta causa. A formação destes voluntários é liderada por uma técnica psicóloga que decide de início quem tem a resiliência emocional necessária para continuar no projeto. Manuela caracteriza este ofício como levar “murros valentes no estômago” quando, por mais que se queira ajudar, “a pessoa não sai do mesmo registo” depois da chamada.

Em 2019, esta linha de apoio registou 6270 chamadas e em 2020 registaram-se 10800, um impressionante acréscimo de cerca de 72%.

Com o aparecimento da pandemia, houve um reforço de uma hora diária para responder à afluência de chamadas que inundaram os telefones dos voluntários, então a atender chamadas desde as suas casas.

Neste período, os intuitos dos telefonemas alteraram-se um pouco, passando a focar-se na COVID-19 ou no desemprego. Ainda assim, houve um motivo que se manteve patente, à semelhança dos anos anteriores: a solidão. “Hoje em dia as pessoas, infelizmente, levam a vida a correr e esquecem-se que os idosos muitas vezes não precisam de nada. Eles bastam-se a eles, mas precisam da companhia, da conversa. Muitas das pessoas que nos ligam só querem isso, conversar”, refuta Manuela. “Temos os chamados habituais. Há pessoas que nos ligam todos os dias, só porque sim. Já as conhecemos e sabemos quem são”, relata, com certo pesar. Estes voluntários são os ouvidos e vozes anónimas que acompanham as vidas solitárias de quem não tem com quem partilhar os seus pensamentos. “Há 30 ou 40 anos atrás isso não acontecia, as pessoas davam-se umas às outras”, acrescenta Manuela, com a nostalgia de quem tem sentido na pele estas mudanças. O sofrimento psicológico e angústia são outra causa recorrente nas chamadas da linha SOS Voz Amiga, passando também por pensamentos suicidas, abusos sexuais ou bullying. Crianças e jovens ligam a contar “que a mãe não lhes liga, que o pai tem demasiado para fazer ou que os pais estão separados” e fazem-no por iniciativa própria.

Inês (nome fictício), estudante de 22 anos foi uma das pessoas que sentiu o impacte da pandemia na sua saúde mental, ainda que não imediatamente. “O que eu senti foi uma onda de ansiedade bastante grande assim que acabou o confinamento”, conta Inês, mostrando algumas reservas na sua partilha. “Na altura nem sequer consegui fazer uma associação, nem percebi que essa onda de ansiedade pudesse estar relacionada com o isolamento, até que procurei ajuda e me foi dito que realmente podia ter alguma coisa a ver”. Refere ainda que a sua psicóloga confirmou que muita gente da mesma faixa etária começou acompanhamento psicológico naquela altura, “era quase um padrão”. Para Inês foi muito difícil fazer a ligação entre a ansiedade e o confinamento, que terá criado todas as condições necessárias para espoletar esta inquietação, mais intensa do que alguma vez sentira.

Inês deu por si a ter constantes crises de ansiedade ao longo do verão. Sentia-se acelerada, com uma sensação de desamparo, de descontrolo total sobre os seus pensamentos e sintomas físicos em tudo semelhantes a um ataque cardíaco. Remete-nos para um evento em particular, que descreve como o ponto crítico que a levou a decidir procurar ajuda. “Estava a voltar de férias com amigos e lembro-me de estar no elevador do meu prédio e pensar: “Preciso de chegar a casa, preciso de chegar a casa, não estou nada bem”. Assim que cheguei a casa comecei logo a chorar, em pânico, como se fosse uma criança”, conta, acrescentando que se sentia desesperada por algo que nem sabia bem o que era. Decidiu ligar a um amigo que foi ter com ela e a acalmou, tentando criar um fio condutor para a razão dos sintomas. “Apesar de não ter resposta para quase nada, acho que me ajudou bastante ter tido alguém para conversar um bocado e definitivamente acalmou-me muito”.

Inês viveu momentos de grande ansiedade e encontrou na terapia a ajuda que necessitava Fonte: Unsplash

Inês viveu momentos de grande ansiedade e encontrou na terapia a ajuda que necessitava Fonte: Unsplash

Quanto à existência de linhas de apoio psicológico, refere que são “uma realidade muito distante”. “Quando penso em linhas de apoio, associo imediatamente a apoio ao suicídio e, na minha cabeça, remete-me logo para uma situação mais crítica”, conta, como justificação para nunca as ter utilizado. A falta de informação sobre estes apoios também foi um fator que contribuiu para criar esta distância na cabeça de Inês. Em retrospetiva, a jovem conclui: “Naquele momento estava mesmo desesperada, é a palavra que define melhor, mas ao mesmo tempo não sei se teria ligado para uma dessas linhas”. Quer por achar que é mais constrangedor partilhar os seus problemas por telefone, quer por isso tornar o problema mais real, Inês tem algumas reticências. “Eu sinto que num estado assim tão crítico de ansiedade não pensamos bem, as coisas não estão no sítio e tudo fica ainda mais real quando procuramos ajuda. Se calhar não teria ligado no momento em que estava mais ansiosa, mas talvez quando começasse a acalmar-me" admite.

Em retrospetiva, Inês conclui: "Naquele momento estava mesmo desesperada, é a palavra que define melhor, mas ao mesmo tempo não sei se teria ligado para uma dessas linhas"

Sofia Santos Nunes, 28 anos, é Presidente da Associação Sobreviver, uma organização destinada a ajudar familiares ou amigos de alguém que tenha cometido suicídio. Sofia afirma sem rodeios que “a saúde mental ainda não é vista como doença” e, relativamente ao suicídio, “é visto como uma escolha livre ou um comportamento, descurando o estado mental que a pessoa pudesse ter e que foi um fator gritante para este desfecho”. Os suicídios deixam, em média, entre seis e dez pessoas diretamente afetadas ou traumatizadas. Refere que estas linhas de apoio são extremamente importantes para intervenções em crise, mas que não têm grande capacidade preventiva. Sofia reforça ainda que, no que toca a saúde mental, qualquer pessoa pode correr riscos se não fizer a devida manutenção e em Portugal não existe uma forte componente de prevenção a montante. A psicóloga Lúcia corrobora esta premissa, reforçando que a doença mental não faz um aviso prévio. “Quando se apercebem acaba por ser um pouco tarde. Uma depressão, por exemplo, não pode ser diagnosticada antes de seis meses de acompanhamento. Em Portugal não existe a cultura de fazer terapia por antecipação, por autoconhecimento, não temos esse hábito. A pessoa recorre ao psicólogo ou psiquiatra quando se sente muito mal e percebe que não tem margem de manobra a não ser recorrer a estas entidades especializadas”, remata.

Quer conhecer esta história sob um ângulo diferente?

A obra "Às vezes dói (mas eu escondo)" materializa o apoio psicológico telefónico e a saúde mental, segundo a visão do artista urbano Mário Belém. Encontra-se exposta na Rua das Flores em Alcântara, Lisboa.

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