UMA REDE QUE SE DESFAZ
Claudia Lopes e Jessica Pereira
Entre as estreitas ruas da Afurada e a vasta costa portuguesa, as comunidades pesqueiras revivem memórias de uma vida dedicada ao mar. A modernização trouxe melhorias tecnológicas, mas a pesca, e o coração pulsante destas pessoas, está em declínio.
As dificuldades económicas e a falta de apoio têm afastado os jovens desta profissão, deixando assim receio sobre o que reserva o futuro.
Histórias de sacrifício e perseverança dos pescadores e varinas pintam um quadro vívido de uma cultura em transformação, onde antigas tradições lutam para sobreviver num mundo em constante mudança.
Pescador da Afurada
Pescador da Afurada
PARTE 1:
"A gente" do mar
Réplica no interior do Centro Interpretativo do Património da Afurada
Réplica no interior do Centro Interpretativo do Património da Afurada
Fachada do CIPA
Fachada do CIPA
É na margem sul do rio Douro, próximo à foz, que encontramos a Afurada. Um bairro, que mesmo com a modernização do mundo, mantém traços dos tempos em que a pesca ocupava o coração daquela terra.
No meio do labirinto de ruas estreitas, casas coloridas, adornadas de azulejos tradicionais encontramos Amadeu das Flores Tavares. Nasceu e foi criado aqui. Hoje reformado leva-nos numa viagem ao tempo. Aos 13 anos, seguiu as pisadas do pai e deu os primeiros passos em direção ao mar, na esperança do pão de cada dia. “Foi numa bateira, para as chamadas arte de bugiganga, onde se pescavam camarões, linguados e fanecas”, diz exprimindo um sorriso marcado de saudade.
Anos mais tarde, a sua vida mudou de rumo, viveu aquela que diz “à boca cheia”, ser “a pesca mais imunda debaixo do sol”. Tinha 20 anos, quando se dedicou à pesca do bacalhau à linha, uma técnica tradicional que envolve o uso de linhas de pesca ao invés de redes. Este método tem um menor impacto no meio ambiente por minimizar a captura acidental de espécies marinhas. “Passei tormentos, fracos passadios, frios e gelos”, encara com peso no olhar.
No interior do Centro Interpretativo do Património da Afurada, enquanto nos mostra as réplicas de embarcações, conta-nos como era o alto mar da Gronelândia. “Louvados às quatro horas. Arreávamos, cortávamos a isca e ia cada qual ao seu destino. Passávamos 14 horas nos dóris (embarcação de pequena dimensão) e voltávamos quando o navio nos chamasse. Descarregávamos, se tivéssemos apanhado alguma coisa. Dependia muito dos dias. Íamos comer a única refeição do dia. Não tínhamos água. Fazíamos a barba e lavávamos os pés com água salgada, só tomávamos banho quando regressávamos a casa. Passávamos quatro a cinco meses no mar. Foi a vida mais ingrata que Deus botou no mundo.”
Caderneta militar de um pescador da Afurada, em exposição no CIPA
Caderneta militar de um pescador da Afurada, em exposição no CIPA
Exposição no CIPA
Exposição no CIPA
Réplica do barco "São Pedro de Afurada", em exposição no CIPA
Réplica do barco "São Pedro de Afurada", em exposição no CIPA
Réplica do barco "Dona Cidália", em exposição no CIPA
Réplica do barco "Dona Cidália", em exposição no CIPA
Réplica do barco "Os meus netos", em exposição no CIPA
Réplica do barco "Os meus netos", em exposição no CIPA
Exposição no CIPA
Exposição no CIPA
Exposição no CIPA
Exposição no CIPA
Exposição no CIPA
Exposição no CIPA
Amadeu Tavares
Amadeu Tavares
Estantes da garagem de Amadeu Tavares
Estantes da garagem de Amadeu Tavares
José Valentim
José Valentim
Os impasses desta jornada não o trouxeram para terra. É com expressão de orgulho que afirma “nunca deixei o mar e não me arrependo. Tenho 81 anos e estou aqui. Foi feliz!”. Mesmo em artes diferentes, de uma forma ou de outra, esteve sempre ligado à pesca.
Para Álvaro Garrido, professor e investigador na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e autor do ensaio “As pescas em Portugal”, a razão primordial da conexão entre a sociedade portuguesa e o mar, especialmente nos primórdios da civilização, é a localização geográfica. “Portugal é um país litorâneo. Apresenta uma costa marítima muito extensa comparativamente à dimensão do seu território.” Pelo que, sempre forneceu recursos vivos que serviam de sustento às comunidades, que se alicerçavam no mar para fugir da fome.
O investigador acrescenta que o mar surge, historicamente, como um espaço de reinvenção estratégica exaltado por “pessoas ligadas à marinha, cientistas e dirigentes políticos para superar a pequenez da nação e reconverter a economia”, em períodos de crise. Destaca que, em momentos de aperto, como o da intervenção da Troika ou na ressaca da Grande Depressão do século XX, houve uma reconsideração das políticas do mar, “como uma espécie de saída mágica para um confinamento nacional”.
Amadeu refere que eram os tempos que moldavam as vontades. Em meio a um regime ditatorial, onde “não nos deixavam falar nem progredir, a gente virava-se para o mar”. Durante esse tempo, na Afurada, como muitas outras zonas do país, “havia muita miséria”. O ex-pescador afirma que quando não conseguiam ir ao mar por vários dias consecutivos “passava-se fome”.
Depois de se reformar e abandonar os barcos, dedica-se à construção de miniaturas. É na sua garagem, envolvido nas estantes abarrotadas de réplicas de barcos, que passa a maioria do tempo a remoer a altura em que este bairro se movia com a maré. As obras em madeira refletem as saudades, que permanecem no meio das dificuldades, da Afurada onde “os homens estavam no mar e as mulheres na terra, a vender o peixe. A minha esposa foi peixeira, gostava, mas de qualquer modo, as coisas tinham de ser assim”.
Ressalta que “a vida da pesca é muito ingrata”, mas apresenta melhorias significativas desde o seu tempo. “Antigamente não havia horários. Fazíamos tudo à mão, éramos sacrificados até dizer chega! Sem margem para dúvida que está melhor agora. Já tem aladores, guinchos... Não falta nada num barco de pesca.” Segundo o ex-pescador um barco que hoje parte à pesca com oito homens, na sua altura precisava de 40 “para deitar as redes, que hoje as máquinas deitam”. O Instituto Nacional de Estatística aponta que os acidentes de trabalho na área diminuíram aproximadamente um terço nos últimos 20 anos. Mesmo que com os avanços tecnológicos o trabalho se tenha tornado mais seguro e facilitado, Álvaro explica que ainda é considerada uma profissão de risco.
Segundo os dados do INE
No porto de São Pedro da Afurada encontramo-nos com José Valentim da Silva Tavares que nos convida a subir a bordo do seu barco, atracado no rio. Explica-nos que partilha com Amadeu a mesma razão que o levou até ao mar, embora noutra época. “Nasci numa família de pescadores, como muitos aqui. Envergamos pela pesca. Raro era aquele da minha idade que fugiu desse caminho”.
Viver da pesca é viver na incerteza. Os homens do mar não possuem ordenados mínimos, o confere instabilidade à profissão. “Trabalhamos cerca de sete meses por ano, temos que dividir o que ganhamos pelo ano todo. Nunca sabemos o que vai acontecer, pode ser um ano bom ou não. Não temos subsídio de férias, nem de Natal. Somos como as formigas, a trabalhar no verão para ter no inverno.”
Enquanto retira uma das mãos do bolso, José lamenta, em tom de desilusão, que Portugal dê cada vez mais valor ao peixe que é congelado e importado. “Vemos fotografias de peixe nas caixas, ao sol, em países como Marrocos. Esse peixe vem para aqui ser vendido por acordos que foram feitos pelos nossos governantes. Nós, tem dias que chegámos aqui e temos de deitar o peixe todo fora”, refere gesticulando.
Com tristeza no olhar, o pescador indica que a parte monetária do trabalho é das mais difíceis e que fez muita gente afastar-se do setor pela falta de rendimento e certezas. “Para mim esta vida vale a pena. A dado momento tive de emigrar, mas orientei a minha vida. Há aqui gente que nunca o fez e conseguiu. O importante é saber viver o dia a dia.” A vida atribulada não afeta apenas estes homens, mas também as suas famílias que são reflexo das dificuldades que passam. “É uma vida muito difícil que requer uma rede de apoio familiar muito grande e consolidada.”
PARTE 2:
Entre cantigas e "pregões"
Sentada no interior do CIPA, ao seu lado uma exposição sobre varinas, Maria de Lurdes Cacheira, com um tom de emoção, traz à memória quando era criança e via o seu pai, pela manhã, voltar do mar. “Eu cresci na Afurada. O meu pai vinha do mar cansado, mas era ele que acendia o fogão e assava para todos. Estendíamos um pano na calçada e aí almoçávamos.”
O ambiente do lar foi muito moldado por seu pai, Dionísio. “Quando não apanhava nada vinha carrancudo, não havia o que comer. Se apanhasse vinha alegre.” No inverno, as condições climatéricas não permitiam a pesca no mar, os pescadores ficavam sem sustento. Nesta casa, Dionísio era a única fonte de rendimento e viu-se obrigado a procurar alternativas quando os barcos não podiam zarpar. “Já devia ter uns 50 anos quando foi apanhado, porque era proibido andar à rede das solhas. Ainda hoje não deixam, mas eles vão, porque a necessidade assim o exige. Esteve 15 dias preso. Quando voltou jurou que nunca mais. Sabia que era proibido, mas tinha que nos dar de comer. No inverno passava-se mais um bocadinho de fome.”
Apesar dos obstáculos da vida, lembra-se do passado com alegria no olhar. “Era uma vida dura, mas era uma vida de alegria. O meu pai não sabia ler nem escrever, mesmo assim era um craque na pesca, um homem com muita visão. Tinha muita sorte, o bote voltava cheio de faneca à proa. Quando chegava vendia e guardava sempre um cabaz de lado para repartir pelas pessoas com necessidade.”
A infância de Maria de Lurdes foi curta. Nos seus primeiros anos de vida perdeu a mãe e cresceu moldada pela terra e pelo pai. Aos 11 anos, meteu o lenço colorido na cabeça, vestiu a saia comprida e o avental, calçou as socas de madeira e foi para a rua, de cesto de vime à cabeça, vender a riqueza que o pai trazia para terra. Mais adiante, percebeu que não gostava e voltou-se para a indústria das conservas, incentivada pelo patriarca da família. “Era essa a nossa vida, a nossa luta. É um orgulho trabalhar”, relata com o olhar vidrado de lágrimas que é atraído por duas vozes que adentram o museu.
A nós junta-se Maria Sousa, que à semelhança de Lurdes, é nascida e criada na Afurada, vinda de uma família com os pés ao mar. O seu pai era pescador, contudo a sua mãe não se ligou ao ramo. “A minha mãe trabalhava fora, não gostava de andar a vender. Era eu quem pegava no peixe do meu pai e o vendia para termos mais alguma coisa”. Com 16 anos, grávida do primeiro filho, tornou-se varina para ajudar a família, contudo o dinheiro era pouco, e paralelamente arranjou um trabalho num restaurante local. “Fazia os dois lados, andava a vender de manhã e depois ia para o restaurante”.
Para Maria crescer na Afurada é motivo de um orgulho carregado de ótimas recordações.” Gostei muito da minha infância aqui. Passávamos um bocadinho de mal, mas foi uma infância boa.” Ser varina sempre foi, mais do que outra coisa, um gosto, que teve de abandonar por não ser bem pago. “Uma pessoa levantava-se cedo. Se fosse verão, por aqui vendia-se peixe miúdo. Senão íamos a Matosinhos procurar outros peixes. Uma carrinha deixava-nos lá, quando acabasse o peixe vínhamos embora, de meio de transporte ou a pé. Geralmente, há uma hora já estava tudo despachado e tínhamos a tarde para lavar as coisas, éramos felizes. Na altura de verão é que sabia bem! Tínhamos contacto com as pessoas, convivíamos e isso era muito bom”.
A outra senhora, com um sorriso nervoso, um lenço azul e branco pelos ombros, senta-se no banco. Ermelinda da Conceição, agora com 80 anos, apresenta-se: “sou viúva, com sete filhos, 15 netos e quatro bisnetos. Foram muitos anos com a canastra à cabeça, uma vida inteira. Tenho muito gosto em ter sido varina.” Enche-se de orgulho, mas também se sente a tristeza em relembrar tempos que diz que “não trazem boas memórias”. A sua mãe faleceu quando tinha três anos, os seus avós assumiram a sua criação. “Eles trabalhavam e eu ficava na rua sozinha, com outras crianças. Se me apetecia ir para a escola ia, se não me apetecia não ia. Se tivesse almoço comia, senão não. Não tenho boas memórias”.
A Afurada era, naquele tempo, uma terra movida pelo mar. Os homens deviam ir para a pesca, e às mulheres cabia vender o que chegasse a terra. “Assim que a mula tocava lá vínhamos nós a correr, era sinal de peixe. Era bom, convivíamos e depois cada uma ia ao seu caminho vender”, diz Maria Sousa por entre risadas.
Maria de Lurdes Cacheira
Maria de Lurdes Cacheira
Maria Sousa
Maria Sousa
Ermelinda Lapa
Ermelinda Lapa
PARTE 3:
A Afurada de ontem
As opiniões dividem-se entre as boas e as más memórias, mas todas concordam que a Afurada que conheciam não é a mesma de hoje. É com cara de indignação que Maria de Lurdes afirma que a terra onde criou recordações na calçada era outra. “Não é feia, o que a faz mais feia é o abuso das pessoas que aqui vivem. Quer sejam daqui, quer sejam de fora. Sinto saudades da minha terra. Da mula a tocar, das senhoras com aquela voz fininha que a cantar que nos acordavam. Muitas saudades de vender no mercado, de sentir o movimento e ouvir o grito. Saudades dos cantares à beira-rio.” Contudo, reconhece que o processo que ocorreu nesta localidade é natural e estende-se além-fronteiras. É com ar de decepção que explica: “Morrem os da tradição, os mais novos afastaram-se. Eu fui varina, mas as raparigas mais novas não são capazes de pegar numa bacia à cabeça. Isto é o bicho da traça e é mundial.”
Segundo Garrido, o afastamento das novas gerações às tradições marítimas é complexo, contudo existem alguns fatores que parecem ter contribuído significativamente. As atividades marítimas perdem expressão nos anos 70, 80 e 90, por fatores de ordem externa e instala-se um “imaginário marítimo essencialmente passadista, baseado no peso esmagador, excessivo, do ilusório legados dos chamados descobrimentos”. A relação baseia-se no recordar de um momento mítico da história nacional que sofreu um declínio, do qual nunca mais se recuperou. Salienta que “são narrativas frágeis, mas tudo isto pesa nesse afastamento dos portugueses em relação ao mar”.
Complementarmente, a visão dos mais novos sobre o mar deixou de ser como uma força de trabalho e adotou um caráter hedonista. “O mar para nós começa e acaba onde está a praia. Portanto, não temos uma relação muito física com o mar, de navegação ou de experiência”. Por outro lado, indica ser preciso considerar o papel do estado, mas sem o elevar ao estatuto do principal responsável e colocar a sociedade no papel de espectador vulnerável. Os governantes apresentam, “demasiadas flutuações na sua paixão pelo mar, portanto não têm uma paixão muito sólida”.
Maria Sousa compartilha das saudades do outrora, porém está segura de que as raízes não se perdem e faz o que está ao seu alcance para manter a memória vívida. “Ainda agora, quando saem uns raios de sol, vamos para os tanques lavar a roupa. Temos máquinas de lavar, mas queremos conviver umas com as outras”, assim sentem os ares de outro tempo. Lurdes faz o mesmo, mas no fundo sabe que o tempo “não vai voltar”.
Ermelinda gesticula como se revivesse os tempos em que a visão da manhã era o cais cheio de barcos que voltavam recheados da abundância do mar. “Tínhamos uma fauna muito grande de peixe. Os barcos atracavam ali e a gente ia descalça ajudar. Era tanta sardinha miúda a saltar, era uma riqueza. Havia muita fartura. Andávamos sempre a vender. Eu chegava ao sítio onde vendia dava dois pregões, as senhoras vinham todas à porta. Vendia a sardinha toda num instante. Vinha outra vez para a Afurada, a pé!” Na sua memória estará sempre o grande legado deste lugar, que a modernidade fez perder. “A Afurada foi um sítio de muitos pescadores, de onde saíram grandes mestres”.
O avô de Maria Sousa foi professor da Casa dos Pescadores, escola de formação responsável por ensinar as artes da pesca a muitos jovens. Era naquele espaço que aprendiam a fazer redes, a pescar e a trabalhar no banco do bacalhau. Atualmente a instituição já não existe. Para Ermelinda, “nunca haviam de ter desistido dessas escolas, os jovens podiam aprender e começar a ter a vontade. Neste momento não há nada”.
No panorama nacional, os relatórios divulgados pelo INE revelam que o número de inscritos nas formações tem aumentado exponencialmente, embora não haja uma tradução no aumento da mão de obra. De acordo com Álvaro Garrido, esse fenómeno explica-se devido a uma paralisação que aconteceu durante vários anos, por falta de meios e dificuldades de articulação com o Instituto de Emprego e Formação Profissional. Portanto, este aumento, é fruto de uma tentativa de recuperar o perdido. “Não se podem tirar daí grandes conclusões.”
Segundo os dados do INE
Em frente do museu vemos o mar. O movimento é baixo, alguns pescadores remendam as redes. O cais está cheio de pequenas embarcações, muitas que não saem dali há demasiado tempo. Ermelinda conta que “há barcos que querem ir para o mar e não tem pescadores. Alguns emigraram e os jovens não querem essa vida. Há cada vez menos pescadores aqui”. A seu ver por ser um trabalho que exige muito do homem, contudo ressalta que “antigamente era pior, não havia motores, os barcos eram todos a remo. Agora já vão havendo outras regalias.”
A nível de mão de obra, o setor da pesca no nosso país tem vindo a assistir a uma redução substancial do número de pescadores matriculados e de embarcações registadas, segundo os dados publicados pelo INE.
Segundo os dados do INE
Os números são tradução da desconexão que se tem verificado entre o mar e a sociedade, um pouco por todo o modo. Para Álvaro Garrido, os dados são a confirmação de que a tradição enraizada se converte num vínculo superficial, muito provavelmente “porque nós não percebemos o mar”. Sugere que existe, desde sempre, um ambiente de mistério, medo, intimidação e de fabulação sobre o tema, que inclusive, ao longo da história, resultou em inúmeras lendas sobre a atividade marítima fruto do desconhecido e do imaginário, que por muito tempo foram tomadas como verdade. Este clima levou a comunidade a mitificar os pescadores, marinheiros, mergulhadores, e de modo geral, todas as profissões que lidam com a coluna de água.
Os relatos presentes de Ermelinda contrastam com o passado glorioso que se foi rompendo. “Quando tínhamos lota vinham para aqui barcos de outros sítios que andavam para trás e para a frente. Havia muitas embarcações e muito peixe. Era muito sável, muita lampreia, aquilo era uma categoria.” Na rua, as senhoras passeavam para lá e para cá, “vinham à feira passear. Acabou-se a lota, acabou-se tudo. Não temos nada. Neste momento, quando querem vender vão para Matosinhos. Nesse aspeto isto está muito mau”.
A pesca foi sendo abandonada gradualmente, na família de Maria Sousa, o seu pai e o seu marido foram os últimos a seguir a tradição. “Eu tenho dois irmãos. Eles nunca quiseram ir para o mar porque viram o que o meu pai passou.” Atualmente essa tendência intensificou-se, poucos são os que deram continuidade à herança cultural. “Os jovens não querem ir. Já poucos se vêm.” Mesmo em meio a um cenário de abandono acredita firmemente que a conexão ao mar não vai ter fim. “Há sempre os que gostam. Ainda temos aqui jovens que gostam de ir para o mar com os camaradas.”
Pedro gomes, docente do departamento de Biologia na Universidade do Minho e investigador no Centro de Biologia Molecular e Ambiental, defende que muitas das vezes os próprios pais não querem os filhos no mar. “Os jovens não querem, mas eu conheço muitos filhos de pescadores que os próprios pais não querem que eles vão a pesca”. Destaca que atualmente os pescadores tem a vida mais facilitada pela evolução tecnológica, mas continuam a existir condições neste trabalho que afastam os mais novos, como os horários. Os jovens não querem ir para o mar para estar com a família. “Um pescador não tem horas. Eles saem a meia-noite e regressam para dormir o dia todo, quando os filhos ou os netos estão ativos. Portanto, é também um bocado por isso que as pessoas querem outro tipo de vida. Nós vamos para o mar quando está bom tempo, eles vão sempre.”
De acordo com o Álvaro Garrido, este tipo de profissão costuma “ser herdado, normalmente dentro das comunidades, porque as gerações anteriores já iam ao mar”, porém essa tendência tem sofrido alterações e verifica-se que os próprios pescadores tentam afastar os seus filhos e netos de uma vida que foi, para muitos deles, carregada de sacríficos. “É difícil tornar este ramo atrativo para a vida contemporânea”, por se afastar de valores que tendem a ser crescentemente valorizados, e os recentes números revelam a tendência a que se torne uma prática cada vez mais escassa.
Amadeu confessa que, tentou com muita insistência que os seus filhos não seguissem as suas pisadas. “Quis desviar os meus filhos da pesca. Para sofrer já tinha sofrido eu. Não é que não goste do mar, mas naquele tempo era assim. Agora existem outras opções”.
O declínio pode ser atribuído a vários fatores, incluindo a modernização do setor pesqueiro, que tem automatizado e reduzido a necessidade de mão de obra tradicional, e as melhorias na segurança que embora sejam positivas, não compensam a perda de interesse pela profissão.
Fachada do Mercado Municipal da Afurada
Fachada do Mercado Municipal da Afurada
Fotografia em exposição no CIPA
Fotografia em exposição no CIPA
Fotografia do porto da Afurada
Fotografia do porto da Afurada
Porto da Afurada
Porto da Afurada
Porto da Afurada
Porto da Afurada
PARTE 4:
O MAR DO AMANHÃ
Fotografia das redes da Afurada
Fotografia das redes da Afurada
Fotografia de um mestre a atar e remendar redes
Fotografia de um mestre a atar e remendar redes
Barco "Fúria da pesca"
Barco "Fúria da pesca"
Pescador da Afurada
Pescador da Afurada
Trabalhadores na Docapesca da Afurada
Trabalhadores na Docapesca da Afurada
O futuro da pesca em Portugal está em constante evolução. A sustentabilidade e o ajuste às novas exigências são cruciais para garantir a continuidade desta atividade tradicional, que ainda possui um impacto significativo na economia e na cultura portuguesa. Existem vários pensamentos incertos que deixam dúvidas sobre com o que se depara o futuro deste setor.
Na perspetiva de Ermelinda o futuro é incerto, mas confessa, em tom sério, que o seu coração se enche de pena ao pensar num panorama envolto de esquecimento. Já Maria de Lurdes está convencida de uma situação mais à terra do que ao mar, mantendo sempre um fundo de esperança. “Nada é impossível, mas isto está tão duro que eu não sei onde isto vai parar.”
Álvaro Garrido enfatiza que, ao longo dos anos “perdeu-se o mais precioso, a biodiversidade”, crucial para a sobrevivência futura da pesca. Realça que este é um setor biossocioeconómico, compreendendo as dimensões biológica e de gestão de recursos naturais, social e económica, e “se perdemos a biodiversidade, o futuro da pesca pode estar sob ameaça em determinados setores e, portanto, essa questão é fundamental”.
Garrido destaca uma redução drástica no número de pescadores ativos no território português, que passaram de 48.000 para apenas 14.000. Esta diminuição não só representa uma perda significativa em termos sociais, mas também afeta consideravelmente a economia do setor. Acrescenta que, em termos económicos “perdemos e ganhamos”. A balança comercial de produtos de pesca é deficitária devido ao elevado consumo de bacalhau no país, tornando Portugal o maior mercado interno de bacalhau do Atlântico. No entanto, há progressos notáveis nas exportações, com Portugal a ganhar reconhecimento pela qualidade dos seus produtos transformados, como conservas, bacalhau, mariscos e outros pescados. A transformação de pescado ganhou expressão e valor no cenário económico nacional, contudo verificou-se uma perda significativa na atividade de captura e na dimensão das frotas pesqueiras.
Todavia, Portugal vive um processo de reconstrução marítima, onde a velha economia do mar, voltada para os setores convencionais, começa a dar lugar a uma nova economia. Apesar de estar em construção, a “economia azul”, como é conhecida por especialistas, é um espaço de “oportunidade para a biotecnologia, a descarbonização da economia, a exploração de recursos do solo e do subsolo oceânico e de recursos estratégicos do mar. Porém, é uma cadeia de valor relativamente residual e as pessoas ainda não percebem a expressão, a nível social e cultural, desta nova relação de Portugal, e dos países de um modo geral, com o mar. Nesse sentido, é natural que estejam distantes”.
A visão dos pescadores sobre o futuro é marcada por um misto de preocupações e esperanças. Amadeu Tavares concorda que os pescadores devem ter um especial cuidado com a vida marítima para assegurar uma boa qualidade na captura. “Temos de ter cuidado com a pesca, a gente tem que deixar evoluir o peixe porque assim é que é bom para a nossa alimentação. Mas muitos pescadores passam isso ao lado, porque a pesca é o sustento deles, se não fosse isso não ganhavam dinheiro, percebo que seja difícil.” Mesmo sabendo isso, sente preocupações por este setor. “O futuro da pesca não está muito risonho, principalmente na pesca da sardinha. Aquilo que eu vejo não está muito famoso”.
Pedro gomes, tem uma abordagem mais prática, foca-se nos desafios operacionais que os pescadores enfrentam diariamente. Reconhece que a sobrepesca continua a ser um problema significativo, mas destaca os efeitos positivos recentes, como as restrições que tem havido na pesca da sardinha. “Os pescadores não gostam, porque para eles capturavam sempre, mas têm que ter isso em atenção.” Evidencia que a gestão cuidadosa do stock de espécies comercias, é vital.
José Valentim defende o trabalho dos pescadores e realça que existe consideração pela fauna marítima.
Gomes salienta a importância das tecnologias de captura seletiva e dos dispositivos de monitorização e fiscalização, que tem melhorado significativamente e são essenciais para garantir a sustentabilidade a longo prazo. No entanto, alerta para os desafios inerentes à aquacultura, que é muitas vezes apresentada como alternativa a pesca tradicional, particularmente devido a dependência de capturas selvagens para alimentar os peixes cultivados. “Existem vários problemas. Onde vamos buscar alimentos para dar o peixe? E onde se vão meter as aquaculturas? Portanto, não é propriamente fácil de as implementar em mar, não é rentável. Como tentativa de larga escala não me parece.”
Para José, existem dúvidas de que a pesca tradicional possa acabar. “A minha pesca não vai acabar, mas o pescador tradicional que nasceu e viu a pesca ao longo dos anos, vai desaparecer. Da parte da minha família, eu sou a última geração na pesca, nem os meus filhos, nem os meus sobrinhos quiseram isto. Não há mais nada nesse respeito, já não há mais nada a fazer.” A sua esperança acabou.
Além disso, o Professor Gomes observa que a formação de pescadores tem aumentado, o que pode ajudar a nova geração a compreender melhor a importância da conservação “isto pode tornar as pessoas um bocadinho mais conscientes, e passar para as próximas gerações, alguns argumentos que há uns tempos era praticamente impossível, a ignorância não ajudava”.
Porém, ele reconhece que “a formação por um lado é boa, mas também lhes dá ferramentas que lhes permitem ser mais agressivos”, enfatiza que estas formações podem representar um paradoxo na busca pela sustentabilidade.
Para garantir a sustentabilidade no futuro, Álvaro Garrido apoia a manutenção de restrições na pesca e o aumento das áreas marítimas protegidas. Destaca também a importância tratar cuidadosamente a convivência com a pesca e que nisso os pescadores têm vindo a falhar significativamente. “Em Portugal, e na maioria dos países, criou-se uma interpretação por parte de cientistas da área da biologia e das ciências do mar, por vezes exagerada, que quase condena a pesca à extinção. É verdade que os comportamentos de predatórios dos pescadores e de armadores persistem. As expectativas do lucro de curto prazo prevalecem”. Acrescenta que outra forma de assegurar a sustentabilidade é a importância de equilibrar com outras atividades como as eólicas offshore, atividades marítimas, turismo sustentável e diversas outras áreas interessantes.
Pedro Gomes acredita que o cenário de mudança é inevitável.
Pedro gomes sobre o futuro da pesca.
