Val de Poldros:
A terra de um só habitante
Reportagem Jornalismo e Multimédia
A 1113 metros de altitude, o silêncio impera em cada recanto das montanhas e o som do vento ecoa entre as antigas cardenhas de granito e xisto. Aqui, em Vale de Poldros, onde o cheiro a mato se mistura com o frio cortante da serra resta apenas um habitante, o senhor Fernando Gonçalves, de 57 anos.
“Viver aqui é como estar num apartamento numa cidade, não se conhecem os vizinhos. Quando vivia lá era trabalho-casa, casa-trabalho, aqui é igual, mas o bom é que o trabalho está mesmo ao lado”.
Sentado em frente à lareira do seu pequeno restaurante, com as mãos sobre a mesa, compara com naturalidade e alguma ironia, a solidão nas montanhas e a vida na cidade. “Cá não há filas, nem nada dessas coisas muito dolorosas para mim. Aqui a vida é mais tranquila".
Depois de 18 anos a viver em Andorra, Fernando regressou ao seu lugar de origem. “Queria fazer alguma coisa pela minha terra. Sempre tive carinho por isto”. Decidiu investir no turismo e abrir um restaurante, mas o início não foi fácil.
Fernando Gonçalves acredita que Val de Poldros ainda tem muito para oferecer
Fernando Gonçalves acredita que Val de Poldros ainda tem muito para oferecer
"No início, era muito difícil. Muita falta de mão de obra, não havia internet, a televisão funcionava muito mal e só dava por satélite. E ninguém conhecia isto"
Inspirado pela experiência vivida em Andorra, onde o turismo e a restauração faziam parte do dia a dia, Fernando decidiu apostar na gastronomia. A cozinha, no entanto, não era uma paixão natural. Revela que “não gostava de cozinhar, mas, com o tempo, fui aprendendo e até comecei a gostar”.
A simplicidade das receitas de um colega espanhol foi a sua primeira inspiração - “Ele dizia: ´se não tiver este ingrediente, não ponha, use outro´ e isso descomplicava as coisas para mim”. Tentou seguir as receitas dos livros de culinária, mas nunca conseguia fazer nada, “porque há livros que parecem complicados demais”.
Vê programas de cozinha, como quem vê novelas. Gosta de ler e aprender sempre mais sobre o assunto. Diz que agora com a internet, é tudo mais fácil, “uma pessoa quer procurar lá uma coisa e aparecem-lhe logo muitas sugestões”.
O restaurante tornou-se o coração da pequena branda. Durante o verão, especialmente em agosto, com o regresso dos emigrantes, a procura é significativamente maior. “Setembro também é bom, ainda vêm muitos portugueses de férias e ainda alguma gente de fora. Já vieram mais, mas pronto, ainda temos alguns”, partilha.
Na minha juventude, muitas pessoas daqui emigraram. O meu pai também emigrou.
Santo António de Vale de Poldros, uma antiga branda esquecida na serra, é hoje um testemunho vivo do despovoamento que há décadas atinge o interior de Portugal. Este fenómeno, porém, não é exclusivo desta região, como explica João Sarmento, docente de Geografia Rural da Universidade do Minho:
"O despovoamento começou nos anos 60, com a emigração em massa para França, Suíça e Alemanha. Os jovens partiram e deixaram para trás uma população mais envelhecida, sem força de trabalho e sem renovação geracional "
O impacto foi especialmente sentido nas comunidades que, como Val de Poldros, dependiam de práticas agrícolas sazonais e de uma economia de subsistência. Agora, resta apenas a tranquilidade da serra e a persistência de quem ainda escolhe ficar, como Fernando.
No alto da Serra da Peneda, a história da migração está gravada em cada cardenha abandonada. Fernando testemunhou este movimento desde jovem. “Na minha juventude, muitas pessoas daqui emigraram. O meu pai também emigrou”, relembra. Este êxodo deixou marcas nas comunidades rurais, que ainda hoje tentam resistir ao abandono.
João Sarmento contextualiza que este fenómeno de despovoamento em Portugal ganhou contornos mais expressivos devido à falta de políticas de revitalização rural. Vale de Poldros, com o seu estatuto de branda - um tipo de povoamento sazonal típico do norte do país -, é um exemplo claro dessas transformações. Este modo de vida, em que as comunidades se deslocavam entre duas aldeias ao longo do ano, acompanhando o ciclo agrícola e o gado, é hoje praticamente extinto.
Fig. 1 : Comparação da população rural entre 1960 e 2023 - Dados oficiais Global Economy
Fig. 1 : Comparação da população rural entre 1960 e 2023 - Dados oficiais Global Economy
O mais recente Relatório do Estado do Ordenamento do Território mostra que 24 concelhos, praticamente todos do interior do país, perderam nos últimos 10 anos, pelo menos, 15% da população. Em confronto com 2011, era previsto esta marca negativa ser atingida apenas em 2030, ou seja, em 19 anos. Tal não aconteceu.
Embora não haja atualizações mais recentes do número de aldeias despovoadas em Portugal, João Sarmento aponta que cerca de 10 mil lugares possuem menos de 40 ou 50 habitantes, um limiar crítico para a sustentabilidade destas comunidades. Destes, estima-se que entre 400 e 500 tenham apenas um, dois ou três habitantes, ou já estejam completamente desabitados.
"Somos um país muito envelhecido"
"Somos um país muito envelhecido"
Vale de Poldros, Val de Poldros ou
Santo António de Vale de Poldros.
Conhecida como a aldeia portuguesa “dos hobbits”, pela semelhança com os cenários verdejantes da saga “O Senhor dos Anéis”, tem mais designações do que habitantes.
A peculiaridade desta aldeia começa no seu sistema de povoamento sazonal. “As comunidades tinham duas casas: no inverno viviam nas inverneiras, em zonas mais baixas e no verão mudavam-se para as brandas, como Vale de Poldros”, explica João Sarmento.
Hoje, a prática de transumância é apenas memória, mas as marcas desse passado ainda se encontram na arquitetura da aldeia. As cardenhas, contruídas para dar abrigo aos pastores e ao gado durante as migrações sazonais, são a prova dessa tradição ancestral. Ainda que Vale de Poldros se tenha transformado num destino turístico sazonal, a falta de habitantes permanentes levanta questões sobre o futuro da aldeia. Como acrescenta o docente, “ainda há quem recupere casas para alugar no verão, mas isso não traz vida suficiente para essa zona".
A arquitetura de Santo António de Vale de Poldros é uma das marcas distintivas que contribuem para o seu apelo. A autenticidade das cardenhas, agora adaptadas ao turismo, continua a atrair curiosos e visitantes que procuram experiências fora do comum, como destaca Fernando: “Já veio aqui gente de todo o lado. Olhe ainda há pouco, veio uma japonesa e uma chinesa, que até falam português melhor do que eu”, comenta entre risos, “fascinadas por estas casas e por isto ser tão diferente”.
Apesar do crescente interesse, a inflação imobiliária também representa um problema nesta branda. Até parece irónico, mas a verdade é que o aumento dos preços das casas, especialmente em aldeias como esta que têm potencial turístico, pode afastar quem realmente gostaria de se fixar aqui.
O cenário “dos hobbits” trouxe fama a esta pequena aldeia, mas, para além da comparação cinematográfica, o local carrega uma história de resiliência e abandono. A maioria das casas estão abandonadas, mas algumas ganharam novos proprietários com planos de renovação, como conta o senhor Fernando:
“Sei que ainda há pouco tempo uma arquiteta comprou uma casa aqui, mas ainda não sei o que vai fazer. É bom ver que há pessoas interessadas”
Embora o turismo ajude na economia local, o docente da Universidade do Minho destaca que não é suficiente para resolver os problemas estruturais, “o fluxo de turistas é temporário e não compensa a perda da população fixa. A revitalização destas aldeias exige políticas públicas consistentes que atraiam jovens e famílias para viverem aqui permanentemente”.
"Aprendi a cozinhar com muitos clientes"
“Praticamente fomos nós que o construímos”
Apesar das dificuldades, Fernando sente orgulho em conseguir manter a essência de Vale de Poldros. “Fizemos isto, custou-nos muito para nos darem uma licença para podermos construir. Nunca pedi nada ao Governo, nem lhe peço. Tentamos fazer dentro do que nós entendemos de arquitetura”, relembra.
Com paredes de pedra típicas da região e uma decoração campestre que evoca as tradições locais, o restaurante é um refúgio de sabores autênticos. A cozinha, dedicada à gastronomia regional portuguesa, destaca-se pelo cabrito e pela sopa de saramagos, iguarias que conquistam quem cá passa. Nos meses frios de inverno, a lareira transforma o ambiente num espaço acolhedor, onde o calor não está apenas nas brasas, mas também na hospitalidade com que o senhor Fernando recebe os visitantes.
Foi em 2003 que o restaurante ganhou vida, fruto de um sonho partilhado com dois sócios. Um projeto que, pelas suas palavras, foi feito “com as próprias mãos”. Com os olhos cheios de orgulho, afirma “praticamente fomos nós que o construímos”.
Fernando recorda que, nos primeiros anos, viver ali era um verdadeiro desafio. “No início era muito difícil, para chegar aqui uma pessoa perdia-se, porque isto não se conhecia”. A chegada da fibra ótica e a sinalização dos trilhos trouxeram melhorias significativas, mas ele ressalta que o turismo ainda precisa de evoluir: “Nós temos de ter um turismo que seja um pouquinho interessante, não estes que vêm só com papéis e deitam tudo ao chão. Mas já há muitos que são respeitosos”.
Durante o confinamento, Fernando sentiu de uma forma mais intensa o privilégio de viver na serra. “Tenho um quarto que é bastante grande, tenho duas deluxe e uma janela para ali (virada para a serra). Não tinha televisão, só uma lareira e era onde me sentia mais à vontade”, partilha.
Com um sorriso no rosto, algo que lhe é muito característico, permanece otimista, “acho que agora mudou tudo e estou bastante mais feliz, porque as coisas melhoraram muito”.
"Agora temos de fazer sempre melhor e procurar a qualidade. Nunca devemos perder isso. E aqui temos um bocado de tudo."
Autoria: Lara Gonçalves e Mariana Miguel Lopes
Fotos e Vídeos: Lara Gonçalves e Mariana Miguel Lopes
Edição de vídeos: Lara Gonçalves e Mariana Miguel Lopes
Fotos e Vídeos aéreos: Alonso Pinheiro
Agradecimento especial a Fernando Gonçalves e João Sarmento
Reportagem Multimédia
Realizada no 1º semestre do 3º ano da licenciatura em Ciências da Comunicação - Universidade do Minho
Janeiro de 2025


