O Crescimento dos Brechós no Brasil

Fotografia: Mary Lima

Fotografia: Mary Lima

Os brechós já não são mais vistos como locais de “roupas velhas” ou com ares de exclusão. O que antes carregava estigmas, hoje é sinônimo de estilo, consciência ambiental e economia.

Em 2025, de acordo com dados do Sebrae, o mercado de moda de segunda mão no Brasil já contabiliza mais de 118 mil brechós ativos, e estima-se que o segmento movimente até R$ 24 bilhões no ano.

No ano de 2024, o setor registrou expansão de 8,5%, conforme levantamento da Associação Brasileira de Franchising (ABF), o que indica que os brechós vêm se consolidando não apenas como alternativa econômica, mas como um componente cada vez mais relevante da moda circular, pautada pela sustentabilidade, reutilização e consumo consciente.

A analista Ana Carolina Damasio, parte da equipe do Sebrae Rio, afirma que o mercado de brechós teve um aumento de 50% desde o início da pandemia. Damasio complementa que houve uma mudança de público consumidor: hoje a maior parte dele são os jovens de até 29 anos, que buscam tanto economia quanto opções de moda sustentável. 

Brechó Encontrei, em Copacabana: nasceu como iniciativa sustentável — Foto: Mary Lima

Brechó Encontrei, em Copacabana: nasceu como iniciativa sustentável — Foto: Mary Lima

A visão de quem acreditou nos brechós e decidiu investir no segmento

2 vintage cars in a driveway

Fotografia: Mary Lima

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Na contramão do consumo acelerado, um número crescente de mulheres tem encontrado no universo dos brechós não apenas uma oportunidade de negócio, mas uma forma de empreender com propósito. Para essas empreendedoras, investir no mercado de segunda mão é também assumir um compromisso com a sustentabilidade, com o uso inteligente de recursos e com novos modos de consumo.

É dentro desse movimento que surgem iniciativas como o brechó Encontrei, inaugurado em 2023, e conduzido por vozes que enxergam no setor um caminho possível para unir impacto ambiental positivo e autonomia econômica.

"Acredito fielmente nos três R: reduzir, reutilizar e reciclar, por isso, eu quis investir em um brechó."

Elizabeth de Oliva

Apesar de ainda existir um estigma em torno desse mercado, Elizabeth de Oliva, empresária por trás do brechó Encontrei, acredita que as pessoas estão se tornando mais conscientes com a situação das gerações futuras e, com isso, se tornando mais abertas para comprar peças de segunda mão.

Brechó Encontrei, em Copacabana: faz parte da nova onda no mercado de segunda mão. — Foto: Mary Lima

Brechó Encontrei, em Copacabana: faz parte da nova onda no mercado de segunda mão. — Foto: Mary Lima

Brechó Encontrei, em Copacabana: faz parte da nova onda no mercado de segunda mão. — Foto: Mary Lima

Brechó Encontrei, em Copacabana: faz parte da nova onda no mercado de segunda mão. — Foto: Mary Lima

Car on sand dunes

Espaço AZ, em Copacabana. | Foto: Mary Lima

Espaço AZ, em Copacabana. | Foto: Mary Lima

Car driving on sand

Espaço AZ, em Copacabana. | Foto: Mary Lima

Espaço AZ, em Copacabana. | Foto: Mary Lima

Espaço AZ, em Copacabana. | Foto: Mary Lima

Espaço AZ, em Copacabana. | Foto: Mary Lima

Espaço AZ, em Copacabana. | Foto: Mary Lima

Espaço AZ, em Copacabana. | Foto: Mary Lima

Brechós Multifacetados

Fundado em 2018, fruto de uma iniciativa sustentável, o Espaço A.Z, em Copacabana, decidiu unir três dinâmicas de comércio diferentes: cafeteria, sebo e brechó de roupas, móveis e decorações.

Maria Eduarda Leitão, sócia-fundadora do espaço, explica: “Acredito que unindo esses espaços a gente consegue segmentar menos nosso público alvo. Além disso, com os eventos que a gente faz conseguimos atrair mais gente. O clube do livro atrai o público infantil, enquanto o sarau atrai um público mais artístico e todos eles conseguem descobrir esse mundo de brechós. Assim, a A.Z se torna um lugar plural, que recebe todo tipo de gente”.

Além de se destacar por oferecer diversos serviços em um lugar só, a maior preocupação é manter um lugar ecológico e responsável.

“É muito difícil manter um estabelecimento completamente sustentável, por conta de outros fatores externos. Optamos por só trabalhar com peças realmente usadas, dando uma segunda vida para o que já existe, diminuindo ao máximo a produção de resíduos. Além disso, a coleta seletiva e ser consciente são essenciais”, complementa a empreendedora.

Espaço A.Z, em Copacabana: Cafeteria e sebo Beco das Palavras — Foto: Mary Lima

Espaço A.Z, em Copacabana: Cafeteria e sebo Beco das Palavras — Foto: Mary Lima

Com essa combinação entre criatividade comercial, responsabilidade ambiental e construção de comunidade, o Espaço A.Z demonstra como os brechós podem ir muito além da venda de peças usadas.

O reaproveitamento de roupas em brechós e a redução no impacto ambiental

Fotografia: Mary Lima

Fotografia: Mary Lima

A prática de reaproveitar roupas através dos brechós não só alivia o bolso do consumidor, como também ajuda a prolongar a vida útil das peças, reduzindo a quantidade de lixo gerado pela indústria da moda.

Contrariando a lógica do fast fashion, que incentiva a produção em massa e o descarte rápido, resultando em enormes quantidades de descarte têxtil e esgotamento de recursos naturais.

Entre 2016 e 2020, a busca por produtos sustentáveis cresceu 71% segundo mapeamento da Economist Intelligence Unit (EIU). Esse aumento reflete uma nova mentalidade, onde a sustentabilidade financeira e ambiental andam de mãos dadas.

Ao invés de recorrer a grandes marcas e pagar preços elevados por tendências passageiras, os consumidores, especialmente os mais jovens, têm encontrado nos brechós uma maneira de se expressar esteticamente sem comprometer o orçamento.

É o caso da profissional de moda Mavi Sales, de 19 anos. A estilista frequenta brechós desde 2020 e, atualmente, também trabalha em um deles.

"Uma vez, quando eu tinha 15 anos, eu queria muito uma bolsa na internet que era igualzinha a uma da Prada que estava na moda. Meu pai não me deixou comprar e eu lembro de chorar muito por causa disso. Aí, no dia seguinte eu fui em um brechó em Copacabana e achei uma bolsa de marca por 20 reais. Depois disso eu fiquei tipo, caramba, preciso garimpar mais." Conta Sales.

Mavi Sales no Espaço A.Z, em Copacabana: Começou a garimpar para evitar o fast-fashion — Foto: Mary Lima

Mavi Sales no Espaço A.Z, em Copacabana: Começou a garimpar para evitar o fast-fashion — Foto: Mary Lima

Os brechós precisam se atualizar em mundo cada vez mais tecnológico

Fotografia: Mary Lima

Fotografia: Mary Lima

Hoje, as redes sociais deixaram de ser apenas espaços de informação ou de contato com amigos e familiares e se consolidaram como plataformas estratégicas para divulgar, vender e impulsionar produtos.

O avanço dos brechós não consiste apenas em ocupar os espaços físicos, a compra de roupas usadas é fenômeno também nas redes sociais com os brechós digitais. Por meio delas, a moda sustentável ganha uma nova plataforma, onde a consciência ambiental, as redes e a moda, se juntam.

Os brechós na Era Digital

Os brechós na Era Digital

O levantamento do grupo OLX realizado pelo CNDL/SPC Brasil, revelou que 33% dos brasileiros compraram algum produto usado pela internet nos últimos 12 meses de 2021, A pesquisa também abordou as razões pelas quais as pessoas adquiriram esses produtos e demonstrou que a sustentabilidade na moda se tornou um dos temas centrais para consumidores, seguido pelo preço reduzido dos produtos.

Vendendo na Internet

Para se destacar e acompanhar as mudanças nos modos de consumo, brechós físicos precisaram se adaptar ao meio digital.

A carioca formada em moda, Cintia Santos, está no ramo dos brechós online desde 2018. Ao refletir sobre os próximos passos do próprio negócio, ela explica como o modelo digital continua sendo essencial para o crescimento do brechó:

Cintia consegue vender suas peças em qualquer lugar com apenas um click — Foto: Mary Lima

Cintia consegue vender suas peças em qualquer lugar com apenas um click — Foto: Mary Lima

“Da minha casa, eu consigo ter um espaço para estoque e armazenamento das peças. Eu já pensei em ter meu próprio espaço físico de brechó, mas, mesmo assim, continuaria com o brechó online. Nele eu consigo atingir um público maior e ampliar meus canais de venda.”
Cintia Santos

Simara Kau, fundadora do brechó Casarão, faz parte dos empresários que adotaram as redes sociais como pontos centrais de vendas. O brechó físico, localizado no Rio de Janeiro, completou 15 anos e continuou expandindo. Simara destaca que superado os desafios, atingiu picos de vendas positivos através das redes:

Simara Kau precisou aprender a usar as redes sociais a favor de sua loja para que o negócio continuasse ativo. — Foto: Mary Lima

Simara Kau precisou aprender a usar as redes sociais a favor de sua loja para que o negócio continuasse ativo. — Foto: Mary Lima

“Ficamos fechados cinco meses direto e depois fomos fazer lives vendendo online, tive que perder a vergonha de fazer esse tipo de coisa. Começamos a atingir um público que não tínhamos antes.”
Samara Kau

Os influenciadores são responsáveis por divulgar os brechós como um novo estilo de vida

Fotografia: Mary Lima

Fotografia: Mary Lima

Isabelle dos Santos

Tiktoker de moda e brechó

A influenciadora, que no início, tinha vergonha de comprar em brechós, durante a entrevista fala sobre um novo modo de ver esse tipo de consumo e como usa as redes sociais para incentivar a compra.

Ela mudou sua opinião sobre a criação de conteúdo e também sobre peças de segunda mão e, ao invés de se esconder, começou a expor os achados.

Vídeo de Belle no Tiktok

Vídeo de Belle no Tiktok

Entrevista com Isabelle

Entrevista com Isabelle

O cenário para os brechós no Brasil indica um crescimento consistente e alinhado às transformações do consumo contemporâneo

Fotografia: Mary Lima

Fotografia: Mary Lima

O crescimento da moda de segunda mão no Brasil reflete uma mudança profunda nos consumidores. Com o crescimento contínuo das plataformas digitais e a adoção de práticas mais sustentáveis, os brechós estão prontos para se tornarem uma parte essencial do futuro fashion. 

As perspectivas para a próxima década mostram que os brechós podem ocupar um papel ainda mais central na economia circular. A projeção da Boston Consulting Group (BCG) para a plataforma Vestiaire Collective indica que o mercado de segunda mão pode atingir US$ 360 bilhões até 2030, reforçando a força de um modelo de consumo menos poluente e mais acessível.

Nesse contexto, o Brasil segue a tendência ao combinar criatividade, reaproveitamento e diversidade cultural, abrindo espaço para novos formatos de negócio, como brechós híbridos, plataformas digitais e iniciativas de upcycling.

Sejam os consumidores guiados pela sustentabilidade, moda ou economia, o fato é que os brechós são uma febre tanto nas feiras, quanto nas redes.

"Compre menos, escolha bem e faça durar."

Vivienne Westwood

Os brechós já não são mais vistos como locais de “roupas velhas” ou com ares de exclusão.

Texto: Emilly Andreia, Mary Lima e Karen Monteiro

Vídeos: Ana Luiza Guimarães e Gabrielly Dias

Shorthand: Mary Lima

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