GVERREIRAS

DE RAÇA

O futuro do futebol feminino tem sotaque minhoto

No coração do Minho, onde o futebol sempre foi vivido com intensidade, a criação do departamento de futebol feminino do SC Braga afirma-se como um projeto que vai além dos resultados. No Estádio Amélia Morais, o jogo ganha outra dimensão, é aqui que se cruza a tradição de um clube histórico com a ambição de uma modalidade em crescimento.

Os primeiros passos do clube no futebol feminino ficaram marcados em 2016, integrando um movimento estratégico de expansão da Federação Portuguesa de Futebol que visava envolver os clubes na modalidade. Ao contrário de outras estruturas que optaram por uma transição gradual, o clube minhoto estabeleceu desde logo uma estrutura profissional, o que lhe permitiu disputar os lugares cimeiros logo na temporada de estreia.

O caminho até ao patamar atual, a Liga BPI, foi curto, mas consistente. Em apenas dois anos, a equipa chegou à primeira divisão portuguesa e afirmou-se de imediato como candidata ao título, terminando a época 2018/2019 com o título de campeãs nacionais. Dois anos depois, as Gverreiras voltavam a impor-se e levantaram a Taça de Portugal, num jogo frente ao SL Benfica. A rápida adaptação ao mais alto nível competitivo confirmou a solidez do projeto e a ambição do clube, que desde então se mantém de forma regular na luta por títulos.

Conquista da Taça de Portugal - Imagens cedidas pelo SC Braga

Conquista da Taça de Portugal - Imagens cedidas pelo SC Braga

Este percurso de afirmação encontrou a sua base logística e identitária no Estádio Amélia Morais. A sua inauguração em fevereiro de 2025 representou um marco no panorama nacional, sendo um dos primeiros clubes em Portugal onde uma equipa feminina dispõe de uma "casa" própria. Mais do que um campo de jogos, o estádio tornou-se um lugar que garante a autonomia do departamento feminino.

Estádio Amélia Morais - Ilustrado por Luna Cardoso

Estádio Amélia Morais - Ilustrado por Luna Cardoso

Ao entrar no universo do SC Braga feminino, percebe-se rapidamente que aquele não é apenas um local de trabalho. Há conversas que se cruzam com sorrisos fáceis, uma exigência vivida com naturalidade e um sentimento comum que une quem ali está. No ar, sente-se uma paixão discreta, mas constante, feita de compromisso diário e de um orgulho silencioso em vestir o mesmo emblema.

"Sente-se que nós somos um clube de referência"

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O futebol feminino não pede espaço, ocupa-o

Durante décadas, o futebol feminino em Portugal foi sustentado pela resiliência de clubes amadores que sobreviviam longe dos grandes palcos e do investimento. O cenário mudou quando a modalidade deixou de ser uma promessa para se tornar uma prioridade estratégica. A nível nacional, a profissionalização da Liga BPI, na época 2016/2017, alterou a norma e deu voz a quem há muito pedia para ser visto.

A entrada de clubes como o SC Braga e o Sporting CP na época de estreia da competição, seguida pelo SL Benfica em 2018, alterou significativamente a escala de investimento. O que até ali era uma modalidade de pequena escala transformou-se num produto mediático, com direitos televisivos, patrocínios exclusivos e a introdução de contratos profissionais obrigatórios.

Este aumento nas estruturas internas teve reflexo imediato no desempenho internacional. A Seleção Nacional, que durante décadas ocupou lugares modestos no ranking da UEFA, iniciou um ciclo de afirmação. A primeira qualificação das Navegadoras para um Campeonato da Europa chegou em 2017 e cinco anos depois, em 2023, a equipa já se estreava a nível mundial.

Hoje, a Liga BPI encontra-se num processo de consolidação, com requisitos de licenciamento cada vez mais exigentes que impõem orçamentos mínimos, equipas de formação obrigatórias e condições de treino de alto rendimento. O futebol feminino português deixou de ser uma experiência para se tornar um dos grandes destaques da agenda desportiva nacional.

A afirmação da modalidade pode ser medida pela escala do seu consumo. O interesse do público traduz-se em números e recordes que vão sendo facilmente ultrapassados. Se em 2023 o Estádio da Luz registava 27,221 espetadores num clássico lisboeta, os números voltaram a surpreender em setembro de 2024, quando o FC Porto estabeleceu um novo máximo nacional de assistência com 31,093 adeptos no Estádio do Dragão. Mas foi ainda em 2024, que as navegadoras contaram com 40,189 espectadores na partida em que defrontaram a Chéquia em jogo a contar para a qualificação do Euro 2025.

Comparação do Top 10 de jogos com maior assistência no futebol masculino e feminino em Portugal

Comparação do Top 10 de jogos com maior assistência no futebol masculino e feminino em Portugal

Comparação do Top 3 de jogos com maior assistência das equipas principais do Sporting Clube de Braga

Comparação do Top 3 de jogos com maior assistência das equipas principais do Sporting Clube de Braga

Esta progressão estatística é acompanhada pelo crescimento da base de formação, em Portugal, o futebol já conta com mais de 15 mil atletas federadas, consolidando o futebol feminino como escolha profissional. Ana Rute e Margarida Pinto, jogadoras da equipa principal, estrearam-se no futebol da mesma forma: a jogar numa equipa de rapazes. Este é o início que marca a carreira de muitas atletas que, hoje, são profissionais. Mas a realidade agora é outra e quem passou por isso destaca que “é muito bom que agora as raparigas possam jogar só com raparigas e que tenham o seu próprio balneário”.

Jogadoras da formação

Jogadoras da formação

Fatores como estes levaram a que dedicar-se a tempo inteiro ao futebol fosse, para muitas jogadoras, um sonho que parecia estar distante da realidade. Foi apenas aos 23 anos que Ana Rute decidiu dar o grande passo da carreira, porque até ali sempre priorizou mais “os estudos e a vida académica”. O ponto de viragem definitivo aconteceu quando chegou ao SC Braga, clube que a lançou no patamar profissional e lhe ofereceu as condições necessárias para se tornar uma referência da modalidade.

Esta mudança do panorama nacional encontrou no SC Braga um impulso na inovação. Ao centralizar as operações no Estádio Amélia Morais e garantir o acesso aos recursos da Cidade Desportiva, o clube não se limitou a acompanhar a evolução, estabeleceu os requisitos mínimos de qualidade que devem ser regra na modalidade.

O sucesso do departamento mede-se não apenas nos títulos, mas sobretudo na normalização da sua presença. O espaço ocupado pela equipa já não lhe pode ser retirado. Aos poucos as bancadas vão se enchendo, nos jornais as notícias sobre as Gverreiras são mais frequentes e o Amélia Morais passou a ser um palco de sonho para as jogadoras da formação do clube.

Ainda assim, as comparações com o futebol masculino estão bem presentes e representam um dos principais desafios à plena afirmação da modalidade. João Coelho, assessor de comunicação do SC Braga feminino, admite que a estrutura tem a "perfeita noção que o futebol feminino não tem tanto impacto mediático como o masculino". Esta diferença é atribuída, em parte, à antiguidade das competições, embora João veja, pelos anos de experiência no clube, que a situação "está a evoluir de forma positiva".

O assessor aponta ainda a existência de um "estigma que o futebol feminino não é visto da mesma forma como o futebol masculino", mas alerta que é necessário ter em conta que o tipo de "público é diferente". Ricardo Sousa, fisiologista da equipa, considera, por isso, que não devem haver comparações, visto que aquilo que é comum são apenas “fatores inerentes à prática da modalidade”. Destacando que as diversas diferenças entre a anatomia dos dois sexos torna inviável colocá-los no mesmo patamar.

Contém imagens cedidas pelo SC Braga

Contém imagens cedidas pelo SC Braga

No SCB, o principal objetivo passa por "enfatizar a importância que o futebol feminino e o desporto feminino têm na nossa sociedade, do ponto de vista social e cultural". Apesar de João Coelho reconhecer que "ainda há muitas barreiras" no caminho da igualdade e do reconhecimento, conclui com otimismo que considera que o clube está no caminho certo.

Caminho esse que reforça que, em Braga, o futebol feminino não é o futuro, é um presente que se impõe pela força do trabalho e pela conquista de um lugar que, por mérito, sempre lhe pertenceu.

O que se vê em campo é reflexo de um caminho que vem de trás

O trabalho começa muito antes do apito inicial e na estrutura minhota todos os detalhes contam. Aqui, a liderança técnica de Marwin Bolz assume um papel central na gestão de expectativas e na maximização de recursos. Para que a qualidade técnica seja superior à pressão do jogo, a equipa técnica desenhou um modelo de preparação que coordena uma vasta equipa de apoio e assegura que cada atleta chegue ao momento da competição no auge das suas capacidades. Este cuidado minucioso é a base sobre a qual se constrói a confiança do grupo, permitindo que a exigência do treino seja encarada com naturalidade.

A logística diária é uma prova da capacidade de adaptação e do aproveitamento que o clube faz das infraestruturas da cidade. O planeamento semanal distribui-se estrategicamente entre o Parque da Ponte e o Estádio 1.º de Maio para a realização dos treinos, enquanto o Estádio Amélia Morais serve de âncora para a consolidação tática. Esta dinâmica exige uma coordenação constante entre a equipa técnica e os departamentos de apoio, garantindo que, independentemente do local, a qualidade do relvado, o material de apoio e a assistência médica acompanhem sempre as necessidades e as expectativas das jogadoras.

Estádio 1º de Maio

Estádio 1º de Maio

Para além das questões estruturais e dos recursos físicos, a filosofia implementada pela equipa técnica assenta numa premissa fundamental: o reconhecimento da individualidade. No SC Braga, a jogadora não é apenas um número no plantel ou uma peça num esquema tático, é, acima de tudo, uma pessoa com necessidades, emoções e um contexto de vida próprio. Esta humanização do processo de treino é um dos pilares que sustenta a coesão do balneário e permite que cada atleta chegue ao seu potencial máximo.

Margarida Pinto destaca precisamente este lado mais próximo e atento da estrutura técnica, sublinhando que o cuidado vai muito além da performance desportiva. “É muito importante sentir que não somos apenas mais uma jogadora, mas que somos vistas como pessoas. A equipa técnica preocupa-se genuinamente em saber como estamos, como nos sentimos, e isso faz toda a diferença no nosso rendimento”, explica a atleta.

Esta abordagem permite que a exigência do desporto de alto rendimento seja vivida de forma saudável, transformando o local de trabalho num espaço de crescimento mútuo onde a vulnerabilidade e a força caminham juntas. “Quando sabemos que as pessoas que nos lideram estão atentas ao nosso lado humano, entramos em campo muito mais tranquilas e motivadas para dar tudo pelo clube e pela equipa”, reforça Margarida Pinto. Ao cultivar esta proximidade, a equipa técnica garante que a motivação não dependa apenas dos resultados, mas de um sentimento de pertença a um projeto que respeita a identidade de cada mulher, provando que o caminho para o sucesso desportivo passa pelo cuidado com quem o constrói.

Todo este cuidado é seguido e articulado com o trabalho da psicóloga que acompanha, de perto, os passos da equipa. Soraia Gonçalves é um elemento essencial para o sucesso da equipa, pois entende que o rendimento desportivo é indissociável do equilíbrio emocional. Para a psicóloga, a eficácia no campo começa na compreensão da individualidade: “Há várias valências que temos de ter em conta. Temos a atleta, mas não podemos olhar para ela apenas como atleta. Se alguma coisa não estiver bem a nível pessoal, pode afetar a performance e, por isso, é muito importante que estejamos atentos para poder ajudar.”

O trabalho da psicologia no desporto é indispensável e serve para desmistificar a ideia de que o sucesso depende apenas de treino físico e tática. Como refere Soraia Gonçalves, “o desporto parece ser algo muito simples, mas há muitas coisas que envolvem o desporto e as atletas. E é necessário, por vezes, uma ajuda psicológica, para conseguir lidar com tudo.” É nesta simbiose entre o corpo e a mente que a equipa encontra a estabilidade necessária para enfrentar a competição ao mais alto nível.

O que o público aplaude nas bancadas é, portanto, o produto final de um processo rigoroso que começa nas primeiras horas da manhã, nos balneários e nos campos de treino, onde se planta a resiliência de quem sabe que o sucesso é o reflexo direto de um caminho de profissionalismo traçado muito antes de qualquer jogo.

Contém imagens cedidas pelo SC Braga

Contém imagens cedidas pelo SC Braga

O Minho sempre foi terra de luta, dentro e fora de campo

No SC Braga, a luta não é um acessório tático, é a própria identidade. Está na forma como se trabalha, como se compete e como se encara cada obstáculo. O crescimento do futebol feminino em Braga é feito de passos firmes, de momentos difíceis e de uma insistência constante em fazer melhor.

A centralização da equipa num espaço próprio acelerou esta perceção de pertença. Ana Rute nota que a profissionalização do ambiente foi o primeiro passo para que quem chega entenda a dimensão da responsabilidade “passamos aqui os nossos dias e qualquer pessoa que chegue consegue logo perceber o que é o clube, o que é o Braga".

No entanto, o balneário não vive apenas de infraestruturas. A passagem do ADN bracarense está à responsabilidade das jogadoras que já conhecem o peso da camisola e que assumem a missão de guiar as novas colegas.

O crescimento do futebol feminino em Braga não foi um fenómeno espontâneo, foi uma construção feita de passos firmes, de joelhos esfolados em momentos difíceis e de uma insistência quase teimosa em fazer sempre melhor do que o dia anterior.

O Braga vive de uma raça constante. Ser uma "Guerreira do Minho" implica carregar uma responsabilidade histórica: a de representar um povo que não se verga. Desde a fundação do departamento de futebol feminino, o objetivo nunca foi apenas "participar". O plano era, e é, maior. Os olhos sempre estiveram postos em ocupar espaço nos grandes palcos, provando que o lado feminino do futebol bracarense possui a mesma fibra, o mesmo querer e a mesma ambição que define o clube centenário.

Esta identidade ganha uma forma prática assim que a bola começa a rolar. Para Margarida Pinto, o acolhimento no grupo traduz-se numa exigência imediata de compromisso físico e emocional, "tentamos transmitir o que é que é ser Braga, que é lutar em cada lance do jogo e honrar o clube, mostrar a raça em todos os jogos".

A mística reflete-se no relvado através de uma resiliência que parece inabalável. Quando o cansaço pesa, é o orgulho e a vontade de vencer que movem a equipa. É esse "querer" que transforma jogos equilibrados em vitórias históricas e que faz do Estádio Amélia Morais um local onde o respeito se ganha com trabalho.

Mas a raça não se improvisa, cultiva-se. O SC Braga percebeu que para manter este ADN vivo, era preciso plantá-lo nas bases do clube, a sua formação. Não se trata apenas de ensinar táticas ou a rematar à baliza, mas de incutir o espírito de sacrifício desde o primeiro toque na bola.

Em 2025, num ano em que o clube reafirmou o seu compromisso através de um investimento histórico na estrutura feminina, colheram-se os frutos dessa visão estratégica. Pelo segundo ano consecutivo, o SC Braga foi distinguido como Entidade Formadora 5 estrelas pela Federação Portuguesa de Futebol. Esta distinção não é apenas um troféu, é a prova da excelência que o clube oferece às suas jovens jogadoras. Mais ainda, é a garantia de que, no futuro, quem vestir a camisola vermelha e branca saberá exatamente o que ela pesa e, acima de tudo, a honra que é lutar por ela.

As vozes nas bancadas, a entrega em campo e os sonhos de quem joga mostram que já não há caminho de volta. Porque ali, onde a bola rola, o futuro do futebol escreve-se no feminino.

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