Há histórias que merecem mais do que simples palavras. Precisam de traços, cores e desenhos para ganhar vida.
Ao longo de mais de 150 anos, a Banda Desenhada (BD) portuguesa foi escrevendo o seu próprio lugar no seio da cultura do país. Entre gerações que surgem, se reinventam e dão continuidade ao traço, é uma prova que há artes que nunca terminam. Apenas continuam na vinheta seguinte.

ANDRÉ ARAÚJO

Dores de Crescimento

Perante uma indústria fechada, decidiu criar o seu próprio espaço para publicar, editar e dar voz aos novos autores.

LUÍS LOURO

Voar no Digital

Quando o entusiasmo pela banda desenhada começou a desaparecer, encontrou no digital a ferramenta que lhe devolveu a vontade de criar e reinventar o próprio traço.

DERRADÉ E BEATRIZ

Tinta no Sangue

Do humor à coloração, a banda desenhada tornou-se uma paixão partilhada que atravessa gerações.

HISTÓRIA DA BD

A Vida das Tiras

Rabiscos do século XIX, heróis realistas dos anos 40, cortes do lápis azul e a lufada de ar fresco do 25 de Abril. Ao longo do tempo, a aventura da nona arte foi marcada por avanços e recuos.

O fascínio pelo universo dos quadradinhos surgiu cedo. André cresceu com diferentes formas de narrativa visual, fosse a ler BD ou a ver filmes. O interesse por estas narrativas vinha de longe, alimentado pela BD americana e pela cultura manga que o marcaram na adolescência. O desejo de realizar um filme animado tornou-se cada vez mais sólido e levou o jovem a decidir que tinha de aprender a desenhar. Ao perceber que não dispunha de um orçamento milionário, encontrou no papel a solução para conseguir contar histórias.

Quando começou a sua jornada, o isolamento era quase total. André avançou sem apadrinhamento de grandes entidades, sem redes de contactos e a pagar do próprio bolso para garantir um lugar à mesa nos eventos de BD. Descreve o panorama desta arte em Portugal como "desértico", quando comparado com realidades vizinhas. O jovem vê em Espanha e França exemplos de indústrias e redes de apoio que permitem fazer do desenho uma profissão estável. Por cá, encara os poucos apoios estatais mais como uma "forma institucional de aparentar um suporte financeiro", do que para realmente fomentar a economia da criação artística.

Neste sentido, o responsável pelas finanças da Dangan Magazine revela dúvidas quanto à possibilidade de obter rendimentos suficientes apenas da criação de BD.

Na visão de André Araújo, no final da história, o verdadeiro teste do algodão não é a validação dos "puristas da BD", mas a receção de quem chega ao universo dos quadradinhos sem bagagem prévia.

Luís Louro e a paixão pelo desenho nasceram juntos. Durante a infância, desenhar era-lhe tão natural como respirar e, sem se aperceber, a vocação levava-o a produzir um tipo de arte específico.

Ainda antes de atingir a maioridade, já andava entre tertúlias e festivais de BD com obras debaixo do braço, para mostrar ao mundo a arte que criava. Com o apoio dos pais, começou a investir mais tempo em aprimorar as suas competências de desenho, algo que sempre fez de modo autodidata. A aprendizagem por tentativa e erro era lenta, mas permitia-lhe ser independente e ganhar experiência. Na tentativa de obter formação, inscreveu-se no curso de Imagem e Comunicação Audiovisuais na Escola Artística António Arroio. Apesar de ter concluído os estudos, a desilusão marca as recordações dessa escolha, visto que nada lhe ensinaram sobre a nona arte: “os professores sabiam menos sobre BD do que eu”, lamenta. 

A paixão impedia-o de desistir.

Com apenas 17 anos, expôs pela primeira vez a sua BD, criada em conjunto com o colega António José Simões.

Passados dois anos, em 1985, a dupla estreou-se a publicar.

Fonte: Google fotos

Fonte: Google fotos

Quando razões profissionais obrigaram Tozé Simões a abandonar a BD, Luís Louro viu-se perante o dilema de encontrar outro argumentista ou seguir a carreira a solo. Com “medo e muito pânico”, aventurou-se na produção do primeiro argumento com baixas expectativas quanto à reação do público. Ao começar a escrever, Luís percebeu a sua verdadeira identidade: “contador de histórias”. 

Desde a independência, à escolha do ritmo do processo de produção, passando pelo controlo de toda a narrativa, rápido descobriu as vantagens de trabalhar sozinho. Esta tornou-se a sua forma preferida de criar, mas manteve a porta aberta a colaborações esporádicas. 

Fonte: Google fotos

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A primeira obra da total responsabilidade de Luís Louro resultou de uma proposta para escrever sobre Lisboa. A reflexão sobre a ideia resultou num anti-herói lisboeta a que chamou Corvo. Ao sentir que o humor lhe era “inerente”, o autor utilizou esta personagem como meio para criticar alguns aspetos da sociedade, através da ironia. A personagem foi tão bem recebida pelo público que protagonizou mais sete livros ao longo de 30 anos. O leque de temas abordados é vasto, desde o racismo aos desafios da terceira idade. 

Fonte: Google fotos

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Com o passar do tempo e a solidificação da carreira, ser autor e leitor de BD eram identidades incompatíveis. Gostava de criar, mas enquanto fã estava “cada vez mais saturado”. Acabou por se distanciar por completo do universo dos quadradinhos. Por um lado, o afastamento foi motivado pela vontade de ocupar o tempo livre com outras atividades que não associasse à profissão. Por outro, acredita que esta opção foi a forma de se “libertar das influências diretas”, que encara como necessária para se manter original e fiel ao seu estilo. 

Esteve 7 anos de costas voltadas para a BD até que a tecnologia fez "brilhar aquela luzinha" de novo.

Mesmo crescendo num mundo analógico, a adaptação ao digital foi fácil, devido às ferramentas de edição de fotografia que aprendeu a dominar durante o período em que esteve afastado da BD. A internet está entre as inovações tecnológicas que o autor sente que teve a “sorte” de viver. Na sua perspetiva, esta invenção trouxe várias melhorias, seja para aprender técnicas, divulgar novos trabalhos ou contactar com os fãs.   

Em 41 anos de carreira, Luís Louro assistiu a várias mudanças na nona arte. Apesar de sentir que ainda é uma área menosprezada, reconhece que houve uma evolução positiva. No presente, menciona a abertura do público e do mercado acompanhada da quantidade de festivais como sinais de que a BD continua a pulsar em Portugal. 

Ainda assim, sente saudades da “mentalidade mais solta, saudável e descontraída” dos anos 80. 

Com altos e baixos, a BD não estagnou, e, hoje, seduz leitores de todas as idades com opções mais variadas. A comunidade cresceu e a prova disso é a diversidade de festivais que decorrem por todo o país ao longo do ano (ver mais sobre no mapa abaixo).

As duas décadas de criação de BD não impedem que Luís Louro se aproxime daqueles que agora entram neste universo, seja nos festivais ou pelas redes sociais. Perante a arte produzida pelos jovens ilustradores, Luís Louro tem a certeza de que “o futuro da BD portuguesa está em boas mãos”. Aos artistas emergentes o apelo é claro:

Na construção de uma comunidade sólida, valoriza a constante troca de ideias e a concorrência enquanto fatores que aumentam a qualidade. “O sucesso de um autor é benéfico para todos os outros”, reflete.

Nesta perspetiva, as diferenças geracionais não conseguem separar artistas unidos pela mesma paixão.

O pequeno Dário delineava os primeiros traços a preto e branco ainda em tenra idade. Quando percebeu que tinha jeito para o desenho, começou a escrever histórias, mas não lhe vaticinavam um futuro auspicioso na área.

Era este dom que lhe permitia desbloquear conversas e fazer amigos na escola, visto que “o miúdo que sabe desenhar tem sempre apreciação dos colegas”. Um período de desmotivação iniciou-se com professores de Educação Visual a descrever os seus desenhos como mera sinalética, ao invés de expressão artística. Dário acabou por se afastar do desenho aos 15 anos e decidiu dedicar-se à informática.

Mesmo alavancado pelo interesse em jogos de computador para mudar de área, o desejo de consumir BD permaneceu sólido. Anos mais tarde, o surgimento de “um humor adulto e sacana” em revistas da época fê-lo descobrir o misterioso último ingrediente que faltava à receita: criar bandas desenhadas com teor humorístico.

É neste contexto de novidade e de estímulo que surge a ambição de fazer carreira na BD e o pequeno Dário Duarte dá lugar a Derradé – nome artístico.

Ao usar a escrita para desabafar numa fase "em que a vida era interessante", o autor começou a incluir-se como personagem autobiográfica nas histórias humorísticas. Na sua visão, o humor é uma vertente deserta da BD em Portugal, devido a uma "cultura de cancelamento completamente fora de mão”.

Ao constatar que o mercado do humor na arte dos quadradinhos é um nicho, Derradé conclui que as receitas de um livro são insuficientes e tornam impossível viver apenas da arte. A realidade descrita pelo autor não é exclusiva do seu percurso. Em Portugal, o mercado de BD continua reduzido quando comparado a países como França, Bélgica ou Japão, obrigando muitos autores a conciliar a atividade artística com outra profissão. A publicação de novos títulos depende de pequenas editoras especializadas e de um público fiel, mas limitado. Ainda assim, continuou atrás do sonho e as suas fanzines foram editadas pela Polvo, entre 1999 e 2002.

Corria o ano de 2006, quando Dário publicou a sua primeira revista. Num período de "crise da BD em Portugal”, o projeto acabou por fracassar e, em 2011, o artista regressou à editora Polvo.

A fome de oferecer conteúdo novo aos leitores em conjunto com pressões temporais externas levaram à publicação anual de livros durante os três anos seguintes. O autor olhava para a própria produção como satisfação pessoal, embora pairasse o sentimento de falta de reconhecimento da população.


Guiado por este mote, lança, em 2022, Fogo Sagrado, livro que conquista o Prémio Jorge Magalhães de melhor argumento de BD, um dos reconhecimentos mais relevantes do setor em Portugal. Para Derradé, o galardão, além de validar o seu trabalho enquanto argumentista, é uma prova de que ainda existe espaço para a BD de autor num mercado de reduzida dimensão. 

Há 45 anos, o olhar de Dário pela BD encontrava uma cultura monotemática centrada na história de Portugal. Hoje, os mesmos olhos veem prateleiras a colorir as livrarias com temas diversificados, desde ciência, a política ou até psicologia. O autor entende que possa ser confuso encontrar o motivo para a BD “estar toda ao monte nas livrarias”, a resposta parece-lhe simples: “a BD é uma linguagem”.

Moldado pela matriz de um traço próprio a preto e branco, Derradé confessa não abdicar de desenhar em papel: “é assim que eu gosto”.

Através de uma lente otimista, tecnologias como a Inteligência Artificial são um facilitador do trabalho do artista. O autor não se opõe ao uso destas técnicas, desde que se mantenha a essência de quem produz. Contudo, Dário deixa uma crítica aos criadores destas ferramentas, por as terem treinado "sem pagar um chavo aos artistas".

Durante o seu percurso, Dário Duarte construiu uma família e arranjou forma de conciliar profissões para nunca abandonar a BD. A paixão acompanha-o de tal modo que pareceu tornar-se parte do código genético. Hoje, pai e filha partilham o fascínio pela nona arte. Do traço a preto e branco de Derradé às cores de Beatriz, duas gerações encontram-se para contar uma história.

Beatriz Duarte cresceu rodeada de livros, ilustrações e eventos ligados a este universo. O contacto com a nona arte começou cedo e acabou por se tornar parte natural do seu quotidiano. Foi em 2021 que a jovem deu os primeiros passos profissionais, com a coloração de capas para livros de BD. Hoje, procura afirmar-se numa área onde a paixão pela criação artística se sobrepõe, muitas vezes, à estabilidade financeira. 

Como filha de Derradé, a ligação à BD era quase inevitável. Desde criança que acompanha o Amadora BD, um dos principais eventos dedicados à área em Portugal. Mais do que interesse pela componente narrativa, o contacto com o meio despertou a curiosidade de Beatriz por todos os aspetos visuais, sobretudo o trabalho de coloração.

A transição de leitora para colorista aconteceu em 2021, através de oportunidades proporcionadas pelo trabalho do pai. Desde então, colaborou em quatro projetos já publicados. Na sua perspetiva, trabalhar em equipa permite reduzir a pressão criativa e concentrar-se na vertente em que se sente mais confortável: “usar a cor para dar vida às ilustrações”. Ainda assim, não exclui a possibilidade de vir a desenvolver uma obra da sua total autoria.

Cada projeto trouxe desafios e processos diferentes. Em Bubas e Há quem queira que a luz se apague, os propósitos da criação moldaram-se consoante os objetivos, o público-alvo e a dinâmica de trabalho entre os autores envolvidos em cada obra.

Fonte: Google fotos; Central comics

Fonte: Google fotos; Central comics

Apesar de considerar que a comunidade ligada à BD tem vindo a crescer, acredita que a área continua pouco valorizada em Portugal. Reconhece que ter o pai já inserido neste meio facilita algumas oportunidades, mas sublinha os desafios que permanecem, em especial no que diz respeito à sustentabilidade financeira das editoras e dos artistas independentes. 

A influência de Dário acompanha todo o percurso artístico da jovem ilustradora. Mais do que uma referência criativa, o pai tornou-se um incentivo constante para continuar ligada às artes. Após vários anos a acompanhar de perto os projetos a preto e branco de Derradé, Beatriz começou por ajudá-lo na componente da cor.

A proximidade com o universo artístico foi fundamental para se manter no setor. Caso contrário, as dificuldades associadas à área cultural em Portugal teriam levado à opção por outro caminho profissional. 

Para a jovem colorista, a BD portuguesa atravessa uma fase de transformação. A crescente popularidade do manga ajudou a aproximar novos públicos deste universo e, aos poucos, muitos leitores acabam por descobrir também autores portugueses e outros estilos. 

Apesar do digital ter transformado as formas de criação e consumo, a artista considera que a inovação consegue coexistir de forma equilibrada com o formato físico.

Fonte: Google fotos

Fonte: Google fotos

Fonte: Google fotos

Fonte: Google fotos

Fonte: Cronologia da BD Portuguesa

Fonte: Cronologia da BD Portuguesa

Reportagem: Céline Bernardo, Eduardo Henriques, Gonçalo Pacheco, Inês Reis, Laura Couto, Maria Inês Santos, Mariana Lopes, Mariana Robalo, Ricardo Cachão

Contactos: Inês Reis, Mariana Lopes, Mariana Robalo, Ricardo Cachão

Jornalista: Céline Bernardo, Inês Reis

Texto: Eduardo Henriques, Gonçalo Pacheco, Inês Reis, Maria Inês Santos, Ricardo Cachão

Pesquisa: Ricardo Cachão

Fotografia: Céline Bernardo, Gonçalo Pacheco, Laura Couto, Mariana Lopes, Mariana Robalo

Vídeo: Céline Bernardo, Eduardo Henriques, Gonçalo Pacheco, Laura Couto, Maria Inês Santos, Mariana Lopes, Mariana Robalo, Ricardo Cachão

Edição de imagem: Laura Couto

Edição de vídeo: Céline Bernardo, Laura Couto, Mariana Lopes, Mariana Robalo

Revisores de texto: Eduardo Henriques, Inês Reis, Maria Inês Santos, Mariana Lopes

Elementos interativos: Eduardo Henriques, Laura Couto

Infografia: Laura Couto

Webdesigner: Laura Couto

Webdevelopment: Laura Couto

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