Dar corda aos sapatos

Quando o vício é sinónimo de saúde

A corrida é a cada passo, muito mais do que um desporto. Representa um novo desafio atingido e uma forma de ser feliz. Uma espécie de vício saudável, que move centenas para este tipo de práticas que consideram essenciais.

Segundo Domingos Castro, Presidente da Federação Portuguesa de Atletismo, são cerca de 2 milhões os praticantes da modalidade, apesar de federados serem apenas cerca de 30.000. O reconhecimento desta atividade não corre à velocidade dos atletas, mas estes são cada vez mais, principalmente porque não precisam de esperar por nada nem ninguém para começar.

O crescimento da modalidade tem sido impulsionado sobretudo pelos mais jovens. A geração Z (nascidos entre 1997 e 2012) lidera esta tendência, registando os maiores aumentos de participação nas corridas de rua desde as provas de cinco quilómetros até às maratonas (42 km).

Dados: Strava | Gráfico: Fartlek

Dados: Strava | Gráfico: Fartlek

Estes atletas veem a corrida como algo fundamental, uma rotina que, apesar dos custos iniciais, com o tempo, vai transformando as suas vidas. Tal como refere Fernando Antunes, de 69 anos, que faz da corrida um hábito incontornável e vivo.

O trabalho não fica em segundo plano, tal como a sua saúde. Acredita que correr é muito mais do que dar passos em frente é um processo de conquistas e de superações.

A idade aparenta não lhe passar à frente. Orgulhoso das conquistas e dos constantes caminhos percorridos, Fernando reflete a energia sénior num desporto usualmente desvalorizado e juvenil.

“Desistir não, porque isto costuma-se dizer que é como uma droga”, declara o atleta sénior. “Parar” não está no vocabulário de Fernando, mas a procura pela saúde fervilha-lhe o sangue e leva-o a correr sempre mais e mais.

Do Treino à Prova

A preparação do momento: Run Clubs

Não se pode falar de corrida sem falar da “febre” e “moda” que invadiram a modalidade: os run clubs. Pessoas que se unem para tornar a prática mais fácil. “Correr é chato, não vou dizer que não. Mas se nos juntarmos a um grupo, torna-se melhor, o tempo passa bem e conhecemos novas pessoas”, afirma Pedro Monteiro, um dos integrantes do Abstract Club.

Treinam todas as quartas-feiras por volta das 19h com ponto de encontro no Multiusos de Guimarães. O percurso aponta para cinco quilómetros, mas alguns elementos desafiam-se até aos dez quilómetros. A ideia nasce em maio de 2025 e parte de Barac Pereira, de 21 anos e natural de Guimarães.

18 de março. O cheiro a primavera já se sente, mas o percurso do treino ainda é feito às escuras. A 1 de abril,  algumas diferenças fazem-se sentir. O horário de verão preenche totalmente os minutos de corrida e o aquecimento é feito na presença de boa luz e boa companhia.

O conceito inicial passa por tornar o Abstract um grupo que equilibra saúde com vida social. Mas à medida que o tempo avança, leva Barac “a outro ponto de ver o desporto”.

A entrada é aberta a todos os que queiram fazer parte. Participam não só em provas como em ações solidárias e convívios com direito a corrida e a comida, maioritariamente aos domingos.

Treino do Abstract | Captado por: Fartlek

Treino do Abstract | Captado por: Fartlek

Barac conta o progresso do Abstract como uma surpresa, devido ao início conturbado pela sua hospitalização de 44 dias. Mas quem já fazia parte continuou o caminho que o jovem atleta construiu, não deixando o run club acabar, mas sim dando-lhe rumo.

O percurso do grupo pode ser encontrado no TikTok, onde o fundador vai partilhando o seu dia a dia e momentos de destaque do grupo. Quanto aos apoios logísticos, todos vão ajudando, no entanto, é Barac que vai atrás das colaborações e iniciativas.

“Nem sempre sou retribuído de forma económica e muitas vezes acaba por ser um fim de semana um investimento para haver todo um evento”. Vende t-shirts, sweats e impermeáveis com registo Abstract para poder ter algum retorno financeiro.

A mensagem que o grupo vimaranense passa é simples: a corrida não precisa de ser competitiva, dá saúde, pessoas novas e motivação. Isso chega.

Nestes acompanhamentos aos treinos do Abstract, não só  o fundador, mas também membros do grupo dão o testemunho sobre a importância do clube. Ricardo Fernandes é um deles. Tem 46 anos e corre desde criança. Juntou-se ao grupo numa “brincadeira de tirar fotos”. “Até pensei que era uma família, mas não era”, conta o atleta.

Pedro e Manuel no treino | Captado por: Ricardo Ferreira e José Oliveira

Pedro e Manuel no treino | Captado por: Ricardo Ferreira e José Oliveira

E este sentimento de pertença é comum a Pedro e Manuel. Ambos conheceram o grupo através das redes sociais e juntaram-se. Manuel tem 17 anos, juntou-se há mais ou menos meio ano. Pedro, tem 27 e conheceu o Abstract por “motivos piores”. Viu os vídeos de Barac no hospital e começou a pesquisar mais sobre a comunidade.

“No início éramos poucos, apenas quatro, e agora, passado um ano, estou a ver isto a crescer e gosto”.
Pedro Monteiro

Pedro confidencia que foi através da corrida que se tornou ex-obeso. Pesava 107 kg e sentia que o esforço do ginásio não estava a ser suficiente. Neste momento está nos 90 kg, sente-se bem quando olha ao espelho e é na corrida que tudo faz diferença.

“Uma pessoa sedentária e com excesso de peso, ainda por cima, aquilo, para começar, tem de ser mesmo, senão, sozinho, é muito complicado. O que perdi em meio ano, com dois anos de ginásio, nunca na vida perdia o que perdi no ano em que corri”, reconhece Pedro.

Atualmente ajuda a orientar os treinos e as pessoas que alternam entre a caminhada e a corrida. E assim a motivação ganha lugar, através dos momentos em grupo que puxam os objetivos e o compromisso. “A nossa cabeça mentaliza-nos que se não tivermos um compromisso connosco, não vamos fazer nada”, refere o corredor. Mas “a endorfina que deixa no final da corrida” supera as dificuldades.

“A importância do exercício físico é mesmo essa, é saúde”
Barac Pereira

Também o Famalicão em Forma é um exemplo de que a atividade em grupo “ajuda em tudo”. Conta com o apoio da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão e é um projeto “aberto a qualquer idade e qualquer condição física”, conta Vanessa Carvalho, atleta federada e uma das treinadoras. 

O desporto sempre fez parte da sua vida, começa com a natação, segue com o futebol e depois encontra na corrida uma continuação deste estilo de vida. “Já atingi um patamar de seleção nacional. Já sou uma atleta internacional e já tive algumas participações internacionais, desde o corta-mato até a meia-maratona e a maratona. O meu objetivo será chegar ao Mundial, uns Jogos Olímpicos”. 

O projeto começou em 2017 e, em 2019 e 2020, expandiu-se para outras zonas do concelho, desde Joane, Oliveira de São Mateus e Ribeirão. Desta forma, os treinos distribuem-se por toda a semana, tendo o polo principal marcações “às segundas, quartas e sábados às 9h ou às segundas e quintas às 19h”, referiu Vanessa. 

Para a inscrição, é necessária deslocação às piscinas municipais que estão localizadas em cada região e o custo é de 2,54€/ano e cobre o seguro. Susana Silva, de 49 anos, e Severino Ribeiro, de 64, contam a facilidade em chegar ao grupo. “Decidi informar-me mais sobre a situação, o que é que compunha, o que é que era necessário, explicaram-me tudo direitinho (...) fiz a minha inscrição, depois comecei aqui a aparecer todas as segundas e as quintas, que são os dias em que consigo colaborar”, explica Susana. 

Ambos referem a corrida como um descanso do dia de trabalho. Estão na associação desde o início e Severino também se juntou ao trail: “É por isso que eu digo, pode custar, mas comecem. E lentamente as dores passam, se gostarem, não é? É lógico que é preciso que gostem e sejam incentivados. Não para serem campeões, mas pelo menos para manter uma forma física e manter a saúde”.

Treino do Famalicão em Forma | Captado por: Fartlek

Treino do Famalicão em Forma | Captado por: Fartlek

Os treinos são diferentes diariamente, para trabalhar e equilibrar as várias partes, física e também social. A participação em provas, principalmente na cidade, é um marco para o Famalicão em Forma. Vanessa, a treinadora, destaca a Meia-Maratona de Famalicão, a Bernardino Machado, “que se realiza na altura dos Santos Populares”, e a São Silvestre, distinguida também por Susana. 

Para o grupo a inscrição em provas concelhias é gratuita,  e assim surge a oportunidade da interação e “publicidade” aos eventos da cidade. É sobretudo um momento para os atletas de corrida lúdica mostrarem o que valem e como realmente se sentem fisicamente e “superarem as suas performances”.

“Mas no fundo, no dia a seguir valorizamos esse treino.”
Susana Silva

Treino Posto à Prova

2ª Corrida da Primavera, Guimarães

Domingo, 22 de março, 10h. Com início e fim na Pista de Atletismo Gémeos Castro, esta prova de dez quilómetros teve o apoio da Câmara Municipal para a sua organização. Um evento marcado para simbolizar Guimarães como a Capital Verde Europeia 2026.

Esta 2ª edição conseguiu superar as inscrições do ano anterior. Segundo Nuno Machado, membro da organização da prova, houve “maior volume [de participação] entre os 30 e os 50 anos”. Os escalões começam em runkids dos 7 aos 15 anos, e no total, foram cerca de 2000 os participantes que correram e caminharam.

Na pista, foi possível encontrar a presença de dois massagistas, Paulo Vasconcelos da equipa WB Recovery e Ana Luísa da Selfcare. Consideram ser essencial a sua intervenção com a massagem desportiva para uma recuperação no final da prova e, sobretudo, “prevenção de lesões”.

Percurso da Corrida da Primavera | Feito por: Fartlek | Fonte: Corrida da Primavera

Percurso da Corrida da Primavera | Feito por: Fartlek | Fonte: Corrida da Primavera

https://www.linkedin.com/feed/update/urn:li:activity:7374178691381100544/

Corrida da primavera | Captado por: Ricardo Ferreira

Corrida da primavera | Captado por: Ricardo Ferreira

Corrida da Primavera | Captado por: Fartlek

Corrida da Primavera | Captado por: Fartlek

10ª Meia Maratona de Braga

A 29 de março realizou-se a 10ª Meia Maratona de Braga, com partida e chegada na Avenida João Paulo II. A prova organizada pela Runporto contou com cerca de 3000 participantes, de 37 nacionalidades, que saíram às ruas com o mesmo propósito: superar-se.

Antes e durante a prova, o ambiente era de preparação para receber os atletas. Miguel Santos, coordenador da Cruz Vermelha, reafirmou o apoio da organização no evento: “Nós estamos presentes com um posto médico avançado e quatro ambulâncias distribuídas pelo percurso”.

A presença da Cruz Vermelha é associada à prevenção, para os elementos estarem preparados para qualquer situação e socorrerem ou transportarem diretamente o atleta para o hospital. O coordenador explica também que, neste tipo de prova, geralmente são as quedas as situações de maior gravidade. Provocadas muitas vezes pelo estado da estrada, são também associadas ao desequilíbrio e a “situações de dispneia” (faltas de ar).

Esta edição da maratona contou com um extra de "Super 5km" e alguns dos participantes foram os primeiros a testemunhar a emoção pós-corrida. Para Andreia Sousa, de 32 anos, esta foi uma prova que não vai esquecer. “É a minha primeira corrida e correu muito bem. Em menos de meia hora cheguei”, disse com entusiasmo.

A ideia começou com o objetivo de se preparar para a "Meia Maratona do Cávado" (Barcelos-Esposende), mas “foi-se perdendo um pouco”. Abrandou o ritmo, mas não parou e, desafiada pela prima, cumpriu um feito do qual ficou orgulhosa. Estes cinco quilómetros deram a Andreia a confiança para tentar chegar aos 21 km.

Dados: Runporto | Gráfico: Fartlek

Dados: Runporto | Gráfico: Fartlek

Já Graciano começou no sentido inverso. Tem 27 anos, é natural da capital minhota e fundou o Local Pace Run Club com os amigos em homenagem à sua barbearia, a Local. Foi precisamente na Meia-Maratona de Braga que tudo começou. Em 2025 fez a sua primeira corrida oficial, os 21 km, e este ano a preparação “não estava a mesma”, portanto optou por participar nos "Super 5 km".

No fim da maratona, Mónica Silva, a vencedora da corrida, relatou a sua experiência. Tem 25 anos, corre desde 2013, já costuma participar em provas Runporto e foi isso que a levou a Braga. O curioso foi que, no domingo anterior, na Corrida da Primavera, aconteceu o mesmo feito: Mónica também conquistou o 1º lugar no pódio. Ver cada vez mais pessoas a competir, particularmente as mulheres, é, para a atleta, ver a igualdade avançar.  

Percurso da Meia Maratona de Braga | Feito por: Fartlek | Fonte: RunPorto

Percurso da Meia Maratona de Braga | Feito por: Fartlek | Fonte: RunPorto

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Meia Maratona de Braga | Captado por: Fartlek

Meia Maratona de Braga | Captado por: Fartlek

Meia Maratona de Braga | Captado por: Fartlek

Meia Maratona de Braga | Captado por: Fartlek

Meia Maratona de Braga | Captado por: Fartlek

Meia Maratona de Braga | Captado por: Fartlek

“Ainda há muita coisa que deve mudar, mas fico feliz por ver toda a gente a participar, a fazer desporto e a gostar de correr”

Mónica Silva

Segredos do equilíbrio

“Temos de olhar para nós como um bem caríssimo em que nos cuidamos como merecemos”

Francisco Morais

Gabinete da Fisioactive | Captado por: Fartlek

Gabinete da Fisioactive | Captado por: Fartlek

Prateleira do consultório de Francisco | Captado por: Fartlek

Prateleira do consultório de Francisco | Captado por: Fartlek

Leandra no consultório | Captado por: Fartlek

Leandra no consultório | Captado por: Fartlek

Quadros do consultório de Leandra | Captado por: Fartlek

Quadros do consultório de Leandra | Captado por: Fartlek

Liliana durante a entrevista | Captado por: Fartlek

Liliana durante a entrevista | Captado por: Fartlek

A falta de consciência corporal é um convite às lesões

A corrida pode ser considerada um dos desportos mais práticos e fáceis de realizar. Não são necessários grandes conhecimentos para praticar. É só preciso um bom local e não muito tempo para conseguir atingir o objetivo definido – correr uma dada quantidade de quilómetros.

Mas para um desporto tão acessível, a preparação é, também, bastante importante para preservar a nossa grande máquina, o corpo. É nesta premissa que fala Francisco Morais, um massagista desportivo e atleta de 48 anos. 

Toda a sua vida foi acompanhada pelo desporto, onde tudo começou por causa de um grupo de amigos.  “Não gostava de correr, ia sempre atrás. Mas com o tempo, fui correndo devagarinho, sem pressões e quando dei por ela, já corria um bocadinho mais rápido”, revela Francisco.

Inicialmente, a sua relação com a corrida era meramente passageira, mas a cada passo dado, tudo parece fazer mais sentido. No dia em que o primeiro relógio lhe surge no pulso, a corrida deixa de ser um passatempo. Inscreve-se na primeira prova e junto dela começa a florescer a “paixão pela corrida”.

O primeiro passo está dado, mas muitos mais quilómetros são percorridos por Francisco, que não hesita e abre uma loja de roupa fitness. “Muita gente começou a praticar desporto. Eu andava no ginásio e reparei que havia pouca oferta”.

Apesar da vontade inegável do atleta de apostar as suas fichas neste negócio, o rumo da loja teve de ser alterado, direcionando-o para o running. Mas, percebendo ao longo do tempo que aquele mundo era bastante difícil e não estando preparado para tal, acaba por fechá-la. 

Costuma-se dizer que, por vezes, é necessário dar um passo para atrás para dar mais dois à frente, e foi isso que Francisco fez. O negócio não foi um sucesso, porém a paixão pelo desporto continuava a fervilhar-lhe no sangue, levando-o a entrar no mundo das massagens desportivas.

“Quando cheguei à parte das massagens práticas, não tive dúvidas que era aquilo o meu futuro! E que ia ser ali onde marcaria a diferença”
Francisco Morais

Com a clínica Fisioactive, em Vila Nova de Famalicão, e com os longos caminhos já corridos pelas suas sapatilhas, o massagista tem uma experiência inegável, passando vários atletas de renome pelas suas mãos. Para além de jogadores de futebol do Famalicão FC e do Vitória Sport Clube, revela que também acompanha "a melhor atleta nacional", Mariana Machado.

As suas palavras são de quem conhece o corpo, compreende como um atleta, seja ele amador ou profissional, deve praticar um certo desporto. Muitos são os hábitos aconselhados, como manter uma alimentação equilibrada e não pressionar o processo, deixando “as coisas (acontecer) devagarinho”. No entanto, e até motivado pela sua passagem no negócio de running, Francisco reforça a importância do calçado que os atletas devem usar.

As sapatilhas são um fator fulcral neste caminho, mas não são o veredito de prevenção a lesões.

Dados: Strava | Gráfico: Fartlek

Dados: Strava | Gráfico: Fartlek

Do outro lado da parede,  da Fisioactive, o sentimento pelo bem-estar dos clientes caminha no mesmo sentido. Encontramos a colega de trabalho, Leandra Pereira, uma jovem de 28 anos que se formou em fisioterapia na Universidade do Porto.

Tal como Francisco, também esteve sempre ligada ao desporto, praticando-o e "acompanhando de perto o trabalho dos fisioterapeutas".

Em concordância com o colega, também reforça a importância do calçado, mas destaca, ainda, um fator obrigatório antes de qualquer prática desportiva o reforço muscular. “Se as pessoas nunca praticaram desporto ou praticam há pouco tempo, é importante fazer o reforço muscular, ter uma boa massa muscular, porque se começarem a correr e não tiverem uma boa base de sustentação, as lesões vão acabar por surgir”, clarifica Leandra. 

A fisioterapeuta da Fisioactive reforça que “90% dessas pessoas vão ter uma lesão, eventualmente, porque não têm consciência corporal nem capacidade física. Depois decidem começar a fazer muitos quilómetros sem estarem preparados”. O corpo vai dando sinais da incapacidade para praticar um certo desporto, sendo importante começar devagar, reforçar-se muscularmente e ter boa preparação, evitando, assim, variados obstáculos.

Stress: o maior inimigo do desporto

O desporto não se caracteriza unicamente pelo equilíbrio físico. Aliado à força, resistência e aos vestuários que auxiliam o desempenho, também é necessário preservar o motor de todo este processo, o cérebro. 

O sol aquece o pequeno jardim da Escola de Psicologia da Universidade do Minho. É lá que Liliana Fontes, docente na área de Psicologia da academia, esclarece a  importância do reforço mental, num mundo onde a competitividade é uma realidade recorrente.

Liliana, em tom de piada, reforça a importância das pessoas contratarem um psicólogo, não só para lhes dar emprego, mas também porque no desporto, o profissional auxilia na regulação de diversos fatores. Revela que, dentro dos variados problemas vigentes no dia a dia humano, a gestão de tempo é a mais complicada.

“ Como é que eu posso gerir a minha vida de trabalho, a minha vida familiar, com estes objetivos de desporto que eu tenho?"
Liliana Fontes

“O psicólogo não faz milagres”, esclarece. Mas ajuda os atletas a compreenderem a melhor forma de gerirem o seu tempo. “Façam um calendário. Olhem para a vossa semana e vão preenchendo aquelas coisas que são obrigatórias, por exemplo, oito horas de trabalho, refeições, etc. Vão percebendo onde é que têm espaços livres. E depois, vão metendo com esses objetivos, essas tarefas que têm para o desporto”, aconselha a docente.

Contudo, as tormentas psicológicas não ficam por aí, existe uma grande pedra que se torna um obstáculo para todos aqueles que praticam desporto, o stress. Liliana Fontes esclarece que “o stress é das coisas que mais vai interferir com estes processos. Portanto, apostamos muito na gestão de stress. Para nós é fundamental ter um plano”. 

Os psicólogos não têm “varinhas mágicas”, nem os massagistas ou os fisioterapeutas, sendo extremamente importante a introdução de hábitos saudáveis e que promovam o equilíbrio mental e físico. Ir com muita sede ao pote e a comparação constante com o outro são fatores que podem prejudicar a performance desportiva e, até mesmo, acarretar consequências incontornáveis.

Ser saudável não se trata, simplesmente, de conseguir correr uma meia-maratona. Ser saudável trata-se de ter consciência e cuidado com o nosso corpo e mente, preservando-os constantemente.

Saúde à venda

A indústria que vende performance antes de vender ciência

As caixas acumulam-se nas farmácias, nos supermercados, nos ginásios e nas cozinhas de milhares de portugueses. Creatina para correr mais rápido, magnésio para dormir melhor, géis energéticos para aguentar mais quilómetros. Shots pré-treino prometem foco, explosão e resistência em poucos minutos.

Nunca houve tantos suplementos à venda em Portugal, nem tanta gente disposta a consumi-los com naturalidade. O crescimento, porém, não vem acompanhado de maior conhecimento. O mercado expande-se muito mais depressa do que a literacia dos consumidores.

Fonte: DECO PROteste | Feito por: Fartlek

Fonte: DECO PROteste | Feito por: Fartlek

Um estudo da DECO PROteste, realizado junto de 938 consumidores portugueses, revela o forte crescimento do consumo de suplementos no país. Segundo dados do mercado, só até setembro de 2025, as farmácias portuguesas venderam mais de 11 milhões de embalagens, num setor que faturou 223 milhões de euros. Em pouco mais de uma década, o consumo mais do que duplicou. Os suplementos deixaram há muito de pertencer apenas ao universo do culturismo ou da alta competição.

Hoje fazem parte da rotina de corredores recreativos, frequentadores de ginásio e consumidores que procuram mais energia, recuperação rápida ou transformação física. É neste desequilíbrio, entre consumo massificado e literacia reduzida, que prospera uma das indústrias mais discretas do bem-estar contemporâneo. Uma indústria onde muitos produtos chegam ao mercado sem nunca terem sido obrigados a demonstrar eficácia científica.

Em Portugal, tal como no resto da União Europeia, os suplementos alimentares não são regulados como medicamentos. A legislação exige apenas que sejam seguros para consumo. Não exige ensaios clínicos rigorosos nem provas concretas de eficácia.

O enquadramento legal, definido pelo Decreto Lei n.º 136/2003, classifica-os como géneros alimentícios destinados a complementar a alimentação normal. A diferença para os medicamentos é profunda. Um fármaco pode demorar anos a atravessar ensaios clínicos, avaliações laboratoriais e supervisão regulatória antes de chegar ao mercado.

Muitos suplementos entram nas prateleiras com um grau de escrutínio incomparavelmente menor. Na prática, lançar um suplemento tornou-se relativamente simples.

Meia Maratona de Braga | Captado por: Fartlek

Meia Maratona de Braga | Captado por: Fartlek

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Suplementos | Captado por: Fartlek

Suplementos | Captado por: Fartlek

“A suplementação é tratada quase como uma marca de roupa”

Soraia Baptista

Vídeos retirados do TikTok

“Hoje consigo abrir uma marca sem qualquer estudo científico. Basta contactar um laboratório”, explica Soraia Baptista, responsável de marketing da loja de suplementação Suplendi. A facilidade com que novas marcas surgem transformou o setor. “A suplementação passou a ser mais marketing do que ciência”, diz Soraia Baptista.

Soraia na entrevista online | Captado por: Fratlek

Soraia na entrevista online | Captado por: Fratlek

Influencers fitness, criadores de conteúdo e atletas recreativos passam a funcionar como montras, onde o rosto vende mais do que a fórmula. “Cada vez mais existem marcas associadas a caras conhecidas”.

“E essas marcas crescem não pela qualidade do produto, mas pela pessoa que o representa”, acrescenta. O fenómeno intensifica-se à medida que a cultura fitness se funde com as redes sociais. A corrida torna-se conteúdo visual e o treino é exibido como prova pública de autocontrolo, consistência e sucesso físico.

Nos run clubs que se multiplicam nas cidades portuguesas, os suplementos passaram a integrar a linguagem quotidiana. Quem entra nestas comunidades encontra rapidamente alguém que admira pelo corpo, pelo ritmo ou pela disciplina. Depois começa a reproduzir hábitos quase por imitação.

Laura na entrevista online | Captado por: Fratlek

Laura na entrevista online | Captado por: Fratlek

A lógica instala-se de forma silenciosa, mas eficaz, “se resulta para aquela pessoa, talvez resulte para mim”. “É normal tentarmos perceber o que a outra pessoa faz e o que nós não estamos a fazer”, explica Laura Carvalho, nutricionista especializada em nutrição desportiva.

Toma de Suplementos | Captado por: Fartlek

Toma de Suplementos | Captado por: Fartlek

“Mas as necessidades variam muito. O que funciona para um atleta pode não fazer sentido para alguém que começou a correr há duas semanas”. É precisamente nesse espaço de comparação permanente que a indústria prospera.

Muitos consumidores chegam ao exercício físico à procura de mudanças rápidas. Querem emagrecer, ganhar definição muscular ou melhorar performance num curto espaço de tempo. E encontram respostas imediatas numa internet saturada de soluções simplificadas.

“O primeiro erro é seguir um plano genérico encontrado online”, alerta Laura Carvalho. “Grande parte das pessoas começa pela componente estética. E quando pesquisam como emagrecer, a primeira coisa que encontram é cortar hidratos de carbono”.

A promessa parece simples, mas o impacto no organismo raramente é. Os hidratos de carbono continuam a ser uma das principais fontes de energia para quem pratica exercício físico. Cortá-los drasticamente pode comprometer a recuperação muscular, aumentar a fadiga e provocar a perda de massa muscular.

Num mercado global avaliado em 386 mil milhões de dólares em 2024, segundo a plataforma Industry Research, a nutrição desportiva tornou-se um dos segmentos de crescimento mais rápido da indústria da suplementação. Produtos antes reservados a atletas profissionais passam a integrar a rotina de consumidores recreativos. Os pós de proteína representam hoje mais de metade deste mercado.

Fonte: Medicare | Feito por: Fartlek

Fonte: Medicare | Feito por: Fartlek

A ideia dominante é simples: desempenho e estética podem ser acelerados através do produto certo. Mas a distância entre aquilo que é realmente útil e aquilo que é apenas comercializável continua pouco clara para muitos consumidores. Segundo Laura Carvalho, a lista de suplementos verdadeiramente relevantes para a maioria dos corredores recreativos é curta.

Entre os suplementos com maior respaldo científico, Laura Carvalho destaca sobretudo a creatina monohidratada. A proteína pode ser útil quando a alimentação é insuficiente e o ómega-3 em atletas com elevada carga de treino ou baixo consumo de peixe gordo. “Grande parte do resto vive mais do marketing do que da evidência científica”, afirma a nutricionista.

Os pré-treinos são um dos exemplos mais visíveis. “Muitas pessoas associam o formigueiro da beta-alanina a uma melhoria imediata da performance, quando o efeito imediato vem sobretudo da cafeína”, explica Laura Carvalho. E a cafeína, lembra, existe também numa simples bica.

Os géis energéticos tornam-se omnipresentes entre corredores recreativos, das provas de estrada aos vídeos do TikTok. Mas nem sempre são necessários. “Em corridas curtas ou de intensidade moderada, muitas vezes faz mais sentido ajustar a refeição antes do treino”, afirma.

A nutricionista alerta ainda para os riscos de experimentar suplementos pela primeira vez em competição. Sem adaptação prévia, os géis podem provocar dores abdominais, náuseas ou desconforto gastrointestinal. “As pessoas querem melhorar a performance a qualquer custo sem perceber como o corpo reage”.

Suplementos | Captado por: Fartlek

Suplementos | Captado por: Fartlek

Fonte: Laura Carvalho | Feito por: Fartlek | Imagens das refeições: ChatGPT

Fonte: Laura Carvalho | Feito por: Fartlek | Imagens das refeições: ChatGPT

O intestino tem limites de absorção. Ultrapassá-los durante esforço intenso pode transformar uma corrida num problema gastrointestinal. Num mercado construído sobre soluções rápidas, essa é uma realidade pouco compatível com campanhas publicitárias.

A maior parte da performance continua a depender de fatores básicos, repetidos há décadas pela ciência da nutrição. Dormir bem, comer de forma equilibrada e recuperar continuam a ser as bases mais importantes. “A suplementação só faz sentido quando a alimentação já está estruturada”, afirma Laura Carvalho.

“Existe uma sobrevalorização muito grande da refeição pré-treino”, explica. “As reservas de glicogénio muscular (principal reserva de hidratos de carbono nos músculos) formam-se ao longo de 24 a 48 horas”. “O que a pessoa come no dia anterior continua a ser fundamental”.

A lógica contraria grande parte do conteúdo que domina as redes sociais. Smoothies proteicos, shots energéticos e receitas virais prometem resultados quase imediatos. Na prática, a alimentação antes de correr depende sobretudo do tempo disponível até ao treino.

Quanto menor o intervalo, mais simples deve ser a refeição. Uma banana com mel, uma tortita de arroz ou um puré de fruta fornece energia sem dificultar a digestão. Com mais tempo disponível, entram hidratos de carbono mais complexos, como pão integral ou aveia.

Até algumas combinações consideradas saudáveis podem produzir o efeito contrário. “A banana com manteiga de amendoim tornou-se muito popular nas redes sociais”, explica Laura Carvalho. “Mas a gordura da manteiga atrasa a digestão e pode provocar desconforto gastrointestinal durante o treino”.

Também no pós-treino, uma das ideias mais repetidas pela cultura fitness perdeu força nos últimos anos. A chamada “janela anabólica”, a teoria de que é obrigatório consumir proteína imediatamente após o exercício para maximizar o ganho muscular, é desmontada pela evidência científica mais recente.

“O que existe é um período alargado de recuperação”, explica a nutricionista. “Se uma pessoa termina o treino ao meio-dia e almoça uma hora depois, isso é perfeitamente suficiente”. “Desde que exista equilíbrio nutricional”.

Proteína, hidratos de carbono e vegetais continuam a fazer mais diferença do que grande parte dos suplementos vendidos como indispensáveis. O problema é que soluções simples raramente competem com a velocidade do marketing. Sobretudo numa indústria construída para vender resultados rápidos, cápsulas práticas e promessas fáceis de consumir.

Mas a realidade já está escrita: um desporto saudável e prático que move pessoas de várias idades a correr com o propósito de se superar. Não se trata só de uma competição. Correr é quase como uma droga, mas que muitos profissionais de saúde aconselham a "tomar".

Agradecimentos

Daniela Oliveira
José Oliveira
José Rodrigues
Pedro Marques
Ricardo Ferreira
RunPorto

Aos coordenadores do projeto Luís António Santos e Maria João Cunha.

E a todos os que permitiram que esta reportagem se concretizasse.

Universidade do Minho

Licenciatura em Ciências da Comunicação

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