Independência em alta
A ascensão das viajantes solo
Perspectivas diferentes sobre o aumento das mulheres viajando solo pós pandemia
“A gente acha que a viagem é para fora, mas na realidade é sempre para dentro”
A frase de Shakti Janiake, influenciadora digital e viajante retrata a jornada experienciada por mulheres que decidem viajar sozinhas. Isso acontece hoje e há séculos, de formas distintas. Há registros no século 18 de grandes figuras femininas que desbravaram os continentes, como Ida Pfeiffer, uma das primeiras exploradoras de que há documentação a dar a volta ao mundo, em 1842, antes mesmo da aviação. Entretanto, esse assunto ainda é tabu nos dias atuais e muitas mulheres tendem a evitar viagens solo por diversos motivos, mesmo com a popularidade que esse tipo de viagem vem tendo.
As buscas por viagens solo para mulheres têm aumentado nos sites de viagem e nos buscadores depois da pandemia. De acordo com uma pesquisa feita pelo Booking.com, empresa internacional de reserva de acomodações, 39% das brasileiras afirmaram que planejavam fazer uma viagem solo no futuro. Nos últimos três anos, o volume de pesquisas pelo termo “viagens femininas solo” aumentou 62%, de acordo com o Google. Mas, uma pergunta que fica é: quais são os principais motivos para este aumento?
“Eu sempre quis ser livre. Ao me perguntarem, quando criança, o que eu gostaria de ser, sempre respondi que queria viajar e ter liberdade”, conta Shakti, empresária e criadora de conteúdo de 22 anos que viaja o mundo e compartilha os destinos nas redes sociais. Shakti fez seu primeiro mochilão em 2021, onde passou seis meses nos Estados Unidos e no México. Após isso, já realizou viagens sozinha para lugares da América do Sul, como Chile, Argentina e Uruguai, e mais recentemente, no Havaí.
Segundo uma pesquisa realizada em 2018 pela British Airways, seis em cada dez mulheres que viajam sozinhas buscam independência e liberdade. Na mesma década, viagens solo realizadas por mulheres que buscavam algum tipo de libertação, mudança interna ou auto conhecimento foram temas de filmes com sucesso em vários locais do mundo. Entre os mais conhecidos da década estão os best sellers Comer, Rezar, Amar (2010) e Wild (2014). Nos últimos cinco anos, esse movimento de independência feminina ao viajar vem crescendo a cada dia também nas redes sociais.
A jovem possui mais de dois milhões de seguidores no aplicativo TikTok, incentivando mulheres a ter coragem e conquistar independência para seguirem seus sonhos. “Acredito que esse assunto deveria ser mais falado. Quando as pessoas pensam em viagem, logo associam à família ou a amigos, e ir sozinha é como se fosse a última opção. Tratar esse assunto com normalidade e mostrar os benefícios dele são pontos importantes para que mais mulheres viajem sozinhas”.
Para Shakti, a mudança interna é mais importante do que os acontecimentos da viagem em si. “A gente acha que a viagem é para fora, mas na realidade é sempre para dentro”. E para a criadora de conteúdo, olhar para dentro significa também conhecer outras pessoas e culturas.
“Eu sinto mais um milagre de estar viva agora, sinto mais uma liberdade nas pessoas e entrar nos lugares com mais presença porque eu sei que tudo isso pode acabar a qualquer momento”.
A busca interna de Shakti é também uma busca pela cura de uma questão de saúde. Ela descobriu no fim de 2023 que possui apenas 30% da capacidade renal e até o fechamento desta reportagem não havia um diagnóstico mais preciso. Por esse motivo, ela diz ter um senso de urgência muito maior. “Não vou deixar o sonho para lá, não vou esperar para fazer aquela viagem porque em questões práticas não sei se vou precisar fazer hemodiálise ou um transplante, então agora que estou estável vou aproveitar tudo que está ao meu alcance”.
Muitas pessoas também sentiram esse senso de urgência durante e após a pandemia de Covid-19. Depois desse período de luto, de medo e de preocupação, viajar se tornou prioridade de uma parcela da população. Segundo o relatório Travel Trends da Expedia, 46% dos entrevistados afirmaram que, para eles, é mais importante viajar agora do que era antes da pandemia.
Medos
O medo é algo constante e latente em qualquer atividade que nos tira da zona de conforto. Principalmente àqueles que vão ao limite, como Tamara Klink, a brasileira mais jovem a completar o trajeto do Círculo Polar Ártico de forma totalmente independente e que realiza expedições sozinhas velejando pelos oceanos.Tamara acaba de concluir outra expedição, em parceria com a UNESCO, onde viveu em um barco no oceano Ártico enquanto o entorno estava congelado. O objetivo era passar um período significativo de tempo de forma autossuficiente, desafiando as limitações impostas não só para ela, mas para as mulheres de uma forma geral.
Em entrevista exclusiva enquanto ainda estava realizando este desafio, estacionada e sozinha em pleno Ártico, Tamara contou como teve que lidar com o medo desde antes de embarcar. “Eu comecei o inverno com muitos medos, porque cada pessoa que eu encontrava me dizia que eu ia morrer”. Ela sabia dos riscos, mas teve a sensação de que eles aumentavam quanto mais as pessoas falavam.
“Eu já tinha refletido sobre muitas dessas questões antes, mas quando as pessoas experientes do lugar que dizem isso, os medos aumentam”.
A helicopter takes off after dropping skiers on their heliski adventure.
A helicopter takes off after dropping skiers on their heliski adventure.
Possibilidades
A velejadora contou que o maior desafio dessa jornada era separar os medos reais e os medos imaginários, por isso, estava sempre em estado de alerta. “É muito fácil morrer aqui. Posso ser aprisionada por uma avalanche, quebrar a perna nas pedras, me perder numa nevasca, virar comida de um urso, passar fome, andar no gelo fino e cair na água... O selvagem não é um parque de diversões, e não dá segunda chance”.
Ela relatou que caiu na água uma vez, pisando no gelo podre e conseguiu sair, fazendo furos em outros pedaços de gelo para se segurar. “Depois disso, pensei seriamente se ainda valia a pena sair do barco. Mas a segurança absoluta também é perigosa, porque a gente sacrifica nossas intenções e nossa liberdade”, afirma.
“Sinto que tive um contato privilegiado com redes de apoio femininas, além disso, por nos considerar mais vulneráveis, muitas pessoas tendem a ser mais solícitas e outros navegadores não nos veem como competidores e não se sentem intimidados”.
Vulnerabilidade
“Depois de meses sem ver outras pessoas, posso dizer que é muito libertador ser humana antes de ser mulher”, conta a navegadora. Entretanto, em viagens mais tradicionais, ser mulher é um fator determinante para uma possível vulnerabilidade durante os trajetos. É o caso de Manoela Nagib, de 28 anos, que viaja solo em tempo integral e também compartilha em suas redes sociais. Recentemente, esteve em El Salvador e se encontrou em um cenário temeroso envolvendo um homem.
“Estava voltando para casa de madrugada e vi uma moto com um cara que passou por mim numa velocidade suspeita. Quando esse homem olhou para trás, eu senti que ele ia dar a volta e que ele viria atrás de mim.” Manoela conta que aprendeu a racionalizar os medos e os tornar mais palpáveis, então decidiu ir contra os instintos que outras pessoas teriam e decidiu conversar com o motoqueiro, pois não tinha como correr sem ser alcançada.
“Entendo que é uma escolha considerada displicente, mas segui minha intuição”, afirma. A viajante conta que ele pediu seu número e ela passou, mas que ao chegar no hostel, em segurança, bloqueou o contato imediatamente. “Analisei o contexto em que estava inserida e por isso agi dessa forma porque, no fundo, acredito muito que as pessoas são boas e que o pior dos cenários está sempre muito distante”.
A couple walk a track with mountains in the distance, surrounded by lush forests.
A couple walk a track with mountains in the distance, surrounded by lush forests.
De acordo com um estudo sobre hábitos de consumo da bandeira Elo, no período entre 2020 e 2022 houve um aumento de 46% do valor gasto por brasileiros no setor turístico nas mesmas atividades e destinos comparados com anos anteriores. Isso reflete como se torna mais difícil se preparar financeiramente para viagens solo de longa data. “Nós estamos sempre tendo que lutar muito mais para conseguir espaço nas viagens porque com três meses em trabalhos informais, como garçom ou babá, as pessoas de países desenvolvidos conseguem juntar dinheiro para um ano inteiro de mochilão, enquanto existem brasileiros que passam a vida tentando realizar esse sonho”, afirma.
“Eu quase sempre sou a única latina da mesa e isso reflete a desigualdade social em que estamos inseridos”
Além de problemas relacionados a gênero, Manoela também fala sobre a dificuldade enfrentada por viajantes latinos. Culturalmente, americanos e europeus tendem a ter um gap year, um ano sabático, antes de ingressar em uma universidade ou no mercado de trabalho, e por isso o tópico viajar sozinho, sobretudo para mulheres, é mais normalizado quando comparado a países emergentes e subdesenvolvidos.
De acordo com um estudo sobre hábitos de consumo da bandeira Elo, no período entre 2020 e 2022 houve um aumento de 46% do valor gasto por brasileiros no setor turístico nas mesmas atividades e destinos comparados com anos anteriores. Isso reflete como se torna mais difícil se preparar financeiramente para viagens solo de longa data.
“Nós estamos sempre tendo que lutar muito mais para conseguir espaço nas viagens porque com três meses em trabalhos informais, como garçom ou babá, as pessoas de países desenvolvidos conseguem juntar dinheiro para um ano inteiro de mochilão, enquanto existem brasileiros que passam a vida tentando realizar esse sonho”, afirma.
Nomadismo Digital
Outro tópico que vem ganhando popularidade dentro do setor turístico é o aumento de nômades digitais, assim como Manoela. De acordo com a Forbes, até 2035 é esperado que mais de 1 bilhão de pessoas se adaptem ao nomadismo digital. Essa modalidade econômica permite liberdade geográfica e pode transformar a vida de brasileiros que almejam viajar em tempo integral mas são impossibilitados por questões financeiras.
Man flipping his kayak in a white-water river.
Man flipping his kayak in a white-water river.
“A principal diferença entre uma pessoa que não viaja e uma que viaja é perceber que na realidade não existe diferença, e é isso que torna especial”.
E mesmo depois de viajar para mais de 50 países, estando mais recentemente no Himalaia, Nepal, a influenciadora explica como sua visão de mundo foi moldada pelas experiências na estrada.
A origem do termo estrangeiro vem do latim extranĕus, que significa estranho e, para Manoela, fomos ensinados a ter esse olhar sobre pessoas de outras nações. “Quando você retira a lente que te foi imposta na sua realidade e vai ver o mundo com seus próprios olhos e percepções você percebe que não existe nada que nos diferencia”, afirma. “Não importa se a pessoa passou por um furacão, por uma guerra ou opressão, se vem de um país muito rico ou de um negligenciado, se mora num lugar quente ou em um lugar congelante, existem modos diferentes de viver a vida, mas na essência todo mundo é um ser humano”.
Por esse motivo, ela afirma que não viaja com medo das pessoas e do que pode acontecer com ela. “Eu experiencio todos os dias que as pessoas são boas, elas querem te ajudar, querem celebrar com você, querem dividir com você e por isso que eu genuinamente confio no ser humano. Não existe essa separação que a gente criou e perceber isso é o principal presente que viajar traz”.
Galeria de fotos
O que os olhos das entrevistadas puderam observar do outro lado da zona de conforto
Tamara Klink
Shakti Janiake
Manoela Nagib
Sobre mim
Estou cursando o 4 semestre de jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina e desejo seguir no ramo de turismo. Amo viajar, conhecer cultura e histórias desde muito pequena e acredito ter um olhar especial para os lugares que visito.
Minha ideia é criar um blog futuramente para condensar todas as minhas reportagens sobre viagem em um lugar só, dando dicas e compartilhando informações com mais pessoas que, assim como eu, desejam explorar esse mundão!