FICAR PARA TRÁS

Duas histórias sobre envelhecimento e solidão

Por Juliana Barreto, Maria Gomes e Rita Rodrigues

Ciências da Comunicação | Universidade do Minho

Há silêncios que ocupam casas inteiras. Vivem atrás de portas fechadas, longe da pressa dos outros e do ruído do mundo. Nem sempre se veem ou ouvem, mas têm morada, rotina e nome próprio. Domingos e Emília, que vivem a quilómetros de distância, conhecem-nos bem. São duas vidas distintas que se cruzam no mesmo lugar — a solidão. 

No momento em que esta reportagem é publicada,
Domingos já partiu.

Faleceu a 29 de maio de 2026,
28 dias depois de o termos conhecido. O retrato que se segue
recupera os dias em que o encontramos no início de maio.
É nesse tempo que esta história acontece.

SENHOR DOMINGOS

"A minha vida é um romance"

Em Mouçós, nos arredores da cidade de Vila Real, um grande portão verde de correr abre caminho para a propriedade do Senhor Domingos. Quem entra é recebido por um terreno amplo, com a horta de um lado, algumas árvores espalhadas e, mais abaixo, a habitação amarela e rasteira onde vive. Ao lado, estão as galinhas. Numa estrebaria próxima, o burro. Os cães aparecem logo atrás, inquietos, sempre atentos aos passos dele.

Numa espécie de garagem aberta, acumulam-se ferramentas, peças velhas e a sua motoreta — um triciclo Piaggio verde-azulado que vai usando quando consegue. À entrada, há um banco virado para o quintal, onde passa parte do tempo sentado com o Piloto e a “Já te disse”, os dois cães que lhe fazem companhia ao longo do dia.

 Aos 76 anos, o corpo abranda-lhe os movimentos. A hérnia na barriga doi-lhe cada vez mais, o coração falha-lhe às vezes e existem dias em que a única coisa que lhe apetece é ficar deitado. Mesmo assim, acaba sempre por se levantar. Nem que tenha de “ir de gatas”, sai para soltar o burro e garantir que os animais não ficam sem comer.

ENTRE PARTIR E FICAR

De nome completo Domingos Abelino Sabrosa Esteves da Silva, nasceu e cresceu, até a tropa o levar para fora, na terra onde vive. Passou por Bragança, por Évora e por Lisboa, onde entrou nos Comandos das Forças Especiais. Em 1970, embarcou para Angola. Passado um ano e meio foi para São Tomé e Príncipe, tendo regressado a Portugal a um ano do 25 de Abril.

Quando voltou, a vida foi-se fazendo. Instalou-se em Leiria, por se ter juntado com uma mulher. "Lá é que se estava bem, eram todos meus amigos", recorda num tom nostálgico. Domingos permaneceu na província histórica da Beira Litoral até 14 de agosto de 2008, dia em que fez as malas e se foi embora. A mulher tinha-o traído.

Para não dar cabo da sua vida, como o próprio conta, regressou a Mouçós. Dormiu um tempo em casa de um amigo, depois na do pai. Como esta não tinha condições, pediu à irmã para ficar na casa onde habita atualmente.

Mesmo com a saúde fragilizada, Domingos continua atento à horta. Além das batatas, alfaces e pepinos, semeou cenouras pela primeira vez recentemente.

Mesmo com a saúde fragilizada, Domingos continua atento à horta. Além das batatas, alfaces e pepinos, semeou cenouras pela primeira vez recentemente.

Ao longo dos anos, foi amontoando maquinaria agrícola, como sachadores e roçadeiras, que ocupam várias cantos da sua propriedade.

Ao longo dos anos, foi amontoando maquinaria agrícola, como sachadores e roçadeiras, que ocupam várias cantos da sua propriedade.

Depois de ir para Bragança, tirou o estágio militar de Minas e Armadilhas.

Depois de ir para Bragança, tirou o estágio militar de Minas e Armadilhas.

ENTRE PARTIR E FICAR

De nome completo Domingos Abelino Sabrosa Esteves da Silva, nasceu e cresceu, até a tropa o levar para fora, na terra onde vive. Passou por Bragança, por Évora e por Lisboa, onde entrou nos Comandos das Forças Especiais. Em 1970, embarcou para Angola. Passado um ano e meio foi para São Tomé e Príncipe, tendo regressado a Portugal a um ano do 25 de Abril.

Mesmo com a saúde fragilizada, Domingos continua atento à horta. Além das batatas, alfaces e pepinos, semeou cenouras pela primeira vez recentemente.

Mesmo com a saúde fragilizada, Domingos continua atento à horta. Além das batatas, alfaces e pepinos, semeou cenouras pela primeira vez recentemente.

Quando voltou, a vida foi-se fazendo. Instalou-se em Leiria, por se ter juntado com uma mulher. "Lá é que se estava bem, eram todos meus amigos", recorda num tom nostálgico. Domingos permaneceu na província histórica da Beira Litoral até 14 de agosto de 2008, dia em que fez as malas e se foi embora. A mulher tinha-o traído.

Ao longo dos anos, foi amontoando maquinaria agrícola, como sachadores e roçadeiras, que ocupam várias cantos da sua propriedade.

Ao longo dos anos, foi amontoando maquinaria agrícola, como sachadores e roçadeiras, que ocupam várias cantos da sua propriedade.

Para não dar cabo da sua vida, como o próprio conta, regressou a Mouçós. Dormiu um tempo em casa de um amigo, depois na do pai. Como esta não tinha condições, pediu à irmã para ficar na casa onde habita atualmente. 

Depois de ir para Bragança, tirou o estágio militar de Minas e Armadilhas.

Depois de ir para Bragança, tirou o estágio militar de Minas e Armadilhas.

DIAS VAZIOS

Com o decorrer do tempo, as portas para o homem, que trabalhou como ferreiro e na construção civil, foram-se fechando, uma a uma, sem pedir licença. Antes, ia ao café, mas como, por questões de saúde, foi proibido de beber café e álcool, deixou de frequentar tantas vezes. No passado, cortava ele próprio a lenha, agora, devido à mobilidade reduzida, tem de chamar alguém para fazer essa tarefa. Antigamente, andava mais na motoreta, hoje usa-a quando pode.

Dentro de casa, as novelas ocupam-lhe o tempo. "De resto não faço mais nada, não tenho mais nada para fazer." E diz que é assim que está bem — "não tenho ninguém para me chatear a cabeça." Mas há uma diferença importante entre estar sozinho e sentir-se sozinho.

José Ferreira-Alves, professor e investigador na Escola de Psicologia da Universidade do Minho e ávido explorador do processo de envelhecimento, define solidão como uma experiência desagradável derivada da perceção de que a quantidade ou qualidade das nossas relações não é boa. Apesar da associação positiva entre este conceito e o de isolamento social, reforça a distinção entre os dois. 

O psicólogo sublinha ainda que não existe uma causa única para este fenómeno. A perda de um cônjuge, por exemplo, pode contribuir para esse sentimento, mas cruza-se sempre com outros fatores — as relações familiares, a personalidade, a participação social ou até o acesso a serviços e redes de apoio.

De acordo com o SNS 24, o isolamento social refere-se, então, à ausência ou fragilidade das relações interpessoais e da participação social. Já a solidão, em conformidade com a designação do psicólogo, corresponde à perceção subjetiva de falta de ligação ou proximidade emocional com outras pessoas, podendo existir mesmo quando há algum contacto social. O Senhor Domingos, apesar de não estar socialmente isolado, sente solidão.

Mas a sua história está longe de ser um caso isolado. Conforme um levantamento divulgado, em 2022, pelo presidente do Observatório da Solidão (Obsolidão, do ISCET — Instituto Superior de Ciências Empresariais e do Turismo), Adalberto Dias de Carvalho, cerca de 70% das pessoas com mais de 65 anos afirmam sentir solidão, revelando a dimensão emocional associada ao envelhecimento.

Paralelamente, um artigo de 2023, levado a cabo por investigadores da Universidade de Coimbra e intitulado “Solidão, depressão e utilização das TIC em idosos portugueses”, concluiu que os níveis de solidão tendem a aumentar com a idade, sendo particularmente elevados entre pessoas com mais de 80 anos. 

No que toca ao isolamento social, dados recentes da operação Censos Sénior 2025, promovida pela GNR, apontam para um número significativo de idosos a viverem sozinhos, muitas vezes em contextos de vulnerabilidade e com fraca rede de apoio. A distribuição destes casos varia consoante o território, sendo mais acentuada em regiões do interior, nomeadamente nos distritos da Guarda e de Vila Real, onde o despovoamento e a migração dos mais jovens agravam o isolamento da população envelhecida.

Segundo dados da Pordata relativos a 2024, Lisboa e Porto concentram o maior número de residentes com 65 ou mais anos. Apesar disso, como ilustram os dados da operação Censos Sénior 2025, são os territórios do interior que continuam a revelar algumas das situações mais preocupantes de isolamento entre idosos.

Mesmo em contexto de estruturas de apoio permanentes, a solidão não desaparece. Rafael Sousa, enfermeiro e diretor técnico da Anima Una, uma associação de apoio social localizada em Braga, explica que nos lares e nas Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas (ERPI), onde o contacto com profissionais é diário e as necessidades básicas estão asseguradas, há também espaço para que os sentimentos de solidão se mantenham. 

A exigência da gestão emocional dos profissionais destes espaços, a acrescentar ao número reduzido de funcionários face aos utentes, tornam difícil garantir uma presença verdadeiramente individualizada em todos os momentos. O enfermeiro dá o exemplo da Anima Una, que, neste momento, tem 63 idosos e somente 42 funcionários. 

Desta forma, Rafael Sousa defende que “quando se constroem planos de acompanhamento individuais, é preciso garantir que os profissionais têm espaço para olhar para cada idoso de forma personalizada. Não podem ser todos iguais, porque há sempre quem acabe por ficar mais isolado”, refere. 

No caso do habitante de Mouçós, embora não se encontre totalmente só, o envelhecimento em contexto de maior isolamento foi-se acentuando. Durante algum tempo, beneficiou de um acompanhamento mais regular por parte do Centro Social e Paroquial de Mouçós, que incluía apoio alimentar em casa. Mais tarde, manteve apenas o serviço de limpeza, após ter deixado de receber também o apoio alimentar, que considerava demasiado caro. Inevitavelmente, esta alteração contribuiu para a fragilização da sua rotina diária.

Dentro da casa de Domingos, em cima do fogão, está uma panela com sopa. “Vou-me deitar, não me apetece fazer nada”. O almoço fica, assim, em suspenso, encerrando mais uma refeição por concretizar. Num quotidiano em que até a alimentação é por vezes negligenciada, os riscos associados tornam-se mais evidentes.

Esta rotina irregular que caracteriza o seu dia a dia inscreve-se num quadro amplo de consequências associadas à solidão prolongada que Alexandra Martins, licenciada em Psicologia e pós-graduada em Psicogerontologia, enumera. A especialista esclarece que a desregulação dos rituais diários, desde a alimentação ao ritmo do sono, tem impacto direto na saúde física e mental das pessoas.

“Eu tento dizer aos idosos que o nosso cérebro é como o músculo do braço ou o abdominal — tem de ser treinado. Quanto menos estímulo lhe damos, mais ele atrofia, tal qual os músculos.” Do mesmo modo, José Ferreira-Alves menciona que o desenvolvimento de uma pessoa está comprometido através da solidão, porque o indivíduo tem menos possibilidade de continuar em desenvolvimento. “Se pararmos de andar de bicicleta caímos, por isso é que temos de estar sempre a pedalar”.

A psicóloga expõe, ainda, que a desorganização dos dias pode agravar sintomas depressivos e ansiosos e, em casos mais prolongados, estar associada ao declínio cognitivo, nomeadamente ao surgimento de quadros demenciais, e à perda de funcionalidade.

OS QUE ESTÃO POR PERTO

Mesmo afetado pelo isolamento crescente, Senhor Domingos, que sabe ler, mas não escrever, mantém vínculos centrais nesta fase da vida. A sobrinha, Maria José, e o sobrinho, Claudino, confessa, são como filhos para si. Embora as visitas se realizem de vez em quando, as chamadas fazem-se mais frequentemente. “O meu sobrinho queria oferecer-me um telemóvel tátil, eu não quis. Também foi ele que me deu este” — é um telemóvel de teclas, por onde fala regularmente com uma das duas irmãs ainda vivas. De uma família de dez irmãos, Domingos não chegou a conhecer dois.

A resistência do homem às novas tecnologias reflete a distância entre a geração que envelhece atualmente e a que envelhecerá nas próximas décadas. A psicóloga Alexandra Martins lembra que muitos dos idosos de hoje cresceram em contextos marcados pela pobreza, pelo trabalho precoce e pela falta de escolaridade. Apesar disso, envelhecem numa sociedade profundamente diferente daquela em que foram criados.

Tanto a psicóloga como Alexandra Teixeira, licenciada em Educação Social Gerontológica e mestre em Gerontologia Social, acreditam que o envelhecimento das próximas gerações será inevitavelmente diferente. Para a gerontóloga, este é um processo que muda com o contexto em que acontece. “Há 30 ou 40 anos, os meios rurais estavam cheios de gente, as famílias viviam em conjunto, o trabalho no campo fazia com que as pessoas se mantivessem ativas e em convívio, o que hoje não é tão comum”. 

Muitas zonas rurais perderam população e tornaram-se mais isoladas, com menos redes de apoio informal. No futuro, Alexandra Teixeira admite que será impensável pensar numa ERPI sem acesso a internet, a espaços de atividades ou a recursos tecnológicos, espelhando uma evolução constante na forma como a velhice é vivida e acompanhada.

Ainda assim, as especialistas alertam que a tecnologia não substitui o contacto humano. Alexandra Martins reconhece que existe “um fosso muito grande” entre muitos idosos e os recursos digitais. Já para Alexandra Teixeira, “é um pau de dois bicos: se, por um lado, permite manter o contacto com familiares e facilitar a comunicação, por outro pode contribuir para que os idosos permaneçam fechados em casa e reduzam o convívio presencial”. José Ferreira-Alves julga, por sua vez, que estas ferramentas podem ser importantes, sobretudo para pessoas com dificuldades de mobilidade ou problemas de saúde, permitindo-lhes continuar contactáveis e conectadas. 

Desta forma, todos confirmam o papel central dos laços de proximidade. As funcionárias do centro social e algumas profissionais de saúde, que trata pelo nome, são também pessoas com quem Domingos estabelece estes laços e por quem nutre um carinho notório. Fala frequentemente da Marta, antiga diretora técnica do centro social, de quem diz estar “sempre à distância de uma chamada”.

Entre os profissionais de saúde, destaca as doutoras Margarida e Joaninha, do posto médico, que trata por “netas”. Conta também que, tanto no centro como no hospital, é sempre cumprimentado por toda a gente. 

“As enfermeiras salvaram-me a vida”, relata Domingos, ao recordar os períodos em que esteve internado, em consequência de uma hemorragia causada por uma úlcera gástrica. Desse período, recorda em particular a enfermeira Beatriz, que, ao vê-lo ligado às máquinas e impossibilitado de tomar banho naquele dia, lhe prometeu que seria ela a tratar dele “dos pés à cabeça” na manhã seguinte. 

Os episódios relacionados com a saúde tornaram-se cada vez mais frequentes: quedas em casa, desmaios e momentos em que perdia a consciência. “No outro dia estava a comer pão com marmelada e queijo, senti-me mal, fui para o quarto e caí. Só acordei muito tempo depois. Há tempos, fui para o porto na ambulância. Passei lá sábado, domingo e segunda. Vim embora numa carrinha funerária, vinha o outro em baixo a dormir e eu em cima”.

Queixa-se ainda de dores constantes na hérnia e na cabeça. “Na cabeça não é aquela dor de doer, é uma força, parece que me estão a arrancar o cérebro”.

Num país cada vez mais envelhecido, onde a fragilidade física acompanha o avançar da idade e tende a intensificar a dependência de terceiros, as redes reduzidas de afeto e cuidado tornam-se centrais na vida de muitos idosos. Segundo os dados dos Censos 2021, o índice de envelhecimento — que mede o número de pessoas com 65 ou mais anos por cada 100 jovens dos 0 aos 14 anos — atingiu aproximadamente 182 idosos por cada 100 jovens. 

De acordo com projeções do Instituto Nacional de Estatística (INE), o número de pessoas com mais de 65 anos deverá aumentar de 2,6 milhões, em 2024, para 3,1 milhões em 2100. Além disto, o índice de envelhecimento continuará a agravar-se até cerca de 2060, ano em que tenderá a estabilizar.

Esta evolução é essencialmente flagrante quando se observa a comparação temporal: conforme dados da Pordata, em 2000, Portugal apresentava números significativamente inferiores, tendo-se verificado desde então um crescimento contínuo até atingir, em 2024, cerca de 192,4 idosos por cada 100 jovens. Vinhais, vila do interior transmontano, Almeida, vila pertencente ao distrito da Guarda, e Alcoutim, vila situada no extremo nordeste do distrito de Faro, sobressaem como as zonas do país mais alarmantes. 

O SNS 24, num estudo com mais de 1200 pessoas entre os 50 e os 101 anos, concluiu que o sentimento de solidão aumenta à medida que vamos envelhecendo e afeta mais as mulheres do que os homens. Os números apontam que 20,4% das mulheres reportaram sentimentos de solidão, face a 7,3% dos homens.

No contexto europeu, Portugal é um dos países mais envelhecidos. Segundo dados da Eurostat, o país registou um dos maiores aumentos da idade mediana da população na União Europeia nas últimas duas décadas, apresentando, em 2024, uma idade mediana de 47,1 anos — uma das mais elevadas da Europa. O nosso país ocupa inclusive, conforme a Pordata (2024), o segundo lugar na União Europeia em índice de envelhecimento e o quarto no mundo.

"Aprendo melhor a observar do que a ouvir". Foi assim que, ao ver um cozinheiro trabalhar, Domingos aprendeu a fazer comida sozinho.

"Aprendo melhor a observar do que a ouvir". Foi assim que, ao ver um cozinheiro trabalhar, Domingos aprendeu a fazer comida sozinho.

“Eu hei de arranjar uma cadeira de rodas. Agora dava jeito, ia lá fora, ia à missa. Eu tinha uma e era elétrica, mas dei-a. Agora se eu for daqui à junta, é um dia inteiro”, confessa.

“Eu hei de arranjar uma cadeira de rodas. Agora dava jeito, ia lá fora, ia à missa. Eu tinha uma e era elétrica, mas dei-a. Agora se eu for daqui à junta, é um dia inteiro”, confessa.

O agravamento das dores e a falta de mobilidade confinaram a rotina de Domingos ao seu ambiente doméstico.

O agravamento das dores e a falta de mobilidade confinaram a rotina de Domingos ao seu ambiente doméstico.

Num país cada vez mais envelhecido, onde a fragilidade física acompanha o avançar da idade e tende a intensificar a dependência de terceiros, as redes reduzidas de afeto e cuidado tornam-se centrais na vida de muitos idosos. Segundo os dados dos Censos 2021, o índice de envelhecimento — que mede o número de pessoas com 65 ou mais anos por cada 100 jovens dos 0 aos 14 anos — atingiu aproximadamente 182 idosos por cada 100 jovens. 

De acordo com projeções do Instituto Nacional de Estatística (INE), o número de pessoas com mais de 65 anos deverá aumentar de 2,6 milhões, em 2024, para 3,1 milhões em 2100. O índice de envelhecimento continuará a agravar-se até cerca de 2060, ano em que tenderá a estabilizar.

"Aprendo melhor a observar do que a ouvir". Foi assim que, ao ver um cozinheiro trabalhar, Domingos aprendeu a fazer comida sozinho.

"Aprendo melhor a observar do que a ouvir". Foi assim que, ao ver um cozinheiro trabalhar, Domingos aprendeu a fazer comida sozinho.

Esta evolução é essencialmente flagrante quando se observa a comparação temporal: conforme dados da Pordata, em 2000, Portugal apresentava números significativamente inferiores, tendo-se verificado desde então um crescimento contínuo até atingir, em 2024, cerca de 192,4 idosos por cada 100 jovens. Vinhais, vila do interior transmontano, Almeida, vila pertencente ao distrito da Guarda, e Alcoutim, vila situada no extremo nordeste do distrito de Faro, sobressaem como as zonas do país mais alarmantes. 

O SNS 24, num estudo com mais de 1200 pessoas entre os 50 e os 101 anos, concluiu que o sentimento de solidão aumenta à medida que vamos envelhecendo e afeta mais as mulheres do que os homens. Os números apontam que 20,4% das mulheres reportaram sentimentos de solidão, face a 7,3% dos homens.

“Eu hei de arranjar uma cadeira de rodas. Agora dava jeito, ia lá fora, ia à missa. Eu tinha uma e era elétrica, mas dei-a. Agora se eu for daqui à junta, é um dia inteiro”, confessa.

“Eu hei de arranjar uma cadeira de rodas. Agora dava jeito, ia lá fora, ia à missa. Eu tinha uma e era elétrica, mas dei-a. Agora se eu for daqui à junta, é um dia inteiro”, confessa.

No contexto europeu, Portugal é um dos países europeus mais envelhecidos. Segundo dados da Eurostat, o país registou um dos maiores aumentos da idade mediana da população na União Europeia nas últimas duas décadas, apresentando, em 2024, uma idade mediana de 47,1 anos — uma das mais elevadas da Europa. 

O agravamento das dores e a falta de mobilidade limitaram a rotina de Domingos ao terreno de sua casa.

O agravamento das dores e a falta de mobilidade limitaram a rotina de Domingos ao terreno de sua casa.

O nosso país ocupa inclusive, conforme a Pordata (2024), o segundo lugar na União Europeia em índice de envelhecimento e o quarto no mundo.

Companheira de longa data, a "Já te disse" permanece ao pé de Domingos num registo observador e atento.

Companheira de longa data, a "Já te disse" permanece ao pé de Domingos num registo observador e atento.

A proximidade com os animais é evidente nos pequenos gestos repetidos ao longo do dia.

A proximidade com os animais é evidente nos pequenos gestos repetidos ao longo do dia.

Brincalhão e irrequieto, Piloto faz da horta o seu território de descoberta. A dada altura, afastou-se até à cocheira do burro, como quem procura companhia.

Brincalhão e irrequieto, Piloto faz da horta o seu território de descoberta. A dada altura, afastou-se até à cocheira do burro, como quem procura companhia.

Mouçós, a terra do Senhor Domingos, reflete a realidade do interior isolado, onde o som dos animais, que quebra parte do silêncio das casas, domina quase todos os terrenos. Ao falar dos bichos que teve ao longo dos anos, o antigo ferreiro muda de tom, revelando o lugar afetivo que ocupavam na vida dele. “Eu tenho aí quatro burros enterrados. Está aqui uma mesmo em frente à casa”.

É com detalhe que o homem descreve a morte desta burra preta, que tentou aquecer durante a noite com palha e um plástico. “Coitadinha, ao menos morria quentinha”. Na manhã seguinte, encontrou-a ainda viva. “Olhou para mim, roncou e caiu para o lado”, relembra.

Também os cães que foi tendo permanecem presentes nas suas memórias. Fala de um cão branco e preto que desapareceu sem deixar rasto, especificando um momento em que, antes do animal partir, lhe disse, com os olhos feitos em água: “Tu não me deixes”. Nunca mais o voltou a ver.

Outros morreram ou desapareceram, igualmente, ao longo dos anos, perdas que enumera com tristeza e que parecem acumular-se numa sensação constante de ausência. “Eu não sei o que é que se passa comigo, roubam-me tudo”, desabafa. 

Atualmente, são o Piloto, a “Já te disse” e o Preto, o burro, que o puxam para fora de casa. O Preto chegou há cerca de um ano e o Piloto, o cão mais novo, está com ele apenas há umas semanas. Já a cadela mais velha está ao seu lado há mais tempo. “É muito bem educada”, diz, enquanto lhe faz festas, num dos vários momentos em que a presença dos animais lhe traz algum conforto. 

Mouçós, a terra do Senhor Domingos, reflete a realidade do interior isolado, onde o som dos animais, que quebra parte do silêncio das casas, domina quase todos os terrenos. Ao falar dos bichos que teve ao longo dos anos, o antigo ferreiro muda de tom, revelando o lugar afetivo que ocupavam na vida dele. “Eu tenho aí quatro burros enterrados. Está aqui uma mesmo em frente à casa”.

Companheira de longa data, a "Já te disse" permanece ao pé de Domingos num registo observador e atento.

Companheira de longa data, a "Já te disse" permanece ao pé de Domingos num registo observador e atento.

É com detalhe que o homem descreve a morte desta burra preta, que tentou aquecer durante a noite com palha e um plástico. “Coitadinha, ao menos morria quentinha”. Na manhã seguinte, encontrou-a ainda viva. “Olhou para mim, roncou e caiu para o lado”, relembra.

Também os cães que foi tendo permanecem presentes nas suas memórias. Fala de um cão branco e preto que desapareceu sem deixar rasto, especificando um momento em que, antes do animal partir, lhe disse, emocionado: “Tu não me deixes”. Nunca mais o voltou a ver.

Outros morreram ou desapareceram, igualmente, ao longo dos anos, perdas que enumera com tristeza e que parecem acumular-se numa sensação constante de ausência. “Eu não sei o que é que se passa comigo, roubam-me tudo”, desabafa.

A proximidade com os animais é evidente nos pequenos gestos repetidos ao longo do dia.

A proximidade com os animais é evidente nos pequenos gestos repetidos ao longo do dia.

Atualmente, são o Piloto, a “Já te disse” e o Preto, o burro, que o puxam para fora de casa. O Preto chegou há cerca de um ano e o Piloto, o cão mais novo, está com ele apenas há umas semanas. Já a cadela mais velha está ao seu lado há mais tempo. “É muito bem educada”, diz, enquanto lhe faz festas, num dos vários momentos em que a presença dos animais lhe traz algum conforto.

Brincalhão e irrequieto, Piloto faz da horta o seu território de descoberta. A dada altura, afastou-se até à cocheira do burro, como quem procura companhia.

Brincalhão e irrequieto, Piloto faz da horta o seu território de descoberta. A dada altura, afastou-se até à cocheira do burro, como quem procura companhia.

O QUE AINDA
CABE NO DESEJO

Domingos confessa que ainda gostava de ter uma coisa na vida. Uma mulher. Não pede muito — que olhasse por ele, fosse amiga, honesta. “Se fosse carinhosa, de mim não faltava nada”. Garante que com o pouco que tem dava para viverem os dois. Mas já é velho. Já não vale a pena. “E para quê? Isso são só ilusões que os homens têm”.

No fundo, o que precisa é de uma boa companhia. “Era capaz de estar a minha vida toda com vocês, trafulhas não”, revela com ternura. É esta necessidade que Alexandra Teixeira diz ser muitas vezes ignorada, até pelos próprios profissionais de saúde. Os estereótipos sobre a idade servem como desculpa para muita coisa — a depressão, as dores, o isolamento. Para a gerontóloga, falta empatia e presença. 

A sabedoria que se acumula ao longo da vida é real, adverte.  Com a idade, a inteligência cristalizada, feita de experiência e vivências, cresce mesmo quando a fluída — ligada à memória, à rapidez de raciocínio e à capacidade de aprendizagem — abranda. “Os idosos ainda têm muito para contar, falta é quem queira ouvir”.

Mas nem sempre há quem oiça. Ao perguntamos quando se sente mais sozinho, o Senhor Domingos trava. Os seus olhos fazem-se em água. “Não me façam perguntas dessas”,  responde após alguns segundos de hesitação.

O homem partilha que não gosta que o vão visitar — não porque não gosta da companhia, mas porque a quer demasiado. Para si, cada visita é uma despedida. “Vocês vão-se embora e deixam-me sozinho. Por isso é que eu não gosto que venham cá, para não ter saudades. Às vezes vêm cá os meus sobrinhos, veem-me a chorar e perguntam-me ‘o que é que você tem?’— eu digo que me doi isto ou aquilo, mas não me doi nada, é de eles se irem embora”.

Logo depois, regressa às preocupações do corpo, confessando acreditar que não chega aos 77 anos. Se continuasse a sentir-se assim, afirma, no dia seguinte iria ao hospital. “Eu só queria melhorar desta parte”, acrescenta, apontando para a hérnia que lhe cresce na barriga. 



DONA EMÍLIA

"É para viver, precisava de viver mais uns anos"

Dona Emília vive na Abobeleira, em Vila Real, numa casa de dois andares no meio de uma aldeia que o tempo foi esvaziando. Desde que o marido morreu, há três anos, vive sozinha. Há poucos vizinhos e nenhum autocarro. As compras chegam numa carrinha que para à porta.

A cozinha é o espaço onde passa maior parte dos seus dias. As paredes são de azulejo claro, enquanto a madeira dos móveis é escura e velha. Numa bancada, acumulam-se os sinais de uma rotina solitária, como frascos de doce, uma chaleira e uma máquina de café vermelha. Na banca, a loiça está quase toda limpa — pouco se suja quando se come sozinho.

No frigorífico, tem uns ímanes das netas, um desenho, um coração que diz “avó”, uns papéis. Na mesa, está um saco cheio de medicação. Numa parede, uma poltrona. Na da frente, a televisão. Entre as duas, o silêncio.

Pequenos cuidados do quotidiano passaram a depender do apoio dos outros.

Pequenos cuidados do quotidiano passaram a depender do apoio dos outros.

Dona Emília passa a maior parte dos dias em casa, onde as horas correm mais devagar. 

Dona Emília passa a maior parte dos dias em casa, onde as horas correm mais devagar. 

As mãos da Dona Emília revelam sinais de um corpo cada vez mais limitado. Sair de casa passou a ser um esforço cada vez maior. "Agora já não faço nada", ressalta.

As mãos da Dona Emília revelam sinais de um corpo cada vez mais limitado. Sair de casa passou a ser um esforço cada vez maior. "Agora já não faço nada", ressalta.

SAUDADE NO VAZIO

Emília da Silva Dinis Baio tem 88 anos. Natural da Abobeleira, mudou-se para Lisboa com pouco mais de vinte anos. Na capital, onde acabou por ficar durante quarenta anos, trabalhou em casas de família e numa fábrica. Nesse tempo, casou com David Baio, também da Abobeleira, com quem teve três filhos. Há vinte anos, o casal voltou para a terra natal, porque Emília queria estar ao pé da mãe, que se encontrava em fim de vida. Desde que o seu marido morreu, há três anos, Dona Emília vive sozinha.

Rondavam as nove da manhã quando entramos pela sua cozinha. Estava sentada à mesa com um pão e uma taça de leite com cevada à frente. Ficou ali, com as mãos na mesa. Em vinte minutos, não tocou na tigela. Foi a nora, Zélia Baio — de visita naquele fim de semana — quem se sentou ao lado dela e começou a comer também, como incentivo. Como explicita a psicóloga Alexandra Martins, quando se vive sozinho durante tempo suficiente, a cabeça vai-se esquecendo das rotinas.

Para o enfermeiro Rafael Sousa, apesar da sociedade estar hoje mais atenta aos casos de negligência avançada e dos apoios ao domicílio terem crescido, pessoas que vivem muito tempo sozinhas, mesmo tendo familiares,
vão desprezando o próprio autocuidado. Os sinais
são sobretudo comportamentais — a dificuldade em comunicar, a desnutrição, os maus cuidados de higiene. Na casa da Dona Emília, o pequeno-almoço ainda espera.

A história da mulher de 88 anos mostra como este cenário se pode instalar mesmo quando existem laços familiares. Os filhos vivem longe — um em Lisboa e outro em Angola — e as visitas acontecem “conforme podem”, informa Dona Emília, sem aparente mágoa. A residente da Abobeleira tinha também uma filha, que faleceu há doze anos. 

As três netas e as duas bisnetas aparecem apenas uma ou duas vezes por ano, enquanto a nora, Zélia, torna quando pode. Agora só regressa à terra em agosto. Entre os dez irmãos, oito continuam a viver na aldeia e dois emigraram. Apesar da proximidade geográfica, os encontros são raros e acontecem sobretudo à saída da missa. “Damo-nos todos muito bem”, assegura. 

Alexandra Teixeira afirma que o que os idosos mais precisam é precisamente de tempo de qualidade com os seus. “Eles têm todo o tempo do mundo”, são os outros que não têm. Esta correria do dia a dia acaba por afastar os familiares, uma realidade particularmente evidente nas famílias que, tal como a de Dona Emília, têm filhos emigrados.

À distância dos mais próximos juntaram-se, com o tempo, os problemas de saúde. Há cerca de oito anos, Emília sofreu um AVC. Quando foi para Lisboa não sabia ler. Aprendeu mais tarde, por causa dos filhos. Mas a doença roubou-lhe essa capacidade. “Agora não sei”, lamenta.

Marta Pedreira, designer de ambientes pós-graduada em Neurociência Aplicada à Arquitetura, salienta que a forma como se envelhece e recupera passa, muitas vezes, pelos espaços onde se vive. A profissional menciona que foi quando esteve internada, por motivos de saúde, que percebeu verdadeiramente a forma como os ambientes afetam o processo de cura. 

Os espaços hospitalares, pronuncia, “estão formulados para andar, não para pensar que está ali um ser humano.” O mesmo se aplica a quem envelhece em casa, uma vez que a forma como a doença se vive não depende apenas do corpo. Marta Pedreira defende, por isso, ambientes mais acolhedores, com luz natural, boa acústica, objetos pessoais e espaços pensados para promover conforto, autonomia e sensação de pertença, sobretudo em contextos marcados pelo envelhecimento.

SAUDADE NO VAZIO

Emília da Silva Dinis Baio tem 88 anos. Nasceu e cresceu na Abobeleira, mas com pouco mais de vinte anos foi para Lisboa. Na capital, onde acabou por ficar durante quarenta anos, trabalhou em casas de família e numa fábrica. Nesse tempo, casou com David Baio, também da Abobeleira, com quem teve três filhos. Há vinte anos, o casal voltou para a terra natal, porque Emília queria estar ao pé da mãe, que se encontrava em fim de vida. Desde que o seu marido morreu, há três anos, a Dona Emília vive sozinha.

Pequenos cuidados do quotidiano passaram a depender do apoio dos outros.

Pequenos cuidados do quotidiano passaram a depender do apoio dos outros.

Rondavam as nove da manhã quando entramos pela sua cozinha. Estava sentada à mesa com um pão e uma taça de leite com cevada à frente. Ficou ali, com as mãos na mesa. Em vinte minutos, não tocou na tigela. Foi a nora, Zélia Baio — de visita naquele fim de semana — quem se sentou ao lado dela e começou a comer também, como incentivo. Como explicita a psicóloga Alexandra Martins, quando se vive sozinho durante tempo suficiente, a cabeça vai-se esquecendo das rotinas.

Para o enfermeiro Rafael Sousa, apesar da sociedade estar hoje mais atenta aos casos de negligência avançada e dos apoios ao domicílio terem crescido, pessoas que vivem muito tempo sozinhas, mesmo tendo familiares, vão desprezando o próprio autocuidado. Os sinais são sobretudo comportamentais — a dificuldade em comunicar, a desnutrição, os maus cuidados de higiene. Na casa da Dona Emília, o pequeno-almoço ainda espera.

A história da mulher de 88 anos mostra como este cenário se pode instalar mesmo quando existem laços familiares. Os filhos vivem longe — um em Lisboa e outro em Angola — e as visitas acontecem “conforme podem”, informa Dona Emília, sem aparente mágoa. A residente da Abobeleira tinha também uma filha, que faleceu há doze anos. 

Dona Emília passa a maior parte dos dias em casa, onde as horas correm mais devagar. 

Dona Emília passa a maior parte dos dias em casa, onde as horas correm mais devagar. 

As três netas e as duas bisnetas aparecem apenas uma ou duas vezes por ano, enquanto a nora, Zélia, torna quando pode. Agora só regressa à terra em agosto. Entre os dez irmãos, oito continuam a viver na aldeia e dois emigraram. Apesar da proximidade geográfica, os encontros são raros e acontecem sobretudo à saída da missa. “Damo-nos todos muito bem”, assegura. 

Alexandra Teixeira afirma que o que os idosos mais precisam é precisamente de tempo de qualidade com os seus. “Eles têm todo o tempo do mundo”, são os outros que não têm. Esta correria do dia a dia acaba por afastar os familiares, uma realidade particularmente evidente nas famílias que, tal como a de Dona Emília, têm filhos emigrados.

À distância dos mais próximos juntaram-se, com o tempo, os problemas de saúde. Há cerca de oito anos, Emília sofreu um AVC. Quando foi para Lisboa não sabia ler. Aprendeu mais tarde, por causa dos filhos. Mas a doença roubou-lhe essa capacidade. “Agora não sei”, lamenta.    

As mãos da Dona Emília revelam sinais de um corpo cada vez mais limitado. Sair de casa passou a ser um esforço cada vez maior. "Agora já não faço nada", ressalta.

As mãos da Dona Emília revelam sinais de um corpo cada vez mais limitado. Sair de casa passou a ser um esforço cada vez maior. "Agora já não faço nada", ressalta.

Marta Pedreira, designer de ambientes pós-graduada em Neurociência Aplicada à Arquitetura, salienta que a forma como se envelhece e recupera passa, muitas vezes, pelos espaços onde se vive. A profissional menciona que foi quando esteve internada, por motivos de saúde, que percebeu verdadeiramente a forma como os ambientes afetam o processo de cura. 

Os espaços hospitalares, pronuncia, “estão formulados para andar, não para pensar que está ali um ser humano.” O mesmo se aplica a quem envelhece em casa, uma vez que a forma como a doença se vive não depende apenas do corpo. Marta Pedreira defende, por isso, ambientes mais acolhedores, com luz natural, boa acústica, objetos pessoais e espaços pensados para promover conforto, autonomia e sensação de pertença, sobretudo em contextos marcados pelo envelhecimento.

DENTRO DE QUATRO PAREDES

Da janela de casa, Emília vai acompanhando os poucos vizinhos que ainda passam na rua. Com os filhos, mantém contacto sobretudo através do telemóvel. Apesar da possibilidade de ir para Lisboa, prefere permanecer na aldeia onde sempre viveu. “Aqui é que é a minha casa”, testemunha. Ainda assim, reconhece as dificuldades de envelhecer sozinha. “Se precisar de alguma coisa, tenho de recorrer a outros.” 

Para Alexandra Martins a presença regular de alguém próximo faz toda a diferença. Há idosos que vivem sozinhos, que não saem de casa nem têm apoio domiciliário, mas mantêm-se bem, porque todos os dias à hora do almoço um filho passa por lá. Basta isto para cozinhar, para pôr a mesa, para ter uma razão. Quando essa razão desaparece, a negligência instala-se progressivamente. 

Na pandemia, Alexandra integrou a equipa multidisciplinar de acompanhamento à vigilância epidemiológica de Paços de Ferreira, que respondia à necessidade de dar apoio psicológico a pessoas em situação de isolamento, nomeadamente idosos. Foi nesse contexto que a psicóloga, que perdeu a visão funcional aos 11 anos devido a um glaucoma congénito, percebeu de forma ainda mais próxima a dimensão silenciosa da solidão em idades mais avançadas. 

Relembra conversas que se prolongavam ao longo de muito tempo, motivadas pela simples necessidade de falar com alguém. “Por várias vezes, estive a falar com idosos durante três horas, se é que não foram mais”.

Atualmente, a jovem-adulta é responsável por um serviço de teleassistência que acompanha cerca de 178 pessoas mais velhas. “A maior vitória que tenho com elas é quando finalmente as consigo convencer, por exemplo, a ir para um centro de convívio ou para um centro de dia, para começarem a passar algum tempo fora de casa”.

Na opinião de Alexandra Martins, sentir-se e estar sozinho na velhice tem consequências profundas. “O isolamento é um cancro na terceira idade”, expressa.  

Na vida da mulher da Abobeleira, este afastamento prolongado traduz-se numa rotina marcada pela escassez de proximidade. A presença da nora em casa é uma exceção à sua rotina solitária, que ilustra o papel crucial do contacto continuado, e se possível físico, em detrimento do esporádico, mas duradouro, que Alexandra Teixeira enfatiza.

A gerontóloga frisa que, mais do que momentos pontuais de convívio, os idosos precisam de acompanhamento frequente, capaz de sustentar rotinas e estimular o autocuidado. Quando esse contacto acontece apenas de forma ocasional — como no caso das visitas familiares de Emília —, ainda que prolongada no tempo, tende a não ser suficiente para impedir a instalação da negligência quotidiana.  

É apenas quando Zélia consegue ir à Abobeleira que a Dona Emília trata, com a sua ajuda, de pequenos cuidados que normalmente adia — a nora corta-lhe o cabelo, arranja-lhe os pés, faz-lhe as unhas. Este cabelo, agora mais curto, denuncia o tempo que pode passar até que Emília volte a receber companhia.

Em casa, a sua única visita são as senhoras do Centro Social e Paroquial de Mouçós, que vêm há quase sete anos. “Estiveram com o meu marido e comigo, depois fiquei só eu”, conta Emília. Aparecem de manhã, dão-lhe banho e vão embora.

É precisamente este pouco acompanhamento que a psicóloga Alexandra Martins identifica como a maior falha no apoio a quem vive sozinho. Os funcionários dos centros passam dez minutos numa casa e, para eles, já é tempo perdido. Os idosos sentem falta disso, da conversa e da companhia.

Depois da porta se fechar, o resto do dia faz-se sozinho. Emília vê televisão,  estende uma roupa, cozinha o que calha. Mas “às vezes já nem gosta de fazer comer”, interpela a nora.

Os problemas nas costas e nos joelhos travam-lhe os movimentos. Vai à missa quando há, ao cemitério quando alguém lhe dá boleia. “Agora não saio porque estou sozinha”. Se conseguisse fazer as suas coisas, era uma mulher feliz, confidencia. 

DE PÉ COM TÃO POUCO

À pergunta “o que é que a faz feliz?”, Dona Emília responde apenas: “qualquer coisa”. Durante anos, houve uma atividade que lhe ocupava grande parte do tempo — o crochet. Fazia camisolas e chegou a vender algumas. Se pudesse, hoje, fazia as peças para as netas. “Agora não faço nada”, porque as mãos não obedecem como antes. 

Com o desaparecimento destes pequenos hábitos, os dias tornam-se difíceis de preencher. Há momentos piores que os outros. Ao meio-dia, às vezes. À tarde, outras. Durante a noite, também. Nessas alturas, tenta fazer qualquer coisa, desabafa, com os olhos a encherem-se de lágrimas. “A solidão faz isso”, acrescentou a nora. A Dona Emília não respondeu.

À noção de que estar isolado e sentir solidão são coisas diferentes, o psicólogo José Ferreira-Alves acrescenta que muitos idosos recorrem às memórias como mecanismo natural para não se sentirem sós. Para a Dona Emília, a mais feliz de todas é o dia em que o filho mais velho nasceu. Sessenta e três anos depois, sobra-lhe a solidão.

O envelhecimento é “uma coisa muito triste”. “O princípio da vida é isto.” A quem se sente sozinho, Emília deixa um conselho — que tenham coragem para viver.

COMBATER A SOLIDÃO

Consoante o relatório "Population structure and ageing", da Eurostat, o envelhecimento populacional tem-se intensificado de forma generalizada em toda a União Europeia. Entre 2004 e 2024, a percentagem de população com 65 ou mais anos no espaço europeu aumentou de 16,4% para 21,6%, enquanto a população com menos de 15 anos diminuiu de 16,2% para 14,6%. Simultaneamente, a faixa etária dos 80 ou mais anos tornou-se a que mais cresceu. 

A evolução destes indicadores demográficos evidencia um quadro de envelhecimento populacional que exige atenção acrescida às questões associadas à velhice, em particular à solidão. Olhar para este cenário implica, por isso, pensar nas respostas que podem ajudar a preveni-lo e combatê-lo. Não obstante a dimensão do problema, todos os especialistas e profissionais da área enaltecem as formas concretas de reduzir o seu impacto. 

A autonomia dentro de casa surge, para Marta Pedreira, como uma prioridade no combate a este fenómeno. A designer sublinha a necessidade das autarquias trabalharem em conjunto com profissionais da área do design para criar ambientes mais dignos para pessoas em situação de maior vulnerabilidade social. Na sua perspetiva, envelhecer com dignidade não devia depender da situação financeira para recorrer a um designer, por exemplo.

José Ferreira-Alves apresenta outras soluções, como o co-housing — modelos de residência partilhada que permitem preservar a independência — e a valorização do conceito de vizinhança. Na sua opinião, Portugal continua a não saber aproveitar plenamente esse potencial comunitário. 

A importância destas relações sociais é resumida por uma metáfora de que o psicólogo se recorda de um antigo professor. “O meio ambiente é para o ser humano como a casca é para o caracol. Não há caracol sem casca, da mesma forma que nós também não nos conseguimos definir na ausência de outras pessoas”. 

É com base nessa ideia de proximidade e cuidado contínuo que alguns projetos comunitários têm procurado intervir, criando respostas mais personalizadas para combater o isolamento e promover a autonomia da população idosa. Foi da identificação dessas falhas de resposta que Alexandra Teixeira criou, a partir da sua tese de mestrado, o projeto Ohana.

A iniciativa prestava apoio diretamente em casa de idosos. Os serviços iam desde a avaliação multidimensional e criação de planos individuais de intervenção — focados na estimulação cognitiva e motora — até ao acompanhamento de consultas, ajuda nas tarefas domésticas e cuidados de enfermagem, como medição dos sinais vitais e gestão da medicação. 

Além do acompanhamento domiciliário, a Ohana também promovia iniciativas na comunidade, como ações de sensibilização, workshops, ciclos de formação e tertúlias, apostando ainda em atividades de turismo sénior e literacia digital. Por motivos pessoais, o projeto encontra-se temporariamente inativo. No entanto, Alexandra Teixeira tenciona reativá-lo futuramente.

Mouçós e a Abobeleira ficam a minutos de viagem. Ainda assim, as histórias de Domingos e Emília dão rosto a uma realidade vivida por todo o país. Em Portugal, há cada vez mais idosos, mas também cada vez menos gente a olhar por eles.

Em memória de Domingos Abelino Sabrosa Esteves da Silva. 

AUTORIA

Rita Rodrigues

Rita Rodrigues, 20 anos, frequenta o 3º ano da licenciatura em Ciências da Comunicação na Universidade do Minho. Foi entre as páginas dos jornais que o pai comprava todos os fins de semana e o som do noticiário na televisão que despertou a sua vontade de compreender o mundo. Para a Rita, o jornalismo é a resposta natural à sua curiosidade incessante e ao desejo de dar voz a pessoas e às suas histórias. Traquina por natureza, continua a ser a primeira a querer saber o que se passa no mundo, movida pela sede de aprender sempre mais.

portefólio

Juliana Barreto

Juliana Barreto, 20 anos, frequenta o 3º ano da licenciatura em Ciências da Comunicação, na Universidade do Minho. Foi nas margens do rio Lima, em Ponte da Barca, que nasceu a sua paixão pela escrita - principalmente por acreditar no poder das palavras enquanto forma de contar histórias e de narrar o mundo. O teatro surge na sua vida como um espaço de liberdade e descoberta e a música inspira-a diariamente, influenciando o modo como pensa e cria.

portefólio

Maria Gomes

Maria Gomes, 21 anos, frequenta o 3.º ano da licenciatura em Ciências da Comunicação na Universidade do Minho. Natural de Vila Real, o interesse pelo jornalismo surgiu na infância, ao acompanhar as notícias com o padrinho. A fotografia é também uma constante na sua vida, como forma de registar o que a rodeia. Já em Braga, descobriu um entusiasmo inesperado pela rádio. Dessa experiência, reforçou a convicção de que o jornalismo deve ser uma ferramenta de intervenção social, capaz de dar visibilidade, promover o pensamento crítico e aproximar as pessoas do espaço público.

portefólio

AGRADECIMENTOS

Alexandra Teixeira

Beatriz Vilaça

Cláudia Sousa

Daniela Silva

Hélder Afonso

Nuno Barreto

Zélia Baio

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