ALÉM DO CARTÃO-POSTAL
AMBULANTES DA PRAIA DA COSTA LIDAM COM SAZONALIDADE E INFORMALIDADE
Entre o barulho das ondas e o chamado dos vendedores, a Praia da Costa, localizada a cerca de 5 quilômetros da região central do município da Barra dos Coqueiros (SE), pulsa de vida todos os dias. Mais do que um cartão-postal, o espaço se tornou palco de histórias de sobrevivência, resistência e criatividade. É ali, na areia quente, que dezenas de trabalhadores ambulantes constroem sua renda e ajudam a manter o turismo local aquecido.
Esta fotorreportagem mergulha no cotidiano de empreendedores que enfrentam a sazonalidade do turismo, a ausência de políticas públicas consistentes e a informalidade, mas que também encontram no trabalho à beira-mar a possibilidade de viver do próprio esforço.
Fora do período de alta estação, que acontece entre os meses de dezembro e março, mesmo em dias em que o tempo alterna entre sol e nuvens, o movimento na praia se mantém constante. A faixa de areia não fica vazia, mas não chega a encher. Entre famílias, turistas ocasionais e moradores locais, o cotidiano pulsa de maneira suave, refletindo o ritmo próprio de quem vive e trabalha ali.
AMBULANTES QUE DÃO VIDA À PRAIA DA COSTA
São os ambulantes que dão vida ao ponto turístico. Do queijo assado ao amendoim cozido, dos drinks coloridos às tatuagens de henna, cada produto oferecido reflete não apenas uma forma de sustento, mas também parte da identidade cultural de Sergipe. Suas histórias revelam tanto as dificuldades de viver da informalidade, quanto o orgulho de construir um modo de vida ligado à praia.
Morador da Barra dos Coqueiros, Givanildo da Silva começou a vender queijo na brasa aos 12 anos. Quase 25 anos depois, segue firme nas vendas na Praia da Costa. A rotina começa cedo, com o sol ainda tímido; ele sabe que o movimento varia com as estações.
Ele relata que os turistas e frequentadores consomem muito, mas tem tempos e tempos. "Agora [julho] estamos no inverno. No verão, por essas horas [10h30], já tinha gente na areia. Hoje, com o tempo chuvoso, o turista fica com medo", relata. Mesmo assim, o vendedor garante um faturamento que varia entre R$ 250 e R$ 300 por dia, chegando a R$ 1.200 na semana.
Para ele, o que o motiva vai além do ganho financeiro. "Eu gosto. Para mim é mais tranquilo trabalhar por conta própria", afirma.
Por sua vez, Noslen Barbosa encontrou, no amendoim verde cozido, reconhecido como patrimônio imaterial de Sergipe, um diferencial. Ele vende o produto na praia há seis anos e lamenta a falta de apoio. "A prefeitura não vem, governo muito menos. Tá faltando instrução, curso, MEI. O amendoim cozido é tradição de Sergipe, mas poucos turistas sabem. Eu explico e aí eles compram. O governo deveria preparar a gente para mostrar essa cultura", avalia.
No inverno, a renda cai; no verão, chega a dois salários mínimos. Noslen sonha com políticas que diferenciem os ambulantes da Barra dos Coqueiros — chamados por ele de "vendedores raiz" — dos que aparecem apenas na alta temporada. "A gente tá aqui o ano inteiro. Quando chove, não tem ninguém que venha nos acolher", comenta.
Outro personagem conhecido da praia é José Barbosa, o Titi Drinks, que há 10 anos mistura sabores tropicais em copos gelados. O inverno derruba a demanda, mas ele se mantém otimista. "Graças a Deus vendo bastante. Sempre sai alguma coisa", garante.
Já Pedro Rodrigues aposta na venda de óculos de sol. "A praia é mais povão, sossegada. Trabalho aqui há 16 anos. No verão dá para tirar R$300 na semana, mas no inverno cai bastante", comenta.
Há, ainda, quem use a criatividade como ferramenta de sobrevivência. É o caso de Abel Tattoo, que desenha com henna há 15 anos na Praia da Costa. "Vivo disso. Tem saída o dia todo. É uma praia pequena, mas tem muito movimento. Tatuo todos os dias", conta.
TRADIÇÃO QUE RESISTE AO TEMPO
O trabalho dos ambulantes na Praia da Costa carrega aspectos que vão além dos comerciais. São símbolos de identidade e permanência. Entre peças artesanais, sabores típicos e serviços variados, esses trabalhadores mantêm vivas tradições que atravessam gerações. Ao mesmo tempo, enfrentam as limitações de um mercado sazonal e da falta de políticas públicas consistentes.
Para o artesão Getúlio Mendes, há 25 anos na profissão (sendo dez como ambulante), o trabalho é sustento e também uma forma de manter viva a tradição manual. "Eu só vivo disso. O inverno derruba as vendas, mas no verão melhora. Um auxílio seria importante", avalia.
O presidente da Associação de Moradores e Amigos da Ilha de Santa Luzia (Voz da Ilha), Marcos Cabral, reconhece os dilemas da categoria. "A maior dificuldade é a chuva. Estamos cadastrando ambulantes e desenvolvendo projetos com a Secretaria de Turismo. A expectativa é que, com a nova orla e a Praça do Turista, a situação melhore", afirma.
O OLHAR DE TURISTAS E FREQUENTADORES
Se, por um lado, os ambulantes veem na praia sua principal fonte de sustento, por outro, turistas e moradores os reconhecem como parte da experiência à beira-mar. A comida na areia, o atendimento próximo e até a conversa casual ajudam a criar a memória afetiva de quem passa pela Praia da Costa. Ao mesmo tempo, visitantes apontam falta de infraestrutura e segurança, mostrando que a relação entre consumo, lazer e acolhimento vai além da venda.
Turistas do Distrito Federal, Rogério Damascena e Aretha Ferreira elogiam os preços dos produtos e a qualidade do atendimento. "Já consumimos dos ambulantes e são muito tranquilos. Preços normais. Gostaria que tivesse mais estrutura, mas voltaria para Barra dos Coqueiros com certeza", afirmam.
Já Maria Augusta, que veio da Bahia para turistar em Sergipe, reforça que a Praia da Costa é um espaço muito bom, com um pessoal acolhedor. "O mar é maravilhoso. Com certeza recomendaria", constata.
Para os moradores de Aracaju, Renata Pereira e Wellington dos Santos, o atendimento é "100%", mas alertam que a estrutura da praia deveria contar com mais salva-vidas. "Vem muita criança e turista que não sabem dos buracos no mar".
MEDIDAS PARA LIDAR COM AS DIFICULDADES
A realidade dos ambulantes não pode ser compreendida apenas a partir de suas trajetórias individuais. O trabalho ambulante na praia, apesar de garantir o sustento de várias famílias, é cercado de dificuldades e inseguranças.
O economista e professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS), Luiz Ribeiro, destaca que o empreendedorismo local é essencial. "Qualquer tipo de ação de base local aumenta a oferta turística e gera renda. Mas falta capacitação. A informalidade é reflexo de um mercado de trabalho desigual. É preciso regulamentar pensando no benefício do trabalhador e do turista", avalia.
A Secretaria de Turismo da Barra dos Coqueiros reconhece avanços e desafios. A gerente administrativa da secretaria, Sídia Oliveira, aponta melhorias recentes como asfaltamento do estacionamento, Wi-Fi gratuito pelo programa Barra Conectada e capacitações em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). "Estamos cadastrando trabalhadores e discutindo cursos de qualificação. Mas ainda há muito a fazer", admite.
A Prefeitura de Barra dos Coqueiros também aposta na obra de readequação da orla e da Praça do Turista, iniciada em 10 de julho de 2025, com previsão de conclusão em 2 de setembro do mesmo ano. O projeto, realizado em parceria com o Governo Federal e orçado em aproximadamente R$ 382 mil, prevê espaço para feiras de artesanato, palco para apresentações culturais e uma estrutura mínima de apoio aos ambulantes. A iniciativa busca reorganizar a área e oferecer melhores condições de trabalho, ao mesmo tempo em que procura tornar a Praia da Costa mais atrativa para visitantes.
Já o gerente do escritório regional do Sebrae Sergipe, Aurélio Fernandes, reforça que o pequeno empreendedor é parte fundamental da experiência turística. "Nosso papel é formalizar, capacitar e dar suporte para que esses ambulantes saiam da informalidade e possam crescer", destaca.
À BEIRA DA SOBREVIVÊNCIA, À BEIRA DO FUTURO
Na Praia da Costa, cada carrinho de queijo, cada cesto de amendoim e cada tatuagem de henna contam, silenciosamente, uma história de resiliência. Os trabalhadores ambulantes sustentam famílias, preservam a identidade cultural local e oferecem ao turista um pedaço autêntico e caloroso do jeito sergipano de acolher.
Mas, para que o futuro seja mais que sobrevivência, é preciso que políticas públicas, associações e instituições caminhem juntas. A orla em reestruturação, os projetos de capacitação e a força dos próprios empreendedores mostram que a Praia da Costa tem potencial de se tornar referência em turismo comunitário e sustentável.
Enquanto isso, sob sol ou chuva, os ambulantes seguem firmes, de frente para o mar, com esperança no amanhã e no trabalho na areia.
Fotorreportagem produzida por Josino Tavares, Yan Lima e Yuri Barbosa para a disciplina de Laboratório de Jornalismo Integrado I (2025.1) do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Sergipe.
Edição #04 - ZONA CONTEXTO

