"O DESPORTO VAI PARA UM CAMINHO DE CADA VEZ MENOS LIBERDADE"

O desporto sempre teve o poder de unir povos, assim como a língua portuguesa. Na época, o regime tentava ter controlo sobre todos os clubes, por receio, pois os eventos desportivos eram o "palco" perfeito para a realização de manifestações e revoltas contra o regime.

Por Eva Santos e João Blanco

A Revolução dos Cravos promoveu a democratização do desporto em Portugal, criaram-se instituições e coletividades que permitiram cultivar as diferentes modalidades que surgiram com grande força.

Para a maioria das pessoas, o 25 de Abril é visto como a data da revolta que todos os portugueses esperam, em luta pela liberdade. Porém, Miguel Pereira diz que esta ideia é falsa: "o 25 de Abril, à posteriori criou uma ideia romântica de que era a revolta de que todos os portugueses estavam à espera, e na verdade isso é tudo falso. O 25 de abril foi realizado por militares que estavam fartos de morrer em África, que não queriam voltar para lá, que queriam acabar com a guerra colonial, e isso realmente foi uma espécie de atalho à liberdade, mas não houve revoltas populares anteriores, não houve manifestações, o trabalho na resistência do partido comunista foi muito residual, não houve realmente um impacto social muito grande".

Segundo o historiador Miguel Pereira, podcaster e escritor de vários livros sobre momentos históricos do futebol, o desporto foi utilizado como arma política pela maioria dos estados totalitários e autoritários do século XX.

Porém, Miguel considera que o Estado Novo foi um caso sui generis neste aspeto: "O regime teve etapas diferentes. O regime salazarista não era o mesmo regime desde 28 ou desde 33 até 74. Portanto, o impacto que tiveram determinadas políticas em relação a áreas como o desporto foram diferentes segundo esses momentos. Numa primeira etapa, que eu diria que ia até aos anos 50, o desporto foi muito mal visto por parte do regime, sobretudo o futebol. O futebol chegou a ser proibido. Qualquer atividade de futebol estava banida de ser praticada nas escolas e qualquer menor de 18 anos não podia jogar futebol. Os clubes oficialmente não tinham escolinhas para formação, porque todo o foco do regime estava virado para a ginástica."

O historiador acredita haver uma mudança de mentalidade dentro do regime a partir de 1950, devido às derrotas das potências do eixo na Segunda Guerra Mundial. "Quando deixam de ter esse apoio social institucional das potências do eixo, é que começa a haver uma mudança de paradigma de comportamentos. Dá-se a reformulação da polícia política; em 1948, dá-se o primeiro simulado de eleições livres; etc. Portanto, tudo isto vai ocorrendo numa década onde também havia uma necessidade de desenvolvimento de economia. Daí a aposta nas obras públicas e dentro desta corrente surge a construção dos estádios. É por isso que nos anos 50 se vão construindo as Antas, a Luz, Alvalade, o 1.º de Maio. Todos eles inicialmente inaugurados em datas de eventos ligados ao fascismo ou eventos ligados à nacionalidade, precisamente porque se transformaram em dias de saudosismo ao regime e à figura de Salazar."

O regime entende que pode ser usado como uma faceta institucional, indo ao encontro dos ideais propagandísticos da União Nacional. "A presença de elementos do regime no Porto, no Sporting, no Benfica e no Belenenses é transversal nesta altura. As finais da Taça De Portugal no Jamor também se transformam numa espécie de comícios anuais do regime". Apesar disso, esta ideia do futebol ligado ao regime não passava lá para fora nem contribuía para a elevação internacional de Portugal. "O regime não tinha o menor interesse em fazer uma super equipa como Mussolini, que fez de tudo: nacionalizou estrangeiros, facilitou a vida ao selecionar italiano nos anos 30, entre outros. Tudo para poder criar uma equipa ganhadora. O regime salazarista não queria saber se Portugal ganhava ou não. A maior parte dos jogos de Portugal continuavam a ser contra a Espanha franquista, portanto eram jogos entre amigáveis."

O Estado Novo passa a ver o futebol como arma política externa apenas nos anos 60. "A grande mudança acontece quando o regime se encontra com os êxitos do Benfica e, depois, com os do Sporting. Algo que não é planificado e que não teve nada que ver com o regime. Foi puramente desportivo. O trabalho do Otto Glória em cimentar o Benfica nos anos 60; o talento dos treinadores que estavam cá; o talento dos jogadores que estavam cá, sobretudo os jogadores que, a partir dos anos 50, começavam a vir das colónias. Quando o regime descobre que afinal podemos ser competitivos e ganhar lá fora, colam a imagem do regime a essas equipas. Transformam o Eusébio em figura de património nacional, depois o êxito mundial de 66."

A última fase é a de Portugal antes do 25 de Abril. Nessa última etapa de Marcelo Caetano e nos últimos anos de Salazar, "o regime sabe o poder do futebol, sabe da qualidade de Portugal na área do futebol, e, portanto, tenta instrumentalizar ao máximo uma atividade que, por si só, era uma área onde se podia ter fomentado muito mais a rebelião. Isso aconteceu noutros países, como na Catalunha em Espanha, mas que nunca houve verdadeiramente em Portugal uma vontade de transformar o futebol num bastião de resistência".

Para o historiador, o futebol nunca foi utilizado como espaço de manifestação de descontentamento para com o regime, tirando a caso da final da Taça de Portugal em 1969. "Da mesma maneira que, à posteriori ao 25 de Abril, se criou uma ideia romântica de que era a revolta de que todos os portugueses estavam à espera, quando na verdade isso é tudo falso, a única vez em que se decidiu utilizar o futebol como uma plataforma política foi a final da Taça de 1969. Contudo, mais uma vez não foi pelo futebol, mas por uma situação que já estava a acontecer em Coimbra desde finais de abril e inícios de maio, que depois teve a sorte de que coincidiu com o excelente ano da Académica que chegou à final do Jamor e, portanto, os estudantes e já estavam em revolta puderam utilizar essa plataforma. Se não fosse isso, o futebol em Portugal nunca teria tido um episódio sequer de resistência ao regime."

Miguel ainda afirma não existir uma conexão direta entre o desporto e a luta pela liberdade. "Até 1969, não há nenhuma correlação possível. Aliás, se formos olhar para a história do futebol português, há muito poucos episódios que envolvam pessoas do futebol português com algo que tenha a ver com a luta política. Por exemplo, o caso mais estudado de todos é o de Cândido Oliveira (treinador e jornalista desportivo), que nas horas vagas era espião inglês, que foi detido no Tarrafal e que nada do que ele fez nesse âmbito estava ligado com o futebol. Ele era um homem do futebol, mas todas essas questões em volta da sua vida não tinham correlação com o futebol."

O autor ainda explica como é que o regime impedia que o desporto se transformasse num espaço de manifestações. "De certa forma, a censura sempre conseguiu controlar qualquer debate que o futebol pudesse potenciar. Os estádios nunca foram caldo de cultivo para manifestações, porque somos um país com uma identidade nacional muito definida. Mesmo os localismos ou os regionalistas nunca afetaram a ideia de nação. E o que aconteceu em 1969 foi a primeira vez que muitas pessoas que viviam em Portugal  perceberam que haviam pessoas que estavam contra o regime. Estamos a falar de um país profundamente atrasado a nível económico onde as pessoas raramente tinham contactos fora da sua realidade, fora da sua bolha. A maior parte das pessoas não se movia em um raio de 10km das suas casas. Não havia essa facilidade de encontrar informação. De repente, acontecer um jogo que ia ser transmitido e que deixou de o ser, precisamente pelo medo que o regime tinha, foi um sinal de alerta. Foi a primeira final e única a não ser transmitida desde que se começaram a transmitir. Começa a dar a sensação de que algo está mal. Obviamente, todos os relatos do dia e todas as indicações dadas pelas rádios à volta do que estava a acontecer em campo, desde a entrada com as capas negras dos jogadores da Académica até às fotos com as tarjas de apoio à Academia ou até à fotografia do Eusébio com a camisola da Académica, tudo isso foi a conscientização popular de que ali realmente havia algo."

O historiador explica ainda a relação entre os dois planos, o do desporto e da luta pela liberdade, mas no sentido inverso. Ou seja, como é que a queda do regime democratizou as competições desportivas em futebol. "Democratizou-se o desporto essencialmente porque acabou a censura. Ao permitir que toda a gente pudesse exprimir a sua opinião, começaram-se a ouvir vozes dissonantes que sempre tinham existido. Pela primeira vez, foram ouvidas por mais pessoas do que apenas pelos círculos fechados e isso automaticamente foi o ponto de abertura para ter uma perceção de país talvez diferente ao que existia antes de 1974. A partir daí, a evolução do desporto como tal e sobretudo no futebol, que é o desporto maioritário a todos os níveis em Portugal, foi percebendo que havia partes de Portugal que Portugal ainda não tinha conhecido."

Miguel dá o exemplo de José Maria Pedroto, treinador de futebol. "Pouco antes do 25 de Abril, já Pedroto tinha tido um problema em Setúbal, quando se demitiu por causa da chamada Lei da Rolha. A Federação tinha permitido o Vitória FC de proibir os jogadores de falar com a imprensa e de irem de férias por muitos deles estarem ligados ao Partido Comunista da zona. Então, havia um controlo muito grande sobre o clube. Porém, a partir de 74, dirigentes novos que não pertenciam àquelas diligências que tinham sido impostas em muitos casos começam a chegar aos clubes com um discurso que não se tinha ouvido ainda. Deixa-se de ter os clubes com presidências em que havia sempre membros da direção que eram membros da União Nacional. Pelo menos em uma fase inicial de transição, chegam com um discurso novo e com uma nova forma de entender o futebol também. Uma forma mais atualizada no tempo."

Deu-se uma revolução na mentalidade desportiva em Portugal. "O aparecimento desse novo discurso e dessa nova maneira de entender o jogo muda tudo. Os jogadores do Porto começam a ir à seleção, algo que antes parecia algo completamente intocável porque se tratava de uma equipa sagrada, a equipa de todos nós. Começa também a triunfar a ideia do clube sobre a seleção. Contrapõe tudo o que era o Estado Novo, em que a nação estava por cima de tudo. Por isso, é que de certa forma o fanatismo do futebol português nasce depois do 25 de Abril. É o momento quando é permitido aos adeptos serem mais do seu clube do que do país. A grande diferença do 25 de Abril para o futebol português foi precisamente o facto de a liberdade de expressão ter aberto a porta a toda essa multipolaridade de ideias e de discursos que iam contra 40 anos da ordem estabelecida."

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