Lá fora, o fado continua
O que é ser emigrante?
"Partir nunca é fácil" Para milhares de portugueses, a decisão de emigrar traz consigo uma mistura de coragem, incerteza e saudade. São rostos anónimos que carregam sonhos na bagagem, e cruzam fronteiras para construir um novo capítulo longe de casa. De Norte a Sul do país, cada história é um reflexo da resiliência de quem, mesmo a milhares de quilómetros, não deixa de chamar Portugal de “casa”.
"Deixámos tudo para trás"
Terminaram as festas de fim de ano. Um novo ano começa e são centenas as famílias no aeroporto que se despedem dos familiares. Ouvem-se os últimos risos e choros, veem-se os últimos abraços e beijos, antes do embarque. Os sentimentos são de tristeza e desejo para que chegue novamente o momento de reaver- os pais, os irmãos, os tios, os primos e até mesmo os avós que vivem noutro país. São emigrantes. Uns por escolha, outros nem tanto. Uns despedem-se agora, outros esperam apenas que cheguem as férias de verão para voltar a estar com aqueles que mais amam.
“Costumamos ir uma a duas vezes por ano, ultimamente temos ido só no verão.”. Ana Sofia Santos, de 38 anos e Edgar Andrade, de 40 anos, não vieram a Portugal nestas festividades do inverno. Fazem parte dos inúmeros emigrantes que apenas vão a “casa” no verão. Têm dois filhos e vivem numa união de facto, em Fribourg, na Suíça. Ana Santos sempre esteve acostumada a viver com grande saudade, pois é filha de emigrantes, contrariamente a Edgar Andrade, que com apenas 22 anos, decidiu deixar tudo para trás e procurar uma melhor qualidade de vida financeira, na França.
“Em 2011 emigrei para a Suíça”, afirma Ana Sofia. “Não fui à procura de nada”, pediu licença sem vencimento de um ano do centro de dia onde trabalhava, fez as malas e partiu. “Eu tinha uma tia que estava em processo de divórcio e vim para a Suíça para ajudá-la com as filhas”, em contrapartida ao cônjugue, Ana não emigrou à procura de estabilidade. Confessou ter na altura “trabalho estável em Portugal, poucas despesas porque vivia em casa dos meus pais, não tinha grandes ambições.”. Com Edgar o cenário foi diferente. Em abril de 2006, a convite de uns primos para ajudar nas obras da casa deles, emigrou. Passou dois anos por terras gaulesas e em 2008 recebeu a chamada de um tio e o emigrante rumou para a Suíça. Sempre à procura de uma melhor vida e de mais recursos financeiros.
As dificuldades são muitas. A língua desconhecida, o clima- “temos de nos sujeitar a trabalhos muito penosos”, as saudades, não estar presentes nos momentos importantes com a família, e só dar valor a coisas simples da vida depois de estar longe, como o “cheiro do mar, a comida e as festas na aldeia”, aponta o casal. É privar-se de muitos momentos de lazer como idas ao restaurante, ao café e saídas constantes, porque “se queremos ter uma vida boa temos de fazer muitos sacrifícios.”. Os sentimentos também são imensos quando se decide emigrar. O medo pelo desconhecido e tristeza por não saber quando se volta a ver a família e de “deixar tudo para trás”.
Quando chega o verão, é “um misto de emoções”. O reencontro está perto. Para Ana Santos, Edgar e os dois filhos paira no ar uma alegria e uma ansiedade. “Temos na cabeça tudo planeado: quem queremos visitar, o que queremos fazer, parece que queremos fazer mil e uma coisas.”, refere ,com entusiasmo, a emigrante.
O regresso definitivo não está nos planos. As despesas continuam a ser muitas. Ana e Edgar compraram recentemente uma casa, os filhos são pequenos e isso acarreta “todo um custo”. Ana Sofia, natural de Oliveira de Azeméis e o seu cônjugue de Fornos de Algodres conheceram-se, namoraram e constituíram família. São hoje, emigrantes, que vivem entre os Alpes suíços e a saudade de um país, que será sempre “casa”.
Ana e Edgar
Ana e Edgar
Ana Sofia no aeroporto no dia que emigrou
Ana Sofia no aeroporto no dia que emigrou
Edgar na França
Edgar na França
Ana no trabalho com o filho mais velho
Ana no trabalho com o filho mais velho
Edgar no trabalho
Edgar no trabalho
Ana e Edgar na praia, em Portugal
Ana e Edgar na praia, em Portugal
Ana, Edgar e filhos na praia, em Portugal
Ana, Edgar e filhos na praia, em Portugal
Ana, Edgar e filhos na neve, na Suíça
Ana, Edgar e filhos na neve, na Suíça
"Ser emigrante é ter saudade"
Apesar das melhores condições de vida, há quem ainda pense todos os dias em voltar para casa e deixar para trás tudo o que têm vindo a construir. “Há dias em que me questiono se a saudade vale a pena” diz, pensativa, Inês Vaz de 30 anos. Com lágrimas nos olhos, não receia em dizer que sonha com o que dia que voltará a Portugal. A adaptação a um novo país traz consigo desafios únicos. Inês afirma que “a saudade é amarga, um aperto constante no coração que tenho de saber lidar.” “Afinal das contas, a minha vida é esta, é aqui”, continua.
Pais de Inês, Inês e marido
Pais de Inês, Inês e marido
É casada e tem uma filha de cinco anos. Emigrou há mais de uma década, com apenas 18 anos para Paris e recentemente mudou o rumo para a cidade de Fribourg, na Suíça. O que a fez sair do país foi, na altura, o namorado e atual marido, que tinha emigrado. Entre idas e vindas, começou a gostar cada vez mais da capital francesa e foi com uma proposta de trabalho que decidiu manter-se por lá. No começo, conseguia visitar a família, praticamente, de dois em dois meses. Após ser mãe, foi uma realidade que não se adequou. “Eu conseguia ir a Portugal sempre que queria, às vezes via a minha família todos os meses. Agora, com a escola da minha filha é mais complicado”, explica.
Filha de Inês, de 5 anos
Filha de Inês, de 5 anos
Os sogros vivem na Suíça. “Estávamos sozinhos com uma filha pequena, sem apoio familiar nenhum e, por isso, decidimos tentar a vida aqui na Suíça". Apesar dos salários serem consideravelmente mais altos, quando comparados a Portugal e até a França, Inês afirma que o custo de vida é alto e “mesmo ganhando 4 ou 5 mil francos, o normal daqui, fazemos muito descontos, as rendas são caras e os preços de supermercados e restaurantes nem se fala”. Lembra-se de quando a diferença entre os países era imensa. Para o casal, fazer compras em Portugal era barato. “Agora está tudo praticamente igual, os preços são parecidos. É um absurdo”.
A integração numa nova cultura pode ser desafiadora. Inês explica que, na França, gostavam muito dos portugueses. “São sempre vistos como pessoas honestas, trabalhadoras e simples”. Apesar dos estereótipos nunca se sentiu inferior ou discriminada, pelo menos em Paris. “Aqui, sinto um bocadinho de estranheza por parte dos suíços, principalmente quando digo que sou portuguesa”, confessa.
Inês afirma ser uma mulher forte. Aliás, é essa a palavra que usa para descrever o que é ser emigrante. “Claro que há exceções, mas quando se é próximo da família, há alturas que custam muito, o Natal foi uma delas”, desabafa. O regresso a Portugal não está, de todo, fora dos planos, mas, por enquanto, o melhor parece ser mesmo ficar na Suíça.
Avô de Inês
Avô de Inês
Mãe de Inês
Mãe de Inês
Inês e Luís (marido)
Inês e Luís (marido)
Filha de Inês
Filha de Inês
Mãe de Inês
Mãe de Inês
"O que mais me custa a mim é estar afastada"
"Portugal é um país de emigrantes"
O Observatório da Emigração estima que em 2022 terão saído do país 70 mil portugueses, mais cinco mil do que em 2021. Portugal é hoje o país da União Europeia com mais emigrantes em proporção da população residente. O número de emigrantes portugueses supera os dois milhões, o que significa que mais de 20% dos portugueses vive fora do país em que nasceu. Os dados constam do Alto Comissariado para as Migrações.
Emigrantes portugueses ao longo dos anos https://observatorioemigracao.pt/np4/4447.html
Emigrantes portugueses ao longo dos anos https://observatorioemigracao.pt/np4/4447.html
A França e Suíça continuam a ser dois dos principais destinos da emigração portuguesa, concentrando, respetivamente, cerca de 580 mil e 220 mil cidadãos portugueses. Estes países têm sido preferidos pela proximidade geográfica, e pelas redes de apoio já estabelecidas por comunidades de emigrantes anteriores. Além disso, a forte procura por mão de obra na construção civil, indústria e serviços, aliada a salários mais atrativos e melhores condições de trabalho, explica a escolha de muitos portugueses. França destaca-se ainda pelo papel histórico na emigração lusa, particularmente nas décadas de 1960 e 1970, enquanto a Suíça tem atraído cada vez mais jovens qualificados, como enfermeiros e engenheiros, em busca de estabilidade económica e melhores perspetivas de carreira.
Destinos mais escolhidos pelos emigrantes portugueses https://observatorioemigracao.pt/np4/4447.html
Destinos mais escolhidos pelos emigrantes portugueses https://observatorioemigracao.pt/np4/4447.html
As razões para a emigração portuguesa continuam a estar ligadas a fatores económicos e sociais. Apesar das melhorias registadas na economia nacional nos últimos anos, a taxa de desemprego jovem em Portugal permanece elevada, situando-se nos 19,4% em 2023, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE). Além disso, o salário médio em Portugal, cerca de 1.100 euros brutos por mês, é significativamente inferior ao de outros países europeus, como a França ou a Suíça, onde os rendimentos médios podem ser até três vezes superiores. Muitos emigrantes apontam ainda a precariedade dos contratos de trabalho e a dificuldade em progredir nas suas carreiras como razões para procurarem melhores oportunidades no estrangeiro, sobretudo em áreas onde o mercado português não consegue absorver todos os profissionais qualificados, como a engenharia, a saúde e a tecnologia.
"É muito difícil lidar com a distância"
A base é a saudade. Como se gere?
Os portugueses que emigram em busca de melhores condições de vida enfrentam, muitas vezes, um fardo emocional que vai além da distância física. Não só a saudade é posta em causa e debatida, mas a discriminação sentida pelos emigrantes, no país onde vivem.
Joana Castro é psicóloga clínica em Oliveira de Azeméis. Afirma que, tanto familiares como emigrantes, procuram ajuda para tentar lidar com esta mistura de sentimentos. “É muito difícil lidar com a distância”, afirma. A presença, e a distância física, são os principais fatores que abalam estas pessoas. “A saudade é um sentimento bom, no sentido em que gostamos da pessoa. Por outro lado, também é difícil de gerir”, continua.
Estes desafios emocionais levam um número crescente de emigrantes a recorrer a terapias e programas de apoio. "É fundamental que sejam criados mecanismos que facilitem a integração e a manutenção dos laços com as suas raízes, sejam grupos comunitários, redes de apoio online ou acesso a profissionais de saúde mental familiarizados com a experiência da emigração", sublinha a psicóloga.
De que forma é a saúde mental afetada?
Ser emigrante: “foi triste, uma dor…o nosso coração está sempre aqui.”
Após uma vida de sacrifícios e saudade chega o momento de voltar para "casa". Vários são os emigrantes que atingem a idade da reforma e decidem passar o resto da vida junto dos que mais amam no seu país de origem.
1 de outubro de 2023, o dia em que António e a família deixaram de sentir saudades.
“Os dias eram como uma balança, uns custavam mais, outros já se estava com mais ânimo e assim se passavam os dias, os meses…”. António Sousa tem 61 anos e é casado com Olinda Lopes, de 58 anos. Ambos foram emigrantes. Atualmente, vivem onde cresceram em Sandim, Vila Nova de Gaia. Nem sempre foi assim. Durante muitos anos, Olinda juntamente com a mãe e as filhas ficaram sozinhas.
Em 1988, António incentivado pelo irmão, foi para a Suíça à procura de melhor qualidade de vida, “para ganhar mais algum dinheiro e para fazer uma casa.” Na época já namorava com a esposa, e enquanto trabalhava para um futuro melhor a esposa “tratava de tudo para casarmos…e em janeiro de 1989 celebrámos o nosso matrimónio”. O companheiro, após o casamento, regressou novamente à Suíça e para Olinda Lopes foi muito difícil, “fica uma saudade”, confessa. Para António foi também muito doloroso, “é abandonar a família, deixar mesmo tudo para trás”. O contacto e a comunicação eram muito difíceis, na época. Horas e horas de espera em filas de cabines telefónicas. Os telefones eram antigos e muitas vezes deixavam de funcionar. No dia seguinte, tentava-se novamente, senão a única solução era enviar cartas.
António Sousa trabalhava na construção civil desde que emigrara, mas não “andava feliz.” Começou a deixar de fazer sentido estar longe da família e regressou em 1990. “Correu bem”, confessa o emigrante. Tirou a carta de pesados, tornou-se motorista e as suas filhas nasceram. E, em 2006, o “dinheiro voltou a ser apertado”. O país intitulado por “casa” estava a atravessar uma crise. O desapego e a saudade voltaram a fazer-se sentir. “Foi mais fácil e não foi, já tinha as minhas duas filhas, custa muito deixar a família para trás”, desabafa o português. A idade já era mais avançada e conseguir um emprego estável foi árduo. A vontade de regressar passou muitas vezes pela cabeça de António. Não viu as filhas cresceram, só “de meio em meio ano” é que vinha a Portugal matar as saudades.
Com as filhas mais crescidas e a estabilidade financeira mais instável, Olinda emigrou. As duas raparigas ficaram com a avó. “Tu vais, mas não vais voltar mais”, eram as palavras da mãe da emigrante. Entre idas e voltas “foi estando sempre tudo bem”, conta Olinda.
Para além das dificuldades de abandonar o país, como o desapego e a saudade. Ser emigrante teve grandes entraves, a língua desconhecida é o maior deles para o casal: “eu não sabia falar…. muitas vezes queremos desenvolver uma conversa e até mesmo falar com os patrões e a comunicação é difícil.”. Inicialmente, os empregos do casal emigrante eram maioritariamente com portugueses, o que dificulta a aprendizagem da língua francesa. Olinda Lopes fazia limpezas em casas de madames e através das conversas com elas conseguia aprender o idioma. O que não entendia colocava no tradutor: “aos poucos consegui aprender a falar. “ . Para as filhas, os sentimentos foram também de grande tristeza e saudade. “Ficaram sem o pai e a sem a mãe”, confessa Olinda.
Passado quatro anos desde que emigrara, Olinda teve de regressar a Portugal. A avó das filhas tinha vários problemas de saúde e necessitava de apoio. O coração da emigrante ficou novamente dividido entre o amor em Portugal e a saudade na Suíça, mas nunca deixou de ir várias vezes ter com o marido. “Tentava conciliar a minha vida para ir lá de mês e meio a mês e meio e deixava alguém a supervisionar a minha mãe e as minhas filhas.”, refere Olinda Lopes.
É após 20 anos de procura de uma melhor qualidade de vida para a família que António, com a pré-reforma da Suíça, regressa a “casa”. Agora com a família toda reunida, novamente, recordam a jornada que fizeram e que foi marcada por um misto de saudades e sacrifício. O desejo de voltar bateu muitas vezes no coração de António, e para Olinda, a tristeza estampada no rosto do esposo nunca passou de despercebida.
Para ambos ser emigrante: “foi triste, uma dor…o nosso coração está sempre aqui.”
Olinda Lopes
Olinda Lopes
António Sousa
António Sousa
António e Olinda na Suíça
António e Olinda na Suíça
António na neve
António na neve
Casal a andar de bicicleta na Suíça
Casal a andar de bicicleta na Suíça
António no seu apartamento da Suíça
António no seu apartamento da Suíça
Uma reportagem da autoria de Camila Valente e Manuel Patela
Especial Agradecimento à Ana Sofia Santos, Edgar Andrade, Inês Vaz, Olinda Lopes e António Sousa
Reportagem realizada no âmbito da Unidade Curricular Atelier Especializado IV: Jornalismo e Multimédia
Docente: Maria João Cunha
1º Semestre do 3º ano da Licenciatura em Ciências da Comunicação
