Enveredar no jornalismo:
quem informa por gosto, não cansa?
Atravessam-se tempos complicados no jornalismo em Portugal. Precariedade, sobrecarga laboral, insegurança contratual e baixos salários pautam a experiência profissional dos jornalistas no país. Sentem cada vez mais dificuldades em garantir um rendimento que lhes permita ter uma vida digna.
As dificuldades atingem a grande maioria dos 5.287 mil profissionais do setor, com o acesso à profissão a enfrentar ainda mais entraves. Enquanto completam a sua formação académica, os jovens familiarizam-se com as limitações e dificuldades inerentes ao exercício da profissão.
Muitos são obrigados a desistir cedo do sonho, seja pela insustentabilidade financeira que passa a demarcar as suas vidas, ou pela elevada pressão emocional consequente da carga de trabalho.
As consequências são visíveis. Quase metade dos profissionais do setor níveis elevados de esgotamento. Dois em cada dez sentem-no a um nível alarmante. Os dados são avançados pelo Sindicato dos Jornalistas.
Ainda assim, todos os anos entra uma nova fornada de recém-formados, prontos para cobrir a atualidade nacional. Entre março de 2023 e fevereiro de 2024, 188 Títulos Provisórios foram promovidos a Carteiras Profissionais.
No total, há 536 jornalistas com menos de 30 anos a trabalhar em Portugal, segundo a Comissão da Carteira Profissional de Jornalista (CCPJ).
A perceção dos jovens varia pela experiência, mas as dificuldades são sentidas por todos. Uns mais, outros menos, mas os jornalistas que exercem há pouco tempo exigem uma mudança drástica em prol do bom funcionamento da cobertura mediática nacional. Afinal, "só assim se torna possível viver em democracia."
Rui Carvalho Araújo
Rui chegou às 14:30 para iniciar o turno da tarde na TSF. Juntou-se a um colega nos estúdios do Porto, em “ponte” com mais três em Lisboa.
O contacto entre as redações é permanente, seja pela videochamada que antecede o arranque do trabalho, ou pelos grupos de Whatsapp. “É interessante trabalhar com pessoas à distância, muitas vezes com quem nunca estive presencialmente. A barreira de 300km parece nem existir.”
Com o trabalho já orientado, Rui senta-se para conversar sobre o seu percurso até à data – e por aí adiante.
Distingue a sua entrada no setor pelo misto entre “correr atrás” e saber estar “no lugar certo, à hora certa”. O “gosto” pelo jornalismo surge bem antes da universidade. Ouvia rádio há muito tempo e, como tal, quis cedo chegar às pessoas pelo microfone. Frequentava o 12º ano e decidiu “atirar o barro à parede”, candidatando-se à Academia RUM. “Pensei, quem sabe se cola?”
Juntou-se a 20 pessoas, todas mais velhas e já formadas, para uma reunião de recrutamento nos estúdios da Rádio Universitária do Minho (RUM). Recorda o acontecimento como se o tivesse vivenciado ontem, com um olhar pouco esperançoso, mas feliz por atribuir um rosto às vozes que ouve desde sempre. “Nunca tive muitas esperanças, pensei que acabava ali.”
Mal Rui sabia que, dois meses depois, o telefone iria tocar: “contactaram-me para dizer que gostaram de me ouvir.
Foi aí que tudo começou.” Continua na RUM até hoje, agora como colaborador, protagonizando o mesmo programa musical com que se estreou na rádio, Corrente Sonora. Pelo meio foi fazendo coberturas a festivais de música.
A licenciatura serviu para dar certezas àquilo que lhe parecia o percurso ideal. Entrou para o ComUM, como redator de Cultura. Passou para editor da secção e, mais tarde, para vice-diretor do órgão.
Tornou-se mestre Universidade do Minho, tendo escolhido a TSF para estagiar. Primeiro, numa parceria curricular, em plena pandemia. Revela que “foi esquisito, mas presencial, o que foi bom”. Continuou no órgão para fazer um estágio profissional até, finalmente, assinar contrato de trabalho. “Tive um grande choque com o mercado de trabalho. Quando é a doer, percebemos que as coisas são diferentes.”
“Aprendi muito
nos primeiros tempos na TSF.
E continuo a aprender, na verdade.”
A crise do Global Media Group fez com que as portas da TSF fechassem para Rui – pelo menos por uns tempos. Esteve um mês desempregado até ser recrutado pela Rádio Nova, um órgão do Porto com foco musical.
Não durou 60 dias, dado que a nova administração da TSF contactou Rui para planear o regresso à emissão nacional. Voltou em abril de 2024 e permanece até hoje.
“Faço um pouco de tudo, desde Justiça a Desporto, leio noticiários, faço programas de comentário político.” Curiosamente, quase não trabalha com Cultura, mesmo tendo sido a catapulta que tudo principiou.
Reparte o seu esforço entre uma audiência mais local e um público nacional. Dispõe de mais meios na rádio nacional, mas não é por isso que destaca a preponderância que órgão local tem para a vida das pessoas, no caso, as de Braga.
“Faz toda a diferença ter um meio que se foque naquilo que se passa localmente. Neste momento, moro no Porto e sinto que a cidade perde muito por não ter um órgão local forte.”
Para Rui, o esforço despendido e o sentido de responsabilidade aplicam-se de igual forma sempre que faz jornalismo. Ainda assim, o vasto público que acompanha a TSF fá-lo diferenciar o órgão pela exigência, que marca o seu trabalho.
“Temos mesmo muitos ouvintes, não tinha noção disso. Estamos a informá-los em matérias que são muito importantes para eles e para o país.”
Com cada vez menos recursos para a produção, Rui revela ser complicado informar o país a toda a hora. Aponta que o segredo para que tudo funcione está na paixão que os trabalhadores têm pelo ofício. “As pessoas sentem muito a TSF, dão o litro por gosto ao seu trabalho e fazem coisas extraordinárias.”
Maria Carvalho
Aproxima-se a hora de almoço. Maria abre a porta da redação da RUM, cheia de gente, onde todos dispensam uns segundos para as naturais saudações. Não há tempo para mais. Há trabalho para adiantar antes da pausa diária.
Maria encaminha-nos para um dos estúdios de gravação. Encontra-se vago por ser reservado a gravações com debates e entrevistas. Por isso, revela-se ser o único local parado na redação – pela janela, vemos um outro estúdio onde a emissão segue em direto.
A relação jornalismo-Maria não começou com um amor à primeira vista. No secundário, frequentou o curso de Ciências e Tecnologias, ainda indecisa em relação ao seu futuro. Uma cabeça confusa acabou por encontrar nos seus hobbies um futuro na comunicação.
“Apercebi-me que passava muito dos meus tempos livres a tirar fotografias e a escrever. Quando procurei cursos, vi as disciplinas de Ciências de Comunicação e fez-se um clique.”
A Universidade do Minho não foi a primeira opção. Em tom de brincadeira, Maria fala da noite onde descobriu a sua colocação. “Não entrei no Porto por uma décima, foi uma noite muito divertida de choro.”
A chegada a Braga tirou as dúvidas. Desistiu da segunda fase de candidaturas e continuou em solo minhoto até ao mestrado.
No ensino superior, escolheu a especialização em jornalismo, com uma paixão pela área que se aliou a um, agora, aprimorado gosto por multimédia.
O mestrado deu continuidade às suas aprendizagens no ramo da informação. Chegado o momento da escolha do estágio, principal razão que fez Maria continuar a sua formação académica, surgiram alguns contratempos. Agora, olhando para trás, Maria vê-los como determinantes para chegar onde se encontra.
Após o estágio curricular, esteve seis meses em busca de um órgão onde pudesse prosseguir uma carreira profissional. “Estava desde dezembro de 2023 à procura de alguma coisa. Não foi fácil, foram meses complicados. Pensei muitas vezes em desistir.”
A espera terminou em maio do ano passado. Maria aceitou uma proposta para estágio profissional na RUM, a terminar em março.
Não sabe o que lhe reserva o futuro, mas tem dúvidas que passará pela televisão. “Gosto muito de tudo o resto. Achava que não ia gostar de rádio, mas gosto muito.”
Espera ter um trabalho que traga motivação, que permita equilibrar a vida pessoal e “que dê um salário aceitável.” Sorri e caracteriza as suas expectativas como “mesmo baixas.”
Ainda assim, alveja por mais, revelando desejar trabalhar num meio nacional. Em sua casa, o namorado de oito anos sabe que, um dia, poderá ter de acompanhar Maria para Lisboa. Para a própria, “não seria o ideal”, mas garante que, se as devidas condições estiverem asseguradas, estará pronta para aceitar.
Terminada a conversa, pinta-se um cenário completamente diferente na redação. Restam apenas três pessoas, todas focadas no trabalho. Poupam mais uns tantos segundos para as despedidas, mas voltam a direcionar a atenção para o ecrã. Afinal, Braga não se informa sozinha.
Lara Duarte
Lara entra às 10:00 na Baruc para começar o turno. Às 19:00 termina mais um dia de trabalho. Conta-os um a um. E já lá vão dois anos de contagem. Os dias na loja passam, contrariamente à vontade de Lara em arranjar emprego na sua área.
Sempre soube que o seu caminho seria traçado pela comunicação. Tem agora 23 anos, mas desde pequena quis ser apresentadora de televisão. Na licenciatura, percebeu que não se sentia confortável com a pressão e o improviso.
Não leva a opinião dos outros como um roteiro a seguir, mas admite que se deixou levar na escolha da especialização. “Quando dizes que estás em ciências da comunicação dizem logo que vais ser jornalista. Eu gostava muito de escrever e tinha amigos que iam para jornalismo. Deixei-me influenciar."
Durante o percurso na Universidade do Minho escreveu para o ComUM, mas desiludiu-se ao fazer artigos para a secção de sociedade. “É tudo muito de factos. Eu acho muito aborrecido, assim como achei a especialização.”
Sempre gostou muito de dar a sua opinião e foi na secção de crítica que encontrou o seu lugar. Era trabalhadora-estudante com emprego num cinema, o que a incentivava ainda mais a escrever sobre as últimas novidades da sétima arte.
Ao acabar a licenciatura sentiu-se perdida. Não sabia exatamente o que estudar, mas tinha a certeza de que queria fazê-lo fora do país. Não conseguiu.
Candidatou-se três vezes para a Universidade Nova de Lisboa, no mestrado em Cinema, e das três vezes não entrou por duas décimas. Decidiu tentar o Instituto Politécnico do Cávado e do Ave (IPCA), no mestrado em Ilustração e Animação, mas também não correu como esperava.
Desistiu de fazer mestrado e começou a trabalhar, mas a comunicação nunca deixou de ser a sua prioridade. “Relaxar é uma palavra que não existe para mim. Não vou descansar até trabalhar no que gosto.”
Está há dois anos a enviar currículos para a área do Marketing Digital e do Design. Ao fazê-lo, repensa sobre a sua especialização. “Em dois anos, só encontrei uma vaga para um jornalista. Para Marketing Digital vê-se todos os dias.”
Entre muitos “nãos” e currículos sem resposta, Lara fez uma formação em gestão de redes sociais pelo Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP). No fim da licenciatura, criou uma página do Instagram onde partilha as suas ilustrações digitais (@_ldilustracoes).
Juntamente com duas amigas, desenvolveu ainda um projeto chamado “A Romaria” (@aromariacoletivo), com o objetivo de dar voz a artistas do Minho que não tenham reconhecimento. Para além disso, é um espaço onde o gosto pelo cinema é aprimorado com várias dicas mensais.
“Se fosse hoje, voltava a escolher a especialização em jornalismo. Deu-me muitas bases.”
A decisão que fez no segundo ano do curso serviu para perceber aquilo que “não era o trabalho dos sonhos.” Apesar disso, não descarta uma oportunidade que surja na área. “Posso até vir a gostar mais na prática do que na licenciatura.”
Para já, as suas perspetivas para o futuro passam pela gestão das redes sociais de uma loja de CD’s ou relacionada a cinema. Gostava de juntar os gostos pessoais com a área de formação, mas confessa que é só mesmo um “para já”.
“Mesmo que o faça agora, nada me garante que daqui a uns anos continue a querer trabalhar na comunicação. Posso acabar por sentir que estagnei. Eu não posso sentir isso.”
O elemento-chave
para o arranque ideal
Entre Rui, Maria e Lara, verificam-se três pontos que representam o vasto espetro de caminhos que se dão na entrada do mundo do jornalismo. As experiências individuais diferem, mas todos apontam o “esforço incansável” como o principal potenciador.
O “esforço” importa, mas não é tudo. Todos convergem ao referir que a “sorte do acaso” é indispensável para ingressar na área.
A realidade afortunada daqueles que conhece fugiu a Lara. Ainda assim, sabe de quem “não recebe respostas nenhumas, nem para ouvir um não”. Inclui-se neste grupo, revelando ser “frustrante”.
Mantém-se resiliente e não desiste de tentar. Continua a procurar oportunidades na comunicação, seja em vagas que encontra online ou nas relações que estabelece no seu dia-a-dia.
Do lado oposto do espetro encontra-se Rui. Aborda a questão com realismo, admitindo que “sem sorte, as coisas não acontecem.”
Ainda assim, destaca toda a experiência adquirida antes da entrada no mercado de trabalho como “a grande receita” para o sucesso. “Experimentei muito, gravei muito, escrevi muito, errei muito, discuti muito e, no final de contas, aprendi muito.”
Maria apresenta-se como um certo “meio termo”. Viu-lhe serem recusadas várias propostas, renunciou outras tantas, mas acabou por encontrar na RUM o local ideal para se lançar profissionalmente.
Apela a uma mudança, defendendo ser necessário tirar o poder aos órgãos e saber resistir a propostas precárias. Chegou a ser convidada a exercer em Lisboa, por 800€ mensais, mas recusa revelar para onde. Sabe que a vaga foi preenchida por outra pessoa. “Só espero que tenha sido por alguém de Lisboa.”
Maria aponta a “paixão pela profissão” como a principal força motriz para prevalecer perante todos os entraves à entrada na profissão.
“Somos, de certa forma, masoquistas. No sentido de querer fazer isto sem receber bem, tendo em conta a carga de trabalho e o stress associados. É preciso muito gosto.”
Luís António Santos admite a importância da paixão pelo jornalismo para se continuar na profissão. Contudo, diz não ser o aspeto mais determinante. As "barreiras colocadas à entrada" limitam o grau de representatividade das redações, sendo impostas pelo contexto socioeconómico do indivíduo.
Dificuldades que mudam
(ou não) perceções
Uma realidade precária que afeta diferentes profissionais de maneiras distintas. Os casos em análise comprovam-no.
Maria e Rui cumpriram o objetivo de trabalhar como jornalistas e estão satisfeitos com a situação a que chegaram. Contudo, a estrada teve vários buracos que os fizeram repensar se o jornalismo seria o caminho certo.
Maria admite que, nos seis meses em que procurou emprego na área, equacionar seguir outro caminho era o “pão nosso de cada dia”. Até chegar à RUM, mentalizou-se que viver na capital poderia colmatar os obstáculos à entrada do mercado de trabalho.
“Não tinha possibilidades financeiras. Ainda enviei currículos na esperança de poder trabalhar em remoto, mas nunca conseguia.”
Rui recorda os tempos em que esteve desempregado. Fala de um período em que “se equaciona tudo e mais alguma coisa”.
Chegou a considerar trabalhar noutras áreas da comunicação, mas a rádio prevaleceu como predileta e incontestável.
Lara seguiu o caminho contrário. Perspetiva o seu futuro e confessa preferir priorizar um caminho seguro com espaço para crescimento. A experiência fez com que o jornalismo deixasse de ser prioridade, mas deseja permanecer na área da comunicação.
Fazer tanto com tão pouco
Os recursos são escassos, mesmo nos meios nacionais. Informar o país a toda a hora tem-se tornado cada vez mais exigente para as redações.
Trate-se de uma realidade que Rui Araújo bem conhece. Revela que, diariamente, é necessário fazer escolhas nas coberturas que são feitas. Lamenta, por isso, a passagem das reportagens para segundo plano. “Infelizmente, é o elo mais fraco.”
São, também, aproveitados materiais disponibilizados pela Agência Lusa. “É um órgão que vai a muitos sítios, onde não podemos ir, por isso aproveitamos muitos áudios que gravam.”
Com cada vez menos recursos para a produção, Rui revela ser complicado informar o país a toda a hora. Aponta que o segredo para que tudo funcione está na paixão que os trabalhadores têm pelo ofício. “As pessoas sentem muito a TSF, dão o litro por gosto ao seu trabalho e fazem coisas extraordinárias.”
A troca de turnos dá-se como “uma máquina muito bem oleada”. Rui vai mais longe e descreve a dinâmica da redação como a de “uma fábrica de notícias”.
Revela que a ideia é construir uma dinâmica que passe despercebida para os ouvintes. Como já o fazem há tantos anos, sai naturalmente.
“As pessoas sabem que há problemas e apesar disso querem. É um ato de coragem.”
Luís António Santos
Atualmente, assistimos a uma realidade em que o jornalismo pode tornar-se insustentável a nível financeiro e mental. Maria ouviu vários relatos ao longo do seu percurso. Dos tantos, “nenhum era incrível.” Traz à conversa as histórias de burnouts e horas extra não pagas, assim como as folgas.
“Ninguém fica rico com o jornalismo e não é um trabalho leve para a cabeça, mas às vezes conseguimos fazer a diferença na vida de alguém. A sensação de orgulho e satisfação que fica no fim de um trabalho desses é uma das coisas que obriga a continuar.” Tem exemplos próprios. Recorda o seu projeto final de licenciatura sobre os apoios sociais do Estado e sensação de ter ajudado os outros através da informação.
Luís Santos reconhece já não ser preciso “convencer as pessoas que estudam jornalismo a seguir a profissão. Fica quem acredita.” Ainda assim, rejeita que o futuro da área vá lá "só com profissões de fé". “É preciso ver o jornalismo como um serviço público.”
Maria acredita que a vontade de fazer jornalismo é uma questão pessoal em cada um. Diz não saber o porquê de continuar, mas entende que é sobre “sentir o dever de informar e querer que as pessoas tomem decisões informadas.” O professor doutorado vê esta posição como “um ato de coragem.” “As pessoas sabem que há problemas e apesar disso querem.”
A profissão
é nobre, mas
o bem-estar é ouro
A entrada no jornalismo nem sempre é fácil. Às vezes rege-se pela sorte, às vezes pelo esforço. Outras vezes os ingredientes misturam-se. No entanto, a obrigação de desistir em algum momento da carreira chega a muitos. Rui avalia a profissão como “muito precária, mal paga, com alguns jornalistas a receber à peça” e sabe que, para alguns, não restam opções senão contrariar o sonho.
Nunca foi o seu caso. Rui relata experiências de ex-colegas que saíram da profissão e enveredaram para outras áreas. Refere que muitos deles são igualmente (ou até mais) felizes por terem abandonado o jornalismo.
Compreende o sentimento dos colegas, pois sabe do peso do stress associado à profissão. Completa o testemunho em tom de brincadeira: “por vezes, dá-nos uma vontade de mandar tudo para outro sítio. Mas é só uma loucura que dura segundos, depois descemos à terra.”
“Até podia deixar de fazer jornalismo, mas não sei se conseguia deixar a rádio.” Torna-se difícil para Rui imaginar-se a fazer outra coisa fora da comunicação. O Rui não sabe “fazer outra coisa.”
O especialista Luís Santos reconhece que, hoje em dia, “temos uma profissão que é mais precária do que há 15 anos.” Num espectro de idades, o jornalismo é, agora, “uma mistura de duas gerações”: os recém-formados e os “da velha guarda”. O “fosso etário” que existe deve-se às necessidades da vida pessoal que requerem “uma qualidade de vida melhor.”
Maria conhece muitas pessoas que olham para o jornalismo como “a profissão nobre” e “uma missão” que cumpririam “quase até falecer, estivesse como estivesse.” Ela não pensa assim. Sabe que ter de abdicar da informação pode vir a ser uma realidade, mas isso não a atormenta.
O gosto pela multimédia e pelas redes sociais faz com que não coloque o jornalismo como a única opção de emprego na comunicação. Além disso, tenta “sempre olhar para a parte pessoal”. Se um dia o jornalismo lhe tirar o bem-estar, não tem medo de mudar de rumo.
UM legado de excelência
Como diretor dos mestrados de ciências da comunicação, Luís Santos reconhece que os estágios “correm tendencialmente muito bem”. Por norma, “metade dos alunos” de mestrado “não são de origem” da instituição, mas afirma “sem dúvidas” que, se fossem, a qualidade seria ainda melhor.
Acredita que “ninguém é completo” e por isso existem vantagem em vir de outras academias para a minhota. A acrescentar aos estágios na licenciatura mencionados pelo especialista, Lara aponta a dinâmica mais prática de outros cursos de comunicação. “O nosso curso tem uma pequena falha que é ser, ainda, um bocado teórico.”
Cada aluno traça o seu próprio caminho “na licenciatura e fora dela”, mas Luís Santos confirma que, apesar de não determinante, “a imagem externa da Universidade do Minho como instituição de ensino que forma bem é boa.”
Maria partilha da mesma opinião. Numa experiência de redação no Congresso de Jornalismo, teve oportunidade de trabalhar com alunos de comunicação de todo o país. “A qualidade do Minho sobressai. Eu vi alunos do terceiro ano do curso que não sabiam escrever uma notícia nem mexer no Audition.”
Maria sentiu que o mestrado na academia minhota “só valeu mesmo a pena pelo estágio”, uma vez que o vê como “repetição” da licenciatura. Admite que, para os alunos de fora, é “um mestrado excelente.” No primeiro grau de formação aprendeu “de tudo um pouco” e as “soft skills” que levou consigo para o mercado de trabalho foram essenciais.
Lara menciona-as nos currículos que envia diariamente. Já avançou a fazes seguintes nas entrevistas de emprego por ter conhecimentos prévios nos programas da Abode. “Nas condições para as vagas tem algo que indica que isso vai diferenciar na escolha. Fazer a licenciatura na UM deu-me bases que outras universidades não dariam.”
A visão de Rui converge com as das colegas. Confessa ter gostado muito de ser aluno do Minho. As maiores aprendizagem que leva para a sua vida profissional “são as lições que os professores deram, que vão muito além da teoria.” No mercado de trabalho, Rui confrontou-se com muito daquilo que ouviu durante a sua formação.
O percurso académico varia, mas as dificuldades afetam praticamente todos os recém-chegados à profissão. De muita carga horária, só não cansa quem informa por gosto.

