"Só me vai cair a ficha no momento do tiro"

O CAMINHO ATÉ AO IRONMAN

"Só me vai cair a ficha no momento do tiro"

O CAMINHO ATÉ AO IRONMAN

Numa rotina onde as 24 horas parecem curtas para conciliar o trabalho, o estágio e a universidade, cada treino é um passo em direção ao limite. Aos 21 anos, Tiago Pereira prepara-se para enfrentar um dos maiores desafios do triatlo mundial, com o olhar fixo na meta do Ironman.

O BICHINHO PELO DESPORTO

Entre caminhos de terra e tardes que pareciam não ter fim, Tiago passou a infância na aldeia, ao ar livre. Sem se aperceber, foi nas brincadeiras com os primos e nos jogos improvisados no cenário rural de Ponte da Barca que começou a ganhar resistência, sem nunca lhe chamar treino. O seu corpo aprendeu a aguentar o esforço físico antes mesmo de ele perceber que isso podia ser uma vantagem. Não havia campos sintéticos nem treinos marcados, mas havia espaço para correr. 

Na escola, o Corta-Mato era uma atividade que, todos os anos, aguardava. Sem qualquer preparação específica ou equipamento especial, o jovem aparecia, alcançando quase sempre o pódio. Foi nesses momentos que começou a perceber que tinha potencial. A corrida deixava, então, de ser apenas um passatempo, para se tornar um espaço onde se sentia confortável, confiante e capaz.

Apesar dessa paixão, Tiago nunca pode integrar um desporto organizado não por falta de vontade, mas por falta de condições financeiras. Ainda assim, sempre que surgia uma oportunidade, fosse na escola, com amigos, ou numa prova local, agarrava-a. Era a forma que encontrava de continuar a fazer o que gostava.

O ponto de viragem aconteceu cedo. Aos 14 anos, decidiu participar num trail de 24 quilómetros, com cerca de 1200 metros de desnível. Era uma distância exigente para qualquer atleta, ainda mais para alguém tão jovem e sem treino determinado. Entre mais de 300 participantes, terminou entre os primeiros quarenta classificados e foi o melhor sub-23 da prova. 

Nesse dia, o gosto pela corrida, até então desenvolvido de forma natural e quase inconsciente, começou a ganhar forma. O miúdo que nunca deixou de se mexer percebeu que talvez aquele “bichinho” pelo desporto não fosse passageiro, mas algo destinado a acompanhá-lo para o resto da vida.

Tiago Pereira

Tiago Pereira

Tiago Pereira

Tiago Pereira

Agrupamento de Escolas de Ponte da Barca

Agrupamento de Escolas de Ponte da Barca

O BICHINHO PELO DESPORTO

Entre caminhos de terra e tardes que pareciam não ter fim, Tiago passou a infância na aldeia, ao ar livre. Sem se aperceber, foi nas brincadeiras com os primos e nos jogos improvisados no cenário rural de Ponte da Barca que começou a ganhar resistência, sem nunca lhe chamar treino. O seu corpo aprendeu a aguentar o esforço físico antes mesmo de ele perceber que isso podia ser uma vantagem. Não havia campos sintéticos nem treinos marcados, mas havia espaço para correr. 

Na escola, o Corta-Mato era uma atividade que, todos os anos, aguardava. Sem qualquer preparação específica ou equipamento especial, o jovem aparecia, alcançando quase sempre o pódio. Foi nesses momentos que começou a perceber que tinha potencial. A corrida deixava, então, de ser apenas um passatempo, para se tornar um espaço onde se sentia confortável, confiante e capaz.

Apesar dessa paixão, Tiago nunca pode integrar um desporto organizado não por falta de vontade, mas por falta de condições financeiras. Ainda assim, sempre que surgia uma oportunidade, fosse na escola, com amigos, ou numa prova local, agarrava-a. Era a forma que encontrava de continuar a fazer o que gostava.

O ponto de viragem aconteceu cedo. Aos 14 anos, decidiu participar num trail de 24 quilómetros, com cerca de 1200 metros de desnível. Era uma distância exigente para qualquer atleta, ainda mais para alguém tão jovem e sem treino determinado. Entre mais de 300 participantes, terminou entre os primeiros quarenta classificados e foi o melhor sub-23 da prova. 

Nesse dia, o gosto pela corrida, até então desenvolvido de forma natural e quase inconsciente, começou a ganhar forma. O miúdo que nunca deixou de se mexer percebeu que talvez aquele “bichinho” pelo desporto não fosse passageiro, mas algo destinado a acompanhá-lo para o resto da vida.

DO GOSTO AO COMPROMISSO

Com o passar do tempo, o desporto deixou de ser apenas uma presença constante para se tornar o centro da vida de Tiago. Depois de terminar a escola, trabalhou durante um ano, mas o caminho acabou por levá-lo de volta ao movimento, ao treino e à superação.

O jovem ingressou na licenciatura em Desporto, no Instituto Politécnico de Viana do Castelo, e, desde então, tudo à sua volta passou a organizar-se em função da atividade física. Atualmente, divide os dias entre a universidade, o estágio, necessário para terminar este ciclo de estudos, e o trabalho na construção civil. “O meu trabalho não tem nada a ver, mas é só para ganhar dinheiro”, confessa o jovem.

Apesar de nunca ter parado, foi quando começou a partilhar os treinos nas redes sociais que o seu reconhecimento ganhou outra dimensão. Aos poucos, surgiram convites, oportunidades e parcerias que facilitaram o acesso a espaços de treino e aliviaram algumas dificuldades financeiras. Mais do que um meio de visibilidade, a internet tornou-se uma extensão do seu percurso. Para Tiago, as redes são uma forma de mostrar o processo e não apenas os resultados.

A ideia de realizar um Ironman nasceu precisamente aí, no contacto diário com o conteúdo que consumia. O algoritmo ia afinando as sugestões: dos 10 quilómetros às meias-maratonas, das maratonas aos Half Ironman, um vídeo levava a outro. O desafio crescia à medida que a curiosidade aumentava. “Foi aí que pensei ‘porque não?’”. Quando Tiago deu por si, a decisão acabou por se impor fazer um Full Ironman. 

Apesar do crescimento da modalidade, a participação continua marcada por uma forte desigualdade de género. Os dados mostram que a maioria dos atletas em prova são homens.

O custo monetário das provas intermédias levou o jovem barquense a prescindir do “Half”, optando por uma preparação alternativa, baseada em simulações, provas de resistência e uma rotina de treinos exigente. Com a escolha tomada, cada ação passou a adequar-se à preparação do corpo e da mente para o desafio maior que se aproxima.

Apesar de nunca ter parado, foi quando começou a partilhar os treinos nas redes sociais que o seu reconhecimento ganhou outra dimensão. Aos poucos, surgiram convites, oportunidades e parcerias que facilitaram o acesso a espaços de treino e aliviaram algumas dificuldades financeiras. Mais do que um meio de visibilidade, a internet tornou-se uma extensão do seu percurso. Para Tiago, as redes são uma forma de mostrar o processo e não apenas os resultados.

A ideia de realizar um Ironman nasceu precisamente aí, no contacto diário com o conteúdo que consumia. O algoritmo ia afinando as sugestões: dos 10 quilómetros às meias-maratonas, das maratonas aos Half Ironman, um vídeo levava a outro. O desafio crescia à medida que a curiosidade aumentava. “Foi aí que pensei ‘porque não?’”. Quando Tiago deu por si, a decisão acabou por se impor fazer um Full Ironman. 

Apesar do crescimento da modalidade, a participação continua marcada por uma forte desigualdade de género. Os dados mostram que a maioria dos atletas em prova são homens.

O custo monetário das provas intermédias levou o jovem barquense a prescindir do “Half”, optando por uma preparação alternativa, baseada em simulações, provas de resistência e uma rotina de treinos exigente. Com a escolha tomada, cada ação passou a adequar-se à preparação do corpo e da mente para o desafio maior que se aproxima.

A DECISÃO: O IRONMAN

A prova tem data e local marcados. No dia 17 de outubro de 2026, no Ironman de Cascais, Tiago vai nadar 3,8 quilómetros em águas vivas, pedalar 180 quilómetros e, de seguida, correr uma maratona completa, que corresponde a 42 quilómetros.

A preparação para esta prova, que é uma das mais exigentes do triatlo mundial, ocupa grande parte dos seus dias. Apesar da rotina cheia e dos compromissos variados, os treinos são uma prioridade inegociável.

Rotina Semanal
SEGUNDA
7h50 Acordar
9h30 – 17h30 Universidade
18h30 1º Treino
20h30 2º Treino
22h Jantar
23h Dormir
TERÇA
5h50 Acordar
6h45 – 10h Estágio
11h30 – 17h30 Universidade
18h30 1º Treino
20h 2º Treino
21h Jantar
22h Dormir
QUARTA A SEXTA
6h50 Acordar
7h30 – 17h30 Trabalho
18h30 1º Treino
20h30 2º Treino
22h Jantar
23h Dormir
SÁBADO
6h50 Acordar
7h30 – 17h30 Trabalho
18h – 22h Treino longo
22h30 Jantar
23h30 Dormir
DOMINGO
6h50 Acordar
7h30 – 12h30 Estágio
14h30 – 19h Treino longo
20h15 Jantar
23h Dormir
Rotina Semanal
SEGUNDA
7h50
Acordar
9h30 – 17h30
Universidade
18h30
1º Treino
20h30
2º Treino
22h
Jantar
23h
Dormir
TERÇA
5h50
Acordar
6h45 – 10h
Estágio
11h30 – 17h30
Universidade
18h30
1º Treino
20h
2º Treino
21h
Jantar
22h
Dormir
QUARTA A SEXTA
6h50
Acordar
7h30 – 17h30
Trabalho
18h30
1º Treino
20h30
2º Treino
22h
Jantar
23h
Dormir
SÁBADO
6h50
Acordar
7h30 – 17h30
Trabalho
18h – 22h
Treino longo
22h30
Jantar
23h30
Dormir
DOMINGO
6h50
Acordar
7h30 – 12h30
Estágio
14h30 – 19h
Treino longo
20h15
Jantar
23h
Dormir

Tiago Pereira

Tiago Pereira

Tiago Pereira

Tiago Pereira

Atualmente, o desportista treina entre duas a três horas por dia, o que se traduz em cerca de 15 a 16 horas semanais. À medida que a prova se aproximar, a carga irá aumentar significativamente, podendo chegar às 25 horas de treino por semana, ou até mesmo às 30, incluindo a musculação. 

Embora a regra seja cumprir treinos bidiários, há dias em que treina três vezes. Quanto ao descanso, o jovem confessa que, quando existe, é muitas vezes ativo, feito em ritmos mais leves, mas ainda assim em movimento. O seu “maior obstáculo é mesmo o dia ter 24 horas”, admite.

A par dos treinos, mantém o trabalho nas obras e confessa que não tem cuidados especiais por causa da prova. “Para o Ironman eu dependo do trabalho, para o trabalho não dependo do Ironman”. Ainda assim, reconhece que há dias em que chega ao final da jornada física exausto, sabendo que o treino ainda o espera.

Atualmente, o desportista treina entre duas a três horas por dia, o que se traduz em cerca de 15 a 16 horas semanais. À medida que a prova se aproximar, a carga irá aumentar significativamente, podendo chegar às 25 horas de treino por semana, ou até mesmo às 30, incluindo a musculação. 

Embora a regra seja cumprir treinos bidiários, há dias em que treina três vezes. Quanto ao descanso, o jovem confessa que, quando existe, é muitas vezes ativo, feito em ritmos mais leves, mas ainda assim em movimento. O seu “maior obstáculo é mesmo o dia ter 24 horas”, admite.

Hugo Rocha, personal trainer e mental coach, explica que o ginásio é fundamental na preparação para o Ironman, porque ajuda a corrigir desequilíbrios musculares e protege as articulações, diminuindo o risco de lesão. Ao fortalecer os músculos, o impacto da corrida no asfalto é melhor absorvido e a eficiência técnica mantém-se por mais tempo.

No mesmo sentido, Melissa Amarante, especialista em Medicina Geral e Familiar e pós-graduada em Medicina Desportiva, reforça que chegar à linha de partida saudável é o maior desafio de um atleta de Ironman. A especialista alerta que o treino de alto rendimento exige um equilíbrio rigoroso entre nutrição e carga de esforço, sublinhando ainda que o isolamento e o autocontrolo extremo exigidos podem afetar gravemente a saúde mental, potenciando riscos de ansiedade e burnout. Neste processo, o descanso é essencial, pois é durante o sono que o corpo repara os tecidos e liberta as hormonas essenciais para a adaptação ao esforço.

Hugo Rocha, personal trainer e mental coach, explica que o ginásio é fundamental na preparação para o Ironman, porque ajuda a corrigir desequilíbrios musculares e protege as articulações, diminuindo o risco de lesão. Ao fortalecer os músculos, o impacto da corrida no asfalto é melhor absorvido e a eficiência técnica mantém-se por mais tempo.

No mesmo sentido, Melissa Amarante, especialista em Medicina Geral e Familiar e pós-graduada em Medicina Desportiva, reforça que chegar à linha de partida saudável é o maior desafio de um atleta de Ironman. A especialista alerta que o treino de alto rendimento exige um equilíbrio rigoroso entre nutrição e carga de esforço, sublinhando ainda que o isolamento e o autocontrolo extremo exigidos podem afetar gravemente a saúde mental, potenciando riscos de ansiedade e burnout. Neste processo, o descanso é essencial, pois é durante o sono que o corpo repara os tecidos e liberta as hormonas essenciais para a adaptação ao esforço.

Conforme as condições do tempo, os treinos sofrem adaptação. Neste momento, Tiago pratica natação nas piscinas municipais de Ponte da Barca, os treinos de intensidade na bicicleta em ambientes fechados, e os treinos mais longos, tanto de ciclismo como de corrida, no exterior. Independentemente da meteorologia, correr em passadeira não é opção.

Entre as três modalidades, o ciclismo e a corrida são as que lhe surgem com maior naturalidade, fruto de hábitos criados desde cedo. A experiência acumulada desde a adolescência no BTT ajuda-o a encarar longas distâncias de bicicleta com maior confiança. Ainda assim, é a correr que se sente verdadeiramente confortável e capaz de dar o seu melhor.

Já a natação é o maior desafio. Sem uma base técnica anterior, exige mais tempo, mais atenção e uma adaptação constante a um esforço prolongado, com o corpo quase sempre submerso.

A alimentação sempre fez parte da sua rotina de forma natural. Desde cedo percebeu que comer bem se refletia diretamente no rendimento e nos resultados, o que o levou a manter hábitos equilibrados ao longo do tempo. Apesar de, por vezes, fugir à regra, nunca encarou isso como um problema.

Paralelamente à preparação, o apaixonado pelo desporto participou em várias provas ao longo de 2025, desde maratonas e meias-maratonas, a competições de ciclismo e de Hyrox. Embora o plano de treinos esteja centrado nas três modalidades do triatlo, não deixou para trás a musculação, que continua a considerar fundamental.

Ainda assim, a preparação não é apenas física. Dormir bem, cumprir horários e manter a rotina tornaram-se regras imprescindíveis num processo que exige disciplina e uma forte componente mental.

Lidar com a pressão emocional é, para o jovem, uma parte tão exigente do treino quanto nadar, pedalar ou correr. Mais do que força física, destaca a importância de preparar a mente para o que está por vir. 

Cada prova, cada treino longo, cada manhã em que é preciso acordar antes do sol requer uma disciplina rigorosa. Saber que tudo está planeado, que o corpo está a responder aos treinos e que a recuperação está organizada ajuda-o a reduzir o nervosismo antes das provas.

“Se um filho perguntar ao pai se a vida é difícil, o pai vai sempre responder que não, para não o preocupar. Neste caso eu sou o pai e o resto das pessoas são o filho. Muitas vezes a pergunta é ‘tem sido difícil?’ ou ‘estás a gostar?’. Mas no fundo só vai perceber quem realmente passa por isto não podes acordar mais tarde, porque depois já não tens tempo, tens de chegar às 22h e ir dormir, não existe ficar no telemóvel”.

Nos dias mais difíceis, quando a motivação parece faltar, Tiago segue uma regra simples: começar. Mesmo quando se sente cansado ou desanimado, entrar no ritmo do treino é suficiente para que a confiança surja.

A experiência também o ajuda a lidar melhor com o stress das competições. Para Tiago, quanto mais provas realiza, mais consegue manter a calma, controlar a respiração e gerir o nervosismo. É uma aprendizagem que combina planeamento, treino e consistência: alimentação adequada, descanso e atenção aos sinais do corpo são ferramentas fundamentais para que a mente não se sobrecarregue. 

A preparação emocional torna-se, assim, uma extensão da preparação física, mostrando que a resistência de um atleta não se mede apenas em quilómetros percorridos, mas também na capacidade de enfrentar a exigência mental de cada dia.

Helena Pereira

Helena Pereira

Helena Pereira

Tiago Pereira

Tiago Pereira

Tiago Pereira

O DIA "D"

Para o jovem de 21 anos, o verdadeiro peso do Ironman só se fará sentir no momento da partida. Até lá, tudo é adaptação e espera. Tiago acredita que nenhuma simulação, por mais exigente que seja, consegue reproduzir a intensidade de dez horas consecutivas de esforço máximo. No dia da prova, sabe que tudo pode acontecer e que cada detalhe conta, desde a entrada na água até aos últimos momentos da corrida.

Para o jovem, a imprevisibilidade faz parte do desafio e também é o que torna o Ironman tão exigente. Até ao sinal de partida, o foco está apenas em chegar o mais preparado possível, física e mentalmente, aceitando que, a partir daí, o controlo é limitado.

Ao longo do percurso, Tiago não estará sozinho. A família e os amigos sempre acompanharam de perto o seu caminho no desporto, reconhecendo desde cedo a ligação intensa que mantém com a atividade física. Esse apoio manteve-se ao longo dos anos e deverá fazer-se sentir também em Cascais.

“Acho que no dia do Ironman vou ter lá gente que nem contava”, confidencia. Para o atleta, saber que há pessoas a acompanhar o seu esforço é mais do que motivação é a garantia de que o percurso feito até aqui tem valido a pena.

Quanto aos objetivos, a prioridade é clara: terminar a prova. Ainda assim, a exigência que coloca a si próprio leva-o a ambicionar um tempo abaixo das dez horas. Um resultado ainda mais rápido significaria um desgaste maior, algo que pondera com cuidado. “Posso nem fazer abaixo das dez que já vou ficar muito feliz, por tudo o que conquistei até lá”, reconhece.

Mais do que números, Tiago vê o Ironman como um teste à consistência que tem procurado construir ao longo desta caminhada. O jovem assume que esta preparação o obriga a uma organização rigorosa e a escolhas difíceis, sobretudo no tempo que deixa de passar com a família e os amigos. “Ser consistente é uma das chaves mais importantes neste processo. É dizer ‘não posso falhar’, e realmente não falhar”.

E DEPOIS?

Após o Ironman, o futuro permanece em aberto. Tiago não encara esta prova como um ponto final, mas como um momento de avaliação. Não faz planos a longo prazo nem vê o desporto, para já, como um destino definitivo. “Só o futuro dirá. Eu não penso em fazer disto vida, só se surgir uma oportunidade que compense monetariamente”, admite o jovem. 

O desportista mantém claro o propósito que o acompanha desde pequeno: “o meu sonho sempre foi ser reconhecido por conseguir motivar alguém”. Mais do que obter títulos, ambiciona ser distinguido pela determinação e pela capacidade de inspirar quem o acompanha.

Para si, o percurso faz-se passo a passo, com empenho e paciência. Documentar o caminho, mais do que o resultado, é a forma que encontrou de mostrar que o progresso se constrói no dia a dia e que, muitas vezes, é aí que reside a maior conquista.

Ainda que o futuro competitivo permaneça em aberto, Tiago nunca contestou a vontade de usar o desporto como ferramenta para chegar aos outros. Foi dessa consciência de que o esforço pode ir além do próprio que nasceu uma iniciativa que levou o seu percurso para fora do plano individual e o colocou ao serviço de uma causa maior.

CORRER PELO SANTIAGO

A ligação a Santiago, um menino de Ponte da Barca diagnosticado com uma síndrome relacionada ao GRIN1, nasceu enquanto o atleta trabalhava no verão. Ao ver as tampinhas a acumularem-se e as latinhas de recolha pelos cafés, o jovem percebeu que não podia ficar indiferente à situação. 

Deitado na cama, enquanto via um vídeo de Anthony Vicent, um atleta que admira e que correu 24 horas por uma causa, Tiago perguntou-se “de que forma é que eu, que gosto tanto de correr, posso envolver estes dois mundos, ou seja, a parte em que ele precisa de dinheiro e a parte da corrida?”.

Já com a experiência de ter corrido um trail de seis horas em Vila Praia de Âncora, a ideia passou por dobrar o tempo, ou seja, correr 12 horas para atingir os 100 quilómetros. No dia 18 de outubro, o jovem partiu às oito da manhã e pelas dez a adesão já era gigante. Entre donativos e pessoas que se juntavam para correr ao seu lado, o atleta sentiu que o objetivo de ajudar estava a ser cumprido e, sem hesitação, escolheu não se preocupar com a distância estabelecida, abrandar o passo e correr ao lado de todos os que se quiseram juntar.

No final, Tiago angariou cerca de 5000 euros, um valor que continuou a crescer nos dias seguintes, fixando-se num total de 5300 euros. Mais do que o apoio financeiro, a iniciativa deu visibilidade à luta de Santiago e uniu o concelho em torno de uma causa comum.

Tiago Pereira

Tiago Pereira

Tiago Pereira

Tiago Pereira

O caminho para Cascais não é feito apenas de quilómetros nadados, pedalados ou corridos, mas da paciência de quem sabe esperar o tempo certo de colher. Entre o cansaço das obras e o rigor dos treinos, Tiago continua a regar o seu propósito com a mesma naturalidade com que corria em pequeno. 

Se o futuro depois do Ironman permanece em aberto, há uma certeza que o acompanha: a árvore continua a crescer, e o orgulho do "Tiaguinho" de há dez anos é hoje a força que o levará até à linha de chegada.

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