O GRITO DA DIVERSIDADE
A discriminação de grupos minoritários ao longo da história deu origem a políticas de ação afirmativa. São reconhecidas as desigualdades, principalmente nas áreas das oportunidades de emprego e acesso à educação, e levam à criação de vias para as ultrapassar
Paula Cardoso era uma criança negra em Portugal que enquanto lia e estava à procura do seu lugar no mundo, não tinha referências nos manuais escolares e nos livros que lia nos tempos livres.
O projeto Afrolink foi criado por Paula em 2019 com a intenção de dar voz aos negros que não a encontram no espaço público. É um projeto de afirmação positiva que reconhece a presença africana e que permite trazer uma alternativa em termos de narrativa dominante sobre aquelas que são as qualificações das pessoas negras em Portugal.
O mote é combater os estereótipos que ainda existem na sociedade portuguesa. Para além de dar a conhecer as competências profissionais de negros e divulgar os seus negócios, também permite que sejam publicados textos de opinião.
“A mim interessa-me que as crianças e jovens encontrem modelos de referência nos quais se possam inspirar e que possam expandir o seu imaginário de possibilidades. A sociedade devia começar a reparar quando as pessoas negras aparecem e como é que aparecem”
Através da observação dos comportamentos dos cinco sobrinhos Paula começou a reviver a sua juventude. As partilhas destas crianças também eram reveladoras de alguma exclusão, nomeadamente a não aceitação de algumas caraterísticas físicas, como por exemplo a cor de pele e a textura do cabelo.
“Comecei a questionar-me sobre quando é que começam essas ausências e como é que elas depois se manifestam na personalidade que nós desenvolvemos”
"O Sol desapareceu. Será que foi roubado?"
Antes do Afrolink Paula começou por criar o projeto “Força Africana” com a intenção de o transformar numa série de livros infantojuvenis. O seu primeiro livro publicado “O Sol desapareceu. Será que foi roubado?” nasceu desta necessidade de criar as referências para as crianças que, como os seus sobrinhos, estão à procura do seu lugar: “decidi criar histórias que promovam o empoderamento de crianças. As pessoas têm de perceber a importância de haver personagens negras com as quais as outras crianças também possam construir a ideia de que o protagonismo é para todos. Todos nós podemos ser super-heróis”.
No livro de Paula Cardoso as cinco crianças mais poderosas do planeta formam a Força Africana e entram em ação sempre que um problema no mundo parece não ter solução
No livro de Paula Cardoso as cinco crianças mais poderosas do planeta formam a Força Africana e entram em ação sempre que um problema no mundo parece não ter solução
"O Estado não pode atuar com medidas pontuais"
Paula sente que o governo tem um papel determinante nesta falta de representatividade: “apesar de existir este compromisso do Estado de financiar e de apoiar projetos com esta natureza, na prática isso não está a acontecer. Não pode atuar com medidas pontuais. Tem de ter uma política estratégica de combate a estas desigualdades, que são estruturais. Tendo em conta a história, deveriam ser criados mecanismos que criassem acessos para os grupos marginalizados, discriminados, que partem de uma situação de desigualdade”.
A jornalista reconhece que a falta de recolha de dados étnico-raciais através dos censos não permite que o Estado saiba a expressão da comunidade negra em Portugal, dificultando ainda mais a sua atuação.
Onde a Diversidade existe e a Representatividade importa
O Afrolink deixou de ser apenas um site para passar a ser também um movimento de afirmação presencial. O Mercado Afrolink surgiu há mais de 1 ano e acontece no primeiro domingo de cada mês. Durante este tempo já passaram pelo Mercado cerca de 60 projetos diferentes.
O convite para a realização desta iniciativa surgiu por parte da “Casa do Capitão”, que já tinha um espaço onde alguns coletivos organizavam pontualmente mercados. Até ao final do ano de 2022 existia o compromisso para que se realizasse no Mercado do Rato.
O Mercado Afrolink realiza-se no primeiro domingo de cada mês
O Mercado Afrolink realiza-se no primeiro domingo de cada mês
“Para mim o mercado tem um poder fantástico em termos de potencial agregador da comunidade negra que está a desenvolver projetos e tem ali uma montra para visibilizar os produtos que tem"
Todos os meses Fernanda Gameiro é uma dos muitos comerciantes que expõem a sua marca: “desde que o Mercado Afrolink começou exponho lá o meu trabalho todos os meses”. Fernanda não esquece o papel determinante deste tipo de iniciativas.
“Tenho pena de que não existam mais mercados em Portugal para nós podermos mostrar aquilo que temos de bom, mas também contribuir para o nosso país”
Fernanda, licenciada em cardiopneumologia, criou a marca NandDolls há 5 anos. Surgiu da falta de representatividade dos brinquedos que existem no mercado. O seu principal objetivo é o de criar bonecos inclusivos: “quero normalizar a diversidade através de bonecos representativos, inclusivos e personalizados com os quais as crianças africanas e afrodescendentes se possam identificar”.
Todas as suas peças são únicas, cosidas e pintadas à mão. Além disso, também são produtos sustentáveis, 100% algodão e as tintas utilizadas não são tóxicas para as crianças. Fernanda cria também roupas para os brinquedos para que as crianças possam trocar.
É através do Facebook e do Instagram que as pessoas podem fazer as suas encomendas. Isso permite-lhe ter clientes de várias partes do mundo. No entanto, este ano, além do Mercado Afrolink, também já participou no Mercado da Língua Portuguesa e no Festival Iminente. No próximo ano vai lançar uma loja online para que possa ter mais um canal de vendas.
Todas as criações de Fernanda são únicas e personalizadas
Todas as criações de Fernanda são únicas e personalizadas
Boneca com vitiligo Kieza feita à mão por Fernanda Gameiro
Boneca com vitiligo Kieza feita à mão por Fernanda Gameiro
Admila, professora de dança, é das mais recentes comerciantes a expor a sua marca Crianourish no Mercado Afrolink. Em novembro participou pela segunda vez nesta iniciativa. A ideia de criar o projeto de cosmética artesanal e produtos alimentares surgiu do seu estilo de vida vegan.
"Os produtos cosméticos são todos orgânicos. As alquimias artesanais são à base de plantas comestíveis e podem ser aplicadas na pele"
Apesar de já ter esta preocupação alimentar há vários anos, o negócio oficializou-se apenas no ano passado. Os produtos são todos embalados com materiais reutilizáveis e reutilizáveis: “cada embalagem é única”. A marca está apenas presente no Instagram.
Admila tem também o projeto das oficinas de experimentação e criação com elementos naturais para crianças com o nome “Criar com Natureza”. Este possui uma página no Facebook e outra no Instagram.
O nome da marca deriva da junção das palavras “cria” de creare e “nourish” de nutrir, que significa sustentar a vida e a prática diária
O nome da marca deriva da junção das palavras “cria” de creare e “nourish” de nutrir, que significa sustentar a vida e a prática diária
Desidério e Dúnia (30 anos) também expõem a sua marca Olhos Café no Mercado Afrolink desde abril. É uma marca de roupas e acessórios que segue a premissa de exaltar os elementos da cultura africana com designs únicos através da colagem digital.
“Ela está mais ligada à gestão e ao empreendedorismo enquanto que eu estou mais ligado à parte criativa e das ideias”
O projeto surgiu da falta de representatividade das suas marcas culturais africanas e de um desejo de criarem algo em conjunto para conseguirem ter uma maior liberdade financeira no futuro. Dúnia, que também é médica e professora de inglês, estava a viver em Espanha quando conheceu Desidério, que vivia em Portugal. Hoje, ambos vivem em território espanhol. Desidério trabalha a tempo inteiro na gestão da Olhos Café e da Academia Tree Six.
O trabalho é exposto em vários mercados mediante convites ou parcerias, mas a atividade principal é a venda online. É possível encomendar os produtos em todo o mundo através do catálogo presente nas redes sociais Instagram: “no próximo mês iremos lançar um site”.
Criar oportunidades para todos
Foi com o intuito de trazer o Support Black Business para Portugal, uma via de luta antirracista que tem provas dadas nos Estados Unidos e no Brasil, que surgiu este lugar de capacitação e de encontro comunitário.
Para Paula Cardoso é necessário que sejam criadas oportunidades para que os negros também consigam ser autossuficientes: “nós temos de conseguir ter o suficiente para alimentar, para governar as nossas casas e para investir na educação dos nossos filhos. Eu gosto muito de utilizar a palavra acesso porque eu acho que uma das coisas que nos limita muito tem que ver com estes privilégios que nós herdamos e que são de várias dimensões”.
Paula faz questão que o Mercado seja exclusivo para empreendedores negros porque considera que o acesso a outros espaços é muito dificultado.
“As regras estão desenhadas para determinado grupo da população sem contemplar outras diversidades e especificidades"
Banca de bijuterias
Banca de bijuterias
Banca de bolos caseiros
Banca de bolos caseiros
Interior do mercado
Interior do mercado
Banca de quadros
Banca de quadros
Banca de bijuteria
Banca de bijuteria
"É importante que surjam espaços que permitam que a inclusão ocorra. Há muito trabalho a acontecer só que não tem visibilidade".
Para Paula, desde a política até à economia, passando pelos meios de comunicação social, é necessário desconstruir o imaginário português de que Portugal é branco e de que as pessoas negras estão apenas na condição de subalternos.

