Cultura na Geração Z
Ainda há tradição?
O discurso dominante insiste que os jovens estão desligados da comunidade, presos ao ecrã e afastados das tradições, mas há realidades locais que desmontam essa narrativa com rostos e vozes concretas.
Em Mouquim e em Lousado, freguesias do concelho de Vila Nova de Famalicão, dois grupos distintos mostram que a participação juvenil não desapareceu, apenas encontrou novos ritmos, novas linguagens e novos espaços de expressão.
De um lado, uma escola de concertinas que recupera a música popular portuguesa através de um ensino paciente e intergeracional. Do outro, um grupo católico de jovens que usa a fé como ponto de encontro para a amizade, o debate e o envolvimento comunitário.
Realidades diferentes, mas unidas por um mesmo impulso:
O de não deixar morrer o que é coletivo.
Paixão pela música popular
Escola das Concertinas em Mouquim
Numa noite de quarta-feira, a casa do pároco da freguesia, que dá guarida à Escola de Concertinas de Mouquim, enche-se de sons que se cruzam pelos vários cómodos.
Cada sala acolhe um aluno, uma concertina e um exercício repetido vezes sem conta.
Não há aulas coletivas, não há pressa, não há espetáculo.
Há prática.
Mário Ribeiro, professor com mais de 30 anos de experiência, defende um método individualizado, baseado na repetição e na escuta.
“A concertina não pode ser vista como uma ocupação de tempos livres. O instrumento, seja a concertina seja qualquer um, tem de ser uma entrega.”
Mário Ribeiro
Professor da Escola das Concertinas de Mouquim
A escola nasceu em dezembro de 2024, depois de um sonho adiado durante anos por falta de oportunidade.
Isabel Oliveira, natural de Mouquim, coordenadora do grupo e anfitriã do espaço, traz consigo uma ligação antiga à música popular.
“É uma coisa que eu gosto
porque é tradição!”
Isabel Oliveira
Entrou num rancho folclórico aos seis anos, andou em palco até aos 25 e nunca mais largou a vontade de “abrilhantar” a freguesia.
Aos 55 anos, concretizou finalmente o projeto que tanto anunciava. “Andava sempre a dizer ao meu marido: ‘Eu quando puder vou montar uma escola de concertinas’”. Hoje são 13 alunos, dos 11 aos 70 anos, entre jovens curiosos e adultos que sempre quiseram aprender, mas nunca tiveram oportunidade.
A timidez marca os primeiros contactos, mas dissolve-se à medida que o som ocupa o espaço.
Concertinas diferentes, cada uma com a sua história, tornam-se cenário e símbolo de um grupo que ainda está a crescer. Para Isabel, a escola é mais do que aulas, é uma forma de aproximar as pessoas e de devolver vida à freguesia. Sonha ver o grupo crescer, animar festas, participar em romarias e afirmar a tradição como algo vivo, não como peça de museu.
Já a sua filha, Sofia Costa, de 19 anos, integrou o grupo em janeiro, aquando da entrada do professor Mário Ribeiro. O interesse pela concertina acompanha-a desde cedo. “Já participei no rancho, aqui em Mouquim. A minha mãe também gosta muito destas festas [populares] então sempre fui arrastada para isto”, explica a jovem. “A minha irmã com mais ou menos 14/15 anos começou a aprender a tocar concertina, então eu ia com ela só para acompanhar. Quando surgiu a oportunidade do professor vir para Mouquim, eu disse que vinha”.
Hoje, divide o tempo entre a escola de concertinas, o trabalho, os escuteiros, a catequese e o serviço como acólita, numa gestão constante entre compromisso e pertença. Para Sofia, manter estas práticas não é um gesto simbólico, é uma forma de garantir que o que é da freguesia não se perde e que os jovens continuam a ter um lugar ativo na comunidade. “Não deixar acabar o que é nosso e manter viva a tradição e aprender sempre com os mais velhos, é a nossa chave e o que devemos seguir. E não terem receio de pegar nessas tradições e levar o mais longe que consigam”.
Entre os alunos está, também, André Barbosa, que chegou ao grupo em janeiro, inspirado por um amigo. Divide os dias entre o trabalho, os escuteiros, o karaté e agora a concertina. “É um bocado cansativo vir para aqui, a estas horas da noite, depois de um dia de trabalho. Mas é uma sensação que depois acaba por trazer frutos. Quando estamos em casa, pegamos na concertina e toda a gente elogia”.
Para André, a escola tornou-se uma “casa de coração”, mesmo não vivendo na freguesia. Não encontra nos grupos que frequenta a ideia de jovens desligados do mundo, apesar de reconhecer o fenómeno. Pelo contrário, acredita que é preciso explorar para “aproveitar o mundo que temos”. Mais do que isso, é um orgulho fazer prevalecer os “modos de vida” de quem o viu crescer.
“Saber que posso pôr um sorriso na cara dos meus avós, quando estou a tocar concertina, é espetacular!”
Augusto, outro integrante, esperou anos pela oportunidade de aprender. Quando soube que o grupo ia avançar, não hesitou. Fala de um chamamento para se juntar aos jovens, recusando a ideia de que a idade define pertença. “Eu vejo os jovens e também me quero juntar a eles”, confidencia.
Já Nuno, que integra o grupo desde o início, destaca o convívio como um dos motores principais. Tocava antes da escola se formar, seguia o professor noutras localidades e escolheu Mouquim pela proximidade e pelo ambiente criado.
O interesse dos jovens pela concertina voltou a crescer nos últimos 15 anos, assegura o professor. E para isso a emigração “é crucial”, tendo um papel fundamental neste processo. O instrumento é levado para comunidades portuguesas no estrangeiro, onde funciona como ligação emocional ao país.
Em Mouquim, vêem-se jovens promissores, mas o professor sublinha que o talento só se confirma com dedicação.
A mensagem é clara: Tradição não é nostalgia, é continuidade.
A 12 quilómetros dali, numa sexta-feira à noite, o ambiente é outro mas a lógica de grupo mantém-se.
A fénix da tradição
Grupo de Jovens de Lousado
As gargalhadas surgem logo no início da reunião. No Grupo de Jovens de Lousado, um quebra-gelo com sons de animais divide os participantes em conjuntos improvisados. O riso solta a tensão, prepara o terreno para um quiz digital sobre os 10 anos da associação, feito através da aplicação Kahoot. Os telemóveis, tantas vezes apontados como “aminimigos” desta geração, aqui são ferramenta de dinamização.
A Fénix da Pedra Angular nasceu a 10 de dezembro de 2015 e pertence à JOEMCA, Jovens em Caminhada – o movimento que coordena os grupos católicos juvenis na arquidiocese de Braga. Conta com cerca de 40 elementos, embora nem todos estejam presentes em cada reunião. As idades variam entre os 16 e os 29 anos. Há três animadores principais e três ajudantes.
Lucas Mendes, animador há cinco anos, mas integrante há oito, deu início ao seu percurso na iniciativa, logo após terminar a catequese. O desejo de criar um grupo de jovens já existia, bastou alguém dar o primeiro passo.
As reuniões acontecem às sextas-feiras à noite, duas a três horas em que, segundo Lucas, o mundo fica à porta. “Dá trabalho, mas também é uma parte muito positiva da minha vida”. Mesmo preparando os temas da semana, todos se envolvem “nas opiniões e discussões”.
A religião está presente, mas não é o único foco. Fala-se de sociedade, de problemas concretos e da vida quotidiana. Participam em missas, festivais, jornadas de futsal, no Festival de Reis e em atividades da freguesia como o carnaval ou a feira das sopas. “O principal objetivo é fazer evoluir os jovens e torná-los mais conhecidos e abertos a novas experiências e oportunidades”, revela Lucas. “Estamos a ficar tão agarrados e a viver no nosso ‘eu’, olhar para o nosso umbigo, que este tipo de grupos são quase que escassos”.
O grupo já venceu o prémio de criatividade num concurso da JOEMCA e esteve representado nas Jornadas Mundiais da Juventude em 2023. Esta experiência que marcou profundamente vários membros, tornando-se único aos olhos do animador principal.
O Escape da própria individualidade
Gustavo Leite começou como participante e tornou-se animador. A transição trouxe mais responsabilidade e uma nova forma de olhar para a “turma”. Se aos 16 anos procurava sobretudo diversão, limitando-se a chegar e “participar nas atividades”, hoje encontra ali um espaço para desanuviar, ouvir e ser ouvido, na sua segunda “casa”.
Gustavo destaca, ainda, que nem só os grandes eventos são marcantes, muitas vezes são os momentos simples, as reuniões em silêncio e as orações, que revelam a parte mais verdadeira das pessoas. “O grupo acaba por ser um fogo, uma luz” para todos os seus acompanhantes, mas principalmente, para os mais velhos, que os acompanham consistentemente.
Beatriz Oliveira envolveu-se no projeto por influência de um elemento ligado à catequese. Este é o 5ºano de Beatriz na Fénix e é agora ajudante de animador. Fala de uma evolução clara na confiança e na capacidade de comunicação, dentro e fora de Lousado. “Sentia que os animadores tinham que puxar muito por mim. Agora falo muito melhor, desenvolvo muito mais os temas, participo muito mais nas conversas e até aceitei o desafio de ser ajudante de animador e estar a planear as reuniões”.
Assumir responsabilidades mudou a sua postura e a forma como se vê. “Acabo por não ser tão tímida e dar mais confiança e a dar mais a conhecer aos outros”. Para a jovem, o grupo tem um propósito claro na freguesia: anima, cria dinamismo e aproxima pessoas, ajudando também a desconstruir uma visão rígida da religião. “O mais importante é saber que contribuímos assim tanto para a freguesia e para as pessoas daqui serem mais felizes”.
Marisa resume a Fénix da Pedra Angular numa palavra: “Javardos”, numa mistura de humor e cumplicidade. A experiência da JMJ marcou a sua vivência e deixou uma mensagem simples: “Sigam o que o vosso coração diz”.
“Aqui é o momento em que esqueces tudo e és tu, a dizer o que te apetece e o que não te apetece, ou só a ouvir”
- Gustavo Leite -
Em todas as vozes, repete-se a ideia de desligar da rotina, de encontrar ali um espaço seguro, onde os problemas da semana ficam suspensos.
Apesar das diferenças evidentes entre uma escola de música tradicional e um grupo de jovens religioso, há pontos de contacto claros. Ambos funcionam como espaços de encontro, cruzam gerações, exigem compromisso e oferecem pertença. Em ambos, os jovens conciliam estas atividades com estudo, trabalho e outras responsabilidades. E em ambos, a comunidade surge como destinatária final do esforço coletivo.
Quando, no final de uma missa de aniversário, o grupo de jovens canta os parabéns em roda, ou quando numa sala de Mouquim uma concertina se junta a outra e Isabel começa a cantar espontaneamente, percebe-se que não se trata apenas de fé ou tradição.
Trata-se de criar memórias, momentos em comunidade.
Num tempo que valoriza o individual e o imediato, estas histórias insistem no contrário: estar juntos, aprender com os mais velhos, construir algo que não termina quando se apagam as luzes.
Agradecimentos
Lucas Mendes
Gustavo Leite
Beatriz Oliveira
Marisa Pereira
Isabel Oliveira
Mário Ribeiro
André Barbosa
Sofia Costa
Augusto
Nuno
Grupo de Jovens de Lousado
Escola das Concertinas de Mouquim
Universidade do Minho
Licenciatura de Ciências da Comunicação
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Ano Letivo 2025/2026
