Cultura na Geração Z

Ainda há tradição?

O discurso dominante insiste que os jovens estão desligados da comunidade, presos ao ecrã e afastados das tradições, mas há realidades locais que desmontam essa narrativa com rostos e vozes concretas.

Em Mouquim e em Lousado, freguesias do concelho de Vila Nova de Famalicão, dois grupos distintos mostram que a participação juvenil não desapareceu, apenas encontrou novos ritmos, novas linguagens e novos espaços de expressão. 

De um lado, uma escola de concertinas que recupera a música popular portuguesa através de um ensino paciente e intergeracional. Do outro, um grupo católico de jovens que usa a fé como ponto de encontro para a amizade, o debate e o envolvimento comunitário.

Realidades diferentes, mas unidas por um mesmo impulso:

O de não deixar morrer o que é coletivo.

A fénix da tradição

Grupo de Jovens de Lousado

As gargalhadas surgem logo no início da reunião. No Grupo de Jovens de Lousado, um quebra-gelo com sons de animais divide os participantes em conjuntos improvisados. O riso solta a tensão, prepara o terreno para um quiz digital sobre os 10 anos da associação, feito através da aplicação Kahoot. Os telemóveis, tantas vezes apontados como “aminimigos” desta geração, aqui são ferramenta de dinamização.

A Fénix da Pedra Angular nasceu a 10 de dezembro de 2015 e pertence à JOEMCA, Jovens em Caminhada – o movimento que coordena os grupos católicos juvenis na arquidiocese de Braga. Conta com cerca de 40 elementos, embora nem todos estejam presentes em cada reunião. As idades variam entre os 16 e os 29 anos. Há três animadores principais e três ajudantes. 

Lucas Mendes, animador há cinco anos, mas integrante há oito, deu início ao seu percurso na iniciativa, logo após terminar a catequese. O desejo de criar um grupo de jovens já existia, bastou alguém dar o primeiro passo. 

As reuniões acontecem às sextas-feiras à noite, duas a três horas em que, segundo Lucas, o mundo fica à porta. “Dá trabalho, mas também é uma parte muito positiva da minha vida”. Mesmo preparando os temas da semana, todos se envolvem “nas opiniões e discussões”. 

A religião está presente, mas não é o único foco. Fala-se de sociedade, de problemas concretos e da vida quotidiana. Participam em missas, festivais, jornadas de futsal, no Festival de Reis e em atividades da freguesia como o carnaval ou a feira das sopas. “O principal objetivo é fazer evoluir os jovens e torná-los mais conhecidos e abertos a novas experiências e oportunidades”, revela Lucas. “Estamos a ficar tão agarrados e a viver no nosso ‘eu’, olhar para o nosso umbigo, que este tipo de grupos são quase que escassos”.

O grupo já venceu o prémio de criatividade num concurso da JOEMCA e esteve representado nas Jornadas Mundiais da Juventude em 2023. Esta experiência que marcou profundamente vários membros, tornando-se único aos olhos do animador principal. 

O Escape da própria individualidade

Gustavo Leite começou como participante e tornou-se animador. A transição trouxe mais responsabilidade e uma nova forma de olhar para a “turma”. Se aos 16 anos procurava sobretudo diversão, limitando-se a chegar e “participar nas atividades”, hoje encontra ali um espaço para desanuviar, ouvir e ser ouvido, na sua segunda “casa”. 

Gustavo destaca, ainda, que nem só os grandes eventos são marcantes, muitas vezes são os momentos simples, as reuniões em silêncio e as orações, que revelam a parte mais verdadeira das pessoas. “O grupo acaba por ser um fogo, uma luz” para todos os seus acompanhantes, mas principalmente, para os mais velhos, que os acompanham consistentemente. 

Beatriz Oliveira envolveu-se no projeto por influência de um elemento ligado à catequese. Este é o 5ºano de Beatriz na Fénix e é agora ajudante de animador. Fala de uma evolução clara na confiança e na capacidade de comunicação, dentro e fora de Lousado. “Sentia que os animadores tinham que puxar muito por mim. Agora falo muito melhor, desenvolvo muito mais os temas, participo muito mais nas conversas e até aceitei o desafio de ser ajudante de animador e estar a planear as reuniões”.

 Assumir responsabilidades mudou a sua postura e a forma como se vê. “Acabo por não ser tão tímida e dar mais confiança e a dar mais a conhecer aos outros”. Para a jovem, o grupo tem um propósito claro na freguesia: anima, cria dinamismo e aproxima pessoas, ajudando também a desconstruir uma visão rígida da religião. “O mais importante é saber que contribuímos assim tanto para a freguesia e para as pessoas daqui serem mais felizes”. 

Marisa resume a Fénix da Pedra Angular numa palavra: “Javardos”, numa mistura de humor e cumplicidade. A experiência da JMJ marcou a sua vivência e deixou uma mensagem simples: “Sigam o que o vosso coração diz”.

“Aqui é o momento em que esqueces tudo e és tu, a dizer o que te apetece e o que não te apetece, ou só a ouvir”

- Gustavo Leite -

Em todas as vozes, repete-se a ideia de desligar da rotina, de encontrar ali um espaço seguro, onde os problemas da semana ficam suspensos.

Apesar das diferenças evidentes entre uma escola de música tradicional e um grupo de jovens religioso, há pontos de contacto claros. Ambos funcionam como espaços de encontro, cruzam gerações, exigem compromisso e oferecem pertença. Em ambos, os jovens conciliam estas atividades com estudo, trabalho e outras responsabilidades. E em ambos, a comunidade surge como destinatária final do esforço coletivo.

Quando, no final de uma missa de aniversário, o grupo de jovens canta os parabéns em roda, ou quando numa sala de Mouquim uma concertina se junta a outra e Isabel começa a cantar espontaneamente, percebe-se que não se trata apenas de fé ou tradição. 

Trata-se de criar memórias, momentos em comunidade. 

Num tempo que valoriza o individual e o imediato, estas histórias insistem no contrário: estar juntos, aprender com os mais velhos, construir algo que não termina quando se apagam as luzes.

Agradecimentos

Lucas Mendes

Gustavo Leite

Beatriz Oliveira

Marisa Pereira

Isabel Oliveira

Mário Ribeiro

André Barbosa

Sofia Costa

Augusto

Nuno

Grupo de Jovens de Lousado

Escola das Concertinas de Mouquim

Universidade do Minho

Licenciatura de Ciências da Comunicação

Jornalismo Multiplataforma

Ano Letivo 2025/2026

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