Depois da dor, da pausa e da dúvida
O que muda quando nos dão a mão?
Rúben tinha apenas 13 anos quando descobriu um cancro no joelho que o levou a amputar a perna, anos mais tarde. Mariana, com 20, sofreu um acidente que a deixou paraplégica. Depois da dor física, da pausa inesperada e da dúvida sobre o futuro, encontraram no projeto “Mais e Melhores Anos” o antídoto para continuarem a sonhar. Hoje, em Famalicão, jogam ténis adaptado lado a lado, com a força de quem escolheu não desistir.
É no Ténis Clube de Famalicão que os dois se encontram, todas as semanas, para dar vida ao sonho. Aqui, o jogo desenrola-se em cadeira de rodas. Mas nem por isso com menos velocidade e entrega. Rúben Rodrigues é o primeiro a chegar. São 15 horas e o calor aperta em campo. Mesmo depois de uma manhã de trabalho não há cansaço que lhe pese no corpo – não quando se trata do ténis.
Foi neste espaço que Rúben encontrou, em 2022, o desporto que há muito procurava. Tem 29 anos, dez deles vividos com uma prótese, e com os médicos sempre a aconselharem a natação como a única modalidade segura. A verdade é que as águas já não lhe chegavam. “Já estava farto da natação”, confessa. Queria mais, algo diferente. Procurou alternativas em Famalicão e, por sorte, o projeto “Mais e Melhores Anos” estava prestes a arrancar com uma nova vertente desportiva. Começou com o que havia: cadeira emprestada e poucas condições. Mas o entusiasmo já corria mais depressa do que as rodas da cadeira.
Atualmente treina às sextas-feiras e, quando possível, acrescenta um treino extra na hora de almoço. Os horários flexíveis no trabalho ajudam-no a encaixar o treino na tarde quente, mas o tempo continua a ser um desafio. Como o projeto funciona apenas em horário laboral, admite que nem sempre é fácil conciliar rotinas. Ainda assim, a paixão que desenvolveu pelo ténis empurra-o para o campo, semana após semana. “Só um treino não dá para evoluir o suficiente. Vamos tentar ajustar isso na próxima época”, adianta, confiante.
A dedicação com que hoje treina tem raízes profundas. Antes de pegar numa raquete, Rúben teve de vencer batalhas bem maiores do que a gestão de horários. Aos 13 foi diagnosticado com um cancro no joelho. Seguiram-se anos de tratamentos, uma prótese interna e várias complicações: entorses, infeções, cirurgias que correram mal. Em 2024, Rúben pôs um ponto final nesse ciclo ao optar pela amputação. “Agora consigo ter uma qualidade de vida muito melhor. Faço muito mais do que fazia antes, sinto-me aliviado”, desabafa.
Foi também nesse momento de viragem que o ténis deixou de ser apenas um desporto e passou a ser parte da recuperação. O jovem sabe o quanto vale ter acesso gratuito a treinos e apoio técnico especializado, algo que é único no país. “Quando conto a colegas de fora ninguém acredita que não pagamos nada neste projeto”. Ainda assim, defende que o futuro deve passar por adaptar horários de modo a que quem trabalha possa participar com maior facilidade.
O final da tarde aproxima-se e, com ele, chegam mais jogadores que preenchem os courts outrora desertos. Entre eles, Mariana Fonseca, que vem para treinar com Rúben. Vêm de realidades distintas mas encontram no ténis a mesma paixão.
Em 2019, um atropelamento numa passadeira mudou-lhe a vida e o corpo, deixando-a paraplégica. A lesão na medula obrigou Mariana, hoje com 26, a reaprender tudo o que antes era natural. O desporto já fazia parte do seu quotidiano e continua a fazer. Conduz, treina e vive com autonomia. “A diferença é que agora faço tudo sentada”, diz, com naturalidade.
Foi com esse mesmo espírito que conheceu o projeto “Mais e Melhores Anos”, por indicação de uma amiga, e não hesitou em experimentar. No início tudo era estranho: a agilidade da cadeira, a precisão dos movimentos e a dificuldade da visão periférica, causada pela fixação no pescoço, que a impede de rodar a cabeça. “Tive de me adaptar, o mais difícil foi perceber como chegar às bolas a tempo”, relembra. Mas nunca desistiu. E, com o tempo, o que era difícil tornou-se numa terapia. “Sinto-me bem e divirto-me imenso a jogar”, confidencia.
O ténis que une Mariana e Rúben é jogado sobre rodas e pensado para atletas com limitações motoras. Desde que se estreou nos Jogos Paralímpicos, em Barcelona, em 1992, a modalidade cresceu. Hoje divide-se entre a classe Open e a classe Quad, consoante o grau de funcionalidade dos atletas.
Hoje, Mariana treina ao fim do dia, após o trabalho. Traz consigo a cadeira feita à sua medida, com um encosto mais alto, essencial para compensar a falta de controlo no tronco.
Tudo nela está adaptado, menos o ânimo. “Já temos muitos custos com deslocações e material. Poder treinar sem pagar nada é uma motivação enorme”, revela.
O treino prossegue com cumplicidade e ritmo. Mariana e Rúben trocam bolas, conversas e sorrisos. Estão ali não só para aperfeiçoar o jogo em pares, mas também porque encontraram no desporto uma nova forma de recomeçar.
Mariana e Rúben a jogar
Mariana e Rúben a jogar
E se o corpo não for uma limitação, mas o ponto de partida?
Mesmo quando a idade começa a pesar, há corpos que escolhem permanecer em movimento. Assim acontece no ginásio do Pavilhão Municipal de Vila Nova de Famalicão. Adelino Carvalho e Maria de Fátima ilustram bem esta realidade. Ambos chegaram ao projeto por necessidade, não por lazer. O joelho operado dele e o acidente que deixou marcas nela poderiam ter ditado o fim de uma vida ativa. Mas foi exatamente aí que começou uma nova fase.
Adelino recuperou de uma cirurgia de prótese total. Maria de Fátima deixou as muletas para trás. Ele reencontrou a mobilidade e ela descobriu a força. Em comum, têm também a disciplina. Treinam quatro vezes por semana musculação e hidroginástica e sentem-se mais fortes a nível físico e psicológico.
Na sala, faz-se ouvir música animada e transpira-se vitalidade. Entre bolas de pilates, pesos e aparelhos funcionais, há sempre movimento. Nas pausas entre exercícios partilham-se histórias e sorrisos. É como se estivessem em família.
“Bendita a hora que me inscrevi”, recorda Maria de Fátima, com a mesma motivação com que carrega os pesos. Para ela, o projeto “Mais e Melhores Anos” foi mais do que um caminho para recuperar o equilíbrio e a força muscular. Foi um encontro consigo própria. “Estava a ver que a minha cabeça ia abaixo… já não precisei de psicólogo depois de começar aqui”, confessa. Ganhou confiança e ânimo, onde antes só existia dor e medo.
Adelino sente o mesmo. “Boa hora que o fiz”, diz, ao recordar o momento em que decidiu integrar o projeto. O convívio e as amizades tornaram-se num pilar essencial para a sua recuperação, tão importantes quanto o exercício físico. É nessa ligação com os outros que percebe que envelhecer pode ser também sinónimo de reencontro.
Adelino não é o único a valorizar o convívio como peça chave na rotina. Helena Moreira, de 66 anos, também encontrou no projeto mais do que um plano de treinos.
Helena Moreira, a sorrir
Helena Moreira, a sorrir
Depois de 26 anos a trabalhar com jovens com deficiência, continua ligada ao voluntariado e acompanha um grupo de boccia duas vezes por semana. Mas é nos dias em que veste a roupa de treino que sente um compromisso diferente: consigo mesma.
Desde março que integra o projeto e não falhou uma única vez. “Estou sempre ansiosa pelo dia em que venho”, reconhece. Mais do que saúde física, Helena encontrou aqui um refúgio mental. “Não dá para pensar em nada. Saio cansada mas com o corpo e a cabeça mais leve”.
É também um sentimento que Maria Noémia conhece bem. Tem 75 anos e uma energia que não se reformou com ela. Com um plano de treinos digno de uma atleta, faz pilates três vezes por semana, yoga duas, uma aula de ginástica funcional e caminhadas diárias. Antes, trabalhava num quiosque e passava os dias quase sem se mexer. Foi uma amiga que a aconselhou a experimentar uma aula, em 2016, e desde aí decidiu nunca mais parar, e o corpo agradeceu. Hoje sente-se mais forte e com mais equilíbrio.
Maria Noémia, antes do treino de musculação
Maria Noémia, antes do treino de musculação
“Não queria ficar sozinha em casa… tinha medo que me caísse o teto em cima” - Maria Noémia
O projeto veio preencher esse vazio com movimento, conversa e uma rotina repleta de propósito. Chega todos os dias com a mesma motivação. E sai, inevitavelmente, melhor do que quando entrou.
Participante do projeto e treinar superiores
Participante do projeto e treinar superiores
Maria de Fátima no treino
Maria de Fátima no treino
Maria Noémia durante o treino de musculação
Maria Noémia durante o treino de musculação
Participante no projeto a levantar peso
Participante no projeto a levantar peso
Treino de braços
Treino de braços
Maria de Fátima aa treinar superiores
Maria de Fátima aa treinar superiores
Mas afinal, o que é este projeto que transforma tantas vidas?
No centro de todas estas histórias está o projeto “Mais e Melhores Anos”, uma iniciativa do município de Vila Nova de Famalicão, que promove o envelhecimento ativo, a reabilitação física e a inclusão no desporto. Criado em 2001 e reformulado em 2014, o projeto divide-se hoje em três vertentes: sénior, reabilitação e desporto adaptado.
A maioria dos participantes integra o eixo sénior, com acesso mediante uma avaliação prévia e encaminhamento para os treinos mais adequados a cada caso, sempre respeitando a vontade de cada pessoa. Já o desporto adaptado acolhe pessoas com deficiência motora ou intelectual e a reabilitação funciona como uma ponte, dirigida a quem precisa de recuperar de lesões ou cirurgias, através de exercício clínico e terapêutico.
Para Fábio Cunha e Bruno Gomes, coordenadores do projeto, o objetivo é claro: dar mais do que uma ocupação, naquele que é um projeto único em Portugal. “Queremos que isto promova saúde e bem estar na população”, sublinha Fábio.
Em Famalicão percebe-se que o tempo não se conta em anos, mas em anos com maior qualidade. Para quem aqui treina, todos os dias são uma nova oportunidade de continuar em movimento.
"O primeiro passo é começar e experimentar", resume Rúben Rodrigues. O resto vem com o tempo e com treino. E com alguém que esteja lá para dar a mão.
