Onde Vive a Música ao Vivo

A luta diária dos palcos pequenos onde nascem os músicos emergentes e se forja a verdadeira cena indie tuga. Uma composição acerca das dificuldades das salas de espetáculo independentes portuguesas, a falta de harmonia na relação entre o público e o privado, o fraco poder de compra dos jovens, a falta de financiamento e possíveis notas a afinar para uma canção futura.

Escondido ao lado da Estação de Serviço Passos Manuel vive o Maus Hábitos. Quem passa na rua nem se apercebe, mas no quarto andar do edifício mora um dos faróis da noite portuense. Ao subir, os cartazes que forram o elevador estabelecem o tom do que nos aguarda lá dentro. Dentro do autodeclarado Espaço de Intervenção Cultural, cruzam‑se restaurante, bar, clube, salas de exposição e, sobretudo, uma pequena sala de concertos. É entre essas quatro paredes, onde o suor e a música ao vivo se misturam, por onde passa praticamente qualquer artista emergente em digressão pelo país. Foi aqui, e em dezenas de salas como esta, que bandas que hoje esgotam coliseus tocaram os primeiros acordes. Mas esse ecossistema está ameaçado.

Google Street View

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Estamos todos a perder.
- Daniel Pires

A casa existe há 27 anos, 25 deles com as portas abertas ininterruptamente, lembra Daniel Pires, responsável pelo espaço e vice‑presidente da CIRCUITO – Associação Portuguesa de Salas de Programação e de Música. Desde os anos 90 que ajuda a desenhar a agenda musical do Porto, mas os conflitos com a autarquia e o aperto económico que se seguiu à pandemia e à guerra transformaram a sobrevivência do Maus Hábitos num exercício diário de resistência.

E o que está a acontecer é uma razia completa em cidades que são emblemáticas e que apostaram tudo na sua economia da noite.
- Daniel Pires

Para manter o Maus Hábitos de portas abertas, a música sozinha não chega. O modelo de negócio assenta numa corda bamba entre restauração e arte: a sala de concertos raramente paga as contas, o que sustenta o risco de programar são os jantares, os copos, tudo o que gravita à volta da bilheteira.

“Nós, com uma sala deste tamanho, se pensarmos só na bilheteira, [sobreviver] não é possível. O que paga são as atividades conexas aos concertos. Através da programação trazemos pessoas cá para dentro e depois tentamos promover a venda de coisas associadas ao espaço”, afirma Daniel Pires.

Quem frequenta o Maus Hábitos há mais tempo pode até reconhecer os sintomas destas adversidades: “Percebem que era uma casa muito mais ativa, que se regenerava mais e que tinha mais cuidados na sua manutenção, que investia mais em programação e que deixou de o poder fazer”. O que lá acontece não é exceção: repete‑se em dezenas de salas pequenas espalhadas pelo país.

A função destes locais vai muito para além do lazer. Estes espaços são a pista de descolagem de quase tudo o que, mais tarde, enche festivais e coliseus. “Nenhuma banda se torna grande se não chegar a ser pequena”, lembra Daniel Pires, “ninguém nasce a saber as coisas.”

Antes de um nome aparecer no cartaz de um grande festival, passa por bares como o Sé La Vie, em Braga. “Temos bandas a tocar em Paredes de Coura, no Alive, no Super Rock, mas começaram aqui”, diz João Pereira da Bazuuca, “os Ganso tocaram aqui, foi o terceiro ou segundo concerto deles.” Aliás, dia 4 de novembro de 2016, subiram ao palco do Sé La Vie os Cuca Monga, conjunto que inclui os Ganso e ainda os Capitão Fausto, bandas que atuaram este ano no Coliseu dos Recreios e na MEO Arena, respetivamente.

A Bazuuca é uma promotora e agência cultural sediada em Braga que, há pouco mais de uma década, organiza concertos e festivais que dão palco à nova música portuguesa, programa a maioria dos seus concertos no Lustre. Rui Fernandes, o dono, recorda que os Capitão Fausto ainda eram uma banda emergente quando subiram ao seu palco, muito antes de chegarem à MEO Arena.

Para lá de lançarem carreiras, estas salas também desenham a forma como a cidade respira à noite. “Quando fecha um venue, apesar de haver menos ruído e menos lixo, a insegurança aumenta. Sempre. Há mais assaltos, há mais roubos”, salienta Daniel Pires. O fluxo constante de pessoas criado pelas pequenas salas de concertos garante que as ruas não fiquem abandonadas após o fecho do comércio diurno, gerando uma vigia social informal que desencoraja atividades ilícitas.

A rede europeia Cities After Dark, liderada pela cidade de Braga, acrescenta que tornar a noite segura e acolhedora vai muito além do simples policiamento. Exige "nutrir um sentido de pertença, fortalecer o espírito comunitário e promover a confiança mútua entre as pessoas”, algo que estas salas nutrem quando mantêm as suas portas abertas depois de cair a noite.

Os números que mostram como o crescimento do setor não está a salvar as pequenas casas.

Em Lisboa e no Porto, a lista de pequenas salas que fecham – do Lounge ao Sabotage, passando pelo Planeta Manas – não para de crescer. À primeira vista, podia parecer que os portugueses deixaram de ir a concertos, mas acontece precisamente o contrário. E é aqui que o paradoxo se instala.

Em 2024, o mercado de espetáculos ao vivo nunca esteve tão forte: fizeram‑se quase 45 mil sessões em Portugal, mais 5% do que no ano anterior, e as salas receberam 18,6 milhões de espectadores, um crescimento de 8,6%. No total, o setor gerou 206,4 milhões de euros em receitas, com a música a engolir a maior fatia deste bolo – cerca de 79% de tudo o que entra em bilheteira. Só os concertos de pop/rock renderam 88,4 milhões de euros. Por trás deste aparente sucesso está, porém, uma fatura cada vez mais difícil de pagar: o preço médio dos bilhetes disparou para 43,9 euros no pop/rock e chegou aos 46 euros noutros estilos. No entanto, para quem está nas trincheiras das pequenas salas independentes, estes números parecem pertencer a outro realidade.

Aumento da oferta e dos lucros relativos a concertos em Portugal.

Daniel Pires olha para os 43,9 euros do bilhete médio e torce o nariz. Para ele, este valor diz mais sobre os grandes festivais do que sobre o trabalho diário das salas independentes. “Nós não estamos nesse campeonato. Não temos festivais todos os fins de semana”, lembra, sublinhando que, ao contrário dos gigantes, estas casas carregam equipas, técnicos e staff que precisam de ganhar ao longo de todo o ano. Quando a receita média da música sobe nas estatísticas do INE, deve-se sobretudo à custa desses eventos de grande escala. Acaba por camuflar a dificuldade de sobrevivência e o fecho silencioso das pequenas salas, que não conseguem transformar este boom num fundo de segurança para arriscar na programação.

Em Braga, Filipe Morgado, do Café‑Concerto Mavy by RUM, faz o mesmo balanço. Lembra que o Musicbox (projeto terminado, que agora dá vez à Casa Capitão), em Lisboa, “tem 18 ou 20 anos” e que o bilhete custa 10 euros “há uns 15”, enquanto no Mavy “nunca cobramos acima de 8 euros, e foi uma vez”. O espaço, instalado por cima dos estúdios da Rádio Universitária do Minho, já vai na terceira morada, sempre com a mesma lógica de café‑concerto. Ainda assim, sente que a tal prosperidade do mercado nunca chega à base. “O pingar para baixo… nunca pingou muito”, resume. O fosso entre o topo e a base da pirâmide é abissal.

Quando há dinheiro público para a cultura, ele raramente chega ao balcão das salas pequenas. Em Portugal, grande parte desse apoio é canalizado pela Direção‑Geral das Artes (DGARTES), a entidade do Estado responsável por desenhar e executar as políticas de financiamento às artes. É nela que Filipe Morgado pensa quando recorda o período da pandemia: “Houve falta de dinheiro, condições e subsistência para toda a gente. Como os eventos em salas públicas podiam acontecer e nós, independentes, não, o dinheiro foi direcionado para lá. Normalizou‑se isso: a malta vai ao Theatro Circo, ao Coliseu, ver um concerto com o apoio da DGARTES. O que nos falta a nós, salas pequenas, é isso.”

Apesar de, em números absolutos, muitos apoios da DGARTES durante a pandemia terem ido para estruturas independentes, a sensação descrita no Mavy espelha um problema estrutural: o dinheiro chega sobretudo aos criadores, não às casas onde a música acontece. As estatísticas mostram que 90,7% das entidades apoiadas dedicam‑se à criação artística, enquanto apenas 9,3% têm a programação como atividade principal, o que significa que o Estado financia quem faz a música, mas quase não cria linhas específicas para quem mantém o palco aceso. A geografia desses apoios também acentua o desequilíbrio: quase metade das entidades financiadas está concentrada na Área Metropolitana de Lisboa, deixando o resto do país a disputar o que sobra.

Distribuição dos apoios da DGARTES pelo país

Para acontecer alguma coisa tinha que ser no Porto e Lisboa. E hoje em dia, em 2026, isso não faz sentido nenhum, não é?
- Rui Fernandes

A própria penumbra em que estes espaços funcionam, muitas vezes identificados apenas como restaurantes, dificulta a produção de estatísticas fiáveis e impede uma leitura realista do setor. Nuno Alexandre Cunha, do Pentágono Cultural – rede que liga espaços em Braga, Guimarães, Barcelos, Viana do Castelo e Vila Nova de Famalicão –, sublinha que há muitas pessoas e estruturas ligadas às indústrias culturais e criativas que não têm essa atividade registada no CAE (Código de Classificação de Atividades Económicas). “Estamos a falar de professores, de trabalhadores de outras áreas, de pessoas que ao fim de semana fazem fotografia e exposições, ou que se juntam depois do trabalho numa companhia de teatro. Há imensos casos de pessoas e estruturas dedicadas a esta área, mas sem atividade identificada nas finanças”, explica. Por isso, perceber o verdadeiro peso destas indústrias no território é “quase demoníaco”. Nessa comparação, lembra que o Reino Unido fez um mapeamento alargado destas estruturas e concluiu que o setor tinha uma dimensão muito mais relevante do que parecia, obrigando o governo a repensar a forma de o apoiar.

A pressão da noite: ruído, fiscalização e especulação sobre os espaços.

Para lá da pressão imobiliária, manter uma porta aberta à noite implica sobreviver a um escrutínio implacável. Os números do Boletim Estatístico 2024 da Inspeção‑Geral das Atividades Culturais (IGAC) ajudam a pôr em dados aquilo que muitas salas descrevem como uma “criminalização” da noite. Só em 2024, a IGAC realizou 672 ações inspetivas em ambiente físico e quase 60% incidiu sobre o universo das “artes cénicas” – um saco onde cabem as salas com música ao vivo, os teatros, a dança e os recintos fixos de espetáculos.

Em 2024, o mercado de espetáculos ao vivo nunca esteve tão forte: fizeram‑se quase 45 mil sessões em Portugal, mais 5% do que no ano anterior, e as salas receberam 18,6 milhões de espectadores, um crescimento de 8,6%. No total, o setor gerou 206,4 milhões de euros em receitas, com a música a engolir a maior fatia deste bolo – cerca de 79% de tudo o que entra em bilheteira. Só os concertos de pop/rock renderam 88,4 milhões de euros. Por trás deste aparente sucesso está, porém, uma fatura cada vez mais difícil de pagar: o preço médio dos bilhetes disparou para 43,9 euros no pop/rock e chegou aos 46 euros noutros estilos. No entanto, para quem está nas trincheiras das pequenas salas independentes, estes números parecem pertencer a outro realidade.

Tipos de eventos mais investigados pela IGAC em 2024

Apesar da vigilância cerrada, os números mostram que estas casas não são o “elo fraco” da legalidade cultural. Em 2024, a atividade inspetiva em ambiente físico registou uma taxa de conformidade de 93% e a esmagadora maioria das infrações – 76,5% – veio de espetáculos tauromáquicos, não dos clubes de música. Ou seja, as salas de música ao vivo estão entre os espaços mais escrutinados do setor, mas cumprem as regras. “Acima de tudo não é a especulação imobiliária”, resume Filipe Morgado, do Mavy, “eu acho que é as entidades que nos regem, a polícia, a câmara, que ainda vê a noite e as salas de espectáculos como algo criminoso”. No Maus Hábitos, Daniel Pires aponta o dedo aos limitadores de ruído exigidos pelas autarquias, desenhados para música gravada e não para concertos.

Os limitadores só deveriam ser utilizados em salas que têm música gravada.
- Daniel Pires

No Lustre, o nível de policiamento é alto e, por isso, a prevenção também o é. “Temos um diretor de segurança permanente, uma empresa de segurança permanente, funcionários permanentes e contacto constante com a Proteção Civil e os Bombeiros. Somos fiscalizados quase mensalmente pelo Ministério da Administração Interna, pela Polícia e pela Polícia à paisana. Estamos sempre sujeitos a esse escrutínio e temos de manter tudo o mais em dia possível”, explica Rui Fernandes.

O peso do dinheiro público e a disputa entre programação institucional e independente.

Enquanto os clubes privados contam moedas, o Estado exibe o seu músculo. Esta presença esmagadora de fundos públicos gera um profundo conflito no terreno.

Tu tens bandas alternativas agora a tocar nos centros das cidades, antes não tinhas. Isso é bom, mas para nós não sobra nada. As bandas começam a ‘pedicar’ e nós não conseguimos.
- Filipe Morgado

Do lado público, a resposta é mais diplomática, mas reconhece o papel das salas independentes. Em Braga, uma parte dessa visão passa pelo gnration, instalado numa antiga esquadra da Guarda Nacional Republicana e apresentado como “um espaço de criação, performance e exposição nos domínios da música e arte contemporâneas, e da relação entre arte e tecnologia”. Ilídio Marques, responsável pela programação de música, sublinha que muitos dos artistas, coletivos e agências que hoje passam por ali começaram precisamente em espaços não institucionais. “Estes espaços são importantíssimos para o surgimento de artistas emergentes, promotoras e novas criações, pois são espaços onde existe uma maior liberdade artística para o erro e para a experimentação pública”, diz. O gnration, garante, procura estar atento às estruturas independentes à sua volta e dialogar com elas, para que tenham “matéria‑prima regular” e continuem a ser focos de atenção do público. Na sua leitura, há espaço para que programas artísticos de carácter institucional e programas independentes coabitem, em vez de competirem entre si.

Quando se fala em fundos públicos, a pergunta impõe‑se: porque é que as salas independentes não vão buscar esse dinheiro? Do lado do Maus Hábitos, a resposta começa na burocracia: a contratação pública “é um filme”, feita em plataformas digitais complexas, que acabam por afastar estruturas pequenas sem equipas administrativas dedicadas. Nuno Cunha, do Pentágono Cultural, corrobora:
“Essas estruturas mais pequenas normalmente sofrem de uma falta de capacitação para correr atrás de fundos financeiros, sejam eles nacionais ou sejam eles europeus. Portanto, é com alguma dificuldade que olham para os avisos e para as oportunidades financeiras que vão saindo.”

Do lado da autarquia, há quem garanta que estes mecanismos públicos não existem de costas voltadas para os independentes. Samuel Silva, diretor de Comunicação do
Faz Cultura – a empresa municipal que gere e programa o Theatro Circo e o gnration –, defende que o programa tem tido “um papel relevante de apoio à cena criativa e independente da cidade”, ajudando a consolidar um panorama musical com peso nacional. Aponta a estratégia Braga 2030 e a candidatura a Capital Europeia da Cultura como motores para envolver espaços privados: alguns projetos só avançaram no contexto da Braga 25, como o festival Extremo, da associação Capivara Azul, e a convocatória Todo‑o‑Terreno, pensada precisamente para financiar iniciativas independentes no âmbito da Capital Portuguesa da Cultura.

O dono do espaço, que tem as contas todas para pagar, que tem as equipas para gerir, é o programador. Não adianta o governo criar os profissionais da cultura e depois isso na realidade, na prática, fica muito aquém daquilo que poderia ser.
- João Pereira

Quando a pergunta passa para o terreno, a resposta é menos triunfalista. Questionado sobre se a Bazuuca sentiu, na prática, mais oportunidades ou mais público com a Braga 25, João Pereira não hesita: “Não.” Conta que ouviu uma frase da produtora Cantigas do Poço com que se revê totalmente: para eles, “Braga é sempre capital da cultura”. “Braga pode ser capital do que quer que seja. Eu não estou à espera desses prémios para me facilitar a vida. A Bazuuca, para fazer coisas, só precisa de vontade. Havendo vontade, os espaços e as oportunidades criam‑se.”

Em Braga, o retrato que fica é o de uma cidade onde a discrepância entre entidades privadas e públicas convive com uma desvalorização mais funda da cultura. Para Ilídio Marques, no entanto, a dificuldade não é exclusiva de um lado: atinge “todos os espaços, sejam eles institucionais ou não”. O que se vive hoje é “fruto do tempo”, admite, mas este afastamento pode ser reduzido se houver políticas dirigidas especificamente a aproximar instituições e independentes, em vez de os deixar a remar cada um por seu lado.

A perda do poder de compra e o peso que isso tem na saída à noite.

Se programar música emergente dá prejuízo, como é que as portas não fecham todas de uma vez? A resposta dos promotores portugueses é unânime: através do sacrifício e de um modelo de negócio altamente híbrido. Hoje, manter um espaço unicamente dedicado à música ao vivo é financeiramente inviável.

Esta sombra económica cobre não só a bilheteira, mas também a própria cultura da noite. Filipe Morgado acrescenta que, “a malta só não sai à noite e não bebe à noite porque não tem dinheiro, ponto. Isso faz durante o dia, porque durante o dia não se cobra um bilhete. Mesmo as raves de manhã, a malta tapa as janelas para ficar noite. Só aí prova que a malta quer noite, não tem é dinheiro para consumir à noite. A noite não está mais cara, o dinheiro é que está mais raro.

Esta parte cultural das bandas emergentes porque realmente é muito difícil ela ser lucrativa, por isso é que não acontece em qualquer lugar.
- Rui Fernandes

Longe dos 206,4 milhões de euros gerados pelos grandes espetáculos nacionais, a economia de uma pequena sala conta-se em trocos. No Lustre, em Braga, Rui Fernandes sente a mudança no corpo do público. “Uma mais‑valia do Lustre é que nós não lidamos com muitos jovens”, diz. Quando há festas para idades mais baixas, percebe‑se a diferença: têm menos poder de compra, bebem menos álcool, procuram mais estímulos e cansam‑se mais depressa deste convívio do que quem tem mais idade. O balanço do dono do Lustre espelha o que muitas casas descrevem: com a inflação e a perda de rendimento, os jovens abandonaram a ideia de sair todas as semanas e passaram a guardar dinheiro para os grandes festivais. Na Bazuuca, sente-se também menos vontade de pagar bilhete para descobrir uma banda nova, muito por falta de espaços onde essa descoberta aconteça com regularidade.

Até o lado institucional tenta, aqui e ali, aliviar o peso da carteira de quem tem vinte e poucos anos. O Pentágono Cultural criou o Cartão Quadrilátero, um cartão de fidelização que dá acesso a vários benefícios, entre eles descontos na bilheteira. “Neste momento, o cartão custa 30 euros na primeira emissão, ou 25 na renovação, e proporciona 50% de desconto em todos os espetáculos promovidos pelas casas”, explica Nuno Alexandre Cunha. Ainda assim, o representante do Pentágono devolve parte do problema ao público: “Porque raio é que os jovens continuam tão presos às séries da Netflix e da Amazon Prime, em vez de se deslocarem até um destes espaços, ainda por cima são espaços bons, bem apetrechados, para ver um espetáculo ao vivo.” O gnration, por sua vez, pratica descontos de estudante e jovem, “de forma a minimizar a perda de poder compra”, explica Ilídio Marques.

Esta sombra económica cobre não só a bilheteira, mas também a própria cultura da noite. Filipe Morgado acrescenta que, “a malta só não sai à noite e não bebe à noite porque não tem dinheiro, ponto. Isso faz durante o dia, porque durante o dia não se cobra um bilhete. Mesmo as raves de manhã, a malta tapa as janelas para ficar noite. Só aí prova que a malta quer noite, não tem é dinheiro para consumir à noite. A noite não está mais cara, o dinheiro é que está mais raro.

Do lado independente, a falta de dinheiro torna o problema ainda mais complexo. Sem margem para reduzir o preço dos bilhetes ou dos consumíveis, estes espaços ficaram especialmente fragilizados depois da Covid-19. Como lembra Daniel Pires, “a pandemia veio enfraquecer a capacidade financeira das nossas casas todas” e muitas tiveram de recorrer a empréstimos que continuam hoje a pagar. Rui Fernandes, do Lustre, distingue então os vários custos que pesam sobre a atividade:

Fora os gastos todos da produção do espetáculo, do aluguer do PA, do staff, das licenças, dos jantares, das dormidas, das bandas que nós temos que suportar isso tudo, o que fica para a casa é o consumo
- Rui Fernandes- Ri

A Bazuuca aponta ainda uma vantagem dos concertos com bilhete pago, em contraste com os espaços de entrada livre: o público tende a comportar-se melhor. “Há um respeito muito maior, porque o público está lá para assistir ao concerto”, explica.

“É assim: tu podes ter uma casa sempre cheia e isso não significa que estejas a faturar o suficiente para encher a caixa, ou para pagar o concerto, o DJ, o segurança e tudo o resto”, desabafa Filipe Morgado, do Mavy. Daniel Pires acrescenta a esta ideia a sensação de desalento que se espalha pela comunidade: “A ideia romântica de abrir um bar, abrir uma sala de concertos, acabou. Não é possível da mesma forma que era nos anos 90 ou mesmo no início dos anos 2000.” Para o responsável do Maus Hábitos, hoje já não basta vontade; é preciso juntar à volta da casa pessoas com capacidade jurídica e administrativa, porque o sistema está desenhado de forma a não facilitar este tipo de projetos. Por isso, estes espaços acabam muitas vezes empurrados para fora, seja pela pressão imobiliária, seja pela transformação dos bairros. “Aquilo passa a ser um Airbnb da vida. E, portanto, entramos no processo de gentrificação — ou, como eu brinquei uma vez em Lisboa, não há gentrificação, há croissanterização”, acrescenta Daniel Pires. Se o paradigma não mudar e autarquias e privados não selarem um acordo de sobrevivência, o colapso destas "micro-salas" colocará em risco toda a economia criativa da indústria musical.

'Ok, já que eu tenho a música à distância de um clique vamos ver como que banda funciona ao vivo, como é que é o concerto', mas acho que isso é que se perdeu.
- João Pereira

As soluções para travar o fecho das salas e reforçar a base da música ao vivo.

A figura do Night Mayor (ou Comissário da Noite) emergiu no panorama internacional como uma resposta pragmática à necessidade de gerir a complexa teia que compõe a vida noturna das cidades. O modelo, que ganhou fôlego a partir de Amesterdão em 2012, provou ser uma ferramenta eficaz na dinamização da cena cultural, servindo de inspiração para pelo menos 19 cidades em todo o mundo. Seja através de comissões independentes ou de figuras de liderança direta, o objetivo central passa por encontrar um ponto de equilíbrio: atuar como um mediador que constrói pontes de diálogo entre o poder local, quem habita a cidade e os agentes que mantêm a economia da noite a pulsar.

No entanto, para desenvolver a resistência sentida em Portugal, é preciso olhar para as dinâmicas e receios específicos de quem opera no terreno nacional. O ceticismo não nasce de uma rejeição do diálogo, mas de uma desconfiança sobre a independência política e a eficácia prática desta figura. Para António Fonseca, da Associação de Bares da Zona Histórica do Porto, um comissário singular levanta dúvidas quanto à sua isenção. Ele defende que é preferível que a mediação seja feita por associações independentes, uma vez que estas albergam diversos conceitos e ideais, conseguindo deixar "a política na gaveta". A crítica ao "Night Mayor" prende-se com o facto de ser um cargo nomeado: "normalmente esse comissário está conversado com a câmara. É mais fácil manobrar", alerta, sublinhando que, pela necessidade de agradar a quem os contratou e lhes renova o contrato, estas figuras acabam por "seguir a linha política" e as "preferências" da autarquia.

João Pereira, da Bazuuca, partilha deste medo de que a figura traga mais entraves do que soluções. Além disso, alerta para um problema estrutural que um mediador não resolve magicamente: a falta de profissionalização do setor. Já Filipe Morgado, do Mavy, introduz uma nota de realismo ao debate, rejeitando comparações utópicas com modelos estrangeiros de sucesso: "Berlim está noutro patamar, que em Portugal não vamos lá chegar, de certeza.”

Apesar destas críticas, a ideia não é descartada na sua totalidade, havendo quem exija uma redefinição do seu papel em Portugal. Rui Fernandes, proprietário do Lustre, vê valor na figura, mas não com o papel principal de mediar queixas de ruído. Para ele, o foco do Comissário da Noite deveria ser atuar como um "potencializador", criando uma ponte com a câmara para apoiar, dinamizar e "premiar quem faz e quem mostra trabalho" cultural no terreno. “O Lustre faz 20 concertos por ano, não é? Se calhar até podia ser apoiado, de uma maneira ou de outra”, acrescenta.

Para que o papel de um possível mediador funcione, os agentes alertam que é preciso alterar a visão de que a noite é sinónimo exclusivo de diversão. Como recorda o programador do Mavy, a Night Economy abrange todos os serviços que laboram após o pôr do sol, desde estafetas até aos médicos. Como exemplo, refere a existência de uma creche em Braga que funciona 24 horas perto do hospital, criada precisamente para dar resposta a pais que trabalham nos turnos da noite. Curiosamente, a evolução global parece dar alguma razão ao ceticismo português sobre a eficácia de depender de um único "Night Mayor". Relatórios recentes do Cities After Dark indicam que a tendência mundial se está a afastar de figuras singulares em direção a modelos de governança mais colaborativos, como Conselhos ou Comissões da Noite multipartidárias (à imagem do Conselho da Noite de Paris, ativo desde 2014).

Apesar do cenário nacional parecer sombrio, o colapso do circuito não é uma fatalidade idêntica em todo o território. Em Braga, o programador Ilídio Marques faz um balanço mais cauteloso e otimista, ressalvando que a cidade ainda respira: "À luz dos dias de hoje, e em comparação com o que assistimos em cidades como Lisboa ou Porto, não considero que Braga esteja numa situação de alarme, no sentido do encerramento de espaços culturais como o que temos vindo a assistir nas cidades mencionadas.”

Contudo, para que esta resiliência se mantenha, o programador aponta um caminho que vai muito além dos apoios financeiros: a educação e a formação de novos públicos. Para Ilídio Marques, garantir o futuro da música ao vivo exige contrariar o alheamento dos mais jovens desde a base. "É importante continuar a trabalhar a aproximação das escolas junto dos espaços culturais através de programas de mediação", defende, sublinhando que estes projetos são determinantes "para um entendimento do que é a cultura e a prática artística" e para a criação de hábitos de consumo. O apelo do programador estende-se também ao papel das famílias: "É importante que os próprios pais tenham essa iniciativa de levarem os filhos aos espaços culturais fora do contexto escolar, para existir uma normalização da prática de consumo". Sem este esforço conjunto de literacia, alerta, o setor continuará a esbarrar num problema estrutural: "A confusão dos conceitos de entretenimento e arte, que são práticas bastante diferentes."

Para contrariar este cenário de asfixia, os promotores no terreno olham para além das fronteiras em busca de mecanismos que obriguem a grande indústria a redistribuir a riqueza gerada. Daniel Pires, do Maus Hábitos, aponta para uma solução concreta inspirada noutros mercados europeus: a aplicação de uma pequena percentagem sobre os bilhetes dos grandes eventos e festivais, à imagem do que as autarquias já fazem com o alojamento local. "Por cada bilhete há 'x', é como uma espécie de taxa turística, como existe nos Airbnb. E isso poderia ser uma forma de voltar a redistribuir esse dinheiro pelos agentes e pelas salas mais pequenas", sugere.

A ideia está longe de ser uma utopia. Em França, por exemplo, esta rede de segurança já é uma realidade através da aplicação de um imposto de 3,5% sobre todos os bilhetes vendidos. O valor é gerido pelo Centro Nacional da Música, uma agência pública que usa a receita dos grandes espetáculos internacionais para cobrir as perdas das pequenas salas locais e financiar as gravações dos criadores emergentes. No mesmo sentido, também no Reino Unido as pequenas salas lutam atualmente pela imposição de uma taxa de 1% sobre as verbas geradas pelos grandes espetáculos de estádio e de arena.

No entanto, o fundador do Maus Hábitos alerta que o mercado musical em Portugal parece caminhar exatamente na direção oposta. Em vez de pensar numa rede de solidariedade para com a base, a grande indústria de topo foca-se agora na maximização do lucro através da especulação. "Neste momento, para lançar mais confusão, estão a tentar discutir se o preço da bilhética nas salas pode ser um preço dinâmico" — um modelo onde o valor do bilhete dispara automaticamente à medida que a procura aumenta. Para Daniel Pires, este cenário é a prova final do abismo que separa os dois mundos: "O caminho não está feito para salvaguardar isto. Os interesses económicos por trás destas grandes situações centrais estão a fazer exatamente o inverso".

Se a batalha pelo financiamento é desigual, a luta pelo acesso aos grandes palcos parece estar trancada a sete chaves. Daniel Pires vai mais longe nas críticas à indústria musical e aponta o dedo a um circuito fechado, desenhado para manter o status quo. "Não queria dizer máfia, mas há toda uma organização entre músicos de alto nível, das mais altas esferas, que montaram sistemas para se protegerem eles próprios e que não dão grande possibilidade aos jovens de poderem trabalhar", acusa o fundador do Maus Hábitos.

Para que haja futuro para a música ao vivo, é preciso, antes de mais, desconstruir o preconceito de quem legisla. António Fonseca deixa um lembrete a quem desenha o planeamento urbano: a noite não é o avesso do dia, é o seu complemento vital. "A dinâmica noturna é essencial para a vida diurna", reflete. "A noite faz-se com o dia. As pessoas trabalham de dia e precisam das suas horas para se desligarem".

Por isso, a mensagem de quem está nas trincheiras a programar cultura é um apelo à mudança de postura do Estado e das autarquias. Em vez de vigiados sob um olhar de suspeição criminal, "os espaços que promovem a cultura e promovem a cidade têm que ser acarinhados", defende o representante. "Eles têm que sentir que são acarinhados, e não andarem a ser apelados [incomodados e alvo de queixas] por tudo e por nada.”

No descer das cortinas, o que fica é a ideia de que a sobrevivência destas salas não depende apenas da bilheteira, mas da forma como a cidade decide olhar para elas. Sempre que um espaço fecha, perde-se mais do que um palco: perde-se um ponto de partida para novas bandas, um lugar de encontro para públicos diferentes e uma peça essencial da economia cultural local. Se estas micro-salas continuarem a desaparecer, o risco é claro: cidades mais vazias de vida noturna, menos oportunidades para artistas emergentes e uma base cada vez mais frágil para o crescimento da música em Portugal.

Projeto Final no âmbito da Licenciatura em Ciências da Comunicação

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