Brincar é coisa de adultos

Infâncias que se prolongam

Em 2025, mais de 40% dos consumidores europeus afirmou ter comprado um brinquedo para si ou para outro adulto.
"Kidulting" é o nome que se dá à tendência de adultos participarem em atividades tradicionalmente associados à infância, como Lego, jogos de tabuleiro ou brinquedos colecionáveis. Funciona como um escape da rotina, contribuindo para o alívio de stress.

Tarde de sol. Cenário atípico naquela semana de maio. Alexandre espera-nos com um sorriso expectante no portão de casa. Subimos os degraus que se impõem entre nós e somos direcionados até ao jardim, onde nos aguardam os dois cães. 

Alexandre Ribeiro é filho de pais emigrantes. Viveu na Alemanha até aos cinco anos, mas regressou a Portugal por causa do ensino.

Teve o primeiro contacto com o Lego aos 11 anos, por acaso, e descobriu uma companhia para os tempos livres. "Tinha horários completamente trocados em relação aos meus amigos e acabava por ser uma forma de brincar sozinho", lembra. 

Alexandre com os dois cães

Alexandre com os dois cães

Recorda com carinho a primeira construção que comprou com o próprio dinheiro. "Ainda a tenho comigo, incompleta, mas ainda a tenho comigo. Era uma pequena hamburgueria".

Alexandre com a hamburgueria

Alexandre com a hamburgueria

Apesar dos seus encantos, a relação de Alexandre com o brinquedo dinamarquês esmoreceu por volta do décimo sexto aniversário, no final da década de 80. Por esta altura existia um aparelho característico que dominava a atenção de uma grande fatia da população.

Tratava-se do ZX Spectrum, o computador desenvolvido pela Sinclair Research. "Começamos todos a jogar computador e começamos a pôr o Lego um bocadinho de lado, embora eles estivessem arrumadinhos lá num cantinho na garagem dos meus pais", conta.

Legos no escritório de Alexandre

Legos no escritório de Alexandre

A pausa que deu na relação com o Lego coincidiu com o período mais conturbado da história da marca.

Nos anos 90 e início dos 2000, a empresa ficou muito próxima da falência, chegando quase a ser comprada pela maior rival, a Mattel. Conseguiu-se reinventar por volta de 2010, sendo agora a marca de brinquedos que mais lucra em todo o mundo.

Foi justamente por volta desta altura que também Alexandre reviveu o gosto que tinha pelas características pecinhas de plástico. "O nosso primeiro filho, o Eduardo, aos três anos, era doido pelo Homem-Aranha. Um dia entrei numa loja de brinquedos e vi uma caixa de Lego do Homem-Aranha em promoção", partilha. Compra então o brinquedo e procede a montá-lo em conjunto com o filho. Foi o bastante. "Aquilo redespertou em mim o gosto pelo Lego".

Alexandre com uma das suas construções

Alexandre com uma das suas construções

O percurso como adulto aficionado por Legos (AFOL) começou há mais de 15 anos, quando se juntou à Associação Portuguesa de Utilizadores de Lego (PLUG) e se apercebeu que a paixão pelos blocos de construção era partilhada por uma comunidade inteira. "Comecei a ver que eles faziam eventos, juntavam-se todos num determinado espaço, cada um trazia as suas construções, uma série de edifícios, e faziam-se umas cidades". 

Soldados de Lego

Soldados de Lego

Estufa do Castelo de Hogwarts

Estufa do Castelo de Hogwarts

Parte de trás do Castelo de Hogwarts

Parte de trás do Castelo de Hogwarts

Parte de trás do castelo de Hogwarts

Parte de trás do castelo de Hogwarts

A PLUG nasceu em 2004, fruto da necessidade de um sentimento de pertença. Conta-nos Fernando Correia, atual presidente da associação. Acrescenta ainda que as pessoas precisavam de encontrar "outros semelhantes a eles", até, porque, na altura, alguns "achavam esquisito um adulto a brincar com o Lego".

Os primeiros membros, ao encontrar pessoas com o mesmo interesse, decidiram organizar "pequenos eventos e encontros" e, a partir daí, criaram a associação para "trazer novos membros e para terem atividades em conjunto".   

A PLUG é a única associação de AFOLs, propriamente dita, em Portugal. São oficialmente reconhecidos pelo grupo Lego, com o qual Fernando afirma manterem "um relacionamento muito estreito". Atualmente, o grupo tem o principal objetivo de promover o hobby e promover o interesse que partilham pelo Lego.

Dos eventos que organizam para difundir esta atividade, o presidente destaca o 'Oeiras BRInCka'. "É o mais estável e é aquele que se tem repetido mais". Em 2024 registaram-se cerca de 30 mil visitantes e, na edição deste ano, estiveram em exposição mais de seis milhões de peças.

"É uma forma de desculpabilizarmos um gosto por uma coisa que, há 15 anos atrás, eu pensava que era para crianças", confessa Alexandre, acrescentando que assim se sentem "um bocadinho mais protegidos".

Nas últimas duas décadas, milhões de peças passaram pelas mãos de Alexandre, mas a construção que este relembra com mais carinho é uma das suas MOCs (My Own Creations).

A réplica do Estádio Municipal de Braga, que demorou mais de 3 anos a ser construída, e até chegou a marcar presença nos veículos de comunicação portugueses.

O estádio foi sempre uma das principais atrações nos eventos da PLUG.

Estádio exposto no Nova Arcada em Braga. 2016.

Estádio exposto no Nova Arcada em Braga. 2016.

O arquiteto garante, por fim, que sem aquele primeiro contacto com o Lego, aquilo que é como pessoa muda por completo. "Ajudou-me a estar bem comigo próprio".

Foto publicada no Instagram de Pedro

Foto publicada no Instagram de Pedro

Foto publicada no Instagram de Pedro

Foto publicada no Instagram de Pedro

Pedro Cabral dos Santos também acredita que a vida teria sido muito diferente se nunca tivesse conhecido os legos. O oeirense de 26 anos é, atualmente, designer de produto no próprio grupo Lego. Teve o primeiro contacto com o brinquedo ainda bebé, com os modelos Duplo, e foi um utilizador assíduo até aos 14 anos. Deve este afastamento ao início da adolescência e ao rugby, que começou a ocupar a maior parte do tempo. 

Ainda assim, admite nunca se ter livrado dos blocos, que foram armazenados na casa dos pais. "É um sistema de construção fantástico, com possibilidades infinitas". 

Pedro é formado em design industrial pela Faculdade de Arquitetura de Lisboa. Apesar de nunca ter perseguido constantemente o sonho de trabalhar como designer na empresa dinamarquesa, o jovem admite ter tido sempre essa ideia em mente.

"Ter escolhido o mestrado na escola de design de Kolding já foi uma escolha mais calculada".

A escola de Kolding, onde Pedro se tornou mestre na área de 'design for play', tem uma ligação direta à Lego, através da Lego Foundation, que se foca na educação. Foi também nesta escola que Pedro reacendeu a paixão pelo brinquedo. Decidiu fazer um estágio na marca e acabou por ficar por lá, estando longe de Portugal há já 5 anos. "É uma vida calma, justa e boa para toda a gente. Bastante facilitada também pela estrutura do estado dinamarquês".

Recentemente chegou às prateleiras o primeiro 'set' desenhado pelo português. O Ferrari F2004 de Michael Schumacher.

O jovem designer explica como funciona o processo de criação de um novo 'set' de Lego.

Pedro recorda o momento em que, na última apresentação que fez à Ferrari, mostrou o motor do carro a um dos engenheiros. "Ele interrompeu a chamada e disse: «Bravo, bravo, bellissimo!» ". Para ele foi a "reação mais italiana possível" e um "seal of approval" de um engenheiro da Ferrari.

Produtos como os que Pedro desenha são vendidos em qualquer superfície comercial, mas são lojas como a de Marcelo que tornam especial a experiência de comprar um novo conjunto de Lego.

O Universo Encantado é uma loja oficialmente reconhecida pela Lego, com sede em Viana do Castelo. O dono, Marcelo, como Alexandre Ribeiro, é um AFOL. Começou muito cedo a brincar com legos, mas, tal como o bracarense, também se afastou do brinquedo durante um longo período de tempo.

Voltou a colecionar há cerca de 15 anos. O repositório foi aumentando e Marcelo decidiu que precisava de um espaço para expor os seus conjuntos. "Um dia veio-me uma luz à cabeça: «Por que não montar uma loja e fazer dela um museu?» ".

Trouxe o Lego para a loja para as pessoas "disfrutarem", porque, no seu entender, as caixas "não traduzem o que realmente é".

Atualmente, o Universo Encantado tem contrato com a marca, mas Marcelo assegura que foi uma "grande luta". "A Lego mostrou-se indisponível para parcerias." Apesar de ter fábricas em funcionamento 24 horas por dia, a empresa não consegue fornecer material para todas as lojas, devido à elevada procura dos produtos. "Se eu pedir 100 artigos diferentes, provavelmente, 30 ou 40 artigos nunca vão chegar aqui à minha loja, simplesmente porque a Lego não consegue".

Competir com a concorrência também se apresenta como um grande desafio para Marcelo. "Eu tenho a minha loja há 8 anos e é uma luta diária. Temos que nos reinventar todos os dias, porque estas lojas têm que ter uma dinâmica, têm que estar um passo à frente".

As vendas não são seguras e o proprietário assegura que, como pertencem ao comércio tradicional, sofrem "imenso" em relação às grandes superfícies, já que estas conseguem apresentar descontos inconcebíveis a uma loja como o Universo Encantado.

Para Marcelo, o Lego funciona como um escape. "Os problemas, naquele momento, eu simplesmente ponho-os à parte". Conta que gosta de tentar entender o raciocínio do criador do conjunto enquanto monta. "É interessante, porque também nos faz crescer. Podemos aplicar essas técnicas, porque às vezes também é giro a gente pegar numa peça e modificá-la toda a nossa maneira".

Os conjuntos de eleição para estes trabalhos de modificação são, por norma, os mais antigos. "O que eu gosto mesmo de fazer é buscar as peças mais antigas possível, com 30 ou 40 anos, e dar o meu toque".

Marcelo confidencia ainda que anda a juntar peças para mais tarde poder disfrutar, quando estiver reformado. "É para eu não ficar "gágá", porque isto também ajuda muito a nossa cabeça. E quer dizer que quando chegar à reforma, vou me entreter, vou brincar ao lego para me sentir sempre jovem".

Na loja, além de vender os 'sets', tem expostas algumas das construções próprias. "Todos os Legos que estão aqui estão ligados a uma memória". Alguns guardam a lembrança do dia em que os montou, outros, das conversas que teve com quem lhos vendeu.

"Eu digo sempre às pessoas: «Eu não vendo as minhas memórias»."
Marcelo da Fonte, Universo Encantado

Das suas construções, Marcelo destaca um conjunto em específico.

"O jogo é o pretexto para estarmos juntos"

É quarta-feira. No restaurante Mora Burguer, em Braga, está o grupo 'Legião dos Jogos'. Ao fundo, vemos o Professor universitário Francisco Conrado. Amante de jogos de tabuleiro desde muito jovem, recorda que a primeira interação com os mesmos não foi muito feliz. "A minha primeira lembrança com jogos de tabuleiro é muito curiosa, porque eu apanhei uma das peças e engasguei-me quando tentei engoli-la. Então, a primeira experiência pode-se dizer que não foi a melhor possível. Foi trágica".

Quando questionado sobre a regularidade com que joga, confessa que gostava de o fazer com mais frequência: "em alturas, quando é possível, consigo jogar umas 3, 4 vezes por semana. Até porque eu sou muito adepto dos jogos a solo". Trata-se de um novo estilo de jogos de tabuleiro que chegou recentemente ao mercado e que ganhou força durante a pandemia de Covid-19. "Até então, os jogos de tabuleiro eram sempre associados à ideia de jogar com outras pessoas, no sentido de cooperação, no sentido de estar em convívio".

No entanto, não é só de jogar que gosta. Francisco apoia monetariamente jogos que ainda estão em desenvolvimento. "Fazemos isto, porque queremos certos projetos, que até então não teriam oportunidade de ver a luz do dia". Os apoios acontecem maioritariamente no Kickstarter e no Gamefound, plataformas de crowdfunding, onde os entusiastas assumem o papel de investidores. Os números globais das plataformas traduzem a dimensão deste mercado invisível.

Só em 2024, a comunidade injetou pelo menos 305 milhões de dólares no desenvolvimento de novos jogos. Desde 2009, foram financiados 93,756 projetos e arrecadados 2,63 mil milhões de dólares no total.

Não há nenhuma garantia de que os jogos apoiados serão lançados. "Nunca tive nenhum, digamos, dissabor com isto. Todos os jogos que apoiei eventualmente apareceram", garante. Os criadores costumam agradecer a ajuda enviando, aos apoiantes, expansões e algumas peças extras do jogo. "É um luxo, mas é uma espécie também de mimo que recebemos, por termos tentado ajudar um bocado antes".

Atualmente, a sua coleção conta com 362 jogos, incluindo algumas expansões. Admite ser um colecionador, mas tenta "fazer uma curadoria muito específica", de jogos que tenham "mecanismos diferentes", para quando recebe grupos em casa. "O jogo que eu gosto, talvez não seja o ideal para apresentar à maior parte das pessoas"

Do seu espólio, cerca 80% é fruto dos seus investimentos em crowdfunding, no Kickstarter ou no GameFound. O resto foram adquiridos, ou em segunda mão, ou comprados diretamente em lojas de retalho.

A Legião dos Jogos apareceu-lhe por acaso. Viu uma publicação no Instagram e descobriu que tinha amigos em comum com alguns participantes do grupo. O clube ainda estava no início, mas isso não o impediu de se juntar, porque queria encontrar "um sítio com pessoas que compartilham o mesmo entusiasmo", mas também "para jogar jogos novos".

A Legião dos Jogos surgiu em 2022, em Braga. O grupo nasceu da vontade de Luiz Paulo - ou Lepê - e Pedro Kerouac terem um sítio para jogar. "Há lugares, mas, por um motivo ou por outro, não satisfaziam as necessidades daquilo que queríamos, ou o tipo de jogos que queríamos jogar".

Queriam criar um espaço de convívio, em que pudessem conhecer pessoas e criar uma comunidade, porque não queriam só "mostrar [os jogos]", mas também "aprender com as outras pessoas".

O nome do grupo surgiu depois de muita discussão entre Lepê e Pedro. Luiz, brasileiro, sempre achou interessante a história romana da cidade de Braga. Começaram por fazer o nome dos encontros em latim, apesar de Pedro não achar muita piada. "Eu acho que 'Bracara Augusta' invoca essa ancestralidade da cidade e nós queriamo-nos integrar no que é a cidade. Então, eu acho que a 'Legião' tem força nesse sentido", destaca Luiz.

Os encontros começaram por ser mensais, no restaurante Mesa na Praça, no Mercado Municipal de Braga, para "ver o que dava". No entanto, perceberam que não conseguiam jogar tanto como queriam, porque acabavam por perder muito tempo a explicar os jogos às pessoas.

Decidiram então organizar também encontros semanais, todas as quartas-feiras, no Mora Burger. Para além destes dois, promovem também, a convite da Fnac, sessões de jogo, em todos os últimos domingos dos meses ímpares, no Braga Parque. 

Um dos aspetos fundamentais para que o grupo continuasse a crescer foi "a insistência". "Foi a divulgação, o 'passa a palavra' ", salienta Pedro. "Há mães que trazem a família toda e acabam por divulgar no grupo [de mensagens] da escola ou por criar um grupo com outras mães, para divulgar o evento". Luiz garante que é uma sensação "muito gratificante".

O grupo tem ambições para o futuro. Começando, principalmente, por workshops de pintura de miniaturas e workshops de game design, área de especialização dos líderes da Legião. "É a vontade de trazer mais pessoas para facetas do hobby que são pouco exploradas".

Em abril foi inaugurada a Legiobox. "Um armário, que está disponível todos os dias da semana, a qualquer hora. É só chegar, pegar no jogo, colocar na mesa, jogar e devolver." Este tipo de iniciativa serve para unir a comunidade. "A ideia é fazer novos amigos. É uma desculpa para você poder conversar com outras pessoas".

Legiobox no Mercado Municipal de Braga

Legiobox no Mercado Municipal de Braga

"Isto não é um grupo nosso, é um grupo da cidade."
Pedro Kerouac, Legião dos Jogos

Pedro e Luiz salientam que o intuito do grupo, mais do que jogar, é unir todas as pessoas da cidade de Braga. "A melhor parte do evento é quando estamos no início, a comer e a conversar. Falamos sobre filmes, falamos sobre música, sobre livros. Tu olhas e dizes: «realmente, agora somos uma comunidade» ".

Jogos em disposição no Mesa na Praça

Jogos em disposição no Mesa na Praça

4º aniversário da Legião dos Jogos

4º aniversário da Legião dos Jogos

Tabuleiro de jogo

Tabuleiro de jogo

Role playing game (RPG)

Role playing game (RPG)

Material de jogo

Material de jogo

Para além de grupos informais como a Legião, existem ainda, espalhadas pelo país, associações sem fins lucrativos, que trazem esta paixão pelos jogos ainda mais perto da sociedade. Um desses exemplos é a Associação Quebra-Dados

Surgiu da ideia de criar, no Porto, um local físico, onde as pessoas pudessem passar tempo a jogar confortavelmente.

"Havia duas lojas de jogos que tinham mesas para jogar, mas não dava para comer uma fantástica tosta mista ao mesmo tempo."
Carolina Dias, Associação Quebra-Dados

Cave da associação

Cave da associação

A ideia nasceu em Copenhaga, quando as três amigas fundadoras - Carolina, Sara e Inês - visitaram o BastardCafé, um café de jogos de tabuleiros. "Nós gostámos tanto daquilo que quando voltamos ao Porto pensamos: «ah, que chatice, aqui não há nada» ", relembra Catarina. 

Apesar de naquela altura já existirem no Porto alguns grupos que faziam encontros semanais e mensais, sentiam a falta de um espaço que "se tornasse uma espécie de ponto de encontro destas diferentes comunidades, para criar uma grande comunidade em vez de várias comunidadezinhas pequenas".

Bandeira na cave da associação

Bandeira na cave da associação

Campo de batalha

Campo de batalha

Figura de jogo

Figura de jogo

Armário de jogos

Armário de jogos

A associação usa os jogos para os "benefícios sociais, psicológicos e emocionais das pessoas de diferentes idades, diferentes públicos e diferentes populações". "Nós queremos ser o mais inclusivos possível a toda a gente -  LGBTQIA+, ou qualquer tipo de género, de sexualidade, de etnias ou grupos marginalizados".

Além do espaço físico, existem ainda projetos envolvendo a comunidade portuense. O 'GrowDice' é uma iniciativa focada nas crianças e que ocupa os tempos livres, por exemplo, nas férias. Tenta promover o bom desenvolvimento cognitivo, social, emocional e psicológico das crianças. O 'DynamicDice' é "focado especialmente em fazer atividades de team building, de manutenção de equipas, trabalho de equipa, principalmente com empresas ou com grupos de trabalho". Por último, o 'Guerra e Dados' "é um projeto que se foca principalmente no ensino de história utilizando jogos de miniaturas". 

Uma vez por mês promovem um encontro chamado 'Meeple Meetup'. "A ideia não é vir jogar com os teus amigos. É vir e conhecer pessoas novas e jogar com um grupo que nunca conheceste de lado nenhum".

Trata-se de um hábito comum dentro destas comunidades, como forma de incentivar as pessoas a conhecerem-se e a interagirem. "Promover a socialização, formação de novos laços, usando os jogos como um intermédio para isso. Acaba por ser mais fácil, tu estares com desconhecidos, quando estão todos a jogar o mesmo jogo, porque não tens de estar a tentar fazer conversa e arranjar perguntas para fazer, porque o jogo torna-se ali aquela ponte". 

O bar, que se encontra ao fundo, no primeiro andar, é uma mais valia para as pessoas que frequentam a associação. "Nós temos à venda snacks, o pessoal bebe uma cervejinha a seguir ao jantar, jogam umas cartas, jogam um jogo de tabuleiro, divertem-se e está tudo bem". O ambiente acaba por se tornar mais de convívio e diversão, apesar de a competitividade também existir.

Carolina e as amigas conseguiram fazer do hobby um projeto social. O Espaço Tabuleiro tornou-se um "safe space" para muitas pessoas. "Nós não somos só um espaço onde se joga. Somos um espaço onde se joga, onde toda a gente é bem-vinda e toda a gente vai ser bem tratada, sem qualquer tipo de diferenciação pela sua identidade, seja ela qual for". 

Também muito ativa na comunidade, está a Associação ArtMatriz, em Viana do Castelo. Responsável pela organização da VianaCon, impulsionou várias iniciativas relacionadas com os jogos: o passaporte das conveções, o logótipo 'Board Game Friendly' e a 'Fanzine'.

Ricardo Ferreira, presidente da Associação, explica que, todos os anos, a Agenda Cultural de Viana é "transformada no passaporte" do 'Viana Joga Forte', evento que idealiza jogatinas temáticas pela cidade. Ao longo da convenção, as pessoas passam por diferentes espaços, onde recolhem os selos para colar no passaporte.

O logótipo 'Board Game Friendly' está espalhado por todo o mundo. "Nós temos um autocolante na Nigéria, no Canadá, em França, em Espanha e em vários sítios que o pedem. Serve para identificar locais onde podemos jogar jogos".

A 'Fanzine' é uma revista física, bimestral, sobre o mundo dos jogos, distribuída gratuitamente nas Fnacs do país. Ricardo conta que sentia falta de "informação atualizada" sobre jogos de tabuleiro em Portugal, então decidiu começar a produzi-la. "Temos contribuições do país todo e também do estrangeiro, com entrevistas, com recomendações, coberturas de eventos e convido ilustradores a fazerem as capas desses 'Fanzines'. Estamos a tentar colmatar essa falta [de informação] que existe e temos já muita gente a colaborar connosco".

As convenções são a melhor forma de reunir a comunidade. Ricardo foi responsável pela organização da primeira edição da VianaCon, em fevereiro de 2020. Nesse ano registaram cerca de 700 visitantes, mas, atualmente, já se aproximam dos quatro mil.

"É um evento que já está no calendário da comunidade e para o qual vem muita gente de fora."
Ricardo Ferreira, Associação ArtMatriz

Ricardo Ferreira, Associação ArtMatriz

Ricardo Ferreira, Associação ArtMatriz

Passaporte das convenções dos jogos

Passaporte das convenções dos jogos

Logo 'Board Game Friendly'

Logo 'Board Game Friendly'

Fanzines

Fanzines

Também no Porto se realiza uma das maiores convenções em Portugal. A InvictaCon. Começou a ser impulsionada pelo Grupo de Boardgamers do Porto, há quase duas décadas. "[No início], as InvictaCons eram muito pequeninas. Eram quase coisas que o grupo usava como desculpa para poderem jogar o fim de semana inteiro", conta Ricardo Biscaia, atual membro da direção do grupo, e professor na Faculdade de Economia da Universidade do Porto.

"Eu acho que há muita gente que conhece os jogos por nossa causa. Pelas convenções". Atualmente, o grupo consegue reunir cerca de 1.200 participantes em três dias.

Em Portugal, realizam-se entre 10 a 15 convenções diferentes todos os anos.

Ricardo Biscaia, Grupo de Boardgamers do Porto

Ricardo Biscaia, Grupo de Boardgamers do Porto

Encontro do grupo

Encontro do grupo

Pessoas a jogar

Pessoas a jogar

Existem várias editoras de jogos de tabuleiro em Portugal, sendo a Salta da Caixa uma das principais. A editora nasceu em Barcelos, com Marlene. Arquiteta de profissão, estava à procura de uma mudança. "Queria alguma coisa diferente, um negócio que fosse meu". 

Durante a pandemia, os jogos de tabuleiros tornaram-se um hobby de família. "Eram momentos em que nos desligávamos completamente da tecnologia e conseguíamos conviver e até gerir um bocado de ansiedade, principalmente nos adultos". Familiares e amigos, sabendo deste hobby, acabavam por perguntar sugestões de jogos e até pediam alguns emprestados.

Foi neste momento que Marlene se apercebeu de uma lacuna no mercado português. Era arriscado encomendar jogos de lojas estrangeiras, sem saber o que vinha dentro da caixa, e nas lojas nacionais havia uma fraca comunicação, muito voltada a um estereótipo: "uma imagem muito masculina, muito segmentada para um público específico". Como "mulher casada, mãe de filhos e com mais de 40 anos", percebeu que "podia ter um contributo útil nesta comunicação de que os jogos são para todos, independentemente do perfil da pessoa". 

Surgiu assim, na família, a editora. Marlene trabalha lá a tempo inteiro mas o seu marido não.

"Eu costumo brincar e dizer que é um One Woman Show."
Marlene Cunha, Salta da Caixa

Este esforço de comunicação local reflete-se na indústria que, a nível global, movimenta volumes de retalho impressionantes, onde os clássicos continuam a medir forças com os novos fenómenos de tabuleiro. 

Em termos de vendas anuais consolidadas, o Monopólio continua a liderar o mercado global, com cerca de 8,1 milhões de unidades, seguido pelo Catan, com 5,4 milhões, e pelo Ticket to Ride, que fixa a sua marca nas 4,2 milhões de cópias comercializadas. 

A nível global, a Europa e a região Ásia-Pacífico registaram o maior crescimento. 

O crescimento do mercado na Ásia é impulsionado pela China e pela Índia, com a região a caminho de atingir 1,90 mil milhões de dólares. Em 2026, o mercado chinês deve fixar-se nos 0,83 mil milhões, o indiano nos 0,63 mil milhões e o japonês nos 0,17 mil milhões. Paralelamente, a Europa afirma-se como a segunda maior potência global, com uma estimativa de 5,29 mil milhões de dólares, liderada pelo Reino Unido (1,76 mil milhões em 2026) e pela Alemanha (0,56 mil milhões).

A Salta da Caixa não cria jogos próprios, mas traduz exemplares já existentes. Para Marlene acaba por ser uma opção "mais segura". Ou seja, veem o que as editoras estrangeiras publicam, fazem os playtests e, se gostarem e acharem que terá sucesso, tentam trazer o jogo para Portugal.

A revenda deste tipo de produtos também tem sido favorável a Rafael Salsa, proprietário da loja Drawstep, em Braga. Além de venderem artigos relacionados com o colecionismo e materiais para jogos, também organizam encontros e competições. Mas o foco principal são os trading card games (TCGs), como Pokemon, One Piece, ou Magic The Gathering.

Rafael Salsa, Drawstep

Rafael Salsa, Drawstep

Rafael e a mulher decidiram pegar na loja quando souberam que esta ia fechar. "Eu próprio já jogo TCGs desde 2012 e, cá em Braga, sempre houve só um sítio para jogar. E sempre foi a Drawstep". O casal sente que o hobby tem vindo a crescer, muito graças à nostalgia e à popularidade de séries como Stranger Things

Parede com cartas assinadas pelos jogadores

Parede com cartas assinadas pelos jogadores

"Durante muito tempo, tivemos clientes que vinham de Vila Real até aqui para eventos, porque em Vila Real simplesmente não havia uma loja. E agora estão a abrir lá uma". Mesmo assim, Rafael acredita que ainda há mais procura do que oferta e que as entidades responsáveis deviam promover mais este tipo de atividade. "Principalmente escolas básicas, e mesmo secundárias, deviam estar mais abertas a parcerias".

“O caráter lúdico sempre foi uma das formas mais eficazes de aprendizagem"

De acordo com um estudo publicado na Revista Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental, em 2020, cerca de metade (54,3%) das crianças portuguesas, entre os 11 meses e os seis anos, passavam mais de duas horas por dia em frente a um ecrã. Até aos 10 anos de idade, o número aumentava para entre duas a cinco horas diárias, e, entre os nove e os 17 anos anos, a média era de mais de três horas por dia.

Mais tarde, em 2025, uma análise publicada no canal de youtube da News Farma indicava que o tempo de ecrã dos jovens com idades compreendidas entre os 16 e os 24 anos já havia atingido as oito horas diárias

Investigadores da Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade Católica do Porto receiam que estes números se traduzam diretamente numa baixa integração social e familiar. Num artigo publicado no Jornal de Notícias, Luísa Campos, uma das especialistas envolvidas, defende: "Mais do que estarmos preocupados em, por exemplo, reduzir o tempo de ecrã, deveríamos centrar-nos na integração dos jovens em atividades que lhes permitam desenvolver competências sócio-emocionais para, assim, estarem protegidos do possível impacto negativo dos meios de comunicação eletrónicos".

Natália Machado, psicóloga de formação, tem dois filhos, a quem sempre tentou incutir o gosto por brincar e pelos jogos de tabuleiro. Conta já ter ido várias vezes a Board Game Cafés e relembra com felicidade as memórias dos momentos lá passados. Praticantes ávidos, Natália e a família possuem uma grande coleção, composta por dezenas de jogos, que servem para preencher muitos dos seus momentos em família.

Alguns deles são mesmo reaproveitados pela psicóloga durante as sessões de trabalho.

Especializada em crianças e adolescentes, tem trabalhado sempre no campo da parentalidade e da regulação emocional. Quando questionada sobre a possibilidade de o ser humano adulto estar já saturado da tecnologia, a psicóloga avisa que não devemos "diabolizar" o mundo digital, visto que já provou ser-nos "muito útil", mas que é necessário haver "uma conciliação entre o mundo digital, a era digital e aquilo que nós somos enquanto humanos".

Para a especialista, o desenvolvimento humano vai estar sempre associado a um lado analógico e o desenvolvimento infantil nunca vai ser possível sem o ato de "brincar". "Enquanto eu estou a brincar, seja uma brincadeira estruturada ou seja uma brincadeira livre, estou a pensar, a comparar, a criar, estou a aprender que, através de várias ações, vou ter uma gratificação", explica. Através da brincadeira as crianças conseguem "elaborar as experiências internas e as suas emoções".

No mundo digital a gratificação é imediata, recebemos tudo de forma rápida e isso acaba por tornar a nossa vida "muito ansiosa". A especialista afirma que é natural que muitos adultos sintam necessidade de se regular nesta forma mais morosa e que sintam necessidade de fazer esta transição para o analógico. "Para nos desenvolvermos harmoniosamente e para nos regularmos, nós precisamos dessa imersão sensorial, do concreto, e o brincar, o jogo de tabuleiro, é mais lento".

Segundo Natália, o ser humano possui dois sistemas. Um que nos prepara para agir, quer seja para procurar recursos ou para trabalhar, e um mais afiliativo, que "nos deixa num espaço de maior segurança, de contentamento, e que precisa de ser sensorial, de ser sentido". Assim, tudo o que seja mais concreto, resulta na ativação desse sistema de tranquilização. 

Natália Machado, Psicóloga

Natália Machado, Psicóloga

Natália a jogar com a família

Natália a jogar com a família

Os jogos de Natália

Os jogos de Natália

Em 1996, Johan Roos e Bart Victor, dois professores do IMD, na Suíça, e o proprietário do Grupo LEGO, Kjeld Kirk Kristiansen, decidiram que as peças de Lego tinham muito mais potencial do que apenas ficar pelo caráter lúdico. Baseando-se, em parte, nas teorias de Jean Piaget e de Seymour Papert criaram a metodologia LEGO Serious Play, com o objetivo de desenvolver competências humanas através da materialização das ideias.

Lucas Sousa, docente na área da Psicologia e formador certificado deste programa, é um dos 69 trainers em Portugal.

Certificou-se em fevereiro de 2020 e desde aí tem vindo a fazer workshops em Universidades e Empresas. 

Lucas Sousa em workshop na UMinho. Foto retirada do LinkedIn de Lucas Sousa

Lucas Sousa em workshop na UMinho. Foto retirada do LinkedIn de Lucas Sousa

"Seymour, um dos pais do construcionismo, defende que, através da construção, da manipulação de objetos, o ser humano desenvolve o seu conhecimento, principalmente se essa materialização tiver significado para as pessoas. Ou seja, o Lego encaixa-se perfeitamente nisso."
Lucas Sousa, formador do programa Lego Serious Play

Para Lucas, uma das razões para esta metodologia funcionar bem, é a "conexão biológica entre o nosso cérebro e as nossas mãos". "Não é à toa que, muitas das vezes, nós materializamos as nossas ideias e, muitas pessoas, quando estão a pensar e a refletir, têm que estar a mexer em algo", afirma. Quando isso acontece, as pessoas "rendem muito mais, aprendem muito mais e produzem muito mais".

A necessidade de mexer é tão inata, que o formador começou a notar um padrão: "Eu ponho as peças em frente às pessoas e, imediatamente, começam a mexer e a manipulá-las". O ser humano acaba por verbalizar mais facilmente as suas ideias através de construções. 

Workshop na UMinho. Foto retirada do LinkedIn de Lucas Sousa

Workshop na UMinho. Foto retirada do LinkedIn de Lucas Sousa

"Muitas pessoas dizem: «brincar com Lego» ", mas, para Lucas, é muito mais do que isso. "Nós levamos isto muito a sério. É uma metodologia científica". A metodologia desafia os participantes a construir modelos que representem conceitos abstratos.

Lucas conta que foi convidado por uma empresa para ajudar a redefinir o sistema de qualidade. Pediu-lhes para que cada um construísse um modelo, com legos, que representasse a sua visão do que é 'qualidade'. No final, todos os modelos foram diferentes.

Cada pessoa teve que retirar algo significativo do seu modelo, para criarem um coletivo. "Eu tenho a minha visão, de repente sou forçado a partilhá-la com os meus colegas, depois sou obrigado a construir com os meus colegas uma visão comum, e, por sua vez, esta visão comum tem que representar a nossa visão global da empresa".

Numa era dominada pela inteligência artificial e pela automação da indústria 4.0, Lucas Sousa vê no aspeto lúdico e manual uma forma de sobrevivência intelectual. O psicólogo partilha que o impacto da IA no mundo do trabalho lhe causa "alguma preocupação e apreensão". "As pessoas estão a deixar de pensar. Fazes uma questão e a IA responde a tudo".

Neste cenário, as atividades lúdicas e táteis surgem como "uma forma de não perdermos faculdades", porque permitem "exercitar o nosso cérebro". Apesar da perspectiva de um futuro muito automatizado, Lucas acredita que teremos mais tempo para brincar. "Haverá muitas profissões que vão acabar, outras que vão surgir, mas, no final, eu acho que vai surgir tempo". 

Workshop na UMinho. Foto retirada do LinkedIn de Lucas Sousa

Workshop na UMinho. Foto retirada do LinkedIn de Lucas Sousa

Para o psicólogo, "o caráter lúdico sempre foi uma das formas mais eficazes de aprendizagem". "Estamos mais motivados, fazemos as coisas por prazer, e evoluímos a nossa aprendizagem". 

FAQs

Queres saber como navegar neste universo lúdico? Descobre com este quiz!

Autores

Joana Santos

João de Carvalho

Agradecimentos

Marlene Cunha
Ricardo Biscaia
Fernando Correia
Alexandre Ribeiro
Carolina Dias
Ricardo Ferreira
Luiz Paulo
Pedro Kerouac
Francisco Conrado
Marcelo da Fonte
Rafael Salsa
Natália Machado
Lucas Sousa
Michael Pereira
Pedro Cabral dos Santos

Agradecemos aos nossos professores, Luís Santos e Maria João Cunha, e a todos os que tornaram este projeto possível.

Joana & João

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