A fome da próxima geração
Das mais de 40 mil gestantes atendidas pelo SUS em Santa Catarina, pouco mais de 2 mil têm seus hábitos alimentares monitorados; dessas, apenas 5% afirmam fazer três refeições diárias
Recém chegados de Belém (PA), Manuela Marques Costa, 19 anos, e o companheiro passaram os primeiros dias na capital catarinense sem ter o que comer. “Ficava um olhando pra cara do outro.” Manu ainda não sabia, mas naquela época, em julho de 2022, já estava grávida de sua segunda filha. A nova vida em Florianópolis (SC), motivada pela busca de um futuro melhor, tem sido marcada por dificuldades na alimentação. Aos seis meses de gestação, a paraense depende da ajuda de entidades sociais para garantir todas as refeições, já que o dinheiro que o companheiro ganha vai quase todo para o aluguel.
“Eu fiquei um pouco assustada, né? Porque eu não estava esperando. No começo eu não estava aceitando muito, porque minha gravidez foi complicada, mas aí foram passando os meses e foi normal”. Ela começava no novo emprego quando descobriu a gestação não planejada. Ao tomar conhecimento da novidade, a empresa decidiu não prosseguir com Manu. “Era coisa de limpeza e daí tinha que ficar subindo e descendo escada, mexendo com produto forte, aí eles preferiram não continuar com a contratação e eu não fui mais”.
Manu conta com o atendimento médico e pré-natal do Centro de Saúde da Agronômica, realizado pelo Sistema Único de Saúde (SUS). No posto, ela faz exames e consegue vitaminas e suplementos, como Ferro, para manter a saúde na gestação, mas não é sempre que as consultas investigam sua nutrição. “Eles só perguntam como é que está a alimentação, se eu estou me alimentando bem, aí eu respondo pra eles saberem e só isso”.
Essa inconstância é observada na compilação de dados da Secretaria de Atenção Primária à Saúde (SISVAN), do Ministério da Saúde. Em 2021, por exemplo, das 42.674 gestantes atendidas pelo SUS em Santa Catarina, foram registrados os hábitos alimentares de apenas 2.293. Destas, somente 5% afirmaram realizar as três refeições principais do dia. Em 2019, eram 15%.
A jovem de 19 anos conta que as refeições são baseadas no que vem nas cestas básicas e que ela busca sempre comer com frequência. “O dinheiro que a gente ganha é só pra eu estar me alimentando bem, que eu não posso passar do horário de comer. Porque se não eu passo muito mal. Aí a gente tenta evitar o máximo que a gente pode”. Na cesta, que dura em média uma semana e meia, eles recebem arroz, feijão, macarrão e alimentos não perecíveis. Carne, ovos e outras opções só entram na casa quando a renda dos bicos feitos pelo marido sobra.
"Não pego nenhuma cesta básica, porque eles não vêm entregar aqui onde eu moro."
No Monte Serrat, as vizinhas Aline da Silva, 35 anos, e Jozilene Toldo, 28, também não têm proteína animal todos os dias para comer. Quando falta a carne, o almoço é arroz com feijão. Aline, que veio do Mato Grosso com os pais para morar em Florianópolis aos cinco anos, lamenta a falta de iniciativas beneficentes na comunidade. “Não pego nenhuma cesta básica, porque eles não vêm entregar aqui onde eu moro. Às vezes, eu levo minha filha em festinhas, pra ela ganhar algum presente”.
Vitória, de oito anos, aguarda a chegada da irmã, que deve nascer em fevereiro. Mesmo assim, Aline até hoje não conseguiu realizar um ultrassom pelo SUS. “Vou sozinha nas consultas, porque meu marido faz bico, e sempre tem fila para marcar o exame”. O companheiro dela trabalha informalmente como servente de pedreiro. Já Aline, antes de descobrir a gravidez, três meses atrás, fazia faxina, era babá e capinava.
Com a queda na renda e o aumento nos custos, a família luta para se manter neste final de ano. “Como ele não tem carteira assinada, quando está chovendo, ele não trabalha e não recebe. Na semana passada, também ficou doente por 10 dias, acho que era úlcera nervosa. Então só agora voltou a trabalhar”. Quando a comunidade do Pastinho, no Monte Serrat, recebeu a visita de um Papai Noel, Aline se empolgou para receber roupas ou algum brinquedo para as filhas, mas o velhinho só levou doces para a comunidade. “A Vitória adorou mesmo assim”, ela ri.
Aline da Silva, 35 anos | Foto: Arquivo Pessoal
Aline da Silva, 35 anos | Foto: Arquivo Pessoal
Jozilene Toldo, 28 anos | Foto: Arquivo Pessoal
Jozilene Toldo, 28 anos | Foto: Arquivo Pessoal
Auxílio Brasil é alternativa de quem não tem licença maternidade
Como Aline, Jozilene só dispõe do Auxílio Brasil para ajudar nas contas de casa. Mãe de Iara, Joziane e Wellington, ela espera ansiosamente pela chegada de Allan Jr., com data marcada para o dia 18 de dezembro. Para receber o benefício de R$ 600, a família precisa estar inscrita no Cadastro Único e incluir, em seu núcleo, uma gestante, lactante ou dependente menor de 21 anos.
“Quando tem, tem. Quando não tem, chupa dedo ou corre pra casa da vizinha”.
Com a gravidez e sem receber mais nada do primeiro marido, que saiu de cena desde que se mudou para Chapecó, Jozi por vezes recorre à ajuda de outros moradores quando faltam mantimentos. “Quando tem, tem. Quando não tem, chupa dedo ou corre pra casa da vizinha”. Agora que precisa comer em dobro, a futura mãe de quatro consegue fazer as três refeições diárias e adicionar frutas nos intervalos, mas é difícil variar o almoço e a janta para além do arroz, feijão e macarrão. Como o marido também vive de bicos e Jozi parou de trabalhar como faxineira e babá desde que descobriu a gravidez, a certeza da comida no prato só dura até a semana seguinte.
Através do Benefício Composição Gestante (BCG), gestantes que recebem o Auxílio Brasil têm o direito de receber mais R$ 68 por nove meses a partir do momento que notificam a assistência social, independentemente do estágio da gestação em que se encontrem. Mas nem Aline, nem Jozi conheciam a bonificação, mesmo estando nos meses finais da gravidez. “Agora, vou olhar pra receber, né? Já ajuda", Jozilene afirma, planejando correr para conseguir a documentação enquanto Allan Jr. ainda não nasce.
Para Manu, o Auxílio Brasil é a assistência que ela pode dar para a filha de quatro anos que ficou em Belém (PA). “Como eu vim pra cá e minha filha ficou com o pai dela e com a mãe dele, aí eu deixei lá. Por não estar podendo ajudar ela, eu preferi deixar.” Manu conta que, às vezes, a mãe dela também consegue enviar algum dinheiro.
Em 2023, o novo governo federal promete adicionar aos R$ 600 do auxílio um benefício de R$ 150 por filho menor de seis anos, com o limite de dois filhos por núcleo familiar. Para receber o valor, se manterão as exigências do antigo programa Bolsa Família, criado em 2013, e adicionadas de volta ao Auxílio Brasil em 2022: realização de acompanhamento pré-natal das gestantes, crianças da família com vacinação em dia e frequência escolar mínima de 75%.
ilustração gerada por Dall-e
ilustração gerada por Dall-e
ilustração gerada por Dall-e
ilustração gerada por Dall-e
ilustração gerada por Dall-e
ilustração gerada por Dall-e
Comida que nutre dois corpos
A partir do momento em que uma mulher engravida, o corpo passa a exigir uma demanda de nutrientes e calorias maiores do que as habituais. Tudo isso porque, no ventre, há uma nova vida sendo gerada. A professora do curso de Nutrição da UFSC, Ana Paula Geraldo, explica que nesse período é importante que alimentos ricos em proteínas, ferro e cálcio sejam consumidos, em especial no terceiro trimestre da gestação, que é quando o bebê mais se desenvolve.
Em vulnerabilidade social, muitas grávidas acabam consumindo apenas os itens de uma cesta básica. Ter como base da alimentação o arroz e o feijão, segundo a professora, é uma boa combinação para o corpo, mas é importante que a gestante também tenha acesso a outros alimentos com maiores quantidades de proteína, como carne e leite. “A gente tem que pensar também que a cesta básica não é só para ela. É dividida pela família. Então já fica bem mais complicado suprir essas demandas nutricionais”.
Ana ressalta que outras comidas que compõem as cestas, como macarrão, farinha, açúcar e café, não são capazes de fornecer os nutrientes que ela precisa. “No caso da gestante, não é só matar a fome. Não é só ela não sentir fome, ela tem uma demanda alta de nutrientes, de gorduras também.” Os nutrientes, como proteínas, carboidratos, minerais e vitaminas, são necessários para o desenvolvimento ósseo, cerebral e do organismo da criança e também para o bem-estar da mãe.
Um documento da Sociedade de Pediatria de São Paulo indica que a insegurança alimentar nos mil primeiros dias de vida pode ter implicações na saúde física e mental da mãe e do bebê. A desnutrição da gestante pode causar quadros perigosos de sobrepeso e obesidade materna, além de risco de defeitos congênitos, baixo peso e baixa estatura ao recém nascido. Para tentar mitigar a ingestão de alimentos pobres em nutrientes e ultraprocessados, o Ministério da Saúde recomenda evitar bebidas adoçadas artificialmente e inserir no cardápio o máximo possível de frutas, verduras e legumes regionais e da estação, que costumam estar mais frescos e acessíveis. Também é reforçada a importância do acompanhamento nutricional das gestantes atendidas pelo SUS.
Com o alcance a alimentos in natura mais reduzido, a especialista ressalta a importância da suplementação, principalmente em relação ao ferro, já que, por uma questão fisiológica, grávidas tendem a apresentar maior risco de anemia. “Ele está presente no feijão, por exemplo, mas é um ferro com uma biodisponibilidade mais baixa e isso faz com que ela tenha uma dificuldade de atingir [só com feijão] a quantidade de ferro necessária.”
Maior acesso a uma alimentação variada também é importante durante o período de aleitamento materno. Segundo a UNICEF, amamentar o bebê imediatamente após o nascimento reduz a mortalidade neonatal, auxilia na saúde da lactante e fortalece o vínculo entre os dois. Jozilene sempre fez questão de amamentar os filhos e, desta vez, não será diferente: “No peito é a melhor coisa. Enquanto eu tiver leite, vou dar no peito. Só se secar é que passo a usar o leite de caixinha”.
Após o nascimento, as preocupações das mães do Monte Serrat aumentam, com a necessidade de enxoval, banheira e fraldas para o recém nascido. Projetos como o Ombro Amigo, realizado nas quartas-feiras pelo Centro Espírita Amor e Humildade do Apóstolo no Centro, e o Projeto Além dos Olhos, na Grande Florianópolis, mobilizam a comunidade para oferecer enxovais e cestas básicas a famílias necessitadas em Florianópolis.
